Primum Non Nocere

*Antes de tudo, não causar dano.

(Juramento de Hipócrates)

Um estudo de 2007, publicado na Perspectives on Psychological Science, lista vários tratamentos psicológicos e terapias que, além de não surtirem o efeito esperado, são potencialmente perigosas para aqueles que se submetem a elas. Além dos medalhões de sempre, como terapia de vidas passadas, terapia de renascimento, comunicação facilitada, terapia de conversão (a tal da “cura gay”, go figure) e toda a gama de pseudo-terapias sem validação científica que se vê por aí a torto e a direito, os autores indicam que alguns programas e terapias baseados em evidência podem ser potencialmente prejudiciais aos consumidores.

Programas de reabilitação intensiva de dependentes químicos (boot camps, algo similar às clínicas de rabilitação brasileiras), por exemplo, parecem não ajudar a eliminar a recaída e ainda podem causar um aumento na ansiedade dos dependentes quando eles saem da clínica e são obrigados e funcionar adequadamente nos mesmos ambientes que antes eram associados ao consumo de drogas e/ou álcool.

A terapia de casal, também, pode levar os clientes a um nível inicial de estresse e conflito tão grande que o os parceiros não resistem aos primeiros passos da terapia e acabam se separando, e consequentemente, abandonando o tratamento antes que ele possa alcançar o objetivo desejado a longo prazo. Esse mesmo efeito de deterioração pode acontecer em terapias de exposição, aquelas em que, para tratar uma fobia muito grave, o cliente é exposto ao estímulo que causa ansiedade. Embora a maioria das pessoas, em algum momento do processo terapêutico, possa sentir-se “pior” ou “mais infeliz” do que quando não faziam terapia, é importante ressaltar que a regra de senso comum “primeiro piora para depois melhorar” (ou, no pain no gain) não se aplica aqui. Se você sente que as sessões de terapia sempre te deixam ansioso, deprimido ou desconfortável, e que você não está aprendendo a lidar melhor com seus problemas, alguma coisa pode estar muito errada com a linha de ação perseguida pelo terapeuta. No mínimo, vale uma boa conversa com ele.

Outro problema que alguns tipos de terapias pode causar é a indução de sintomas que antes não estavam presentes. O caso clássico dos psicanalistas americanos processados por induzirem seus clientes a “lembrar” de abusos infantis que não haviam acontecido de verdade ilustra bem esse tópico. Mas não precisamos ir tão longe: oferecer aconselhamento psicológico a vítimas de catástrofes ou a pessoas em luto que não apresentam sintomas extremos de ansiedade e depressão, mas estão expressando um processo normal de reação à perdas e à dor, pode levar essas pessoas a ficarem super-conscientes de seus sentimentos, exacerbando a dor e procurando sintomas de depressão ou de estresse pós traumático onde de fato existe apenas a reação normal a determinados eventos.

A APA (Associação Americana de Psicologia) mantém uma lista atualizada de terapias potencialmente prejudiciais e faz revisões periódicas das evidências científicas que embasam as terapias praticadas nos EUA. No Brasil, o órgão que deveria fiscalizar a prática psicoterapêutica, o Conselho Federal de Psicologia, tem tido uma atuação bem pouco competente nesse sentido. Então, sobra para o cliente e consumidor de serviços de psicologia buscar informações sobre o tipo de terapia, seus prós e contras e, principalmente, quais os tipos de resultados que ele pode esperar.

 

Referências:

Lilienfeld, S.O. (2007). Psychological Treatments That Cause Harm. Perspectives on Psychological Science, 2(1), 53-70.

Spitzer, R.L. (2003). Can Some Gay Men and Lesbians Change Their Sexual Orientation? 200 Participants Reporting a Change from Homosexual to Heterosexual Orientation. Archives of Sexual Behavior, 32(5), 403-417.

Relações perigosas

A divulgação, pela imprensa, dos resultados de pesquisas científicas é a maneira mais expressiva e importante de manter o público informado das descobertas feitas pelos cientistas. Mas algumas vezes os jornalistas de Ciência – responsáveis por cobrir as notícias referentes ao assunto – pesam a mão na hora de fazer as manchetes, de narrar os experimentos e, principalmente, de inferir conclusões a partir dos resultados apresentados pelos cientistas.

Veja que coisa mais singela essa manchete da Folha Online:

Manchete

Pááára tudo!

As informações sobre os resultados da pesquisa estão corretamente descritos no texto do jornal. Mas, quando o jornalista tenta descrever O QUE SIGNIFICAM ESSES RESULTADOS, a porca torce o rabo. O estudo usa um método de análise que costumamos chamar de correlacional. O nome é mais ou menos auto-explicativo: por meio de um monte de contas complicadas que não vêm ao caso, um programa de computador cruza dois tipos de informação para verificar como se comportam em conjunto. Os testes estatísticos usados dizem tanto se há ou não relação entre as duas medidas, quanto qual a “direção” dessa relação – que pode ser positiva, quando as duas medidas crescem ou decrescem ao mesmo tempo; ou negativa, isto é, se uma medida sempre aumenta a outra diminui sempre.

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Correlação entre a média da temperatura global e o número de piratas. O
aquecimento global está causando o desaparecimento aparecimento de piratas? (Gráfico
reproduzido do Implicit None – clique para ir ao blog)

 

 

Mas, nem sempre o fato de duas coisas acontecerem AO MESMO TEMPO indica que uma delas CAUSOU a outra. E, principalmente, não indica quem causou quem. Só podemos predizer com algum grau de certeza que, quando a coisa “A” acontece, a coisa “B” também irá acontecer, ou vice-versa. Esta é a pegada que constantemente atormenta os jornalistas de Ciência. Dizer que duas coisas estão correlacionadas não implica em que estas duas coisas sejam uma causa da outra. É uma falácia (um argumento que parece verdade mas é inválido) conhecida dos filósofos e cientistas, enunciada pela máxima “cum hoc ergo propter hoc“, que em latim quer dizer “com isto, portanto causa disto”.

O consumo excessivo de doces pode causar cáries, e a Ciência descobriu que é porque o açúcar dos doces serve de alimento para as bactérias presentes na boca, e a digestão delas gera produtos que fazem com que o esmalte dos dentes se enfraqueça, deixando o caminho livre para a corrosão dos tecidos. O consumo de açúcar pode causar obesidade infantil, porque o excesso de calorias que não são utilizadas pelas atividades do organismo se acumula em forma de gordura corporal, e o açúcar é um alimento muito calórico. E assim por diante. Quando dizemos que o excesso de doces consumidos pela criança CAUSA aumento de agressividade quando essa criança crescer, somos obrigados a mostrar evidências de COMO esse fenômeno ocorre. E não foi o caso da pesquisa em questão. Aliás, não era nem o foco da pesquisa em questão.

Estudos com metodologia correlacional são importantes para indicar possíveis fenômenos que, ocorrendo conjuntamente, podem ser usados um para predizer a presença do outro. E claro, para eleger possíveis candidatos a causas, mas nunca para determinar se um fenômeno é ou não causa de outro. Ao deparar-se com dois fenômenos correlacionados, os cientistas podem enxergar uma direção a seguir para verificar as causas de alguma coisa, e para isso levantam hipóteses a serem confirmadas ou refutadas por outras metodologias de pesquisa.

Os próprios autores da pesquisa levantaram essas hipóteses alegando que as crianças podem ter consumido mais doces porque suas mães usavam esse tipo de recompensa para aplacar suas birras, transformado-as em adultos que não sabiam lidar com atrasos na gratificação. Pessoas que não sabem lidar com frustração tendem a agir impulsivamente e isso leva muitas vezes a comportamento agressivo. Eles só esqueceram-se da hipótese contrária: crianças que já eram impulsivas consumiam mais doces porque suas mães não sabiam lidar com a constância das birras e reclamações violentas.

E aí? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Referência do artigo sobre doces e agressividade:

Moore, S.C., Carter, L.M., & van Goosen, S.H.M. (2009). Confectionery consumption in childhood and adult violence. The British Journal of Psychiatry, 195. 366-367. 10.1192/bjp.bp.108.061820

Agradecimentos: ao Luiz Bento do Discutindo Ecologia que baixou o artigo pra eu poder escrever o post.

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