Começando a falar de linguagem

Pra quem praticamente nasceu falando, parece muito fácil. Mas se fosse mesmo, a linguagem provavelmente seria um atributo distribuído com mais justiça entre os membros do reino animal. Há estudiosos do tema que acham que justamente a capacidade de simbolizar, de produzir nomes para as coisas e de concatenar os nomes das coisas em frases que façam sentido é o que diferencia a espécie humana das outras. Embora algumas teorias linguísticas sugiram que a espécie humana tem um complexo sistema neural que de algum modo vem pré-fabricado, pronto para aprender a falar, essa teoria de que nasceríamos com um “órgão da fala” nunca obteve nenhum suporte experimental para comprová-la. (Perdeu, Chomsky!)

Graças a Darwin, hoje em dia temos uma visão um tiquinho menos antropo-ego-cêntrica da natureza, e as teorias modernas sobre o desenvolvimento da linguagem tendem a explicar seu surgimento na espécie humana baseadas no argumento do aumento de complexidade ao longo da linha evolutiva. Sabemos que a maioria dos animais sociais, até mesmo os mais simples (como formigas e abelhas) desenvolveram sistemas de comunicação para manter a organização de suas colônias. Mamíferos superiores – os primatas, por exemplo – chegam a ensinar às gerações mais novas alguns truques específicos daquele grupo, como por exemplo, lavar batatas para tirar a terra e melhorar seu gosto. Seu, da batata, não da terra. Um tipo de cultura rudimentar passada de geração em geração por meio de sinais comunicativos. Assim, sistemas simples de comunicação foram evoluindo de acordo com a necessidade que as espécies teriam de transmitir informações entre seus membros, e conforme a capacidade orgânica disponível naquele organismo (desenvolvimento cerebral, capacidade vocal, etc).

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Nessa linha de raciocínio, se quisermos começar a entender como a linguagem se desenvolve, do que ela é feita, como podemos melhorar a linguagem de pessoas que têm problemas com ela, podemos usar como objeto de pesquisa animais com um sistema mais simples do que o sistema simbólico (ou seja, a linguagem) humano. Pra começo de conversa – trocadilho mode on – há que se saber quais dessas outras espécies poderiam apresentar algumas das pecinhas que formam o imenso e confuso quebra-cabeças da linguagem. Temos algumas pistas evolutivas de que primatas superiores (orangotangos, gorilas e chimpanzés) provavelmente estejam mais próximos de nós nesse quesito do que outros animais como gatos ou periquitos. Há um vasto campo de pesquisas sobre a linguagem de mamíferos aquáticos como baleias e golfinhos indicando que eles também são bem espertos, chegando a dar nomes próprios aos companheiros de grupo.

Parece que esse é um ponto importante para o surgimento da linguagem: que haja algum grau de relacionamento social entre os membros da espécie, de modo que um possa entender a informação que o outro tenta transmitir. Para que um sistema de sinais seja compreendido, de alguma forma o animal deve ter companheirinhos que o compreendam. Parece óbvio, mas não é, é preciso que cada membro do grupo possa distinguir um cara de outro, dentro do grupo, além de saber quando outro animal não faz parte de seu grupo. Algo do tipo “João é anão e José não tem pé! Mas esse cara não é da minha turma!”. Não deve ser tarefa fácil para abelhas operárias, capivaras, macacos ruivos ou bebês chineses, pois todos os membros do grupo são muito parecidos entre si!

Também é preciso que o sinal comunicativo – um grito, uma expressão facial, um gesto, determinada posição corporal, etc – de alguma forma “signifique” aquilo que o cidadão quer comunicar. Essa parte é fácil de entender: quando seu cachorro arrasta a vasilha de comida pela casa, você compreende que ele quer que você coloque comida dentro dela. Mas tanto o cão quanto você devem saber que o “sinal” não é a comida, apesar dele “significar” comida. Traduzindo: quando o arrastar de tigela é seguido repetidamente pelo aparecimento da comida dentro da tigela, o cão aprende que o “significado” de arrastar a tigela é “aparecer comida”. E você aprende que seu cãozinho só vai parar de aporrinhar com a maldita tigela se você colocar comida dentro dela.

“Comida de cachorro” e “arrastar a tigela” não compartilham muitas propriedades físicas, não são nem de perto parecidos, mas estão na mesma categoria, ou seja, na presença do dono, arrastar a tigela vai fazer aparecer comida. O cachorro aprende que se o dono não estiver em casa, não adianta fazer barulho. Ele aprende a distinguir o “dono que dá comida” dos demais membros da família, e provavelmente não vai arrastar a tigela pra quem nunca o alimenta. O dono aprende que se o cachorro não arrasta a tigela, ele não quer que a comida apareça nela. Há vários tipos de categorias, algumas mais complexas do que outras. Podemos pensar em uma categoria de “cachorros” que englobaria poodles, pit bulls, chiuauas, boxers, filas e pugs. Todos são diferentes entre si, mas todos são cachorros. Podemos fazer hierarquias dentro dessa categoria de cachorros, teríamos “cachorros pentelhos” incluindo chiuauas, poodles e pittbuls, e “cachorros babões”, com filas, boxers e pugs. Também poderíamos ter uma categoria de “sinais que produzem comida”, onde um cão facilmente incluiria “arrastar a tigela”, “fazer cara de coitado”, “ganir”, “abanar a patinha” e “babar debaixo da mesa”. Essa categoria só funcionaria quando o dono que dá comida ao cão está presente, então podemos relacionar os “sinais que produzem comida” a um estímulo que faz a categoria funcionar.

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A habilidade de formar categorias é a base para o desenvolvimento de algum tipo de comunicação entre indivíduos. As relações entre os membros dentro de uma categoria e entre os membros de uma categoria e outros estímulos pode ser tão complexa quanto o necessário para a complexidade da linguagem. Aqui está a pegada técnica de estudar a formação de categorias em animais não-humanos: espera-se que as categorias sejam mais simples quanto mais simples o sistema de sinais e de comunicação desses animais. Dessa forma, podemos começar a entender o quê, realmente, torna a linguagem humana tão especial em sua complexidade. Mas para entender algo complexo, precisamos partir de coisas menos complexas. Ora, direis, por que raios alguém que quer entender de linguagem vai estudar leões marinhos? Começamos a vislumbrar algo interessante…

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Discussão - 17 comentários

  1. . disse:

    Texto bom, porém um pouco lamarckista

  2. O quanto a capacidade gramatical de Koko foi testada pra valer?
    []s,
    Roberto Takata

  3. Legal seu texto. Li o bendito na vã esperança de encontrar alguma luz pra fazer meu filho de 1 ano e 5 meses começar a falar, mas pelo visto não é o caso aqui.
    Mas meu fiote entede tudo o q dizem a ele, ele só tem preguiça de falar.
    OK, já entedi, não tem a vber, favor googlar um tgexto mais pertinente, dona Bruxa.
    Mas, detro do SEU texto, é verdade que macacos aprende a linguagem dos surdos-mudos, ou isso é apenas pano de fundo pra argumento de roteiros de Hollywood?
    bisous,
    Madrasta

  4. Ana Arantes disse:

    Dona Bruxa,
    1. Não se desespere… o Feiticeirinho VAI falar, ele só não precisa disso agora, porque mamãe e papai pegam pra ele tudo o que ele aponta. (Se eu errei, pode me mandar um coque!)
    Se o guri tem acompanhamento pediátrico, já fez exame do ouvidinho e tá tudo certo, daqui há uns meses ele vai falar mais do que o homem da cobra, believe me…
    2. Sim, é verdade que gorilas e bonobos – acho que até chimpanzés – aprendem rudimentos de linguagem de sinais, alguns podem até aprender a ESCREVER – no próximo post vou mostrar um vídeo lindo sobre isso. Essa Koko, que o Takata falou aí, é uma gorila que aprendeu uma variante da ASL (Língua Americana de Sinais), e tem até um site só dela, com blog e vídeos bacanudos –> http://www.koko.org

  5. Ana Arantes disse:

    Takata, realmente eu não sei o quanto a “capacidade gramatical” de Koko foi testada. Sobre ela – a Koko – li apenas o artigo inicial (Pragmatic analysis of gorilla utterances: Early communicative development in the gorilla Koko –> http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6VCW-469WK1F-3P&_user=10&_coverDate=02%2F29%2F1988&_rdoc=1&_fmt=high&_orig=search&_origin=search&_sort=d&_docanchor=&view=c&_searchStrId=1627507217&_rerunOrigin=scholar.google&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=adae615d17199f8ef9769b79bbb48d0d&searchtype=a) e não tive mais notícias.
    E acabei de descobrir que a Koko tem até tuíter: @kokotweets. Portanto, imagino que ela deva ter evoluído bastante desde então… ;P

  6. Tiago Falótico disse:

    Parabéns pelo texto. Está um pouco confuso, mas interessante. Só quero comentar que nos estudos sobre tradições em primatas não-humanos, especificamente sobre a lavagem de batata dos macacos japoneses, não há nenhuma evidência de ensino, o que significaria um comportamentos ativo do “tutor” em ensinar outros indivíduos do grupo. Muito menos com sinais comunicativos (com exceção de alguns primatas com treino em linguagens de sinais e aculturados, como a Washoe). Até o momento os estudos mostram que existe aprendizagem social, mas o indivíduo modelo não tem nenhuma participação ativa para dirigir o processo de aprendizagem dos coespecificos.

  7. Ana Arantes disse:

    Tiago, obrigada pelo incentivo!
    O caso da lavagem de batatas é realmente bem controverso. Alguns autores sugerem que não há nem mesmo aprendizagem social do comportamento de lavar as batatas, há apenas indivíduos com repertórios comportamentais muito parecidos expostos às mesmas contingências ambientais (batatas sujas e água do mar), que acabam por aprender o comportamento de lavar as batatas por tentativa e erro e não por observação.
    Quanto ao “tutor” ser ativo no processo de ensino (ou seja, ter a “intenção” de ensinar algo a alguém), isso não se dá necessariamente dessa maneira. O comportamento de Imo, provavelmente, teve a função de “ambiente” para o comportamento dos outros macacos, no sentido de que, ao observá-la lavando as batatas, comendo as batatas lavadas, e tendo reações de “prazer” ao comer, os outros macacos passaram a imitar Imo. Ou seja, o comportamento de Imo foi um estímulo iniciador para o comportamento imitativo, que por suas vez foi reforçado pelo próprio gosto da batata. Assim, do ponto de vista adotado, Imo ensinou os outros membros do grupo a lavar as batatas.

  8. Tiago Falótico disse:

    Ana,
    Esse caso que você citou seria um “local enhancement” ou “stimulus enhancement” onde os indivíduos são atraídos ao local ou objeto pela ação que um outro sujeito faz deles. E poderia então entrar em contato com os materiais e aprender sozinho. Esse é um tipo de aprendizagem social, e sem nenhuma participação ativa do “modelo”.
    Pelo que entendi você não considera que o ensino tem que ser ativo?
    E sobre imitação, existe uma grande discussão se ela realmente ocorre ou não nos primatas não-humanos. Você está discutindo como se os macacos japoneses estivessem imitando uns aos outros, mas não há nenhuma evidência experimental clara disso. E imitação não é o único mecanismo de aprendizagem social.
    Abç, Tiago

  9. Ana Arantes disse:

    Tiago, estou falando de “estímulo” e de “ambiente” no sentido que esses termos são usados na Análise do Comportamento, não no sentido que você colocou. Na minha interpretação, o comportamento de Imo é um estímulo discriminativo que evoca o comportamento de imitar de outros macacos do grupo.
    Sim, não considero que o “ensino” seja necessariamente ativo.
    Também, para deixar claro, por imitação, estou pressupondo apenas a correspondência ponto-a-ponto da resposta com o estímulo evocativo. Tomasello chamaria de “impersonation”, mas eu não chego a concordar que haja diferenças entre o comportamento observado quando o indivíduo imita uma ação ‘com finalidade de’ ou sem nenhuma finalidade. O comportamento imitativo observado é apenas correspondente ao comportamento que está sendo imitado. Assim, não vejo porque os macacos japoneses não poderiam estar imitando uns aos outros. Mas você tem razão, não conheço nenhuma evidência experimental disso.
    Só para finalizar, eu NÃO disse que a imitação é o ÚNICO mecanismo de aprendizagem social.

  10. Kim disse:

    Muito interessante o texto, é esquisito pensar que a atividade de linguagem surgiu primitivamente de um mecanismo Pavloviano: Arrastar tigela -> Aparecer comida.
    Um livro muito bom sobre linguagem – embora trate de matemática! – é “O Gene da Matemática”. Nele, o autor introduz vários conceitos sobre comunicação e apresenta a tese de que a matemática surge da linguagem, já que ambos tratam de aprender a relação entre símbolos.

  11. Ana Arantes disse:

    Kim
    O fenômeno que eu mencionei não guarda semelhanças com o condicionamento pavloviano. A relação entre a resposta de arrastar a tigela e a consequência da resposta, que é o aparecimento da comida, só acontece na presença do dono-que-dá-comida. No condicionamento pavloviano, um estímulo qualquer elicia uma resposta reflexa do organismo, depois de um processo de pareamento. Provavelmente, ele acontece entre o barulho da tigela e a salivação do cachorro.
    Não conheço o livro que você citou, mas parece interessante!

  12. Tiago Falótico disse:

    Óbvio que você pode pegar esse termo e definir como quiser, mas os trabalhos de cognição em primatas não tratam isso que você está descrevendo como ensino. Ensino seria somente quando há um papel ativo do “modelo”, como, por exemplo, demonstrar uma ação de maneira mais lenta para alguém (caso anedótico relatado pelo Boesch com chimpanzés) ou até moldar uma sinal manual (caso da Washoe ensinado o filhote dela alguns sinais da ASL). E, tirando esses casos raros em chimpanzés, não há nenhum evidência sólida de ensino em outras espécies de primatas.
    Eu gosto das definições das imitações como são tratadas por Byrne e Russon, como imitação ao nível de programa e a nível de ação (Richard W. Byrne & Anne E. Russon (1998). Learning by Imitation: A Hierarchical Approach. Behavioral and Brain Sciences 21 (5):667-684.), acho que podem ser tratadas como categorias distintas.

  13. Ana Arantes disse:

    Thaigo, do jeito que você coloca, parece que eu inventei uma definição de imitação. Estou baseando minha operacionalização em Catania, 1999 (aprendizagem baseada na observação de outro comportamento); Bandura, 1979 (aprendizado através do qual o observador adquire novos padrões de resposta que não faziam parte de seu repertório comportamental); Mikulas, 1977 (mudança no comportamento, em decorrência da observação); Skinner, 1966, 1975, 1980 (comportar-se como outro organismo está se comportando). Dessa perspectiva, não há a inferência de um processo intencional (ou “ativo”) por parte do organismo observado/imitado. É claro que há outros tipos de comportamentos que chamamos de “ensinar” que pressupõe um papel ativo por parte do “instrutor”, como a modelação, a instrução verbal, etc…
    Entendo que os estudos cognitivistas não trataem esse tipo de comportamento como ensino, nem deveriam, já que partem de pressupostos diferentes.
    Ah, gostei da indicação do artigo, vou procurar! Obrigada!

  14. Marcelo Hirosse disse:

    Nossa o blog é novo por aqui?
    Nunca tinha reparado antes, mas agora já se tornou meu favorito!
    Ótimo texto.

  15. Ana Arantes disse:

    Acabamos de estrear!!! Valeu!!!

  16. Tiago Falótico disse:

    Oi Ana,
    Desculpe pelo jeito que escrevi. Ficou meio brusco mesmo.
    Realmente os pressupostos são diferentes, e os termos utilizados nessa área de aprendizagem são complexos e mudam de trabalho para trabalho, mas esse é mais um motivo para tomar cuidado ao usar um termo comum com outro significado sem explicar bem. Aliás, não sabia que a AEC ainda usava o termo ensino nesse sentido amplo, ainda mais para animais não humanos. Acho que preciso conversar mais com o pessoal de AEC do departamento!
    O artigo é bem interessante, vale a pena ler.
    Até mais.

  17. AccusStandard disse:

    Super interessante esse post!

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