Deixe-me ir: tratamentos oferecidos a pacientes terminais precisam ser repensados

Inspirador escrever à sombra de árvores. Escrevo do quintal da minha casa, pássaros cantando, cigarras escandalizando e esquilos subindo cercas.

Começo ameno para tratar de assunto difícil: o que fazer quando o médico te informa que todos os tratamentos disponíveis foram tentados e a doença que vem consumindo sua mãe não tem mais como ser controlada? Ela vai morrer em breve. Devemos interná-la, entubá-la e tentar formas de estender sua vida mais um pouquinho, à espera de um “milagre”? Ou devemos deixá-la em casa, na harmonia e quentura do seu lar?

Time to die. Cortesia: An Gobán Saor (fotógrafo)

Na noite anterior à morte da minha mãe, sentados no sofá da nossa sala – a mesma sala onde passamos ao menos uns 30 natais juntos -, eu e minha família tivemos uma dura conversa com o oncologista. Optamos por não internar nossa mãe, vitima de câncer contra o qual lutou por quase três anos. Decisão difícil, mas cada vez mais me convenço de que fomos sabidos.

Minha mãe deu seu último suspiro rodeada por pessoas queridas. Não antes de tomar a coca-cola oferecida pelo meu pai e o suco de laranja com couve transbordando amor, feito pela minha sogra. Momento forte – que revivo com frequência -, e ao mesmo tempo harmônico. Indolor, tranquilo, um suspiro de descanso. Não sei como teria sido se estivéssemos cercados por tubos, na frieza das unidades de terapia intensiva. Para nós, foi a melhor decisão.

Nem preciso dizer porque li atenciosamente cada palavra das longas 14 páginas de uma reportagem publicada na edição do último dia 2, na revista New Yorker*, sobre o que a ciência médica deve fazer quando não consegue mais salvar uma vida.

Escrita pelo médico Atul Gawande, cirurgião e professor da Universidade de Harvard, a reportagem questiona os tratamentos oferecidos aos pacientes terminais. Usando uma estratégia de comunicação nó na garganta, Gawande descreveu casos de pacientes que testaram inúmeras drogas para doenças como câncer de pulmão e pâncreas, seguidamente, sem sucesso, e ao mesmo tempo lidando com os terríveis efeitos colaterais.

A mensagem do médico é clara: a medicina moderna é eficiente em retardar a morte com intervenções agressivas e ineficiente em saber onde focar para melhorar a qualidade dos últimos dias de vida de pacientes terminais.

Fica evidente o contraste entre a esperança que os médicos oferecem aos pacientes e a precária base científica para prescrição dos tratamentos. Por exemplo, uma paciente com câncer de pulmão em estágio avançado tomou uma nova droga e só depois foi feito o teste que comprovou que seu câncer não tinha a mutação alvo do medicamento. Em seguida, tentou pemetrexed, pois “estudos mostraram que poderia aumentar a sobrevida de alguns pacientes”. Mas, destaca o médi