Nicholas Negroponte alfineta seus críticos

Desde que cheguei por aqui, estava de olho em oportunidades para assistir a uma palestra do Nicholas Negroponte. Além de ser bem conhecido como co-fundador da iniciativa de distribuir um laptop para cada criança (OLPC; one laptop per child), Negroponte é um dos pioneiros na interação humanos-computadores, ajudou a lançar a revista Wired (e outras dezenas de empresas) e é co-fundador do Media Lab (MIT).

Ontem deu certo, realizei meu “sonho”. Negroponte falou na segunda metade de uma aula da disciplina Media Ventures*, no Media Lab.

Nicholas Negroponte falou ontem no Media Lab (MIT).

Alfinetando seus críticos, o professor do MIT brincou que irá usar helicópteros para jogar tablets, como o iPad por exemplo, em comunidades carentes. Evocar a imagem de um helicóptero lançando os gadgets, sem sequer tocar na comunidade alvo, foi proposital: uma maneira de responder às inúmeras críticas que ele vem recebendo desde o lançamento do OLPC. Segundo ele, todas as críticas pela iniciativa que entregou até o momento laptops para 2.5 milhões de crianças de 31 países são variações da seguinte frase: “Negroponte acredita que pode dar um laptop para a criança, sair e tudo será resolvido”.

A missão da OLPC, uma organização sem fins lucrativos, é oferecer para cada criança um laptop resistente, de baixo custo e conectado à internet, como já foi e tem sido vastamente relatado na mídia. O pequeno computador branco e verde já virou, de certa forma, símbolo do uso de tecnologias para crianças com fins educacionais. Veja trecho que retirei do site:

To this end, we have designed hardware, content and software for collaborative, joyful, and self-empowered learning. With access to this type of tool, children are engaged in their own education, and learn, share, and create together. They become connected to each other, to the world and to a brighter future.

Em setembro do ano passado ele pensou em “seguir a sugestão” dos críticos. Decidiu dar início a um projeto de entregar tablets – o helicóptero era provocação – para crianças em seis vilas carentes, onde 50% das crianças não chegam a frequentar a primeira série, e voltar só depois de um ano para avaliar se as crianças aprenderam a ler. Simples assim, disse Negroponte. O tablet de plástico que está sendo desenvolvido pelo pessoal do OLPC é a nova geração de dispositivos que possivelmente irá substituir o laptop original.

A ideia desse novo projeto é que ao abrir o tablet, crianças nigerianas, paquistanesas, afegãs, entre outras, possam escutar histórias. O objetivo é que as crianças aprendam a ler ouvindo histórias. Segundo Negroponte, é assim que 20% das crianças se alfabetizam. Com isso, crianças seriam agentes de mudança em suas comunidades, podendo, por exemplo, ler para seus avós analfabetos.

Fazem parte do projeto Sugata Mitra (Hole-in-the-Wall) e Maryanne Wolf (professora da Tufts University, autora do livro Proust and the Squid: The story and science of the reading brain).

Além de contar sobre o novo projeto, Negroponte resgatou a história de como começou a trabalhar com o OLPC e mostrou inúmeras fotos de crianças de diversos lugares do mundo atentamente mexendo em seus computadores. Ele falou também sobre o lado empreendedor da iniciativa, tema de interesse para os alunos da disciplina, ressaltando que sempre procura fazer algo diferente do que “os movimentos esperados do mercado” fariam.

Leiam abaixo algumas das perguntas feitas pelos alunos:

Como a criança vai aprender a ler se não tem comida no prato? E o risco do pai vender o tablet?

Negroponte: Pergunta fundamental. Não devemos educar crianças famintas? Ninguém diria para segurar a educação enquanto não tivermos água limpa…. Claro que precisa andar junto! 

Mesmo nos lugares mais pobres, os pais querem que seus filhos sejam educados. Os laptops estão seguros nas favelas brasileiras pois os criminosos querem que seus filhos sejam educados. O laptop verde é conhecido como sendo usado para educação: ver um adulto carregando soa estranho. Virou um símbolo.

Qual é infraestrutura necessária?

Negroponte: Conexão à internet basta e custa em média 30 centavos de dólares/criança/mês. O custo do laptop é de um dólar/mês/criança. 

Como você negocia o conteúdo do laptop com o governo? Alguém pode dizer que os livros escolhidos são errados.

Negroponte: Deixamos o país escolher os livros que quer. Fazemos tudo possível para ser livre acesso, open source, open software.

Por que não um smartphone por criança?

Negroponte: Livro tem um tamanho adequado para a leitura; é tudo por conta do tamanho da tela (…).

Você embarcou em uma nobre missão, tipo Madre Teresa, e é criticado há anos. Como isso te afetou pessoalmente?

Negroponte: Cresci com um gene extra de segurança. Aos poucos fui criando uma pele de elefante: I don’t care. Claro que fico com raiva de vez em quando, mas ser mais velho ajuda.

* O objetivo da disciplina Media Ventures, oferecida por Sandy Pentland e Joost Bonsen, do Media Lab (MIT), é ajudar o aluno a compreender como mídias emergentes e inovações digitais se traduzem em realidade comercial e transformam a sociedade.

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