O “behaviorês” nosso de cada dia

O curso é ciência da computação, e a disciplina “Informática aplicada à educação”. Um grupo fica encarregado de explicar a “abordagem skinneriana”. Um dos alunos fala sobre o condicionamento operante e sua aplicação em pombos, ratos e humanos na aprendizagem de diversos comportamentos complexos, e um aluno da audiência pergunta como seria, por exemplo, ensinar um pombo a jogar ping-pong?
A resposta dada foi “…divide-se o problema aparentemente pequeno em problemas menores, e vai usando reforço imediato – primeiro incentiva ele a chegar perto da bola, depois a bicar ela, e vai indo…“. É certo que esta não é a linguagem que um Analista do Comportamento usaria, mas a idéia não estava errada e, de certa maneira, o ouvinte compreendeu o processo.
Sei que o uso de uma linguagem técnica é imprescindível entre os cientistas para garantir sua objetividade, clareza e precisão, mas já vi muitos professores (e, consequentemente, a abordagem behaviorista radical) perderem prestígio entre os alunos devido ao uso excessivo deste tipo de linguagem. A maioria dos calouros nunca ouviu falar no Behaviorismo Radical e nem na Análise do Comportamento (AC). Muitos entram no curso para descobrir os “segredos da alma”, as “energias internas do corpo” ou o “poder da mente” e ficam estarrecidos ao entrar em contato com a AC.
Será que, num primeiro contato, uma linguagem técnica é tão importante assim? Por que não dizer “aprendizagem” ao invés de “condicionamento“, ou “buscar causas” ao invés de “identificar variáveis controladoras“? Outros termos também costumam causar arrepios nos leigos, como a manipulação de variáveis e controle comportamental. O aluno que se interessar na abordagem terá tempo para se adequar à uma linguagem mais objetiva.
Se Stephen Hawking consegue me fazer aprender sobre o funcionamento de partículas subatômicas e buracos negros e Steven Rose sobre o desenvolvimento do cérebro no estágio embrionário, não acho que deveria ser tão difícil ensinar os princípios básicos da AC de maneira menos aversiva (ou mais acessível aos leigos). Alguma coisa está errada.
Não podemos esquecer que, se queremos uma boa divulgação de nossa abordagem e um reconhecimento positivo de nossos resultados na comunidade em geral, é importantíssimo saber adequar nosso discurso ao repertório verbal da audiência.
(E já que estamos no assunto, quem traduziu o “Beyond Freedom and Dignity” do Skinner para “O Mito da Liberdade” não merece ir para o céu!)

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Discussão - 5 comentários

  1. Bom eu nao me identifico com o behaviorismo
    mais concordo plenamente que uma linguagem mais subjetiva ajudaria muito o aluno até porque ele esta acabando de entrar na faculdade e pode se assustar com certos termos técnicos pelo menos nas primeiras aulas até ele se familiarizar e isso evitaria eternas discussoes em sala de aula…

  2. Jivago Medeiros disse:

    O uso excessivo de termos técnicos e a falta de alternativas por parte dos professores é um grande fator desestimulante para muitas diciplinas, emuitos cursos…

  3. Behaviorista disse:

    Acho que o problema não é o uso da linguagem técnica em si. O problema é que na AC temos termos que realmente causam arrepio!O importante seria uma consciência por parte dos leigos que a AC não trata os seres humanos como “máquinas” e por aí vai… e todas essas besteiras que eles imaginam!

  4. Felipe Epaminondas disse:

    Acho que os alunos mais novatos se assustam com termos como ‘modelar’, ‘reforçar’, ‘controlar’, ‘responder’… ainda mais que o nome behaviorismo vem desde a época de Watson e isso também cria muita confusão. Tudo isso ajuda pra que fiquemos com a imagem de que tratamos as pessoas como máquinas: sem vontade própria e sem sentimentos.

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