Blade Runner – O Caçador de Andróides

Acabei de assistir à última versão do filme Blade Runner (The Final Cut – 2007). Sensacional. Esse negócio de humanos, adróides e robôs consegue ser bastante assustador. No filme, os Replicantes são andróides desenhados para serem réplicas exatas de seres humanos, se diferindo apenas pelo fato de não possuírem sentimentos. No entanto, seus criadores perceberam que após alguns anos de existência, eles desenvolviam seus próprios repertórios privados e sentimentais, inclusive o medo da morte.
Não são muito diferentes de nós, afinal de contas, não nascemos sabendo o que é inveja, ciúme, ganância ou empatia. Mas somos inteligentes, temos consciência das experiências que passamos durtante a vida e podemos ainda descrevê-las para outras pessoas. Herdamos geneticamente uma estrutura pronta para sentir, uma estrutura que nos faz modificar nossos comportamentos diante de diferentes situações baseados nas consequências obtidas. Desta maneira aprendemos a dizer que algo é legal, chato, engraçado, interessante ou perturbador. As repostas privadas que derivam destas experiências definem como vamos falar sobre elas. Sendo assim, a maneira como eu me sinto vem depende do ambiente externo, e os nomes que eu dou à estes sentimentos me foram ensinados pela comunidade verbal. Meu mundo interno é de origem social.
É possível então criar seres inteligentes capazes de aprender e descrever novas experiências mas não de sentir? Acho muito difícil. Retire estas sensações privadas e as situações já não tem mais as mesmas consequências. A aprendizagem é prejudicada.
Imagino que em algumas décadas (ou séculos) seremos capazes de montar nossos próprios andróides, de clonar seres humanos em qualqer estágio de desenvolvimento e, por que não, de criarmos seres vivos totalmente novos. Qual a finalidade destes seres? Que personalidade gostaríamos que eles tivessem, ou melhor, qual o repertório comportamental que deveria ser mais acentuado? Se quero clonar um cientista, precisa ser inteligente, no caso de um jogador de futebol deve ser mais forte fisicamente, no caso de um artista teria que conhecer bem os sentimentos humanos e como evocá-los. Que lembranças esses clones ou andróides deveriam ter para que se comportassem da maneira adequada? E que treinamentos precisariam? Bem, as únicas pessoas que eu conheço que estudam os impactos das lembranças, dos sentimentos, das experiências passadas e presentes no repertório comportamental (ou melhor, a interação organismo-ambiente) são os Analistas do Comportamento. Que bom, pelo visto ainda teremos muito trabalho nos próximos séculos.
Agora preciso ler o livro, originalmente chamado “Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?”, por Philip Dick.
Condicionamento de pombos em laboratório
O maior desafio dos Behavioristas é garantir uma ciência do comportamento capaz de descrever, explicar, prever e controlar seu objeto de estudo, que é a interação do organismo com seu ambiente. Não é uma tarefa fácil, mas pelo menos dentro do laboratório os cientistas possuem um maior controle acerca das variáveis que influenciam os comportamentos. A seguir um exemplo de condicionamento operante de pombos, narrado pelo próprio Skinner:
Se a gente consegue fazer um pombo dar uma, duas, três voltas (e por que não uma pequena dança), qual será o limite? Claro que é impossível ensinar um organismo a se comportar de maneira que sua fisiologia não permita (como uma pessoa a voar ou um pombo a falar) mas dá para se fazer muita coisa interessante, um exemplo é este próximo vídeo, que mostra dois pombos em uma partida de “ping-pong”:
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A Responsabilidade Humana

“A Terra é uma anomalia. Em todo o sistema solar, ao que se saiba, é o único planeta habitado. Nós, humanos, somos uma entre milhões de espécies que vivem num mundo em florescência, transbordando de vida. No entanto, a maioria das espécies que existiram não existe mais. Depois de prosperarem por 180 milhões de anos, os dinossauros foram extintos. Todos sem exceção. Não sobrou nenhum. Nenhuma espécie tem garantido o seu lugar neste planeta. E estamos aqui há apenas 1 milhão de anos, nós, a primeira espécie que projetou os meios para a sua autodestruição. Somos raros e preciosos porque estamos vivos, porque podemos pensar dentro de nossas possibilidades. Temos o privilégio de influenciar e talvez controlar o nosso futuro. Acredito que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra – não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós. Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante.”
(Carl Sagan; 1997, Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre vida e morte na virada do milênio)
“Os principais problemas enfrentados hoje pelo mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano.”
(B. F. Skinner; 1974, Sobre o Behaviorismo)
O Mundo Assombrado por Demônios
O Mundo Assombrado por Demônios – A Ciência Vista Como uma Vela no Escuro (Carl Sagan).
Ainda não conheci ninguém que não tenha expressado interesse no livro após ler o título. No entanto, não posso dizer o mesmo quanto ao subtítulo – o que reflete justamente um dos temas mais discutidos por ele: a fascinação das pessoas em geral acerca das pseudociências e outras crenças fantásticas.
Entre os demônios aos quais o livro se refere estão cientistas charlatões, crenças como abduções alienígenas e viagens espirituais fora do corpo, a face em Marte como sinal de vida inteligente, marcas em plantações feitas por extraterrestres e até mesmo a Psicanálise e muitos outros. Mas o que mais fica evidente nos 25 capítulos do livro é a grande preocupação de Sagan em divulgar a importância de se ter uma visão parcimoniosa e cética dos fatos que chegam aos nossos ouvidos, não só quando se está trabalhando com ciência, mas também no dia a dia. O fato de se explicar algo cientificamente não necessariamente vai “tirar a graça” daquilo, pelo contrário, levanta mais questões a serem refletidas e respondidas.
E o que isso tem a ver com psicologia? Como foi dito, Sagan não hesita em chamar a Psicanálise de pseudociência, mas ao ler o capítulo dedicado à terapia, percebe-se que a crítica se aplica também à outras áreas da psicologia. Sagan critica a credibilidade de casos em que “lembranças” esquecidas vêm a tona de repente, pois podem ser de fácil indução por terapeutas, ou simplesmente inventadas.
Em um capítulo sobre alucinações ele levanta uma questão que muitos psicólogos já conhecem: até que ponto alucinar pode ser considerado um comportamento anormal? E pelo que percebi dividimos o mesmo ponto de vista: que alucinar é completamente normal e é facilmente influenciado por estímulos do ambiente.
De um modo geral, Sagan fala muito sobre visitas e abduções alienígenas, o que é compreensível visto que este é um dos demônios que mais assombram a astronomia – seu campo de trabalho. A nós, psicólogos, cabe refletir sobre quais são os demônios que precisam ser exorcisados.
Edição de bolso atualmente disponível na Saraiva. O meu foi “herdado” do meu pai! ;)
Ciência e Psicologia: realidade ou ficção científica?
Isaac Asimov foi um cientista e professor de bioquímica que ficou mundialmente famoso pelos seus vários contos de ficção científica, sendo considerado um dos três melhores escritores do gênero, junto a Arthur Clarke (2001 – Uma Odisséia no Espaço) e Robert Heinlein (Tropas Estelares). Lendo seus contos, percebi uma certa fascinação do autor pelo comportamento dos organismos em geral.
Um de seus contos, “O Estilo Marciano“, publicado em 1952, conta a história de dois astronautas que viviam em uma colônia da Terra em Marte. Em um período de escassez de água (que era importada da Terra), o astronauta Long decide unir outros como ele para voar até Saturno e pega uma das milhares de pedras de gelo que compõem o seu anel. Era uma missão fantástica nunca antes realizada, principalmente pelo fato de que os humanos terrestres não conseguiam ficar mais de 6 meses no espaço sem sofrer consequências aversivas físicas e psicológicas.
Mas Long confiava no sucesso da missão por causa de um simples detalhe: os seres humanos terrestres não se adaptavam à longas viagens espaciais, mas ninguém garantia que essa regra também se aplicava aos humanos nascidos em Marte! Afinal de contas, Marte em si era como uma espaçonave: “…4.500 milhas de comprimento, e nela um cubículo ocupado por cinquenta mil pessoas. É tudo fechado em si mesmo, como numa nave. Respiramos ar enlatado, bebemos água enlatada, passamos a vida reciclando isso tudo. Aqui se comem as mesmas rações enlatadas que se come numa nave. Quando entramos numa nave de verdade, não achamos aquilo muito diferente do que experimentados a vida inteira. Podemos aguentar isso durante muitíssimo mais de um ano. É só querer“. Long pensou como um Behaviorista.
Mas este não foi o único conto que me chamou a atenção em Asimov. Em muitos ele questiona a aprendizagem operante de robôs (claro, não usando estes termos) e até aonde os comportamentos futuros (seja de humanos ou máquinas) podem ser previstos. Ele até mesmo chegou a inventar uma ciência fictícia chamada Psicohistória, onde através da observação e análise de comportamentos em grupos e análises matemáticas se previa com um certo grau de certeza futuros comportamentos de grupos. Quase uma Análise do Comportamento, tirando o fato de que para nós é mais fácil manipular o comportamento individual, e na Psico-História quanto mais pessoas envolvidas (bilhões e bilhões), mais confiável era a predição.
O comportamento humano sempre despertou a curiosidade das pessoas, e somente há pouco tempo têm sido estudado cientificamente (as primeiras leis não haviam sido descobertas a nem mesmo um século atrás) de modo que muitos ainda acham que tal ciência só existe na ficção. Dentro da psicologia é grande a luta para a divulgação da mesma como uma ciência, e ao ver cientistas de outras áreas imaginando como seria uma ciência do comportamento, me vem a seguinte pergunta: será que estamos divulgando para as pessoas certas? Não seria uma boa idéia procurar divulgar a Análise do Comportamento para estes outros cientistas, tendo-os assim como nossos aliados na divulgação popular?
Louco, eu?
Recebi por e-mail esta reportagem sobre a loucura da revista Super Interessante de maio de 2005, é um texto um pouco extenso mas bem legal, com certeza vale a pena a leitura:
http://super.abril.uol.com.br/superarquivo/2005/conteudo_63696.shtml










