Anorexia: um caso de quase morte

20090920_anorexia2.jpgNa década de 60 a Análise do Comportamento ainda estava engatinhando, mas suas aplicações já traziam resultados quase milagrosos, embora seus procedimentos podiam ser às vezes mal vistos por outros profissionais. Como exemplo disso resolvi mostrar este experimento interessantíssimo publicado em 1965:
A paciente sofria de anorexia nervosa, não comia e estava em perigo de morte. Ela media 1,64m e pesava 23kg e meio. Os autores a descreveram como tendo “a aparência de uma múmia mal preservada a que se dera repentinamente um sopro de vida”.
Antes da terapia, ela vivia em um quarto atraente do hospital com quadros, flores, uma vista agradável, livre acesso à visitas, rádio, televisão e uma radiola. Mas um caso crítico desses precisou de uma intervenção crítica: os experimentadores lhe tiraram seus benefícios e a moveram para um quarto pobre e sem acesso às visitas. Ela podia ficar com seu tricô o tempo todo, mas só teria acesso às visitas, televisão, música e flores como reforços para o comportamento de comer (passo necessário para se fazer o condicionamento operante).
Além disso, as enfermeiras foram instruídas a retirar a atenção e a simpatia que elas usavam para tentar convencer a paciente a comer. Elas só podiam dizer no máximo um “bom dia” ao entrarem em seu quarto, e os experimentadores se encarregaram de tomar as refeições diárias com a paciente. Segundo sua hipótese, a atenção dada pelas enfermeiras poderia estar ajudando a manter a recusa de se alimentar.
Nestes momentos de refeição, os autores modelaram o comportamento de comer conversando com a paciente quando pegava seu garfo, punha comida na boca, mastigava o alimento e assim por diante. Também modelaram a quantidade de alimento ingerido, dando acesso ao rádio ou à televisão quando ela ingerisse maiores quantidades de comida. Mais tarde, quando ela começou a ganhar peso, outros reforços foram introduzidos, ela foi estimulada a escolher seu próprio cardápio, convidar outro paciente para jantar com ela, etc.
À primeira vista parece um procedimento estranho e o pessoal do hospital precisou ser informado das razões deste “tratamento desumano” de retirar os bens de seu quarto, além de serem convencidos de que era mais humano do que deixar a paciente morrer, uma vez que ela já tinha sido internada 8 vezes sem sucesso. A eficácia do tratamento pode ser julgada pelas fotos tiradas da paciente.
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Outros procedimentos também foram estabelecidos para depois que a paciente deixou de residir no hospital: a família foi instruída a não deixá-la comer sozinha, controlar os horários e só conversar sobre bons assuntos nas refeições, entre outros.
Curiosamente, cinco anos depois os experimentadores tiveram notícia da ex-paciente: ela estava se mantendo com 40 quilos e estava trabalhando feliz e com êxito em uma enfermaria de recém-nascidos no hospital de sua universidade!
Adaptado de: Reese, E. P. (1978). Análise do Comportamento Humano.Tradução de G. P. Witter. Rio de Janeiro: José Olympio. (Trabalho original publicado em 1966).

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Discussão - 4 comentários

  1. Netto disse:

    Realmente incrível que poucos fatores(ok não tão poucos assim) possam interferir na forma como nos comportamos, me lembra um pouco o condicionamento que nós fazemos com os animais não mesmo?! Simplesmente sensacional

  2. Hamilton disse:

    Interessante como os métodos comportamentais comumente são confundidos com “tratamentos desumanos”. Ao se fazer esse comentário, não se leva em consideração que o importante é a eficácia do tratamento. E não se trata de oferecer uma alternativa desumana ao paciente, trata-se de fazer com que ele retorne a uma vida com dignidade, como aconteceu no caso exemplificado.
    É claro que todo tipo de tratamento, seja ele em caráter experimental ou não, deve seguir o princípio ético de ser consentido pelo paciente ou seu reponsável direto.
    Hamilton.
    http://www.hiperestesias.blogspot.com/

  3. Gisele disse:

    Parabéns, suas áreas de estudo são ótimas.

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