Teorias na psicologia: quanto mais complexas melhor?

Infelizmente esse quadrinho mostra uma realidade nos cursos de psicologia. Vemos alguns autores que escrevem muito sobre nada e acabam sendo reverenciados, como se ser mais complexo o fizesse ser mais verdadeiro.

Acredito que o que falta é conhecimento da ciência em geral: um dos objetivos da ciência é explicar como as coisas funcionam (ou por que as pessoas fazem as coisas que elas fazem) buscando regularidades. Estas regularidades tornam um fenômeno mais fácil de ser compreendido, pois quando conhecemos a lei que o governa podemos prever quando e como este fenômeno ocorrerá novamente, assim como eu sei que  se eu soltar uma bola no ar ela vai cair no chão por causa da lei da gravidade. Isso simplifica as coisas para nós.

Conhecendo as “leis” que governam o comportamento humano (como as leis do reflexo, do reforço, da extinção, etc) eu posso, a partir delas, compreender e modificar o comportamento.

Ou seja, a ciência do comportamento simplifica estes fenômenos explicando-os em leis que nos facilitam a compreender e agir sobre as pessoas. E facilita a tal ponto que eu sou capaz de explicá-las para amigos, colegas, clientes, alunos e leitores deste blog – a ciência deve ser acessível.

Se uma teoria é complexa a ponto de, para eu aprender o básico dela, eu precisar quebrar a cabeça, ler dezenas de livros e confiar mais na autoridade de quem a criou do que nos resultados promovidos por ela, então sinto muito, não é uma boa teoria.

Cuidado com as teorias encantadoras

Acabei de ler este post incrível em um dos meus blogs favoritos de todos os tempos, o Neuroskeptic. Como acredito que ele não tem como melhorar, resolvi traduzí-lo aqui:

“Os antigos gregos tinham uma adorável teoria. Certos lugares da Terra (principalmente cavernas) eram portais para o ‘outro mundo’. Plantas que cresciam perto destes lugares podiam absorver a essência mortal de Hades e se tornavam venenosas.

Cobras e outras criaturas venenosas adquiriam seus venenos após consumir estas plantas. E insetos peçonhentos pegavam suas pequenas doses de veneno se alimentando de cobras mortas.

Não é uma ótima narrativa? Explica tudo em uma progressão lógica. Tudo bem que ela pressupõe uma força ‘sobrenatural’ como a origem última do veneno, mas além disso, é uma explicação inteiramente científica. De acordo com a Navalha de Occam, ela propõe um processo simples que unifica diversos fenômenos.

Ela é, em outras palavras, uma teoria científica perfeita. Está completamente errada, em qualquer ponto de vista, mas só sabemos disso porque hoje entendemos átomos, moléculas, química e bioquímica, coisas que os gregos antigos não tinham como conhecer. Na época, a Teoria de Hades era certamente a melhor teoria possível sobre a origem dos venenos.

A moral da história é: cuidado com teorias adoráveis baseadas em dados incompletos.”

Post: Neuroskeptic
Texto retirado do livro: Greek Fire, Poison Arrows and Scorpion Bombs

Tratamento infantil para o transsexualismo?

Todo behaviorista já ouviu alguma vez falar do Dr. Ivar Lovaas. Ele é famoso por ter desenvolvido as primeiras técnicas sucedidas de intervenção em crianças autistas e com outros atrasos de desenvolvimento que são até hoje amplamente utilizadas, fazendo com que elas tenham qualidade de vida normal em todo o mundo (exemplo da técnica aqui).

Pesquisando sobre ele encontrei alguns artigos que eu não conhecia, como este aqui de 1974, intitulado “Tratamento comportamental de comportamentos de papéis sexuais desviantes em uma criança masculina“. Como nunca tinha visto algo no assunto, resolvi dar uma investigada.

20101028_bruno.jpgO garoto do estudo, Kraig, tinha quase 5 anos e apresentava “comportamentos femininos” como “(a) preferência por roupas de outro gênero, (b) uso real e imaginário de artigos cosméticos, (c) gestos afeminados, (d) aversão à atividades masculinas e preferência por brincar com meninas e atividades femininas, (e) preferência no papel feminino, (f) tom de voz feminino e conteúdo predominantemente feminino nas falas e (g) afirmações verbais sobre desejo ou preferência de ser uma menina”. Ou seja, comportamentos tipicamente chamados de “transtorno de identidade de gênero” (menos na França, que a partir de 2010 não considera mais a transsexualidade como transtorno mental).

Embora o experimento seja um tanto controverso, principalmente nos dias de hoje em que não se vê mais as diferenças em gostos sexuais como “doença”, deve-se admitir que o delineamento experimental dele é maravilhoso. A mãe foi ensinada a reforçar comportamentos “masculinos” e extinguir comportamentos “femininos” usando atenção social na clínica e economia de fichas em casa.

Na clínica a criança ficava em uma sala com vários brinquedos, “masculinos” e “femininos”, e o experimentador a assistia em outra sala por trás de um espelho unidirecional. Em outros momentos, a mãe ficava na sala com a criança usando um fone de ouvido segurando um livro, e o experimentador dava instruções para ela de como se comportar. Por exemplo: quando o garoto brincava com bonecas ou falava em ser mulher, era pedido que a lesse o livro e ignorasse a criança; quando o garoto usava brinquedos como bonecos ou armas de borracha, a mãe era instruída a interagir com ele, sorrir, dar atenção, etc. Em casa, estes comportamentos eram reforçados com fichas que podiam ser trocadas por uso da televisão, barras de chocolate e outros estímulos agradáveis.
Uma curiosidade: na primeira vez que a mãe ignorou o comportamento feminino de Kraig, a birra foi tão grande que tiveram que parar a sessão e iniciar novamente após um intervalo. Outra: a sessão em que Kraig mais emitiu verbalizações femininas foi quando um outro adulto foi colocado dentro da sala.

No final das contas os comportamentos afeminados diminuiram drasticamente e os masculinos passaram a ocorrer mais. Três anos depois os experimentadores voltaram a checar a criança e o resultado ainda tinha se mantido. E este é só o primeiro de vários outros experimentos semelhantes.

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É muito comum ouvir alguns homossexuais dizerem que são assim “desde pequenos” e transsexuais dizerem que se sentem como “um sexo dentro e outro por fora”. Afirmações como essas nos levam a crer que haja um fator genético por trás. A explicação que usamos hoje é o clichê entre todos transtornos mentais: “predisposição genética associado a fatores ambientais”, mesmo que não saibamos exatamente qual gene ou quais fatores causem as alterações.

Pensando deste modo, este estudo mostra que a atenção seletiva dos pais estava interferindo na escolha de gênero da criança (como no episódio de birra quando a mãe o ignorou). Na era em que só se fala em genoma humano e neurotransmissores, não podemos deixar de lado também os fatores sociais e culturais.

O assunto é controverso e eu acho que consegui formar uma opinião pessoal: ninguém escolhe ser depressivo ou esquizofrênico, mas possíveis predisposiçõe genéticas e situações ambientais infelizmente a fazem ficar daquele jeito, da mesma maneira que ninguém escolhe ser transsexual, mas as contingências genéticas e ambientais a levam para esse caminho. As consequências aversivas de ser homo ou transsexual hoje são bem menores se comparadas com alguns anos atrás – nossa sociedade tem mudado bastante – dispensando estudos como o mostrado neste post.

Rekers GA, & Lovaas OI (1974) Behavioral treatment of deviant sex-role behaviors in a male child. J Appl Behav Analysis, 7(2), 173-190. PMID: 1311956

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