O desenvolvimento sustentado é possível?

O livro “A Retórica da Razão”, de Albert O. Hirschman (1991) é considerado uma obra de essencial importância para explicar os argumentos de conservadores sobre as atuais mudanças sociais segundo o modelo de desenvolvimento sustentável. Segundo Hirschman, os conservadores apresentam três tipos de argumentos que questionam as mudanças, e procuram minimizar sua importância: argumentos perversos, argumentos fúteis e argumentos de ameaças. O emprego de tais argumentos não somente limita o entendimento entre liberais e conservadores, entre progressistas e reacionários, como também pode ser tão danoso quanto simplesmente se ignorar maneiras de se promover a sustentabilidade. Argumentos reacionários contrários à sustentabilidade estão sendo atualmente utilizados para manter o status quo do sistema econômico e social vigente. Desta forma, a análise crítica da contextualização histórica de tais argumentos ajuda a prover base para sua compreensão e de como estes argumentos são empregados contra mudanças potencialmente necessárias.

O têrmo “desenvolvimento sustentado” engloba vários conceitos sobre a relação entre a governabilidade e a sociedade e natureza. Constitui em se estabelecer formas de planejamento e modos de atuação valorosos e virtuosos, quase como um movimento social. Sendo assim, o “desenvolvimento sustentado” atraiu a atenção tanto de revolucionários como de reacionários, que atuam de forma divergente, sem que, contudo, se manifestem abertamente contra a sustentabilidade. A forma de se questionar a sustentabilidade se baseia, fundamentalmente, em questionar se mudanças são ou não realmente necessárias. O conhecimento destas táticas conservadoras permite sua análise e também conhecer o potencial de certas iniciativas de governabilidade, gestão e convivência em ambientes sociais, e também como o emprego de tais argumentos contribuem para reforçar barreiras de comunicação entre grupos com visões sociais distintas.

Qual a importância da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentado? Principalmente em criar formas diferentes de se resolver problemas e de diálogo entre “partes” aparentemente opostas, que incluem diversos setores da sociedade e do governo. A sustentabilidade traz consigo uma reorganização dos poderes e das instituições administrativas, com ênfase em abordagens participativas e integrativas. De tal forma que a análise dos prospectos de sustentabilidade deve ser muito cuidadosa, de maneira a não ser corrompida por falsas premissas básicas, que buscam apenas a atender determinados setores sociais ou interesses de grupos segmentados.

Uma maneira muito questionável de se analisar os preceitos e as maneiras de se promover a sustentabilidade é de acordo com a filosofia pragmática, a qual, na verdade, deve ser muito mais uma forma de se implementar ações do que de análise. A adoção do pragmatismo como base de análise torna muito difícil de discernir quais pontos são realmente verdadeiros para se avaliar a sustentabilidade, bem como o que é realmente bom e possui valor moral neste contexto. Sendo assim, é absolutamente necessário se deixar o pragmatismo de lado e se ampliar o escopo da análise de processos de sustentabilidade, com membros da sociedade aptos a promover tais questionamentos e trazer à luz o conhecimento aliado a tais questionamentos. A adoção de uma “filosofia pragmática” pode ser questionável por sempre trazer a suspeita de que “há sempre algo suspeito sob o sol”, quando tal discussão é trazida por um número crescente de participantes aptos a apresentarem seus diferentes pontos de vista sobre o desenvolvimento sustentado.

A sustentabilidade por si só deve ser um conceito pragmático se for para se implementar mudanças para a reorientação das práticas sociais futuras. O problema é que o conceito “sustentabilidade” apresenta uma relação ambígua com o conceito “mudança”. Até há pouco tempo, o conceito de sustentabilidade estava um unicamente relacionado à conservação de recursos naturais. O problema é que esta maneira de pensar implica em se criar formas de manter os recursos naturais intocados e inexplorados, para que não sejam “danificados”. Ora, tal forma de se considerar o desenvolvimento sustentado vai contra a sua essência, que é a da experimentação, do aprendizado, da restauração e da melhoria das relações, muito mais do que de simplesmente se “manter inalterado e intocado” o acesso e utilização racional dos recursos naturais. Um dos maiores desafios da sustentabilidade é de se promover o “pensamento social”, de maneira a se minimizar interesses individuais e de certos setores em favor daqueles de caráter muito mais amplo para a sociedade. Os argumentos conservadores objetivam simplesmente deixar de lado tal forma de se criar maneiras integradas para proposições para a sustentabilidade.

Assim, setores sociais conservadores fazem uso de argumentos perversos, fúteis e de ameaças para descaracterizar a necessidade de mudança para promover o desenvolvimento sustentado.

Argumentos de perversidade são aqueles que são empregados para dizer que tudo pode apenas piorar e, no contexto da sustentabilidade, apenas tornar todo o processo ainda mais insustentável. Os argumentos de perversidade sustentam que a maneira de se promover a sustentabilidade é contra o desenvolvimento e apresenta perigo para o neoliberalismo. Setores conservadores fazem amplo uso de argumentos com a lógica da perversidade, em favor da governabilidade. Assim, por exemplo, dizer que a sustentabilidade pode ser o principal entrave para o desenvolvimento é um argumento perverso, uma vez que bloqueia qualquer outra possibilidade de se promover desenvolvimento. Porém, pelo contrário. As abordagens de governabilidade sustentada que se baseiam em parcerias tornam mais efetivas a utilização de diferentes recursos, formas de conhecimento e de entendimento, de maneira a encontrar novas soluções para capacitar aqueles que buscam o desenvolvimento sustentado como verdadeiros experimentadores. Somente desta maneira é possível se conhecer novas idéias, valorizar estas idéias e modelar novas práticas conforme tal abordagem integrativa, e não em normas regulatórias.

Ao argumentar em termos de “governabilidade”, a abordagem perversa pode atingir seu extremo. Esta estratégia objetiva aumentar a efevitidade e o escopo regulatório, impingindo regras, leis e conformidades, com a proposta de defender “os interesses púbicos”. Assim, em vez de promover a integração entre os interesses públicos e cívicos em longo prazo, o resultado é que os diferentes setores sociais são levados a agir como corporações para defender seus próprios interesses. Perde-se a essência da relação governo-cidadão, e tal relação é reduzida a seu mínimo denominador comum. Embora nefasto, o argumento da perversidade pode eventualmente levar a algumas ações de sustentabilidade positivas, como aquelas identificadas pelos movimentos NIMBY (Not In My Backyard – não no meu quintal), LULU (Locally Unwanted Land Uses – Usos da terra localmente indesejados) e BANANA (Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anything – Não construir nada em local nenhum perto de qualquer coisa). Tais ações são de confrontação, teatrais e às vezes litigiosas. Por isso, é melhor que as propostas de projetos de sustentabilidade sejam apresentadas de maneira explícita, enfatizando novas parcerias e formas de consenso, de maneira a que a governabilidade não perca uma forma efetiva e confiável de mudança.

O argumento da futilidade se baseia na assertiva francesa de que “plus ça change, plus c’est la même chose” (quanto mais se muda, mais tudo fica do mesmo jeito). O argumento da futilidade sustenta que a participação social não têm o menor impacto nas decisões a serem tomadas. Que inovações nos modos de participação social no govern
o são inefetivas, pois não conseguem romper as barreiras entre diferentes grupos, e que só servem para reforçar tais desigualdades e limitações de pensamento e comportamentos, bem como as diferenças nas trocas de experiência e de percepções da realidade. Ou seja, que a participação têm eficácia limitada na mudança de diretrizes. E, ainda, que promover estudos e avanços em agendas específicas são fúteis porque os governos não conseguem incorporar tais mudanças e transferi-las em estratégias  e ações efetivas de sustentabilidade.

Na verdade, a lógica de futilidade é que é fútil, por considerar que a sustentabilidade só é válida de resultar na mudança de regras, leis e diretrizes. Tentar estabelecer listas de prioridades, áreas e maneiras específicas de atuação sustentada é, de acordo com o próprio princípio da futilidade, uma estratégia ingênua, dúbia e limitante. A resposta para o problema da sustentabilidade como um todo deve ser considerada de maneira integrativa e incrementativa, sem limites definidos. Portanto, o argumento da futilidade apenas tenta reforçar que estamos andando, sem sair do lugar.

O argumento da ameaça, ou do perigo, tenta mostrar que a emergência de um novo paradigma de uma forma de desenvolvimento sustentável é verdadeiramente diabólica. Tenta mostrar que se caminharmos para maneiras holísticas e integrativas de sociedade sustentada poderemos perder tudo o que conquistamos até aqui. O argumento da ameaça tem por objetivo mostrar que a ênfase no holismo e integração do desenvolvimento sustentado é um caminho para se evitar o aprofundamento das formas de proteção necessárias para a preservação ambiental.Tal argumento se baseia no princípio de que a mesma quantidade de capital (econômico, social, cultural, etc) deve ser transferida de geração para geração, e que é absolutamente ingênuo se pensar que a atividade econômica não deve nunca prejudicar o meio ambiente. Não leva em consideração que a natureza deste capital está sob constante mudança, e que não pode ser substituída. Que deve permanecer constante, de maneira a preserva a riqueza e proteção, para se evitar perturbações no status quo e no sistema vigentes.

O argumento da ameaça sustenta que uma sustentabilidade forte ainda deve ser desenvolvida do ponto de vista político para se tornar palatável. Que uma sustentabilidade fraca é a única maneira de se adotar princípios de sustentabilidade em um mundo de compromissos políticos. E que uma sustentabilidade forte pode levar à destruição aqueles elementos sociais sobre os quais tudo deve se manter. Ainda, tenta questionar se realmente sabemos como nos planejar e agir de maneira integrativa para que nunca tenhamos perdas. Ou seja, que em um modelo de sociedade sustentável possamos sempre satisfazer nossas vontades, tanto do ponto de vista financeiro como social e ambiental. Um modelo sustentável seria apenas válido se fosse aplicado a pequenos ajustes de desempenho financeiro. Tal é o modelo de sustentabilidade adotado pela China – só pode ser aplicado se for sem perdas econômicas e financeiras.

O problema em querer se implementar tal forma de sustentabilidade fraca, que atende às necessidades de mercado, é que é praticamente impossível se estabelecer uma justa medida entre grupos econômicos, grupos sociais, entre nações. Não é possível que todos os elementos sociais possam ter sempre todas suas necessidades atendidas, em seu mais alto nível. Tentar se estabelecer, arbitrariamente, uma “justa medida de satisfação e felicidade” para se promover o progresso, apenas reforça a identidade do “Grande Irmão”, e de formas de controle. A engenharia social servirá sempre para atender apenas aos interesses daqueles que estão no poder, mas nunca para promover uma real integração dos diversos setores sociais.

Cientistas sociais devem se debruçar sobre as questões que envolvem modelos de desenvolvimento sustentado, de maneira a conhecer e disseminar conhecimento das formas como relações culturais e sociais podem ser utilizadas para melhor se aproveitar os recursos naturais. Embora a natureza possa prescindir totalmente da existência da espécie humana, é a humanidade que determina os caminhos do verdadeiro desenvolvimento sustentado. É imperativo que os diversos setores sociais possam atuar de maneira determinante, junto ao governo e aos órgãos governamentais, de maneira a contribuir para a construção de tal modelo. Se não investirmos esforços consideráveis nesta direção, os esforços em busca de melhor qualidade e condições de vida correrão sérios riscos de serem perdidos e, consequentemente, de todas as implicações em que tais esforços resultam: instituições democráticas, filosofia de paz e tolerância, o real sentido de justiça social, reparação e reconcialiação, e o reconhecimento dos direitos de grupos sociais marginalizados.

A tomada do conhecimento dos argumentos de perversidade, futilidade e de ameaça de setores sociais conservadores não deve levar à animosidade, e sim ao questionamento contínuo sobre o real valor de tais argumentos. Afinal, o conceito de sustentabilidade não pode ser erigido em pseudo-concepções idealistas, tais como de ecotopias e sociedades ideais, e sim em princípios de diversidade e mudança. Uma análise interdisciplinar efetiva sobre um modelo de sustentabilidade deve levar em conta os prós e contras argumentos de viabilidade de vários ideais, bem como uma crítica fundamentada de visões de mundo muitas vezes opostas, que considere com seriedade a ausência de um cenário que seja necessariamente melhor ou a única saída para a resolução de inúmeros impasses atuais.

O argumento da futilidade deve ser continuamente identificado e combatido, por promover uma falsa visão de que, se problemas atuais não podem ser resolvidos de maneira eficaz, efetiva e rápida de acordo com um modelo de sustentabilidade, logo tal modelo deve ser abandonado. Sobretudo, o desenvolvimento de um modelo de sustentabilidade deve se basear no aprendizado contínuo de como pode ser construído, uma vez que até hoje nunca foi real objeto de consideração por parte dos governos e da sociedade. Já “a ameaça” pode resultar da implementação de mudanças por demais radicais. Etapas já conquistadas devem ser valorizadas, e incluem inclusive o aprendizado social de práticas de sustentabilidade.

Uma verdadeira filosofia de sustentabilidade implica em uma contínua ação unificadora. Porém, como a diversidade de abordagens de sustentabilidade, de acordo com o contexto social, político e econômico em que se inserem, pode levar a um quadro de análise complexo, é absolutamente necessário que se reforcem estudos e pesquisas sobre tais abordagens. Uma abordagem de sustentabilidade pragmática deve mostrar as claras distinções entre possíveis caminhos para a realização de mudanças e a simples manutenção do status quo. E, o que é muito mais difícil, indicar formas de distinguir a qualidade da mudança ou de preservação que está implícita nas diferentes estratégias de sustentabilidade.

Considerando-se que a solução para os defeitos da democracia é mais democracia, a promoção da educação, do esclarecimento, da verdadeira troca de idéias prospectiva leva unicamente ao reforço do conhecimento sobre a verdadeira democracia, que deve estar sobre um processo de crítica constante, bem como de renovação de suas manifestações políticas.

Esta é uma tradução livre e apreciação do artigo citado abaixo. Muito bom.

ResearchBlogging.orgHolden, M. (2010). The Rhetoric of Sustainability: Perversity, Futility, Jeopardy? Sustainability, 2 (2), 645-659 DOI: 10.3390/su2020645

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Discussão - 2 comentários

  1. Roberto disse:

    Caro Augusto,
    Veja no menu “Sobre”, logo abaixo do título do blog.
    abraço,
    Roberto Berlinck

  2. Augusto Mascarenhas disse:

    Caro Roberto, é um ótimo texto.
    Sugiro apenas que você divulgue o seu sobrenome, pois isto facilitaria bastante a divulgação das suas idéias em outros blogs, e daria maior legitimidade e transparência às suas opiniões.
    Abço,
    Augusto

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