A culpa é dos cientistas? Em parte. (I)

O Átila me provocou. De verdade. Tanto que voltei, primeiro para comentar a postagem dele. Depois para… bem, escrever de vez em quando. Com alguma frequência.

Voltando ao Átila, a postagem “A ciência brasileira está em crise e a culpa é dos cientistas” no Rainha Vermelha é muito provocativa. Por vários motivos, concordo com ele em alguns pontos e discordo em outros.

Primeiro ponto: universidades sem financiamento. As universidades públicas estão com financiamento reduzido. O orçamento da USP em 2016, por exemplo, será de cerca de R$ 4,6 bilhões. Dividindo por 12, isso dá cerca de R$ 383 milhões por mês. Esta grana está sendo destinada quase que exclusivamente para os salários. Como é o caso da UNICAMP e da UNESP. Como é o caso de todas as outras universidades públicas do Brasil. Apenas em parte a culpa é dos professores/pesquisadores.

Isso porque alguns destes tentam ser heróis, com a melhor das boas intenções. Administrar os institutos, faculdades, centros, museus, etc., não é brincadeira, não. É coisa para profissional. Na minha opinião já passou da hora de se rever o modelo de administração das universidades públicas, pelo bem destas. E, na minha opinião, os professores/pesquisadores das universidades públicas deveriam entender que é muito difícil gerenciar, além de fazer pesquisa e dar aulas, e tentar fazer entender os governos que as universidades deveriam ser em parte administradas por profissionais. É minha opinião.

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Vou citar um único exemplo.

Entre julho de 2014 e março deste ano fiz um estágio sabático no Life Sciences Institute da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, EUA. Enquanto boa parte das universidades públicas estaduais dos EUA passa por sérias dificuldades financeiras, não é este o caso da Universidade de Michigan (UM). A UM é uma universidade estadual, financiada em parte pelo governo do estado de Michigan. Classificada em posição 17 no último ranking Times Higher Education – o mais prestigioso ranking de universidades – a UM atingiu status de uma das melhores universidades do mundo ao longo dos primeiros 15 anos do século 21. As razões para isso são várias.

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No início dos anos 2000 a administração da universidade solicitou a um grupo de “experts” uma análise das variáveis financeiras que poderiam afetar a economia da universidade nos anos seguintes. Acertadamente o grupo previu que a indústria automobilística – a maior fonte de renda do estado de Michigan até 2008 – não iria ter para sempre a mesma pujança. A partir de então a Universidade de Michigan buscou diversificar a busca de recursos. Aumentou os valores das anuidades estudantis, por um lado. Por outro, buscou doadores. E tratou de implementar uma gestão eficiente de seus recursos, atualmente considerada modelo no sistema universitário norte-americano.

Desde 1970 a dependência do orçamento da UM do governo estadual diminuiu de 64% para 16%. A importância das anuidades para o orçamento da universidade passou de 26% para 71%. Ao longo da última década, o dispêndio anual por aluno do governo do estado de Michigan caiu de US$ 10.579,00 para 6.753,00. A busca de doadores para a UM possibilitou duplicar o fundo de reserva da universidade de US$ 4,4 bilhões para quase US$ 9 bilhões. Apenas no último triênio (2012-2014) a UM arrecadou mais de US$ 2 bilhões em doações. Com tal fundo de reserva, a UM se posiciona apenas após as universidades de Harvard, Yale, Stanford e Princeton. Atualmente o fundo de reserva para todos os campi da Universidade da Califórnia não passa de US$ 7 bilhões. A diferença é enorme: todos os campi da Universidade da Califórnia incluem quase 400.000 estudantes. A Universidade de Michigan não tem 41.000 alunos.

Diferentemente das universidades brasileiras, não existem eleições para nenhum dos cargos da UM: reitor, pró-reitores, diretores de faculdades, cargos administrativos ou chefes de departamento são todos indicados e contratados, com base em experiência e competência. Assim, as atividades acadêmicas se concentram quase que exclusivamente no ensino, na pesquisa e nas atividades culturais.

Além de 22 prêmios Nobel dentre ex-estudantes, ex-professores e professores, a UM é um verdadeiro patrimônio da cidade de Ann Arbor, de pouco mais de 110.000 habitantes. Crescendo com a universidade ao longo de praticamente 200 anos, a cidade e a universidade são quase uma só. Ann Arbor tem população com alto nível educacional. É possível não fazer nada além de visitar museus, assistir palestras, seminários, participar de eventos culturais os mais diversos. Os principais teatros da cidade são da universidade, como o Hill Auditorium que na temporada 2014-2015 teve artistas como Itzhak Perlman, Sinfônica de San Francisco, Wynton Marsalis, Academy of St. Martin in the Fields e Gilberto Gil (veja aqui a programação da temporada 2015-2016).

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O estádio da UM, conhecido como “The Big House”, é o maior estádio aberto dos EUA, com capacidade para quase 110.00 pessoas, o segundo maior do mundo. Se lotado, a cada jogo se arrecada quase US$ 10 milhões somente em ingressos, sem contar os direitos de transmissão por TV. Manchester United x Real Madrid jogaram no estádio da UM em setembro de 2014, com mais de 100.000 ingressos vendidos em menos de 24 h.

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O sistema de transporte público de Ann Arbor é considerado modelo. Sem surpresas, a UM financia 40% do mesmo, pagando integralmente as passagens de seus estudantes e funcionários (inclusive visitantes :-)). Com uma qualidade de vida excelente, polo cultural e de inúmeras companhias de inovação e desenvolvimento tecnológico, Ann Arbor é centro de atração de jovens talentos. Ao final de 2014, duas vagas para professor oferecidas pelo Life Sciences Institute da UM tiveram 200 candidatos com os melhores CVs de jovens pesquisadores dos EUA.

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Lojas e mais lojas vendem produtos com o logo UM. Orgulhosamente a população de Ann Arbor os ostenta. Não sem razão. A Universidade de Michigan é muito mais do que uma universidade. É uma marca.

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Razão? Excelentes ensino e pesquisa, resultado de excelente gestão.

Continua…

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