Medite – II

De acordo com estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Manchester (Reino Unido), pessoas que praticam meditação são menos propensas a sentir dor. O estudo recrutou pessoas com diferentes graus de experiência de meditação, de meses a anos. Somente aqueles praticantes de longa data apresentam a capacidade de sentir menos dor.

Embora o tipo de meditação praticado seja variado, todos os praticantes adotam meditação “com atenção”, ou seja, focada em um tipo de pensamento, som ou imagem. Tal prática constitui a base da Terapia Cognitiva baseada em Atenção, recomendada para o tratamento de depressão pelo Instituto Nacional de Saúde e Excelência Clínica (National Institute for Health and Clinical Excellence, NICE, do Reino Unido).

O estudo realizado demonstrou que determinadas regiões cerebrais se tornam menos ativas quando  os praticantes de meditação antecipam algum tipo de injúria ou sensação dolorosa. No caso do estudo em questão, a dor foi induzida por um feixe de laser. Praticantes de meditação com mais de 30 anos de prática demonstraram apresentar menos dor, e também um tipo de atividade cerebral pouco comum no córtex pré-frontal, uma região do cérebro envolvida no controle da atenção e nos processos de raciocínio quando o indivíduo se encontra sob uma ameaça. O estudo demonstrou que a prática de meditação afeta diretamente o cérebro, fazendo com que a mente se torne mais focalizada no presente e menos tempo antecipando eventos futuros negativos.

Todavia, os mecanismos através dos quais tais processos são manifestos, e como o cérebro dos praticantes de meditação desenvolvem tais características, ainda não são conhecidos. A pesquisa sobre a importância da meditação e a diminuição da sensação dolorosa é muito importante, pois 40% das pessoas que sofrem de dores crônicas não conseguem conviver com suas dores. Os gastos com tratamento de artrites e outros processos inflamatórios dolorosos chega a 5,7 bilhões de libras esterlinas/ano no Reino Unido.

ResearchBlogging.orgBrown, C., & Jones, A. (2010). Meditation experience predicts less negative appraisal of pain: Electrophysiological evidence for the involvement of anticipatory neural responses Pain DOI: 10.1016/j.pain.2010.04.017

Vendo a vida como ela é

A subjetividade é inerente ao ser humano. Quando apreciamos diferentes obras de arte (quadros, esculturas, música, manifestações artísticas as mais diversas), “sentimos” quando o que vemos e ouvimos nos agrada ou não. O componente subjetivo está fortemente associado a um componente sentimental, que por sua vez se relaciona à estética. “Beleza”, diz o ditado, “está nos olhos de quem vê.”

Quando a subjetividade interfere na análise de dados e fenômenos científicos, a apreciação dos mesmos pode ficar comprometida devido a uma interpretação enviesada. O entendimento dos processos biológicos, em particular do funcionamento das células, durante um bom tempo sofreu a interferência da interpretação através da teoria do vitalismo. Embora esteja bem estabelecido o conhecimento atual sobre a célula de que esta é constituída de um pequeno volume de líquido contendo milhares de moléculas orgânicas e inorgânicas, que troca matéria e energia com seu ambiente, esta noção é bastante recente. Segundo Marc Fontecave (Université Joseph Fourier, Grenoble, França) ao se discutir sobre o conhecimento da vida em um contexto histórico, é possível se abordar este tema do ponto de vista vitalista e do ponto de vista reducionista.

Atualmente se considera que as estruturas e os processos químicos explicam muito bem a vida no seu âmago. Isso porque a química tem a capacidade de explicar tanto a “matéria com informação” como a “matéria de transformação”. Nesta última pode-se encontrar não somente moléculas orgânicas como também inorgânicas oriundas dos processos de transformação; no primeiro caso, encontram-se as moléculas envolvidas na manutenção da vida. Tal “reducionismo” é inerente à abordagem científica, quando se objetiva compreender sistemas tão complexos como são as células.

Os vitalistas defenderam, durante um bom tempo, a existência de uma “força vital” que seria a força motriz que impregnaria todos os seres e processos vivos. Por exemplo, o fisiologista francês Marie François Xavier Bichat (1771-1802) afirmou, no fim do século XVIII, que “A ciência dos corpos organizados não deve ser considerada da mesma forma que a ciência dos corpos inorgânicos (..) Fenômenos físicos e químicos obedecem às mesmas leis, mas existe uma grande lacuna entre estas leis e as leis da vida”. Por outro lado, pesquisadores como Justus Von Leibig (1803-1873), Marcelin Berthelot (1827-1907) e Claude Bernard (1813-1878) acreditavam que os processos vivos podiam ser entendidos apenas com base nas leis físicas e químicas.

A história da química biológica é marcada pela disputa entre vitalistas e reducionistas. Até quase o final do século XVIII, a distinção entre matéria viva e inanimada era desprovida de uma fronteira definida. Isso porque as ferramentas de investigação científica ainda eram muito limitadas. Ao mesmo tempo, as ciências mecânicas descobertas por Newton, da Vinci e outros, não serviam para descrever de maneira apropriada os sistemas vivos. Assim, postulava-se a existência de uma força espiritual que impregnava todas as formas de vida. O trabalho de pesquisadores químicos no final do século XVIII e no início do século XIX começou a modificar este quadro. Por exemplo, em 1783 Scheele (1742-1786) descobriu o ácido cítrico e a glicerina trabalhando com seu mentor, Bergman (1735-1784). Tais compostos foram denominados como sendo “orgânicos” para distingui-los dos inorgânicos, aqueles desprovidos de átomos de carbono. A síntese em laboratório dos compostos orgânicos era considerada como sendo impossível, pois era absolutamente necessária a atuação de uma força vital para a sua formação.

Porém, em 1828 Friedrich Wöhler (1800-1882), ao tentar produzir isocianato de amônia, aqueceu uma mistura de isocianato de prata e cloreto de amônia, obtendo uréia. A uréia já era conhecida desde 1783, quando foi pela primeira vez isolada a partir da urina animal. Foi a primeira vez que uma molécula orgânica havia sido preparada em laboratório, sem a “ajuda de uma força vital”. Em 1845 Herman Kolbe conseguiu sintetizar ácido acético a partir de carvão, hidrogênio e água na presença de sulfeto de ferro e cloro. Subsequentemente, Berthelot conseguiu sintetizar acetileno utilizando carbono e hidrogênio sob uma corrente elétrica. Os resultados obtidos por Wöhler, Kolbe e Berthelot foram o ponto de partida para o nascimento da química dos seres vivos, denominada de química biológica. Paralelamente, os pesquisadores alemães Schwann (1810-1882) e Schleiden (1804) estabeleceram a assim chamada “teoria celular”, de que todo e qualquer organismo vivo é constituído por células.

Curiosamente, ainda um bom tempo depois, Louis Pasteur (1822-1895) reavivou a teoria vitalista, ao utilizar seu preceitos para “explicar” a dissimetria molecular intrínseca às substâncias quirais, bem como para explicar os processos de fermentação microbiológica.

O conceito vitalista passou a ser fortemente questionado, e por fim abandonado, quando foram descobertas as enzimas e o DNA. Eduard Buchner (1860-19170, prêmio Nobel em 1917) descobriu que extratos de leveduras livres de células mantinham sua capacidade de converter glicose em álcool e dióxido de carbono, desqualificando a teoria vitalista de fermentação postulada por Pasteur. Mais tarde, em 1953, Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA, que explica, a nível molecular, sua capacidade de replicação, levando à geração de células de  gerações descendentes contendo o mesmo material genético que suas células predecessoras. A estrutura do DNA estabelecida por Watson e Crick explica suas propriedades físicas e químicas, bem como sua capacidade de replicação, mutabilidade e sua capacidade de expressar a informação genética.

Embora reducionista, a abordagem científica que hoje descreve os processos celulares passou a ser mais recentemente considerada de uma nova maneira, holística, mais completa – através de uma biologia de integração, denominada de “biologia de sistemas”. A biologia de sistemas explica que os organismos vivos são uma unidade na sua essência, e, apesar de poderem ser completamente descritos em termos de todos os seus componentes químicos e bioquímicos, tais componentes não explicam, per se, o funcionamento dos sistemas vivos. É necessário conhecer como estes componentes se relacionam de múltiplas formas, de maneira a compreender os processos biológicos – objetivo desta nova ciência, a biologia de sistemas, na qual toma parta a biologia química (que NÃO É o mesmo que química biológica).

Mesmo após ter sido cientificamente abandonado, o vitalismo ainda é adotado por correntes de pensamento político e anti-científico, muitas vezes de cunho religioso fundamentalista, e também por grupos que defendem a natureza de maneira extrema, dizendo que “compostos naturais não são químicos”. Tais ideologias podem ser facilmente conduzidas ao ostracismo se cientistas e educadores sérios trabalhassem de forma conjunta para prover uma melhor educação e conhecimento sobre os processos vivos para as pessoas em geral.
A descoberta que o genoma humano contém apenas 30.000 genes exemplifica muito bem o estado atual do conhecimento científico, uma vez que tal número não é aceito por diversas correntes ideológicas como sendo responsável para explicar a natureza humana. Todavia, a explicação científica para tal fato é que a complexidade dos organismos vivos resulta em mais do que a soma de seus componentes moleculares. Estes se relacionam através de processos emergentes e restritivos, através dos quais
surge a informação biológica e suas manifestações, que resultam na multitude de formas de vida que conhecemos hoje no planeta Terra.

ResearchBlogging.orgFontecave, M. (2010). Understanding Life as Molecules: Reductionism Versus Vitalism Angewandte Chemie International Edition DOI: 10.1002/anie.200906869

A ancestralidade única e comum de todos os seres vivos

Um dos conceitos mais importantes da Teoria da Evolução (TE) é o da ancestralidade comum universal (do inglês “universal common ancestry”, UCA). Tal conceito foi originalmente proposto por Darwin n’A Origem das Espécies,

“all the organic beings which have been lived on this earth have descended from some one primordial form”.

Tal assertiva foi, no mínimo, muito ousada. Para não dizer absurdamente ousada. Mas Darwin teve 25 anos para pensar neste assunto – 5 anos a bordo do Beagle, e mais 20 para escrever seu principal livro. Foi um tempo de reflexão considerável.

Apesar do conceito de UCA ter sido proposto há 150 anos, é amplamente aceito, e é uma das premissas mais importantes da TE. Além de ter sido corroborado inúmeras vezes, se fundamenta também por diversas constatações: (1) pela concordância entre filogenia e biogeografia; (2) bem como entre filogenia e os achados paleontológicos; (3) pelos achados de inúmeros fósseis que foram previstos que seriam encontrados; (4) pela classificação hierárquica de caracteres morfológicos; (5) pelas notáveis similaridades de estruturas biológicas que apresentam diferentes funções (homologias), e; (6) pela congruência constatada entre filogenia morfológica e filogenia molecular.

O conceito de UCA é ainda aceito pelo fato da constituição bioquímica dos seres vivos ser, na sua essência, a mesma: os mesmos açúcares, os mesmos aminoácidos, vários lipídios comuns, bem como seus “polímeros” correspondentes: proteínas, RNA e DNA. A “base bioquímica” da vida é uma forte evidência que esta se desenvolveu a partir de uma ancestralidade comum que deu origem a todos os seres vivos.

Muitas proteínas de organismos completamente diferentes apresentam alto grau de similaridade, a assim chamada homologia protéica (Osvaldo A. S. Filho e Ricardo B. Alencastro explicam o conceito em artigo publicado em português na revista Química Nova). Na homologia protéica, a similaridade na sequência de aminoácidos é verificada experimentalmente. Uma significativa similaridade na sequência de aminoácidos de proteínas de diferentes organismos vivos pode surgir não somente pela ancestralidade comum, mas também devido à convergência evolutiva associada aos processos de seleção natural, a restrições estruturais que acabam por influenciar a identidade da sequência de aminoácidos, bem como determinadas tendências nas mutações e até mesmo o acaso.

Até mesmo céticos que duvidam da UCA têm que admitir que proteínas universalmente conservadas, presentes em quase todas as classes de seres vivos, apresentam sequências muito similares, homólogas (homologia no sentido se similaridade estrutural devido à fidelidade ao arquétipo a partir do qual tiveram origem). Levando-se em conta que é possível se quantificar o grau de similaridade, ou homologia, entre proteínas, também é possível, a partir de uma tal quantificação, verificar o grau de homologia entre proteínas considerando-se o conceito UCA ou uma ancestralidade múltipla.

Esta foi a idéia de Douglas L. Theobald (Departamento de Bioquímica, Brandeis University).

Utilizando a teoria de seleção de modelos (TSM, do inglês, model selection theory), Theobald testou o conceito UCA sem assumir que a similaridade de sequência de aminoácidos em proteínas indicava uma relação genealógica. A TSM provê métodos para identificar uma possível hipótese como sendo a que melhor explica determinados dados experimentais. Para tanto, deve-se levar em conta que, quando diferentes modelos científicos podem ser empregados para uma determinada análise, dois fatores opostos devem ser considerados: concordância com os dados experimentais e parcimônia. A concordância de um modelo de análise com dados experimentais pode ser arbitrariamente melhorado ao se aumentar o número de parâmetros a serem considerados. Porém, tal procedimento carrega um problema intrínseco, que é o de aumentar sobremaneira a complexidade da análise. Por isso a parcimônia: quanto mais simples a análise dos dados, melhor.

Os métodos de seleção de modelos levam ambos fatores em consideração, e fornecem meios de balanceá-los estatisticamente, de maneira a encontrar uma hipótese que explique os dados ao mesmo tempo da maneira mais acurada e mais precisa. O uso de tais métodos permite a quantificação das evidências contra e a favor de modelos competidores (ou seja, que podem explicar o mesmo conjunto de dados, cada um de uma maneira diferente). Theobald aplicou três métodos de seleção de modelos para testar o conceito de UCA (LLR, log likelihood ratio; AIC, Akaike information criterion, e; LBF, log Bayes factor).

Utilizando os três modelos, Theobald analisou se os três domínios da vida na Terra, Eukarya (os eucariontes, organismos vivos com organelas diferenciadas com membranas), Bacteria (bactérias em geral, que são procariontes, ou seja, não apresentam organelas celulares diferenciadas) e Archaea (micro-organismos diferentes das bactérias, pertencentes a um grupo totalmente distinto), para ver se estes são melhor descritos de maneira relacionada, com uma ancestralidade comum (UCA), ou se estes três domínios da vida surgiram de maneira independente e paralela.

Theobald utilizou as seguintes premissas para sua análise:

a) sequências de proteínas mudam com o passar do tempo, através da substituição de aminoácidos de maneira gradual, que pode ser descrita com uma matriz 20 x 20 (uma vez que nas proteínas são observados 20 aminoácidos essenciais) definida por certas frequências equilibradas de aminoácidos e uma matriz simétrica de trocas de aminoácidos;

b) que novos genes geneticamente relacionados são gerados por duplicação durante a especiação em bifurcações ou duplicação de genes, e;

c) que substituições de aminoácidos não estão relacionadas em linhagens de organismos diferentes nem em sítios protéicos específicos.
Os testes de seleção de modelos avaliam como tais premissas explicam os dados experimentais obtidos quando se postula que vários sub-conjuntos de grupos taxonômicos e proteínas apresentam uma ancestralidade comum.

O que é interessante é que o conceito UCA possibilita uma origem múltipla para a origem da vida. Assim, se a vida teve vários “inícios”, necessariamente devem ter ocorrido sérias restrições ao longo da história evolutiva para que somente os organismos vivos resultantes de um único grupo destas origens tenham sobrevivido. Os outros se extinguiram. Uma outra explicação seria que múltiplas populações, com origens separadas e independentes, adquiriram capacidade de compartilhar material genético de maneira convergente, e consequentemente se tornaram uma única espécie, antes de divergir novamente.

Todos os modelos examinados por Theobald são compatíveis com origens múltiplas e independentes, de acordo com qualquer uma das duas hipóteses. Os testes foram aplicados para se discriminar entre uma ancestralidade múltipla e uma ancestralidade comum universal (UCA).

Porém, não se analisou uma origem da vida única ou múltipla. Tampouco se considera a UCA como sendo de um único organismo, ou indivíduo. Na verdade, a ancestralidade comum universal se refere à de um grupo ancestral único. Ou a uma popula

Tomates verdes, tomates vermelhos

Pelo menos no estado de São Paulo, onde se concentrou a maior parte da imigração italiana no início do século XX, molho de tomate é quase uma unanimidade. Em pizzas, massas, molhos, saladas, tomates são consumidos diariamente às toneladas. A produção anual brasileira é estimada em 3 milhões de toneladas, 77% da qual é para o consumo in natura – os 23% restantes são utilizados para a produção de polpa. Os principais estados brasileiros produtores de tomates são Goiás, São Paulo e Minas Gerais.

Tomates são ricos em carotenóides, tocoferóis e polifenóis. Os carotenóides são antioxidantes lipofílicos (solúveis em gordura), são precursores de substâncias aromáticas e exercem diversas funções bioquímicas nas plantas. Os tocoferóis também são antioxidantes lipofílicos. Já os polifenóis apresentam maior caráter hidrofílico (solúveis em água), principalmente quando ligados a moléculas de açúcares. Durante o processo de maturação, ocorrem diversas mudanças nos tomates que alteram sua composição de carotenóides, tocoferóis e polifenóis.

Em geral a concentração destas substâncias é maior em variedades selvagens (não cultivadas) de tomates. Observando variedades de tomates vermelhos, amarelos e verdes, verificou-se que as clorofilas a e b, bem como a feofitina, diminuem de concentração à medida que a variedade vermelha vai amadurecendo. Ao mesmo tempo, a concentração total de carotenos vai aumentando a partir do momento em que o amadurecimento se inicia até o seu ápice. Durante este processo, grandes quantidades de licopeno são sintetizadas e armazenadas na forma de cristais.

Já na variedade de tomate verde, tanto as clorofilas quanto a luteína como os carotenos diminuem de concentração durante o amadurecimento.

Tanto a espécie vermelha quanto a verde apresentam mudanças significativas a partir do início do amadurecimento. Ocorrem mudanças nas estruturas dos cloroplastos (organelas celulares responsáveis pela fotossíntese), e os genes responsáveis pela regulação da biossíntese de carotenos são ativados. Os tilacóides (sub-estruturas dos cloroplastos) incham, seus lipídios (gorduras) começam a se degradar, formando gotículas gordurosas com carotenóides livres ou ligados às gorduras. Este é um processo de senecência (envelhecimento) do tomate, que leva também a uma diminuição de sua quantidade de amido.

As mudanças que ocorrem no processo amadurecimento -> senecência levam a um acúmulo progressivo de licopeno, sendo que no tomate totalmente maduro a concentração de licopeno corresponde a 50% do total de carotenóides. Destes, a maior parte é de fitoeno, luteína e ß-caroteno. Como resultado da degradação do sistema de fotossíntese do tomate, ocorre uma mudança drástica na relação ß-caroteno/luteína: no início do amadurecimento esta relação é da ordem de 1,5, e no auge do amadurecimento esta relação se situa na faixa 0,37-0,69. Tais medidas podem ser úteis para se acompanhar, de maneira quantitativa, o processo de amadurecimento deste fruto.
No caso dos tomates verdes, estes não são desprovidos dos genes que regulam a formação de carotenóides. Porém, estes genes se encontram sub-expressos. Tal diferença também influencia no processo de maturação dos tomates verdes, que é fortemente influenciada pelo etileno, um hormônio vegetal. Em tomates verdes a produção de etileno é muito reduzida e, por isso, o fruto verde praticamente não amadurece.

À medida que o amadurecimento dos tomates acontece, ocorre uma diminuição significativa nos seus polifenóis.

Sumarizando, os frutos do tomateiro sofrem uma alteração bioquímica significativa durante seu amadurecimento, invertendo as quantidades de clorofila, tocoferóis, carotenóides e polifenóis. Quando ainda verdes, os tomates apresentam grandes quantidades de clorofilas, tocoferóis e polifenóis. Quando maduros, as clorofilas, tocoferóis e polifenóis praticamente desaparecem, restando grandes concentrações de carotenóides. Tomates vermelhos maduros apresentam significativa ação antioxidante, mas esta também se manifesta quando os frutos ainda estão verdes. Isso porque na fase verde a atividade antioxidante se deve aos polifenóis, mas na fase madura se deve aos carotenóides. No caso dos tomates verdes e amarelos, a atividade antioxidante se deve, sempre, à presença de polifenóis.

Tais mudanças influenciam diretamente a qualidade nutricional dos tomates e a maneira de consumi-los. Tomates verdes podem ser consumidos sem godura vegetal, como azeite de oliva. Já os tomates vermelhos devem ser consumidos com óleo vegetal, para um melhor aproveitamento de suas qualidades nutricionais.

Bon appetit!

ResearchBlogging.orgMeléndez-Martínez, A., Fraser, P., & Bramley, P. (2010). Accumulation of health promoting phytochemicals in wild relatives of tomato and their contribution to in vitro antioxidant activity Phytochemistry DOI: 10.1016/j.phytochem.2010.03.021

Epicuro e o questionamento do “argumento do design”

O argumento em favor de um “projeto” (o assim chamado “argumento do design”) para descrever os fenômenos naturais data da Grécia e Roma antigas. Filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero e Plutarco defenderam tais argumentos, sendo que seus principais questionadores foram Epicuro e Lucrécio. Segundo Sócrates, por exemplo, os seres humanos são produtos de um projeto divino, uma vez que apresentam os atributos de inteligência, e não de um processo acausal.

A concepção filosófica de Sócrates foi elaborada para rebater a visão de mundo de Demócrito e Leucipo, fundadores do atomismo, segundo a qual o mundo material e a vida resultam da existência de partículas muito pequenas, os átomos (tomo = divisão; a-tomo = indivisível). Da mesma forma como Sócrates, Platão, aluno do primeiro, promoveu uma filosofia criacionista. Platão afirmou que a ordem se originava a partir do caos através da matéria, e estabeleceu a idéia de um Demiurgo (uma entidade sobrenatural, divina), que seria a maior de todas as causas e responsável pela formação do mundo.

Depois de Platão, Aristóteles propôs que tudo no mundo tinha um propósito. Esta é uma noção particularmente importante para entender a idéia de um projeto (design), que requer um projetista (designer). “Teleologia” é o termo cunhado para exprimir a idéia de uma razão final, um propósito, um objetivo, e que permeia os argumentos em favor de um “design”. Desta forma, o “design” seria a maneira através da qual um “designer” (projetista) manifesta seus propósitos, seus objetivos. Logo, qualquer argumento criacionista traz teleologia na sua essência. Aristóteles é considerado o pai da teleologia.

Os Estóicos foram aqueles que apresentaram o “argumento do design” da maneira mais explícita. Propuseram uma visão teleológica de um deus providencial, a existência do qual podia ser verificada através da “evidência do design” na natureza. Cícero, em sua obra “A natureza dos deuses”, defende abertamente o argumento em favor do design.

Por outro lado, Epicuro e seus seguidores, principalmente Lucrécio, desenvolveram uma lógica argumentativa extremamente sofisticada para questionar o argumento do design. A filosofia de Epicuro procurou apresentar argumentos de que os fenômenos naturais estavam livres do destino estabelecido pelos deuses e pelo determinismo mecanicista. Epicuro e Lucrécio rejeitaram qualquer explicação teleológica para o mundo material e os fenômenos da natureza. Epicuro procurou descrever o mundo em termos de seus processos naturais e não em termos de suas causas finais, uma vez que estas não podiam ser conhecidas, mas apenas ser objeto de especulação. Segundo Epicuro, uma explicação científica deveria ser obtida a partir da experiência, e estar de acordo com os princípios gerais que regem os fenômenos naturais, sem que se procurasse inferir quais seriam as possíveis causas (desconhecidas) destes fenômenos (naturais) ou a razão pela qual estes existiriam ou seriam do jeito que são.

Sem os conhecer de maneira deliberada, Epicuro criou os modernos conceitos de emergência e contingência no cerne de sua argumentação sobre o mundo natural. Segundo Epicuro, “nada permanece sempre da mesma forma, tudo está em mudança. Tudo é transformado pela natureza e é forçado a seguir novos caminhos”. Ainda segundo Epicuro, “a ação [dos fenômenos naturais] decorre como resultado da organização”, segundo a qual “a organização cada vez mais complexa de formas de vida superiores permite o surgimento [emergência] de novas maneira de vida, novas funções e comportamentos” (Foster, Clark, York, Critique of Intelligent Design, páginas 55-56).

Epicuro forneceu bases para explicar o desenvolvimento da sociedade humana, como o surgimento da linguagem, o altruísmo e a aquisição do fogo. Rejeitou toda interferência divina na história da humanidade, e promoveu a liberdade de pensamento, livre da superstição e da religião de estado. Foi o primeiro filósofo que propôs a noção de incerteza nos rumos da natureza, e também foi o primeiro a entender a contingência nos fenômenos naturais. Ou seja, que estes fenômenos resultam de uma série de fatores, coincidentes, que dão origem a um fenômeno ou a um processo particular.

Em seu ensaio “Materialismo e Revolução”, Jean-Paul Sartre afirma que Epicuro foi o primeiro filósofo que promoveu a idéia de libertação do homem de seus medos e aprisionamentos, e o primeiro que tentou abolir a escravidão (J. P. Sartre, Literary and Philosophical Essays, página 207). Sempre procurou combater uma religião do estado, como proposto por Platão em suas Leis. Segundo Epicuro, os deuses não tinham relação com o universo natural, mas somente com um mundo sobrenatural, que não poderia ser explicado, uma vez que a razão humana não têm acesso aos desígnios divinos. Assim, Epicuro não era ateu. Apenas defendia a idéia que o mundo subrenatural de deus não poderia ser alcançado pela razão.

Epicuro foi o primeiro pensador a introduzir o conceito de “contrato social”, e a afirmar que a moralidade é moldada historicamente e determinada pela prática social humana.

Ao rejeitar o “argumento do design”, Epicuro se estabeleceu como sendo o opositor aos Platonistas. Por isso, foi condenado pela Igreja dos Pais por sua rejeição à divina providência e à imortalidade da alma. Epicuro é considerado como sendo o maior crítico do “argumento do design” na idade antiga. Dante Alighieri (1265-1321), em seu clássico “Inferno”, descreve Epicuro e seus seguidores condenados à tortura eterna em caixões abertos.

A partir do surgimento do cristianismo, as idéias de Epicuro foram sendo deixadas de lado, devido à dominação da igreja. Durante a Idade Média as idéias de Epicuro foram praticamente esquecidas, até a redescoberta do manuscrito “De Rerum Natura” em 1417, de autoria de Lucrécio, principal seguidor de Epicuro. As idéias de Epicuro renasceram com o Iluminismo, e se tornaram a base para o desenvolvimento científico. Filósofos como Francis Bacon, Pierre Gassendi, René Descartes, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, David Hume e Immanuel Kant incorporaram muito da filosofia de Epicuro quando da fundação da filosofia da ciência tal como é atualmente conhecida. Assim, Epicuro é conhecido como sendo o pai das ciências naturais empíricas.

Bibliografia consultada
J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.
J. P. Sartre, Literary and Philosophical Essays, New York, Criterion Boos, 1955.

A Natureza é Promíscua

Quando Lineu criou o sistema binário de classificação dos animais, ainda pensava que as espécies eram fixas, e não variavam. Este pensamento prevaleceu ainda durante um bom tempo, até que Darwin propôs que novas espécies surgiam a partir do processo de seleção natural, apesar de desconhecer qual o exato mecanismo (genético) de tal processo. Embora a transferência de informação entre gerações de uma espécie tenha sido descoberta por Mendel, somente com a descoberta do DNA e da sua função foi que o processo de transferência de informações entre gerações começou a ficar mais claro.

Com o surgimento das ciências genômicas e a descoberta da reação de polimerização em cadeia, foi possível se explorar a codificação genética de inúmeros organismos vivos, e também de entender como funciona a expressão genética em geral (ou seja, qual é a função de um determinado gene, e qual o processo ou característica fenotípica que ele regula). A partir deste momento a biologia sofreu uma verdadeira revolução e o volume de informações sobre regulação gênica de processos biológicos aumentou exponencialmente.

Uma das grandes questões que surgiram após a descoberta do DNA foi: será que organismos vivos podem trocar DNA entre si? Ou seja, trocar genes? Aos poucos se verificou que esta hipótese era verdadeira. Bactérias de diferentes espécies frequentemente trocam genes entre si. Mas tarde se observou tal fato para fungos também. O surpreendente foi a observação de troca de genes entre fungos e bactérias, uma vez que são organismos que pertencem a Reinos diferentes (apenas para lembrar, a classificação dos organismos segue uma hierarquia: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero, Espécie). Ou seja, são organismos muito distantes do ponto de vista evolutivo. Mais recentemente, se observou a troca de genes entre bactérias e plantas. Esponjas marinhas, por exemplo, são animais. Mas esta definição é um tanto complicada, porque determinados grupos de esponjas podem conter até 50% de sua biomassa de bactérias. 50%. Logo, é um animal ou uma colônia de bactérias?

Esta troca de genes entre espécies de diferentes grupos biológicos é chamada de transferência lateral de genes, ou transferência horizontal de genes, em oposição à transferência vertical de genes, que ocorre entre gerações de uma mesma espécie. Atualmente, se considera que a TLG é muito mais comum do que se pensava, e a árvore da vida de Darwin se transformou em uma rede de vida, na qual organismos vivos trocam genes de maneira promíscua.

Um exemplo recente foi a descoberta de que afídeos (insetos da ordem Hemiptera) apresentam capacidade de biossintetizar carotenos, e que os genes que codificam a biossíntese destes carotenos são muito parecidos com genes de fungos que também regulam a biossíntese de carotenos. Logo, tais organismos devem, em algum momento de sua história evolutiva, ter trocado genes que regulam a biossíntese de carotenos. Vamos à história.

Carotenos estão presentes em vários grupos biológicos da natureza: Archea (bactérias primitivas), bactérias, fungos e plantas. Por sua vez, os animais utilizam carotenos para diversas funções, como antioxidantes, como moduladores do sistema imune e como precursores para a formação de pigmentos da visão (em humanos, uma dieta muito pobre em carotenos causa uma doença chamada cegueira noturna). Mas, nenhum animal biossintetiza carotenos. Estes devem ser adquiridos através da dieta.

Os afídeos da espécie Acyrthosiphon pisum apresentam coloração amarela, alaranjada e até vermelha por conterem quantidades apreciáveis de carotenos. A coloração destes insetos está relacionada à sua predação (seus predadores têm preferência por afídeos de determinada coloração): afídeos verdes não são consumidos por predadores de afídeos vermelhos, e vice-versa. Os afídeos verdes apresentam alfa-caroteno, ß-caroteno e gama-caroteno, enquanto que os afídeos vermelhos apresentam os mesmos compostos e também toruleno e desidro-gama,psi-caroteno. A presença de tais carotenos em afídeos era creditada à sua dieta. Contudo, a composição carotenóide dos afídeos é significativamente diferente da composição carotenóide das plantas de que se alimentam, e tal hipótese passou a ser questionada. Uma segunda hipótese levantada é que os carotenos de afídeos teriam origem bacteriana, de seus endossimbiontes. Porém, a análise genômica dos endossimbiontes de A. pisum não indicou qualquer gene com homologia a genes que comumente codificam a biossíntese de carotenos (em plantas, por exemplo). Além disso, os endossimbiontes de A. pisum são transmitidos entre gerações pela fêmea, e, portanto, se determinada pelos endossimbiontes a distribuição de cores deveria seguir uma distribuição genética determinada pela mãe. Na verdade, as variações de cor entre os afídeos seguem uma distribuição mendeliana entre gerações, o que significa que os genes que codificam a biossíntese dos carotenos estão igualmente presentes nos machos e nas fêmeas dos afídeos.


Clones verdes (A), vermelhos (B) e clone verde mutante (C) obtido a partir do clone vermelho do afídeo A. pisum

Logo, os genes codificantes da biossíntese de carotenos em afídeos devem ser do genoma destes insetos.

Uma vez que o genoma de A. pisum já havia sido seqüenciado, a análise deste buscando genes codificadores de carotenos levou à descoberta de genes de carotenos muito similares de genes que codificam a biossíntese de carotenos em fungos. Assim, considerou-se a possibilidade da contaminação do DNA de A. pisum quando de seu seqüenciamento. Porém, a expressão de sete genes de A. pisum mostrou ser altamente reprodutiva em diferentes laboratórios de pesquisa. Logo, a contaminação também foi descartada.

Os dados obtidos indicam que houve transferência lateral de genes de um fungo para um afídeo em um evento único, seguido de duplicação do genoma do afídeo. Possivelmente, o doador do gene ancestral pode ter sido um fungo patogênico ou simbionte de afídeos, ou ainda um simbionte de plantas fonte de alimento de afídeos. A transferência lateral de genes também foi evidenciada para outra espécie de afídeo, Myzus persicae. O mais impressionante é que a variação de carotenos decorre de uma única substituição no gene, de guanosina para adenosina, que leva à substituição de um único aminoácido na enzima dessaturase carotenóide, de ácido glutâmico para lisina. Esta mudança altera totalmente o sítio ativo enzimático, já que o ácido glutâmico, como o próprio nome diz, é um aminoácido de caráter ácido, enquanto que a lisina é um aminoácido com caráter básico. Tal mudança no sítio enzimático determina a cor do caroteno produzido, e esta mutação está presente nesta enzima encontrada em bactérias, plantas e fungos. A mutação não permite mais a biossíntese de toruleno e desidro-gama,psi-caroteno, mas somente de gama-caroteno.


Árvores filogenéticas de enzimas que codificam a biossíntese de carotenos. (A) Dessaturases carotenóides e (B) cyclase carotenóide-sintase carotenóide. As sequencias ilustradas são de afídeos, bactérias, plantas e fungos. Não foram encontrados homólogos que codificam a biossíntese de carotenos em genomas de outros animais.

A história chega ao fim quando se verifica que a transferência lateral de genes codificadores da biossíntese de c
arotenóides de um fungo para um afídeo promoveu uma série de eventos, como duplicações genéticas, diversificação seqüencial e mudanças na expressão de cópias dos genes, que resultaram no surgimento de variantes de afídeos com diferentes cores. Suas diferentes cores promovem diferentes interações com o ambiente (absorção de luz) e com outros organismos (predadores). Levando-se em conta que carotenos são essenciais para muitas espécies de animais, é surpreendente que tal transferência lateral de genes não tenha ocorrido com mais freqüência. De qualquer forma, esta é a primeira aquisição de genes codificantes da biossíntese de carotenos por animais já documentada.

ResearchBlogging.orgMoran, N., & Jarvik, T. (2010). Lateral Transfer of Genes from Fungi Underlies Carotenoid Production in Aphids Science, 328 (5978), 624-627 DOI: 10.1126/science.1187113

A conservação da biodiversidade é possível?

Reportagem de Herton Escobar, publicada ontem no jornal O Estado de São Paulo com o título “Mundo falha em proteção a espécies”, comenta os resultados de 8 anos passados desde a realização da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), em 2002. O artigo de Escobar se fundamenta em outro artigo, publicado na última sexta feira na revista Science, “Global Biodiversity: Indicators of Recent Declines”. Com base neste, Escobar informa que o ritmo de perda de biodiversidade não só não diminuiu como AUMENTOU. O número de espécies ameaçadas de extinção passou de 11.000 para 17.000. Acertadamente, Escobar informa que, porém, tais números são uma estimativa bastante aproximada, pois não se conhece o número da maior parte das espécies biológicas da Terra, nem quais e quantas estão realmente desaparecendo.

Segundo Escobar, na crescente perda de diversidade biológica “pesam os impactos cada vez mais severos das mudanças climáticas, da pesca predatória, da disseminação de espécies invasoras, do desmatamento e do consumo de recursos naturais (como água e solo) por uma população global cada vez maior e mais consumista.”

Aparentemente o Brasil tem atuado de maneira relativamente positiva, criando novas áreas de conservação e reduzindo a taxa de desmatamento. Segundo a reportagem, o Prof. Carlos Joly, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, dá nota 7 para a atuação do Brasil junto à CDB.


foto: cortesia do Dr. Eduardo Hajdu (Museu Nacional, UFRJ)

O artigo de Escobar n’O Estado de São Paulo inclui uma análise de Matt Foster, Diretor da ONG Conservação Internacional e co-autor do trabalho publicado na Science. Segundo Foster, “Uma nova visão para a conservação da biodiversidade é necessária. Os líderes mundiais precisam ser mais ambiciosos nos seus esforços para proteger a natureza e todos os bens que ela nos provê via itens essenciais, como água limpa, ar puro, remédios e alimentos. Alguns países têm feito a lição de casa e estão adotando respostas adequadas, mas ainda há um longo caminho pela frente. O Brasil, por ser um dos países com a maior diversidade do mundo, tem a oportunidade e a responsabilidade de liderar o caminho.”

Este assunto já foi por mim abordado no blog “Química de Produtos Naturais” mais de uma vez (vejam aqui, aqui e aqui), e manifesto novamente aqui minhas observações. Na verdade, a questão da conservação da biodiversidade será realmente enfrentada somente quando o desenvolvimento econômico começar a ficar comprometido tanto para países desenvolvidos como para os países em desenvolvimento. Questões sobre conseqüências para a saúde, recuperação de áreas degradadas que têm impacto direto sobre as atividades humanas (como recifes de corais, por exemplo, que servem de berçário para várias espécies de peixes), sobre a importância em melhor se conhecer para se explorar de maneira racional os recursos naturais, são todas questões secundárias, que não estão incluídas na agenda da maioria dos governos e empresários. Mesmo daqueles que se dizem “defensores da preservação natural”.

A manutenção da biodiversidade, por si só, não interessa dirigentes políticos, empresários, banqueiros e outros setores da sociedade a favor do desenvolvimento a qualquer preço. A propaganda com “atitudes ecologicamente responsáveis”, “desenvolvimento sustentado”, “práticas verdes”, estão longe, muito longe de resultarem em ações efetivas que minimizem de fato a perda de biodiversidade e promovam não somente a manutenção como a recuperação de ecossistemas-chave para a manutenção da diversidade biológica. Tanto isso é verdade que os resultados estão disponíveis, no artigo de Escobar e no artigo publicado na Science.

Após 8 anos, o que se tem a dizer sobre a atual conservação da biodiversidade? Que é uma vergonha. Leia o artigo de Herton Escobar aqui.

ResearchBlogging.orgButchart, S., Walpole, M., Collen, B., van Strien, A., Scharlemann, J., Almond, R., Baillie, J., Bomhard, B., Brown, C., Bruno, J., Carpenter, K., Carr, G., Chanson, J., Chenery, A., Csirke, J., Davidson, N., Dentener, F., Foster, M., Galli, A., Galloway, J., Genovesi, P., Gregory, R., Hockings, M., Kapos, V., Lamarque, J., Leverington, F., Loh, J., McGeoch, M., McRae, L., Minasyan, A., Morcillo, M., Oldfield, T., Pauly, D., Quader, S., Revenga, C., Sauer, J., Skolnik, B., Spear, D., Stanwell-Smith, D., Stuart, S., Symes, A., Tierney, M., Tyrrell, T., Vie, J., & Watson, R. (2010). Global Biodiversity: Indicators of Recent Declines Science DOI: 10.1126/science.1187512

Algas de sushis só são digeridas por japoneses

Algas marinhas são plantas primitivas que diferem significativamente das plantas terrestres por vários motivos. Um deles é que todas (ou quase todas) as plantas terrestres apresentam lignina, um polímero tridimensional extremamente complexo, associada à celulose na parede das células vegetais. A lignina confere rigidez à parede celular das plantas terrestres, e forma boa parte da casca das árvores. Já as algas contém polissacarídeos complexos, em particular polissacarídeos sulfatados, que não estão presentes nas plantas superiores.

Os polissacarídeos das algas marinhas são de enorme importância econômica. A carragenana (ou carragenina), por exemplo, entra na composição de vários alimentos, como sorvetes, cerveja, patês, leite de soja, alimentos para animais de estimação, além de estar presente também em pastas de dentes e shampoos. Estes polissacarídeos são degradados por algumas espécies de bactérias marinhas heterotróficas, que produzem CAZimas (Carbohydrate Active Enzymes, CAZymes, enzimas que degradam carboidratos).

Algumas algas marinhas são atualmente muito consumidas em todo o mundo. Principalmente a alga nori (do gênero Porphyra), utilizada na preparação dos sushis. Outras algas marinhas que entram na alimentação dos japoneses são: a alga wakame (Undaria), que é utilizada principalmente na preparação de sopas; kombu (Laminaria japonica), uma alga bastante consistente, difícil de mastigar, que é utilizada na preparação de pratos como o feijão azuki, em sopas, ou seca como snack (salgadinho); e hiziki (Hijikia fusimorme), uma alga pequena, de sabor muito pronunciado, utilizada na preparação de saladas, ou de refogados com outros alimentos. Além dos japoneses em geral, as algas marinhas são muito utilizadas na dieta macrobiótica, introduzida no Brasil por Tomio Kikuchi há quase 50 anos. O consumo regular de algas na alimentação é extremamente benéfico para a saúde, já que elas contém uma enorme variedade de sais minerais, ausente na maioria dos alimentos de origem terrestre. Além disso, já foram isoladas substâncias químicas de algas que diminuem a pressão sanguínea. O consumo regular de algas é recomendado para melhorar a saúde da pele, do cabelo e das unhas.

Porém, o problema do consumo de algas é a digestão dos polissacarídeos sulfatados, já que estes polissacarídeos apresentam estruturas complexas e muito estáveis, devido à presença de grupos sulfato. Zobellia galactanivorans é uma bactéria marinha associada à alga vermelha Delesseria sanguinea (Rhodophyceae) que degrada ágar (outro polissacarídeo de algas) e carragenanas. O genoma de Z. galactanovirans foi seqüenciado e apresentou genes que codificam a síntese de cinco proteínas (Zg1017, Zg2600, Zg3376, Zg3628 e Zg3640) que são “parentes distantes” de outras enzimas, que também degradam ágar (ß-agarases) e carragenanas (ß-carragenases). Estas cinco proteínas são enzimas que apresentam o mesmo sítio ativo (o lugar da proteína responsável pela ação catalítica que a enzima exerce) de enzimas da família hidrolase glicosídica GH16.

De forma a caracterizar estas enzimas, pesquisadores da Université Pierre e Marie Curie (Paris, França) clonaram os genes extraídos de Z. galactanivorans em outra bactéria, Escherichia coli (o grande “curinga” da biologia molecular e da microbiologia). Após a clonagem e o crescimento de E. coli contendo os genes, os pesquisadores testaram a atividade hidrolítica de E. coli clonada em agarose e k-carragenana. Nada. Nenhuma atividade enzimática foi observada. Assim, extraíram outros polissacarídeos de outras algas, e utilizaram estes para testar as linhagens de E. coli clonadas. As linhagens de E. coli que produziram as enzimas Zg2600 e Zg1017 mostraram atividade hidrolítica sobre polissacarídeos de algas não-comerciais, e produziram o açúcar alfa-L-galactopiranose-6-sulfato. As enzimas Zg2600 e Zg1017 são, desta forma, as primeiras enzimas caracterizadas como ß-porphyranases (que degradam polissacarídeos de algas nori, Porphyra), e foram chamadas de PorA (Zg2600) e PorB (Zg1017).

Os autores do estudo conseguiram cristalizar e analisar as estruturas cristalinas destas duas proteínas utilizando análise por difração de raios-X.

Após caracterizar estas enzimas, os pesquisadores pesquisaram as estruturas destas ß-porphyranases em um banco de dados internacional de proteínas chamado GenBank. Observaram que as estruturas de PorA e PorB eram parecidas com estruturas de outras proteínas codificadas por genes presentes em bactérias marinhas, com uma exceção: a bactéria Bacteroides plebeius, originária do intestino humano. Apenas seis linhagens desta bactéria já foram isoladas, todas da microbiota (comunidade microbiana) de indivíduos japoneses. A bactéria B. plebeius contém um gene que codifica para a síntese da enzima ß-agarase, pertencente ao grupo das GH16. Porém, o genoma de 24 outras linhagens de Bacteroides diferentes não apresenta genes que codificam a síntese de ß-porphyranase ou de ß-agarase. Estes genes, que não codificam a síntese de enzimas do tipo GH16, foram caracterizados de Bacteroides isolados, na sua maioria, de indivíduos humanos ocidentais.

Ainda mais: genes que codificam a formação das enzimas PorA e PorB não foram encontrados em nenhuma linhagem bacteriana de origem terrestre. Logo, os autores verificaram que a presença destes genes, e, consequentemente, destas enzimas, está limitada a bactérias associadas a algas da costa do Japão (pois também não foram encontradas em bactérias oceânicas).

A próxima etapa foi analisar o metagenoma (genoma total) do intestino de 13 voluntários japoneses (me pergunto como isso foi feito… não está claro no artigo). Dentre estes, 7 apresentaram genes que codificam a síntese de porphyranases. Os autores também observaram a presença de tais genes em mãe e seu bebê já desmamado, fato que sugere a transmissão vertical (entre gerações) de Bacteroides plebeius. Por outro lado, a análise do metagenoma de 18 indivíduos norte americanos não indicou, em qualquer caso, a presença de genes que codificam a síntese de porphyranases ou agarases.

Ou seja, bactérias que produzem  enzimas que degradam polissacarídeos sulfatados são encontradas somente no intestino de japoneses, mas não de ocidentais. Levando-se em conta que tais enzimas estão ausentes no meio terrestre, presume-se que a aquisição de bactérias que digerem polissacarídeos de algas é relativamente recente dentre os humanos. Considerando-se que as algas marinhas já eram utilizadas como forma de pagamento de impostos no século XVIII, estas realmente devem ter sido utilizadas desde muito tempo no Japão para que ocorresse a aquisição de Bacteroides plebeius pelos japoneses. Além disso, a alga nori é a única fonte possível de polissacarídeos digeridos por estas enzimas. Ou seja, provavelmente estas bactérias devem ter sido adquiridas pelos japoneses através do consumo desta alga.

Então, você, ocidental, que gosta de comer sushi e outros pratos à base de algas, fique sabendo: você NÃO digere os polissacarídeos destas algas.

ResearchBlogging.orgHehemann, J., Correc, G., Barbeyron, T., Helbert, W., Czjzek, M., & Michel, G. (2010). Transfer of carbohydrate-active enzymes from marine bacteria to Japanese gut microbiota Nature, 464 (7290), 908-912 DOI: 10.1038/nature08937

Priorizando a educação de linguagem e de ciência

O editorial ultimo número da revista Science é dedicado ao tema “educação de ciência”, com ênfase do ensino de ciência na escola fundamental, aquisição da linguagem e capacidade de comunicação, de maneira a valorizar o ensino das ciências e a capacidade de expressão de forma conjunta. O editorial assinala que nos EUA esta é considerada uma proposta radical.

Aparentemente o ensino de ciências nos EUA se baseia em decorar fatos sobre o mundo natural e, com sorte os alunos realizam um ou dois experimentos. No caso de aulas de linguagem, os alunos lêem basicamente textos de ficção e redigem textos sobre suas leituras de maneira bastante “fossilizada”.

O número da revista Science indica que o ensino conjunto de ciência e língua promove um estímulo no aprendizado de ambos. Além disso, desenvolve o espírito crítico e a capacidade de formular questionamentos por parte do aluno. É importante que o aluno possa diferenciar textos informacionais (factuais) e ficcionais (narrativas), pois, em geral, texto científicos são do primeiro tipo. Sendo assim, é importante que os alunos possam conhecer este formato e apreciar sua leitura, para que possam ter um melhor preparo para ler e elaborar textos dessa natureza, que farão parte da futura vida profissional de muitos.

Re-pensar o ensino de ciências em salas de aula em conjunto com o aprendizado de comunicação e expressão deve muito provavelmente levar a um incremento do aprendizado de ciências para até 4 horas por semana. Em geral, na escola os estudantes dos EUA têm contato com ciências menos do que 1 hora por semana.

Uma segunda vantagem aparente de um sistema de tal natureza é que se poderia supor que favoreceria o desabrochar de capacidades individuais dos estudantes. Afinal a motivação e o interesse do estudante determinam, em boa medida, o bom desempenho dos mesmos nas disciplinas que cursam e na sua formação em geral. Adotando uma educação conjunta de ciência e linguagem/comunicação pode ser um desafio para os estudantes melhorarem suas capacidades de leitura e análise, de maneira a aumentar sua auto-confiança e conhecimento. Ou de melhorar sua capacidade de realizar manipulações experimentais em aulas de ciências. Penalizar alunos que não apresentam um bom desempenho em tais atividades pode ser extremamente danoso para seu futuro aprendizado e, consequentemente, para sua formação profissional. É melhor saber estimular em tais atividades.

O editorial pergunta quantos estudantes estão sendo mal aproveitados em escolas nas quais os professores avaliam a capacidade dos alunos em memorizar palavras científicas obscuras, e lendo somente estórias de ficção? Em vez disso, deve-se pensar em um ensino de ciências de qualidade, em conjunto com um ensino de linguagem e comunicação, através de um processo crítico e colaborativo.

Tais considerações parecem óbvias. Mas quão distantes também estão da nossa realidade brasileira, pergunto aos leitores? Os artigos deste número da Science sobre este assunto são indicados a seguir.

ResearchBlogging.orgAlberts, B. (2010). Prioritizing Science Education Science, 328 (5977), 405-405 DOI: 10.1126/science.1190788
ResearchBlogging.orgTaylor, J., Roehrig, A., Hensler, B., Connor, C., & Schatschneider, C. (2010). Teacher Quality Moderates the Genetic Effects on Early Reading Science, 328 (5977), 512-514 DOI: 10.1126/science.1186149
ResearchBlogging.orgOsborne, J. (2010). Arguing to Learn in Science: The Role of Collaborative, Critical Discourse Science, 328 (5977), 463-466 DOI: 10.1126/science.1183944
ResearchBlogging.orgPearson, P., Moje, E., & Greenleaf, C. (2010). Literacy and Science: Each in the Service of the Other Science, 328 (5977), 459-463 DOI: 10.1126/science.1182595
ResearchBlogging.orgKrajcik, J., & Sutherland, L. (2010). Supporting Students in Developing Literacy in Science Science, 328 (5977), 456-459 DOI: 10.1126/science.1182593
ResearchBlogging.orgvan den Broek, P. (2010). Using Texts in Science Education: Cognitive Processes and Knowledge Representation Science, 328 (5977), 453-456 DOI: 10.1126/science.1182594
ResearchBlogging.orgSnow, C. (2010). Academic Language and the Challenge of Reading for Learning About Science Science, 328 (5977), 450-452 DOI: 10.1126/science.1182597
ResearchBlogging.orgWebb, P. (2010). Science Education and Literacy: Imperatives for the Developed and Developing World Science, 328 (5977), 448-450 DOI: 10.1126/science.1182596
ResearchBlogging.orgHines, P., Wible, B., & McCartney, M. (2010). Learning to Read, Reading to Learn Science, 328 (5977), 447-447 DOI: 10.1126/science.328.5977.447
ResearchBlogging.orgSchleicher, A. (2010). Assessing Literacy Across a Changing World Science, 328 (5977), 433-434 DOI: 10.1126/science.1183092

Prêmio Bê Neviani – Porque não basta divulgar, tem que dispersar!

Depois do recente anúncio feito pela vetusta Biblioteca do Congresso (Library of Congress), comunicando que arquivará todas as mensagens públicas postadas no Twitter desde o início do serviço de microblog, não restam dúvidas de que esta mídia social veio para ficar.

Segundo os cofundadores Bizz Stone e Evan Williams, hoje o Twitter tem 105 milhões de usuários registrados, e 300 mil novos usuários ingressam no serviço a cada dia. Seu crescimento médio foi de 1.500% por ano, desde a fundação da “Twitter Inc” em março de 2006. O serviço atende a 19 bilhões de buscas por mês. Apenas comparando, o Google atende a 90 bilhões no mesmo período.

Não se pode negar – o Twitter é uma ferramenta 2.0 por excelência: seu conteúdo é gerado e compartilhado pelos próprios usuários. A dinâmica do microblog funda-se primordialmente na atuação dos tuiteiros, que seguindo e sendo seguidos, dispersam conteúdos virtuais.

A ação de tuiteiros que dispersam conteúdos relevantes no universo tuitiano merece destaque e deve ser aplaudida. Foi essa premissa que inspirou a criação do Prêmio Bê Neviani, reconhecendo a incrível capacidade de dispersão de tuítes com conteúdo diversificado, como cultura, ciência, tecnologia, notícias e muito mais, do perfil @Be_neviani.

Nunca houve uma tuiteira como @Be_neviani

Hoje, dia 22 de abril de 2010, estamos lançando o Prêmio Bê Neviani: porque não basta divulgar, tem que dispersar

Regulamento:

– O Prêmio Bê Neviani é aberto a todos os tuiteiros que tenham blogues de conteúdo informativo: ciências, cultura (literatura, cinema, artes, fotografia, música, etc), filosofia, notícias, dicas e assemelhados.

– Os blogues participantes da campanha tuitarão, no período de 23 de abril de 2010 a 23 de maio de 2010 links para seus posts, publicados em qualquer data e com qualquer temática, obrigatoriamente usando a hashtag #PremioBeNeviani e o encurtador de links Bit.ly.

– No período de vigência da campanha, os retuítes (RTs) que os links desses posts receberem serão computados para a apuração de dois ganhadores, um em cada uma das duas seguintes categorias:

Categoria 1: blogueiros – o vencedor será o blogueiro cujo post recebeu mais RTs. O prêmio dessa categoria será o livro “Criação Imperfeita”, de Marcelo Gleiser.

Categoria 2: tuiteiros – o vencedor será o tuiteiro que deu RTs em qualquer dos tuítes postados durante a vigência da campanha. Essa categoria terá sua apuração por sorteio. O prêmio para essa categoria será o livro “Além de Darwin”, de Reinaldo José Lopes.

O anúncio do prêmio será em 30 de maio de 2010, pelo Twitter.

Para participar, envie um tuíte para as administradoras @sibelefausto ou @dra_luluzita, ou então comente aqui, que entraremos em contato.

Abaixo, segue a relação dos blogues e tuiteiros participantes. À medida que mais blogueiros aderirem a essa campanha, essa listagem será atualizada.

Blog – Blogueiro-tuiteiro

100nexos @kenmori

Amiga Jane @lacybarca

Blog Bastos @bastoslab

CeticismoAberto @kenmori

Chapéu, Chicote e Carbono 14 @reinaldojlopes

Ciência na Mídia @ciencianamidia

Discutindo Ecologia @brenoalves e @luizbento

Dicas Caseiras para quem mora só @uoleo

Ecce Medicus @Karl_Ecce_Med

Efeito Azaron @efeitoazaron

Ideias de Fora @IdeiasdeFora

Joey Salgado… mas bem temperado @joeysalgado

Karapanã @alesscar

Maquiagem Baratinha @aninhaarantes

Meio de Cultura @samir_elian

Minha Literatura Agora @jamespenido

O Amigo de Wigner @LFelipeB

O divã de Einsten @aninhaarantes

O que todo mundo quer @desireelaa

Química Viva @quiprona

Quiprona @quiprona

Rabiscos @skrol

Tage des Glücks @nataliadorr

Tateando Amarras @eltonvalente

Terreno Baldio @lacybarca

Twiterrorismo @aninhaarantes

Uma Malla pelo Mundo @luciamalla

Uôleo @uoleo

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