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Atila Iamarino Meu nome é Atila Iamarino, sou biólogo e doutorando em evolução de HIV-1. Apaixonado por ciência e viciado em informação.

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    Esta obra de Atila Iamarino é licenciada sob Creative Commons by-nc-sa.



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  • julho 21, 2010

    Pólipos artísticos

    Category: videos

    Já me disseram que muitas das cores que nos impressionam em animais marinhos não existem de verdade. Ou melhor, existem, mas normalmente não são visíveis, já que a luz vermelha é logo barrada e tudo fica azulado.
    Já que muitos tons não estão lá e vemos graças à iluminação levada pelo mergulhador, por que não experimentar com outras cores e ver os pólipos (parentes da água-viva que ficam parados e podem formar corais verdadeiros) de uma maneira diferente?

    E o Vimeo segue se mostrando uma boa fonte de vídeos mais artísticos. Para quem gostou e tem 9 minutos para ver mais um, recomendo o de baixo.

    julho 19, 2010

    Seleção de posts no ResearchBlogging

    Category: sites

    researchblogging.jpg

    Atualizando minha leitura dos posts do ResearchBlogging em português, me deparei com alguns textos que recomendo:

    No Psiquiatria e Sociedade
    O poder da internet (e dos peitos grandes) [depois da atenção que deram à Larissa Riquelme nesta Copa, uma demonstração do que um par de glândulas pode fazer]
    Auto-escola à noite é ignorância científica [queria eu poder citar um artigo toda vez que quisesse contestar alguma besteira]

    No Gene Repórter
    Free Leviathan: parente da cachalote comia mesmo baleias? [sobre o novo fóssil de baleia encontrado, com dentes de até 36 cm !

    No Quiprona
    O que formigas têm a ver com Velcro? [sobre as formigas da espécie Azteca andreae que se associam à embaúba e ficam em grupo presas às folhas da planta para atacar presas milhares de vezes mais pesadas. Infelizmente, ele não colocou o vídeo que disponibilizo abaixo para ilustrar o post].


    julho 16, 2010

    13 programas grátis para organizar sua vida no escritório e no laboratório

    Category: downloads

    Criação

    1 - Para arquivos de texto, desenhos, formulários, apresentações e tabelas: Google Docs

    google-docs-logo.jpg Gostaria muito de poder recomendar aqui o OpenOffice, mas o travamento irritante dele, (junto com meu sistema inteiro em alguns casos) não me permite. Parta direto para o Google Docs. Com editor de texto, de apresentações, criador de desenhos e de tabelas, embora tenha funções mais limitadas do que os concorrentes de desktop, algumas vantagens o tornam especialmente atraente. Principalmente porque os arquivos estão sempre lá, disponíveis. Muito bom para salvar imagens importantes, como um comprovante de endereço escaneado que você precisa mandar sempre por e-mail, ou seu currículo.
    A edição múltipla de arquivos em tempo real é a que mais me atrai, ótima para corrigir artigos ou desenvolver apresentações, não só é possível saber o que os outros autores com quem o arquivo foi compartilhado estão fazendo na hora (é bem estranho no começo), ainda há um espaço para chat ao lado. Aliás, compartilhar arquivos no Docs é muito simples, e acaba com o problema de cada um ter sua versão do arquivo. Só é um tanto complicado para recuperar versões anteriores.
    Ele pode servir como um disco virtual, e aceita qualquer tipo de arquivo, com a limitação de 1 giga de espaço grátis. Também aceita e converte vários formatos: .doc, .docx, .odt, .sxw, .rtf, .txt, .htm, .html, .ppt, .pps, .xls, .xlsx, .ods, .csv, .jpg, .gif, .png e .pdf. Sistema operacional: Todos.
    Acesso aqui.

    Bônus: OffiSync, um plugin do MsOffice que permite salvar e compartilhar arquivos com o gDocs, além de dar uma bela ajuda para inserir imagens da internet no texto direto do Office. Perfeito para o backup da sua tese, sem que você tenha que se preocupar. 

     2 - Leitor de PDF: Foxit 4
    foxit.jpg
    Bem mais leve e rápido do que o elefante da Adobe, e com suporte dentro do Internet Explorer e do Firefox sem deixá-los tão carregados, o Foxit Reader é uma boa alternativa. Possui as mesmas funções, anota e marca PDFs. A Foxit também disponibiliza um editor e criador de PDFs, mas a versão grátis marca todas as páginas. 
     Sistemas operacionais: Windows, Linux e Mobile. 
     Download aqui.   

    3 - Converter PDF para Doc: PDF-to-Word pdf_to_word.jpg Se você quer converter um arquivo PDF para Word, o PDF-to-Word é uma ótima solução. Um site bem simples onde você sobe seu arquivo PDF, escolhe Doc ou Rich Text Format (RTF) e recebe por e-mail o arquivo convertido. Os resultados com arquivos de Word podem ser muito fiéis, normalmente eles mantém formatação, figuras e inclusive tabelas e o layout são adaptados.
    Segundo os autores do site, os arquivos são deletados imediatamente após a conversão e o envio, e o e-mail não é vendido nem usado para envio de material não solicitado. 
    Sistemas operacionais: Todos. 
    Site aqui.

    4 - Criar PDFs em qualquer programa: CutePDF Writer  

    cutepdf_thm.jpg Sempre que quero garantir que minha apresentação vai ser aberta em outro computador, e que não vai ser mastigada e cuspida por uma versão diferente do PowerPoint, ou pior ainda, do OpenOffice, crio um PDF para ter certeza de que tudo estará no lugar. Tenho calafrios quando lembro das surpresas que já tive com o OpenOffice, tanto criando uma apresentação nele e abrindo em outro lugar quanto o inverso. 
     O CutePDF Writer é bem simples. Ele instala uma impressora virtual no seu Windows, para onde você pode mandar imprimir qualquer coisa (sei que no Mac isso é padrão, mas aqui é luxo). Boletos bancários, comprovantes de internet, aquele texto que você não quer que seja alterável, ou qualquer arquivo que você tem dúvidas quanto à cara que ele terá quando aberto em outro lugar. 
    Sistema operacional: Windows. 
    Download aqui.

    5 - Editar imagens: Gimp

    Gimp.jpg Dificilmente alguém no laboratório precisa editar uma imagem com muitos recursos -- se você precisa de Photoshop para acertar uma imagem para o artigo, tem algo errado -- e o Adobe Photoshop além de ser caro como se alguém pagasse, ainda é bastante pesado. Para a maioria das coisas, acertar tamanho, resolução e cortar imagens remover bandas do gel, o Gimp é mais do que suficiente. Além de contar com um bom repositório de plugins, com pincéis, efeitos, filtros e outros para os mais empolgados. 
    Sistemas operacionais: Todos.
    Download aqui.

    6 - Criar desenhos: Inkscape (ou PowerPoint)
    inkscape.jpg Com um pouco de treino, e talvez a ajuda de alguns tutoriais no youtube, o Inkscape dá conta de criar imagens vetoriais bem facilmente. Bom para inserir setas, barras e desenhos em figuras ou gráficos. Infelizmente, ele não possui a capacidade do Illustrator de importar gráficos copiados do Excel como desenho, que facilita absurdamente a edição. Por outro lado, possui uma ferramenta bem legal que é a Trace Bitmap, que converte uma imagem para vetorial com base em sombras, cores e contrastes. 
    Sistemas operacionais: Todos. 
    Download aqui

    Bônus: Se você não quer ter que aprender a usar o Inkscape ou seu orientador mandou um arquivo .ppt e falou "transforma isso numa figura pro artigo", sei de um tutorial e um artigo (PDF no link) sobre como fazer figuras em alta resolução no PowerPoint. Por sua conta e risco.


    Organização

    7 - Encontre seus arquivos: Google Desktop
      google_desktop.jpg Se você tem milhares de tabelas, arquivos de texto, pdfs e outros e se perde no meio de versões e pastas onde eles podem estar, faça como eu. Instale o Google Desktop, deixe ele rodando por horas e comendo alguns gigas do seu HD para indexar todos os arquivos e relaxe. Ou desabilite aqueles que você não quer que sejam indexados, e aí relaxe.
    Quando você precisar daquele texto sobre hepatite (no meu caso, pelo menos), aquela tabela com uma coluna comportamentos de risco ou um artigo que trata de sexual networks, basta buscar pelo Google Desktop que ele encontra as palavras dentro dos arquivos, além de buscar nos seus e-mails. Muito melhor do que a busca do Windows Explorer, ou do Nautilus (os dois que já usei). 
     Ele também aceita plugins com relógio, agenda e blábláblá, que não fazem a menor falta. Mas a busca ainda vai salvar sua pele. Acredite.
    Sistemas operacionais: Todos.
    Download aqui

      8 - Organize seus PDFs: Mendeley mendeley.jpg Para quem possui um monte de livros baixados artigos no computador, o Mendeley é muito bom. Principalmente por buscar e indexar os PDFs automaticamente, acertado nome e autor na maioria das vezes. Mais um programa que salva seus arquivos na web e permite o acesso de várias máquinas. 
    Ele permite marcar e anotar PDFs, o que é uma ajuda tremenda quando se tem que organizar referências para relatório, tese ou escrever um texto. Pode ser integrado ao navegador web com o botão de favorito Import to Mendeley. Também possui um gerador de citações que inclusive exporta para o Word, mas não acho o ponto forte. 
    Outra coisa legal é a rede social que ele monta. Você pode criar um perfil e compartilhar os seus artigos, bem como buscar pessoas com interesses em comum. Uma boa fonte de referências inesperadas e interessantes, para quem ainda aguenta mais uma rede social. 
    Sistemas operacionais: Todos. 
    Download aqui

    Bônus: Para quem já teve a aflição de achar o artigo/protocolo/conteúdo que precisa em um livro do Google Books, mas não tem o menor acesso ao livro em si e quer arriscar:5 maneiras de salvar um livro do Google Books.

    9 - Organizador de referências: Endnote Web ENWeb-tag.gif Uma versão gratuita e online de um dos organizadores de referência mais usados, o Endnote, o EndnoteWeb permite até 500 referência por usuário. Por mais que existam outras alternativas também grátis, ainda acho o Endnote o organizador mais prático para buscar e formatar referências e no Word.O EndnoteWeb trabalha normalmente com o plugin do Office, permite milhares de formatos de referência e permite o modo "apenas texto", que transforma as referências em texto puro e permite que seu orientador revise seu texto sem nenhuma perda de formatação.
    Sistemas operacionais: Todos. Plugins: Office para Windows e Mac.
    Acesso aqui.


    10 - Organizador de referências no navegador: Zotero zotero_logo.gif O Zotero é um plugin extremamente útil do Firefox. Permite capturar referências do PubMed e da maioria das revistas, captura páginas da Wiki, vídeos, imagens, baixa os artigos e os indexa à referência, salva páginas e artigos para visualização offline e permite anotação. E ainda sincroniza entre diferentes computadores.
    Ele faz a parte de navegação na web que sinto falta tanto no Mendeley quanto no Endnote. Acho complementar aos dois -- uso o Mendeley para gerir PDFs e o Endnote referências -- e me ajuda muito a salvar as referências que uso aqui no blog. Também é bem prático para exportar e importar bibliotecas, e se integra muito bem a outros programas. Só não queira ver como/onde ele salva os arquivos indexados, é muito mais fácil acessá-los pelo programa do que na pasta. Só tem ficado abandonado por conta da minha recente preferência pelo Chrome. 
    Sistemas operacionais: Todos, dentro do Firefox.
    Download aqui

    11 - Salve seus arquivos e acesse em qualquer lugar: Dropbox
    dropbox.jpg O Dropbox seria mais um (ótimo) serviço de hospedagem de arquivos se não fosse pelo seu cliente desktop. Ao instalar o seu programa, em Windows, Mac ou Linux, você passa a ter uma pasta onde o que salvar é automaticamente enviado para a web. Assim você pode salvar os arquivos que quer compartilhar entre máquinas ou com outras pessoas em uma pasta sem ter que se preocupar em dar upload.
    É uma ferramenta muito boa para escrever um artigo, por exemplo, você salva o texto e as figuras em uma pasta e a compartilha com os outros autores (que nem sempre usam o Google Docs) e todos alteram as mesmas fontes. Com a vantagem de poder acessar versões anteriores via web, elas ficam salvas lá por cerca de um mês. 
    Ele também permite que você gere um link de download de arquivos que pode ser usado mesmo por quem não tem conta Dropbox, matando o problema de anexos que são maiores do que o e-mail permite. Outros usos legais para o compartilhamento de arquivos entre máquinas é salvar registros que você quer manter em diferentes locais, como playlists do iTunes, ou históricos de conversas do Pidgin
    Como contra fica o tamanho da hospedagem, que começa em 2gb e cresce até 8gb conforme você indica outros usuários para o serviço (alguém quer uma?). Mais do que isso é possível, pagando anualmente.
    Sistemas operacionais : Todos. 
    Download aqui
     
    12 - Salve imagens, textos e qualquer coisa da web: Evernote
    evernote_icon_2561.jpg   Por conta de Dropbox, Mendeley e GoogleDocs, raramente preciso do Evernote. E o fato de ele não ter um cliente desktop para Linux também atrapalha. Mas ele se revelou um ótimo jeito de manter minha ata de laboratório, anexo as imagens dos meus géis e anoto protocolos e resultados obtidos, sem precisar imprimir nada. 
    Bom para guardar qualquer coisa encontrada na internet, arquivos, notas fiscais (fotografo com o celular e salvo lá, bastante prático) e salvar documentos, permitindo indexação por tags ou textos. 
    Mais um que tem todas as funções de compartilhar com outros usuários e entre máquinas. 
    Sistemas operacionais: Todos pelo navegador, Mac e Windows no desktop e Mobile. Download aqui
      
    13 - Organize sua agenda, sua lista de tarefas e contatos em casa, no trabalho e no celular: Google Agenda, Notas e Contatos
    GoogleCalendarLogo.png Integrados à sua conta Google, são muito práticos. O Google Agenda tem um plugin no Gmail labs que permite visualizar a agenda dentro do e-mail, além de uma série de tipos de notificação (até via celular, para quem tem TIM) e compartilhamento de eventos com outros usuários Google. 
    Os serviços de Notas e Contatos não tem nada de tão especial, mas são muito bons por permitirem sincronização de contas (a Agenda também) com quase qualquer tipo de celular. Ou via 3g/Edge nos celulares com internet, ou via PC, como o Nokia PC Suite. Quem já teve um celular roubado/quebrado sabe a diferença que faz ter os contatos salvos em outros locais. E a agenda sincronizada permite criar eventos no celular e receber o aviso por e-mail, ou configurar o smartphone para avisar sobre reuniões e outros (realmente preciso usar mais esta ferramenta). 
    Também são compatíveis com programas como o Outlook e o Thunderbird (que adoro, mas consome memória demais), e fazem a sincronização de contatos facilmente. 

    Menção honrosa: LaTeX Muitos cientistas usam LaTex através de vários editores para escrever e organizar publicações, artigos, livros, apresentações e não sei mais o quê. Ainda não parei e tentei aprender, então não sei dizer por experiência própria. Mas vários já me recomendaram usar LaTeX para criação de textos. Então, para os interessados, vejam o comparativo na Wiki de editores de LaTeX.


    E você, o que usa e recomenda?

    julho 13, 2010

    Ele gostava era de amarelo

    Category: humor

    Sempre desconfie de um polvo que mostra a inteligência que eles têm. Os realmente inteligentes estão arquitetando a dominação mundial que o Bessa previu, o polvo Paul foi uma mera distração para nos fazer confiar nas decisões que eles tomam.

    polvo_paul.jpgVia 9gag.

    [update] Como o Kentaro apontou, parece que o Paul é daltônico, e não poderia escolher a cor amarela. E como o Pedro comentou, a Sérvia não tem amarelo na bandeira e foi escolhida. Vendo os resultados dele na Wiki, me parece que ele sempre escolhia a bandeira da Alemanha, talvez por condicionamento, e se confundiu com as bandeiras da Sérvia e da Espanha.
    E respondendo à Rosiris, polvos podem sim ser condicionados. Embora o mais comum seja eles condicionarem tratadores a dar comida mais frequentemente dentro de caixas com listras engraçadas.

    julho 12, 2010

    Ciência, ética e suas consequências

    Category: doenças

    Depois de mostrar na prática como a informação científica pode ser distorcida ao ser transmitida, acompanhem o peso ético que um resultado pode ter.

     

    ethics 

     

    Nosso artigo sobre Hepatite C ainda está rendendo discussões. As maiores e mais inflamadas foram levantadas por portadores do vírus da Hepatite C que não gostaram de ver a associação com o número de parceiros reportada na Folha de São Paulo - falo da FSP e não do artigo pois, como expliquei aqui, a maioria sequer leu o artigo original, e a Folha atinge um público leigo muito maior.

    Para mostrar o tipo de consequências que um artigo pode ter, e a ética envolvida em uma pesquisa e sua divulgação, vou aproveitar a situação que passei (passamos na verdade, todos os autores).

     

    A reação

    Para colorir o que estou falando e dar uma medida do tipo de impacto que um artigo científico pode ter na vida das pessoas, e do tipo de portador de HCV que se sentiu ofendido, vou usar alguns trechos de comentários e textos de portadores deixados aqui no Rainha e em outros locais (grifos meus):

     

    Do Hepato.com (escrito por Carlos Varaldo):

    É inevitavel o prejuizo enorme que tal divulgação vai causar no estigma e discriminação aos infectados com hepatite C.

     

    Dos comentários aqui no blog:

    Carlos Varaldo - Já a PloS ONE e considerada nos meios científicos como um jornal de classificados que circula somente na Internet, tal qual um Blog. É só pagar os 1.350.- dólares que sem nenhum critério o artigo será publicado. É bom para o ego dos pesquisadores, mas não é levado em consideração pela comunidade cientifica.

    A palavra "promiscuidade" por você utilizada na divulgação para vender a matéria ao jornal costuma ser usada num sentido depreciativo. Rotular o comportamento sexual de uma pessoa como promíscuo é considerado ofensivo. Não acredito que essa seja a ética ensinada e adotada na USP e sim uma colocação de quem acredita ser um DEUS superior.

    Segundo os dicionários promiscuidade (u-i) s. f.: Mistura confusa e desordenada. Reunião confusa de pessoas em que predominam as de baixa classe. Assim, publicar no PloS ONE também é um ato prosmicuo por parte dos pesquisadores.

    Fico feliz de ver que um dos participantes da pesquisa, o biólogo Atila Iamarino publica no blog a mesma pesquisa, mas respeitando a ética e sem criar fantasias sexuais reprimidas

     

    Joel Martini de Campos - Também um erro gravíssimo é informar tratar-se de doença incuravel pois para o genótipo 1a a CURA ocorre em 52% dos pacientes e para os demais genótipos e de quase 70% a CURA, portanto é curavel em parte.Sou portador de hepatite C, genótipo 1a, descoberto em 1991 quando da doação de sangue para a filha do Dr. Villa que estava com câncer no Hospital Albert Einstein e era qualificada ainda como hepatite não A e não B.

     

    sonia maria - Sou Enfermeira Sanitarista, tenho 65 anos, há 37 anos me contaminei(?) hoje diagnosticado Hepatite C, após transfusões sanguíneas em 1973 e 1974, trabalhadora de Saúde nos Programas de AIDS, Hepatites, emergencias Obstetricas, etc. Sem fator de risco sexual , nunca fiz tatuagens, piercing, ou usei seringas em rodas de drogadição...

     

    Obviamente, muitos portadores se sentiram profundamente ofendidos com o artigo, principalmente por conta do noticiamento dado a ele. Os comentários de Carlos Varaldo, completamente dirigidos aos autores do artigo e à revista PLoS One - que possui um excelente corpo de revisores científicos e um índice de impacto de 4,3, maior do que muitas outras revistas, diga-se de passagem - e não aos dados, "respeitado a ética e sem criar fantasias sexuais reprimidas", mostram o quão pessoal foi a ofensa.

    Não culpo a Folha de São Paulo, nem a jornalista Sabine Righetti por isso, o que eles fizeram foi escrever com base nas informações que nós passamos. O problema para mim é a interpretação que as pessoas fizeram do artigo. E acredito que independente de como a reportagem fosse escrita, citar a relação entre um subtipo e pessoas com muitos parceiros ao longo da vida inevitavelmente daria margem para este tipo de interpretação.

    Agora faço a pergunta: se a transmissão sexual de Hepatite C é bastante controversa, e só foi demonstrada em alguns casais heterosexuais e em HSH (homens que fazem sexo com homens) praticantes de sexo de alto risco (que envolve até troca de sangue), há a necessidade de tratar disto em um artigo? Se usar o número de parceiros como medida para delimitar grupos inevitavelmente vai levar a interpretações errôneas, vale a pena tratar disso em um artigo?

     

    O papel da ciência

    Não acho que a ciência deva abordar todo e qualquer problema. Certas situações são complicadas demais para compensarem os problemas que certos estudos podem gerar, seja por que os problemas são muito grandes, ou por que os benefícios que podemos extrair de tais experimentos não são motivo suficiente. POr esta área passam vários dos dilemas envolvidos no sequenciamento de larga escala do genoma e estudos de associação entre genes e características como doenças ou quociente de inteligência. Então convido vocês a entenderem o tamanho das consequências do que afirmamos no artigo, para avaliar o que está em jogo.

     

    Antes de tudo, revejam o gráfico de crescimento dos subtipos:

     

    grafico

     

    Reparem no crescimento do subtipo 1a (em vermelho) de HCV após 1993, quando começam os testes em bolsas de sangue. Agora revejam o gráfico sobre número de parceiros e comportamento de risco.

     

    grafico  

    Basta olha para os gráficos acima para entender como a indignação dos portadores é cruel, por ser desnecessária acima de tudo. O comportamento dos indivíduos com mais de 50 parceiros é o marcado em barras escuras à direita. Menos de 20% deles fez transfusão antes de 1993, ou seja, mais de 80% sequer teve a chance de contrair o vírus por bolsas de sangue. A imensa maioria é do sexo masculino, dos quais 1/3 faz sexo com outros homens. E mais de 70% é já teve DSTs, o que é bastante explicável quando vemos que muitos nunca usaram camisinha. Justamente o tipo de paciente de risco que outros trabalhos relacionaram com a transmissão sexual - sim, há trabalhos que reportam a transmissão sexual do HCV, e justamente neste grupo de risco. Este é o perfil dos portadores de Hepatite C no Brasil?

    Obviamente não! Nem afirmamos isso. As sentenças "há 37 anos me contaminei", "descoberto em 1991", são exemplos de quem se sentiu ofendido pela reportagem, e eles não são os portadores que estamos alertando com o artigo. Eles foram contaminados por transfusões ou objetos contaminados ainda antes de 1993. Muito provavelmente estão na esquerda do gráfico de número de parceiros, como a imensa maioria das pessoas.

    O alerta não é dirigido aos portadores contaminados há 20 ou 30 anos, provavelmente pelo subtipo 1b, e sim para os contaminados pelo subtipo mais recente, e pessoas com muitos parceiros. Mas, se é uma parcela pequena, devemos expôr os dados e fazer este tipo de alerta? Qual a relevância de se falar de uma minoria dos casos, que não retrata o portador de HCV típico?

     

    As consequências

    rede

     

    A figura acima foi retirada deste artigo e mostra uma rede de contatos sexuais no Reino Unido, composta principalmente por homens que fazem sexo com homens. O mesmo tipo de rede que retratamos quando investigamos o número de parceiros que cada paciente nosso teve. Redes sexuais apresentam duas propriedades muito importantes que ficam bastante evidentes na figura acima. A primeira é o preferential attachment, algo como conexão preferencial, onde novos pontos da rede se ligam mais facilmente à pontos que já são muito conectados. Ou seja, pessoas que já possuem  muitos contatos sexuais são as que mais provavelmente recebem novos contatos (como sites muito conhecidos recebem mais links na internet), como os pontos que marquei em vermelho. Eles são os chamados hubs. A segunda propriedade é uma consequência disso, a maioria das pessoas possuem poucos ou nenhum parceiro, enquanto alguns possuem muitos.

    Olhe para os pontos em azul. Eles representariam os pacientes com poucos parceiros sexuais, estão quase fora desta rede. Mesmo os conectados aos hubs, em sua maioria não possuem muitos contatos. Estes são os pacientes que se sentiram ofendidos com a ligação entre hepatite C e muitos parceiros. E sem dúvida são a maioria de nossa amostra.

    Agora imagine que os pacientes com muitos parceiros, infectados pelo subtipo mais recente e com vários comportamentos de risco, são os pontos em vermelho. Eles são os hubs desta rede, poucos, mas muito importantes para mantê-la ligada. Mesmo que o HCV esteja circulando entre eles por comportamentos de risco e não a transmissão sexual, a quantidade de pessoas que está ligada a eles é muito grande. E, como qualquer rede social, muito provavelmente compartilham dos mesmos hábitos de risco.

    Eis aqui a maior implicação do que falamos e a importância de falar de uma pequena parcela dos infectados. Esta parcela pequena é composta pelos hubs, que são ligados a muitas pessoas com riscos similares, por mais que sejam parceiros sexuais e a via sexual não seja importante para o HCV como um todo. Já que eles muito provavelmente compartilham outros riscos também. E a importância deles se mostra pelo fato de estarem infectados por um subtipo mais recente que está crescendo muito.

    Olhe novamente para a figura acima, e retire um ponto aleatório. São grandes as chances da rede se manter intacta, pois a maioria dos pontos está ligada a outros poucos. Retire então um dos hubs. A rede se desmancha. Uma das propriedades de uma rede como esta é que poucos pontos são muito importantes, e retirá-los da rede faz com que ela toda caia, como aconteceria com a internet se o Google caísse, muitos outros sites ficariam quase inacessíveis. Daí são deduzidas as consequências do trabalho, se não levarmos o foco para os poucos pontos da rede que possuem um comportamento diferente da maioria dos outros, por receio de ofender ou retratar de maneira errada o grupo, estaremos desviando a atenção de quem de fato faz as ligações.

    O retrato atual dos portadores de HCV é um reflexo daqueles que contraíram o vírus há vários anos, provavelmente por vias que já não são mais tão importantes, como a tranfusão. E por mais que eles sejam a maioria, não possuem mais um papel tão ativo na transmissão do vírus. Ainda não sabemos como se dá a maioria dos eventos de transmissão de HCV. Precisamos olhar e discutir o que acontece com os portadores que ainda não sabem que estão com o vírus, transmitindo o subtipo mais recente que como o Joel Martini destacou, tem o menor sucesso de tratamento, pois quando descobrirem, daqui a 10, 20 anos, a rede já terá mudado e o estrago já estará feito. Estes são os portadores de HCV que precisarão de transplante de fígado nos próximos anos.

     

    Então eu pergunto, é relevante tratar de um tema que sabemos ser polêmico, se ele pode ser importante?


    julho 6, 2010

    Usando anatomia

    Category: objetos de desejo

    cobertor_anatomico.jpg meia_anatomica.jpg

    Adorei os produtos conceito acima, um cobertor e uma meia que representam a anatomia de quem está por baixo. Infelizmente, não estão a venda. O cobertor é "O Hipocondríaco", de 2004, e a meia é de Anton Repponen. Mas a meia abaixo com os ossos está, é só clicar para ver o site da loja.

    meia_anatomica2.jpg

    julho 3, 2010

    Aranha armadeira e o gato ninja

    Category: videos

    Já mostrei antes aqui a aranha trapdoor, que faz uma toca e usa a teia para montar uma tampa com alça que ela usa para se esconder e dar o bote em uma vítima que encoste na teia ao redor da toca. 
    No vídeo de baixo está o gato que aprendeu muito bem como se faz:


     


    Vi no Neatorama que viu no Geekologie, e quem compartilhou foi o Kentaro.

    junho 29, 2010

    O ciclo da notícia científica

    Category: método científico

    cicloNotíciasCientíficas

    O PhD Comics acertou em cheio com o quadrinho acima, que peguei traduzido no Blog Brasil Acadêmico (clique para aumentar, se estiver ilegível). O povo dos blogs científicos gostou e reproduziu a imagem. Agora eu tenho a oportunidade de ilustrar com um artigo em que participo, acompanhem como a informação científica se deteriora ao ser propagada:


    O artigo

     

    grafico

     

    Comecemos com o estudo. No artigo que acabamos de publicar na revista científica PLoS One, afirmamos com base no gráfico acima que o subtipo mais recente de Hepatite C no Brasil está associado à pessoas que possuem mais parceiros sexuais. A explicação completa está aqui, mas o gráfico é deixa bem claro. Na esquerda está a distribuição de subtipos (1b, 1a e 3a) dos pacientes que estudamos com 5 ou menos parceiros sexuais a vida toda, e à direita está a distribuição para os que tiveram 50 ou mais parceiros. O subtipo 1a é o segundo mais comum da nossa amostra, mas entre as pessoas com muitos parceiros sexuais ele é o principal.

    A hepatite C não é tida como uma doença sexualmente transmissível, e nós não afirmamos isso no artigo. Usamos o número de parceiros para visualizar as interações sociais de nossos pacientes, pois vimos que os subtipos estão concentrados em pessoas de certas idades e queríamos saber se elas tinham comportamentos diferentes. E vimos, tanto que os pacientes com mais de 50 parceiros estão expostos a muitos outros comportamentos de risco, uso de drogas injetáveis, sexo desprotegido, etc, do que os outros, como a segunda metade do gráfico deixa clara - de novo, vejam o post anterior para entender.

    O que este gráfico significa é que o subtipo mais recente está circulando em pessoas mais conectadas, praticantes de mais comportamentos de risco e com mais potencial para continuar se espalhando sem controle.

     

    O press release

    Embora eu mesmo tenha escrito nosso press release com ajuda dos autores principais do artigo - o press release é uma espécie de resumo, com destaque para os pontos altos do artigo, para a imprensa -, ainda comi bola. Tomamos todo o cuidado para afirmar que associamos subtipos mais recentes a redes sociais diferentes, e que não os relacionamos com a transmissão sexual, mas deixamos o dado errado de que os testes em bolsas de sangue foram implantados em 1990. Na verdade, as bolsas de sangue começaram a ser testadas em 1993, como dissemos no artigo.

    Ou seja, mesmo sendo escrito pelos autores do artigo, o press release já distorceu um pouco a informação.

     

    A imprensa

    Com muito orgulho, tivemos o nosso artigo divulgado na Folha de São Paulo e na Agência Fapesp. E lá ocorreram os próximos passos de distorção:

     

    Na Folha:

    Hepatite C é ligada a jovens que fazem sexo com muitas pessoas

    O "relacionamos subtipos mais recentes com pessoas mais novas e com mais parceiros" virou "Hepatite C é ligada a jovens que fazem sexo com muitas pessoas". Normal, um artigo de jornal tem outro tipo de conotação e é muito mais desenhado para chamar a atenção do público do que um artigo científico. No mais, o texto segue muito bem e deixa claro o tipo de associação que encontramos:

    "Não existe confirmação de que a relação heterossexual possa transmitir hepatite C. Mas observamos uma maior incidência de um subtipo do vírus entre pessoas com mais parceiros", diz Romano.

     

    Na Agência Fapesp, foi um pouco mais complicado (grifo meu):

    O estudo mostrou que o subtipo 1b do VHC é o mais antigo e avançou mais lentamente que os subtipos 1a e 3a, em múltiplas classes sociais e faixas etárias. Por outro lado, os subtipos 1a e 3a estão associados a pessoas mais jovens, infectadas mais recentemente, com taxas mais altas de transmissão sexual.

    Embora o autor do texto tenha vindo ao laboratório e conversado com os autores, acabou ocorrendo o deslize. Normal, é difícil não falar em transmissão sexual com os dados que apresentamos, e minutos após contatarmos o autor o texto já estava reparado.

    Mas os minutos antes do reparo foram suficientes para que o exército do Ctrl+C Ctrl+V propagasse o erro por diversas agência de notícia, como o Correio do Brasil e mesmo o Estadão.

    Aliás, o UOL dá uma imagem mais clara do que acontece. Assinando a notícia como "Da Redação", foram capazes de manter o seguinte trecho:

    mas nós optamos por uma amostra aleatória", explicou Zanotto à Agência Fapesp.

    No mínimo, quem copiou o texto não leu o que estava escrito. Caso contrário não teriam mantido a assinatura.

    Até aqui, quem reproduziu a notícia e leu o artigo foram apenas os jornalistas da Agência Fapesp e da Folha.

     

    A crítica

    O mesmo problema de tratar do assunto sem ler o artigo em questão aconteceu no site de um grupo de apoio a portadores de Hepatite, o Hepato.com. Um trecho da crítica (grifo meu, novamente):

    O artigo já começa desconhecendo o assunto. No primeiro parágrafo da matéria e colocado que a hepatite C e uma doença incurável. Lendo a integra da pesquisa publicada na PloS ONE eles colocam que desde 1990 o sangue e testado no Brasil, quando na realidade deveriam ter se informado que o teste nos bancos de sangue aconteceu no final de 1992 e 1993.
    Falam ainda que os casos de hepatite C estão aumentando e para tal, erradamente, estão se baseando no diagnostico de casos crônicos. Ora bolas! Para se saber se existem novos infectados, se a doença está se propagando, devem ser analisados casos agudos, pois somente eles podem ser validos para assegurar quem se infectou recentemente. Qualquer profissional de saúde sabe disso.
    Fazem ainda uma ilação entre o genótipo 1-a e a transmissão sexual. Ora bolas novamente! O genótipo 1-a e comum em São Paulo. Porque o relacionar com atividade sexual se na mesma pesquisa eles encontram que a maioria utilizou drogas. Tiveram o mínimo cuidado de pesquisar se tais indivíduos utilizaram instrumento de manicure, se foram ao dentista, se tomaram vacinas na infância quando as seringas eram de vidro, etc. etc.?

    No artigo, usamos como data para tranfusão de risco quem recebeu sangue antes de 1993, baseamos nosso diagnóstico na diversidade genética viral, independente do caso ser crônico ou não, e não fizemos relação com transmissão sexual. Além disso, todos nossos pacientes tiveram um dente extraído ou alguma pequena cirurgia, e este tipo de risco não foi informativo, como deixamos claro nos métodos. Ou seja, quem escreveu a crítica não leu o artigo também. Mas esperem pela reação popular.

     

    O público geral

    Graças à notícia da Folha, pude acompanhar a reação das pessoas pelo Twitter buscando tweets com a palavra chave hepatite. Me digam se não é o final do ciclo:

    twit3

    O que mais chama a atenção é a relação entre Hepatite e quem tem muitos parceiros. Daí a divergências é um pulo.

     twit4 twit5 twit2

    Começa a sumir a associação e resta apenas o sexo com muitas pessoas. Sexo com muitas pessoas já virou uma atitude comum entre os infectados, apesar de afirmarmos que a relação depende de certas condições. Mas a melhor pérola eu deixo para o final.

    twit1

    Pronto, estabelecemos tudo. Artigo afirma que Hepatite é transmitida sexualmente, tudo foi explicado - claro que o uso de camisinha deve ser promovido e previne muita coisa, mas vamos com calma.

    Só posso terminar com esta imagem:

     

    vo

    junho 28, 2010

    Hepatite C e a rede social

    Category: doenças

    Como um vírus pode usar a rede social para ser transmitido em diferentes gerações.

    walkman Se um vírus fosse transmitido por walkmans, você seria contaminado? ©WhineAndDine 

     

    [Este post é baseado em um artigo publicado recentemente pelo meu laboratório. Felizmente, terei a oportunidade de explicá-lo e ainda mostrar como a informação de um artigo pode ser diluída conforme ele é tratado pela mídia no próximo post.]

     

    ResearchBlogging.org

    A Hepatite C é uma virose muito preocupante. Foi descoberta apenas recentemente, em 1989, e só em 1993 passamos a monitorar e testar bolsas de sangue, até então a principal forma de transmissão. Desde então, já são 170 milhões de pessoas infectadas no mundo, e no Brasil as estimativas variam entre 0,8 e 3,5%, sendo que muitos dos casos são atribuídos a usuários de drogas injetáveis (IDUs). Muitos casos progridem para a forma crônica da doença, onde a pessoa pode passar o resto da vida com o vírus, sofrendo de cirrose e até mesmo câncer hepático - a hepatite C já é a principal causa de transfusão transplante de fígado no país.

    Com mais de 500 amostras do estado de São Paulo coletadas e sequenciadas, partimos para tentar entender a epidemia atual no país. O primeiro passo foi estudar o que as sequências nos contam, a dinâmica evolutiva viral. Grosso modo, o método consiste em reconstruir a história do vírus baseando-se na diversidade e na taxa de mutação. Se hoje eu tenho os vírus x, y e z, e o vírus muda tanto por ano, quantos anos eu preciso que tenham se passado para encontrá-los? Muitas outras coisas entram nesta conta, mas ficam para um outro post.

     

    O crescimento

    grafico1

    Taxa de crescimento dos subtipos de HCV. Em 1980 a doação de sangue deixou de ser paga, pois muitos IDUs doavam sangue contaminado como fonte de renda.

     

    Este foi o primeiro resultado. O vírus da Hepatite C (HCV) é dividido em genótipos, de 1 a 6, e cada genótipo possui vários subtipos. Já sabíamos que no Brasil as principais formas circulantes são os subtipos 1a, 1b e 3a. O que não sabíamos é que eles possuiam este tipo de crescimento. Como o gráfico deixa claro, o primeiro vírus a entrar no país foi o subtipo 1b, que cresceu bastante no passado, e está diminuindo atualmente. Em seguida, entrou o subtipo 3a, que cresceu mais, e foi seguido pelo subtipo 1a, com a maior taxa de crescimento de todos.

    Duas coisas no gráfico são muito preocupantes. A primeira é o crescimento. As linhas representam a taxa de crescimento do vírus (algo análogo à aceleração dele), e não o número de casos totais (a "velocidade final" do vírus). Quando vemos a reta do subtipo 1a, temos que pensar que, embora ele não seja o mais comum no país (nosso HCV mais comum é o 1b, que infecta pessoas há bem mais tempo), é o que mais cresce. Ou seja, ele deve passar em breve o subtipo 1b, e continuar crescendo muito. Tão importante quanto isso, é que os subtipos mais recentes estão aumentando o crescimento mais mesmo após 1993, quando os testes em bancos de sangue acabaram com o que se imaginava a principal via de transmissão do HCV.

    Os subtipos entraram em períodos diferentes, e os mais recentes cresceram mais, mesmo apesar de medidas de controle como teste de bolsas de sangue e distribuição de seringas descartáveis para IDUs. Próxima etapa: como ós subtipos estão sendo transmitidos então?

     

    Segregação etária

    grafico2

    Ano de nascimento dos pacientes e data de origem dos subtipos. A linha tracejada é a distribuição das chances de origem dos subtipos (pois estamos estimando), e o pico é o período de entrada mais provável. A linha contínua marca o ano de nascimento de quem foi infectado por aquele subtipo. No caso dos subtipos 3a e 1a, uma grande parte dos infectados nasceu cerca de 20 anos do período de entrada do subtipo.

     

    Assim, analizamos o período de entrada do vírus e a idade de seus portadores. Surpreendentemente, os subtipos atingem grupos etários diferentes. Se o vírus é transmitido apenas pelo sangue, não há motivos para ele estar restrito a uma faixa etária. Todos recebem transfusão. É o que vemos no subtipo 1b. Já os dois subtipos mais recentes, circulam entre pessoas nascidas em uma mesma época.

    Este tipo de distribuição segmentada ocorre em redes complexas, é o assortative mixing, algo como distribuição direcionada (desconheço o termo em pt). Ocorre por exemplo em redes sociais, onde as pessoas tendem a se associar a outras parecidos com elas, o chamado princípio da homofilia. Uma olhada no meu Twitter já mostra isso, grande parte das pessoas que sigo e que me seguem são entusiastas de ciência, e são grandes as chances de os próximos também serem.

    Então o vírus está seguindo redes sociais?

     

    O padrão de comportamento

    grafico3

    À esquerda: distribuição cumulativa do número de parceiros sexuais dos pacientes, ou conectividade, e a distribuição de subtipos para quem teve 5 ou menos parceiros a vida toda (Low) e 50 ou mais (High). À direita estão os comportamentos de risco dos dois grupos: parceiro HCV positivo, HIV positivo, transfusão antes de 1993, nunca usou camisinha, usuário de droga injetável (IDU), usuário de droga não injetável (crack e cocaína, NIDU), já foi preso, homem que faz sexo com homem, tatuagem, parceiro IDU, já teve DSTs e sexo.

     

    O passo final então era entender qual o tipo de rede estaria transmitindo os vírus, se houver alguma. Para isso, aproveitamos parte dos dados que temos sobre os pacientes. Um bom indicativo da interação das pessoas é a rede de contatos sexuais. A distribuição do número de parceiros sexuais que as pessoas têm obedece uma lei de potência bastante parecida com a distribuição de riqueza mundial, muitos com muito pouco ou nada, e poucos com realmente muito.

    É o que o gráfico de cima mostra. Quando distribuímos os pacientes de acordo com o número de parceiros sexuais, ou conexões da nossa rede social, vemos muita gente com poucos parceiros e algumas com centenas. Em especial, entre as pessoas que já tiveram 50 ou mais parceiros (os altamente conectados) o subtipo 1a é o mais presente. E quando vemos o comportamento dos mais conectados, percebemos que ele é bastante diferente. Enquanto quem teve poucos parceiros (5 ou menos) apresentou como comportamento de risco mais comum a transfusão sanguínea antes de 1993, os altamente conectados usam mais drogas injetáveis, já foram presos mais vezes, muitos nunca usaram camisinha (quase 30%, um dado realmente preocupante) - e isto se reflete na quantidade deles que já teve alguma doença sexualmente transmissível (DST) - e a grande maioria são homens.

    Isto nos leva a entender que os subtipos mais recentes estão se espalhando por pessoas que têm mais interações, usando redes sociais. O que não seria esperado em um vírus transmitido exclusivamente por via sanguínea. Com a maior densidade de pessoas em anos recentes, o vírus tem mais contatos à disposição, e de fato vem crescendo mais. O número de parceiros aqui é um indicativo destas interações, já que a transmissão sexual do HCV ainda é bastante questionada, mas os outros comportamentos de risco ilustram bem como os pacientes podem ter contraído e disseminado mais o vírus.

     

    As conclusões são bastante importantes:

    Primeiro, ainda não conseguimos explicar cerca de 40% dos nossos casos, que não usavam drogas injetáveis nem haviam recebido transfusão antes de 1993. Práticas como manicure e pedicure, extração dentária e pequenas cirurgias também não foram informativas, já que todos os pacientes haviam feito grande parte delas.

    Segundo, vírus mais recentes estão crescendo mais, e em pessoas mais jovens. Estas pessoas têm mais interações sociais e mais comportamentos de risco, o que indica que os subtipos mais novos, em especial o 1a, devem continuar crescendo e se espalhando.

    Por fim, temos uma péssima notícia. Ainda não sabemos como o vírus se transmite, ele está crescendo e aproveitando as novas chances de se transmitir, e não há vacina disponível. Mesmo o tratamento é bastante complicado, nem sempre é eficaz e pode ter efeitos colaterais bastante severos. A melhor estratégia ainda é a prevenção, e para isso precisamos entender melhor como o HCV está aproveitando as redes sociais.

     

    Fonte:

    Romano, C., de Carvalho-Mello, I., Jamal, L., de Melo, F., Iamarino, A., Motoki, M., Pinho, J., Holmes, E., Zanotto, P., & , . (2010). Social Networks Shape the Transmission Dynamics of Hepatitis C Virus PLoS ONE, 5 (6) DOI: 10.1371/journal.pone.0011170

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