E a política de acesso aberto no Brasil?
A postura acadêmica a respeito do modelo tradicional de publicação está mudando, e o Brasil poderia se posicionar muito bem em relação a isso.

Toda indústria da comunicação está sofrendo para se adaptar às últimas tecnologias. SOPA, PIPA, e várias outras tentativas de regular esta mudança dão sinais de que a maneira como consumimos informação está mudando. E tudo indica que a área das publicações científicas estava de fora desta mudança. Estava.
Por mais que a maneira como acessamos artigos tenha mudado, conto nos dedos as vezes em que precisei ir à biblioteca para pegar um artigo. Até bem pouco tempo atrás a única diferença na maneira como consumo informação acadêmica estava no acesso. O sistema de distribuição dos artigos impressiona por se manter quase o mesmo. As bibliotecas e instituições ainda precisa assinar pacotes de revistas das editoras – quem aqui ainda assina jornal ou revista? – e mesmo o que encontramos online ainda quase sempre vem no formato PDF, o que transmite a impressão de que se pudessem, escaneariam a página da revista e mandariam a imagem mesmo. Formatos como epub e outros começam timidamente a serem adotados por editoras. A Nature foi pioneira (em 2010!) por lançar um aplicativo para iphones e ipads com conteúdo otimizado, mas nem se ouve falar no próprio formato epub que ela usa em navegadores para desktops.
Ao contrário das outras mídias, onde autores e participantes são remunerados, e muito bem pagos em alguns casos, publicações científicas remuneram bem pouca gente no caminho. Os autores, muitas vezes financiados pelo dinheiro público, não recebem pelo trabalho enviado. Pelo contrário, em alguns casos precisam pagar mais por páginas extras ou figuras coloridas do artigo. Os revisores, também pesquisadores financiados pelo governo, vão investir considerável tempo para ler e avaliar os trabalhos dos colegas, também sem receber pelo que fazem. A mão de obra remunerada fica por conta dos funcionários das editoras que vão formatar e publicar o artigo, de longe a menor parte do processo. Mas, ao final disto tudo, depois que o trabalho é publicado, as instituições públicas, aquelas mesmas que financiaram os pesquisadores e a pesquisa, ainda precisam pagar pelo acesso aos artigos.
E não são valores baixos. Imagine a situação de um paciente que queira ler o trabalho onde foram publicados os resultados do medicamento que ele está prestes a tomar. Se ele não tiver acesso institucional à revista, através de uma universidade por exemplo, precisa pagar em torno de 40 dólares por um artigo de 10 páginas. Sim, 40 dólares por um trabalho que foi produzido, escrito e revisado com verba pública, e não gera um centavo de lucro para quem o produzir, enquanto uma música que remunera do autor à gravadoras custa 0,99 dólares em um site como o iTunes. Valores altos que faziam sentido em uma época onde a edição era o processo mais caro de um artigo, dada a pequena circulação da maioria das revistas, não são mais realistas com a distribuição online.
Enquanto o custo de distribuição dos artigos diminuiu, uma vez que muitos assinantes consomem apenas a versão online dos artigos, o lucro das editoras é impressionante. Segundo Alma Swan, o preço das publicações subiu quatro vezes mais do que a inflação americana nas últimas duas décadas. Apenas em 2010, a editora holandesa Elsevier lucrou $1,16 bilhões em uma margem de 36% da receita, em um ano de crise. E margens de lucro de mais de 30% parecem ser a regra para editoras acadêmicas, levando a considerações sobre o quanto as editoras estariam na verdade atrapalhando a pesquisa.
A reação contra as principais editoras e o acesso restrito e pago ao conhecimento começou a mudar com a criação do movimento Open Access (OA), que provê acesso aberto aos artigos e deixa o custo da edição e manutenção todo por conta dos autores dos artigos ou de financiamento externo. Modelo esse que não é lá tão novo, mas ganhou diversos adeptos desde 2000. Entre eles uma das iniciativas mais bem sucedidas, a Public Library of Science, ou PLoS, lançada em 2001, que embora se manifeste contra o fator de impacto – outro exemplo de monopólio e uma caixa preta de tratamento de dados da editora Thomson – tem ótimos índices para suas revistas (apesar da torcida contra). O Brasil deu exemplo de iniciativa OA com a implementação do Scielo em 1997, e a maioria das revistas nacionais são de acesso aberto.
Ainda se discute se o fato de um artigo ser de acesso aberto aumenta suas citações, em um trabalho publicado em 2011 Philip Davis colocou aleatoriamente 712 artigos de 2533 em acesso aberto e os acompanhou durante 3 anos, vendo que não foram mais citados do que os outros 1821. Mas este mesmo trabalho mostrou que os artigos de acesso aberto são baixados duas vezes mais pelos leitores, provavelmente de outras áreas – já que não houve aumento de citações. Publicar em acesso aberto significa um retorno imediato para o público do investimento feito. Ao invés de precisar pagar novamente para acessar o trabalho que financiaram, os resultados ficam disponíveis para quem se interessar.
Se o cenário das editoras internacionais já não estava tão bom, este ano só piorou. As manifestações vão de críticas bem diretas à distribuição de mais de 18 mil de artigos em um torrent disponibilizado no PirateBay – imagine o estrago que faria um agregador de torrents de artigos que pudesse ser buscado como o PubMed, até na pirataria o mercado acadêmico está atrasado. O estopim se deu no começo de 2012, com a proposta do Research Works Act, um projeto de lei que basicamente acaba com a resolução do NIH de 2008 de disponibilizar para acesso livre toda pesquisa financiada por ele. Segundo a denúncia de Michael Eisen, professor da UC Berkeley e um dos fundadores da PLoS, uma das autoras do projeto de lei, a congressita Carolyn Maloney recebeu 12 contribuições financeiras da editora Elsevier em 2011.
Depois do estrago feito pela denúncia, as tentativas da Elsevier de se justificar acabaram causando a reação contrária ao esperado. Argumentos como os de que a maior parte do trabalho é feito pelas editoras – ignorando a escrita e revisão dos artigos pelos pesquisadores – fomentaram ainda mais a rejeição à editora. Ao ponto que o matemático Timothy Gowers resolveu deixar de submeter e revisar artigos para a Elsevier, e convidou outros pesquisadores a fazer isso e deixar o nome em um site-manifesto, que durante a escrita deste artigo estava fora do ar devido ao número de acessos. As justificativas dele, o preço dos jornais e a venda casada e forçada de títulos inúteis junto de jornais importantes apenas somam ao Research Works Act, e mostram um descontentamento de longa data.
Aqui no Brasil, muito poderia ser feito sobre isso. Grande parte do dinheiro investido em pesquisa é público [obrigado pelo link, Takata], e vem de agências governamentais, que regulam sua aplicação e avaliam os pesquisadores. São exatamente estas agências que poderiam orientar os pesquisadores a publicarem em jornais de acesso aberto. Pelo menos nos casos em que o impacto da revista é similar ao de alternativas de acesso restrito, quando não há alternativa para jornais como Science, Nature, Cell, etc. Economicamente, é uma alternativa que se paga. Por mais que precisem ser pagos pelos pesquisadores, artigos de acesso aberto saem mais barato para serem acessados, enquanto a assinatura de revistas pela Capes gera um custo anual de 40 milhões de dólares e disponibiliza o conteúdo apenas para as instituições credenciadas.
Publicar em revistas internacionais de acesso aberto no Brasil não é algo tão simples. Quem não pode recorrer rapidamente a órgãos como a Fapesp e depende de verba aprovada em longos processos de editais, não chega ao final de um projeto com $1000 a $4000 para pagar a publicação do(s) artigo(s) gerados. – E mesmo na Fapesp á um pouco trabalhoso conseguir a verba para publicar, já recebi a resposta de que uma revista que não é impressa não poderia cobrar custo de impressão, mas acabaram pagando a PLoS. Verba que poderia ser alocada com esta finalidade logo no início do projeto. Mil dólares em um projeto de 20 a 400 mil reais não é um custo alto, especialmente considerando que a publicação do artigo é o maior retorno maioria dos casos. Economizar menos 1% da verba de pesquisa para publicá-la é bastante contraditório, ainda mais quando ele ficará indisponível para o público e precisará ser pago pela Capes para que seja acessado.
Cadê você no ResearchGate?

Conheci ano passado uma rede social com uma proposta bem diferente, o ResearchGate. Bolado pelo virologista e programador Ijad Madisch em 2008, foi pensado como uma rede para comunicação entre cientistas. Para quem já viu o inferno que é achar a carreira de um pesquisador internacional se ele não tiver página própria, é uma ótima saída.
Aqui no Brasil, temos a plataforma Lattes, que é mantida bem atualizada por quase todos os pesquisadores coagidos incentivados pelas agências de fomento, que não aceitam projetos de quem não atualiza os dados. É uma rede exemplar, que muita gente em outros países elogia. Mas não existe alternativa internacional equivalente. Quando o pesquisador não tem uma página pessoal atualizada, depende-se de achar os artigos no PubMed, Google Schoolar e similares, e contar com a sorte de não haver muitos cognatos.

O ResearchGate resolve muito disso. Ainda ajuda com um problema que tive recentemete. Conheci gente competente da minha área no Twitter, queria uma alternativa para compartilhar e discutir artigos, e acabei apelando para o Posterous. Enquanto o ResearchGate é uma solução muito mais cabível. Além de permitir o compartilhamento de artigos na timeline, ainda possui uma ferramenta de blog interno bastante prática – que carece de uma integração com o ResearchBlogging e DOI, que facilitaria muito a busca por citações. Também dei por falta de uma integração com o Rainha Vermelha, como as páginas do Facebook, inclusive para criar um perfil para o ScienceBlogs.

Também tem algo muito legal que é o compartilhamento dos artigos próprios. Sem a formatação dos periódicos onde ele foi publicado, claro, pois trata-se de trabalho acrescentado por eles. Pode se tornar uma excelente fonte de artigos para quem não tem acesso à revista. Não sei se o Google faz a indexação dos pdfs, mas seria ótimo.
Algo que ainda preciso colocar em uso são os tópicos. Uma ferramenta que permite fazer e responder perguntas de áreas de interesse, e pode ser uma boa para interagir com futuros colaboradores
A maior reclamação que tenho – e foi parcialmente sanada pela reportagem da Agência Fapesp, que me trouxe uns 50 seguidores – é a falta de brasileiros. O serviço indica pesquisadores com base em sua área de pesquisa e localização geográfica, e as sugestões que recebi eram de gente bastante distante do que me interessa. Seguir os pesquisadores que mais leio também seria muito bom. Algo normal para uma rede no início, que provavelmente deve ser sanado conforme ela cresce. Para quem quiser me adicionar por lá, meu perfil é este aqui: http://www.researchgate.net/profile/Atila_Iamarino/.
Para organizar e buscar os artigos, especialmente por conta do programa de desktop que ultimamente tem toda a minha biblioteca e anotações, e vai ser fundamental na organização da minha tese, ainda sigo usando o Mendeley. E logo vou precisar contratar espaço.
Quem está escondendo a vacina contra a AIDS?
No terceiro e último texto da série sobre os mitos do HIV publicado no Papo de Homem, falo sobre a dificuldade em se desenvolver e manter uma terapia contra o HIV, uma vez que ele quase só usa fatores celulares para se replicar, e ainda é capaz de mutar e escapar dos antivirais.
Estamos muito mal acostumados com a medicina moderna. Até poucas décadas atrás, antes do desenvolvimento de antibióticos, garganta inflamada era causa de morte comum. Hoje, para muitas infecções, até mesmo para o HIV, existem medicamentos que se não resolvem, ajudam. Mas não foi o que aconteceu nos primeiros anos da AIDS.
Para os primeiros pacientes, e entenda-se aqui milhares de pessoas, o diagnóstico de AIDS era sentença certa de morte. Médicos, parentes e amigos eram obrigados a ver de mãos atadas pacientes com menos de 30 anos morrendo de infecções banais, como uma forma de pneumonia que até então matava apenas crianças e idosos. E, quando se descobriu que a doença era causada por um vírus, a perspectiva não melhorou muito.
O remédio ideal para combater uma bactéria, um fungo, um vírus, um câncer ou qualquer outro organismo indesejável que possa estar crescendo em nosso corpo, é aquele que ataca apenas o outro. Antibióticos costumam ser medicamentos sem grandes efeitos colaterais justamente por que atacam estruturas que apenas as bactérias têm. Fungos são um pouco mais complicados, pois são organismos mais parecidos conosco, ao ponto de muitos antifúngicos serem de aplicação local, como pomadas, pois são tóxicos se ingeridos.
Os vírus e o câncer são o auge deste problema. Tumores são células do corpo crescendo descontroladamente, e vírus são parasitas que usam quase exclusivamente apenas estruturas de nossas células para se reproduzir. Isso deixa pouquíssimas alternativas para serem atacadas.
Acompanhe o texto todo por lá.
AIDS, arma biológica contra negros?
Saiu no Papo de Homem o segundo texto da série desconstruindo mitos do HIV. Desta vez, explico como sabemos que se trata de um vírus que ocorre naturalmente, e por que ele começou a se espalhar entre africanos e afro-descendentes. Confira na íntegra por lá.
Semana passada, falei do mito de que a AIDS seria doença de gay. Infelizmente, existe também outro mito: de que seria doença geneticamente desenvolvida para matar afrodescendentes.
No começo da década de oitenta, apesar de ainda atingir desproporcionalmente os homossexuais, fora de grandes centros como São Francisco e Paris já era possível encontrar heterossexuais com recém-descoberto HIV. Especialmente imigrantes africanos recém-chegados.
Arma racista de extermínio em massa que saiu de controle? Humm… não. O entendimento da origem do vírus estava contido neles, e quem revelou esta informação foi o DNA. O mesmo DNA que nos mostra que o HIV não é um organismo artificial.
A princípio, observando seres tão distintos quanto plantas, lagartas e bactérias, pode até parecer que são muito diferentes. Mas a vida tem muito em comum, em especial o material genético. Todos os seres vivos são compostos do mesmo tipo de moléculas orgânicas, como lipídios (gorduras), aminoácidos (proteínas) e carboidratos (açúcares), e a receita de como eles serão produzidos e organizados está toda contida no ácido nucléico, o DNA. Alguns vírus, que não são seres vivos nem possuem células, tem a liberdade de usar como material genético outro ácido nucléico, o RNA.
Assim como o material genético (DNA ou RNA) está contido em todos organismos, ele também compartilha informações. Nós e os chimpanzés, nossos primos peludos, compartilhamos entre 90% e 98% de material genético idêntico (dependendo da porção dele que comparamos). E, mesmo a parte que não é idêntica, pode ser reconhecida como compartilhada, embora um pouco diferente.
Pouco depois que o HIV foi isolado de pacientes com AIDS, seu DNA começou a ser sequenciado. O vírus do HIV possui um genoma de RNA, e é um dos poucos que o traduz em DNA, caminho contrário do que normalmente fazemos. Daí seu nome, retrovírus. Este DNA que ele produz se integra no nosso genoma, de onde produz novas partículas que vão invadir outras células. Este DNA do HIV, que foi sequenciado e pode ser comparado, é o que nos permite saber quem ele é e de onde veio.
Continua aqui.
Presentes de Natal científicos
[não exatamente científicos, mas que certamente agradam quem gosta de ciência]

Bastante em cima da hora, resolvi fazer uma lista de presentes que recomendo por experiência própria, todos os itens que vou citar aqui comprei antes para recomendar:
Uma caneca termossensível ON/OFF. Quando ela esquenta por conta do líquido (de preferência café), muda de cor. Comprei a minha no ebay, por menos de $10 com entrega. Não é a original, nem fica tão branca quanto esta da imagem, mas já foi o suficiente para me divertir, e assustar alguns desavisados. A melhor parte é quando ela está esfriando, e fica marcada com qualquer toque.

Esferas magnéticas. Já comentei sobre elas aqui, foram a melhor porcaria que comprei nos últimos tempos. Ainda não esgotei as formas que elas podem ter. Mais caras do que a caneca, paguei pouco mais de $30 com envio na Zen Magnets. Como a produção deles é pequena, o preço costuma flutuar bastante em relação ao preço internacional do neodímio, terra rara usada para fazer os magnetos.
Update: Aqui no Brasil eles foram lançados pela Nanodots, que vende inclusive outras cores como preto e dourado, a partir de R$79.


Camisetas da TopatoCo. Tem várias outras estampas por lá mas, para caber dentro do orçamento, tive que me contentar com a verdade sobre a evolução e o mascote Charlie Darwin.

Sim, é o que parece. Uma barata de pelúcia. Depois de micróbios, e na falta de algum molusco legal, me pareceu a melhor opção para a coleção de animais (organismos na verdade, tem um vírus no meio) mais realistas e menos fofinhos. Encontrei no Mercado Livre.
Como não poderia fazer uma lista de presentes sem o principal, livros, aqui vão sugestões do que li de melhor este ano.

O The Information, do James Gleick, se não foi a melhor leitura do ano, empatou com o Dilema do Onívoro. Muito denso, cheio de conteúdo e bastante acessível. Revisa desde as primeiras formas de comunicação baseadas em informação até a comunicação moderna via internet. Um livro que com certeza vou reler. Infelizmente, ainda não está disponível em português.

O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan. Empatou com The Information por ser um livro fantástico. Mudou minha maneira de pensar a agricultura e a indústria da comida, da maneira como alimentos são preparados ao cultivo de alimentos orgânicos em larga escala. O autor não toma um partido claro no livro, simplesmente descrevendo como se dá a agricultura tradicional, com o enorme impacto e consumo de petróleo inerente, ao mesmo tempo em que mostra que alternativas orgânicas não são lá muito orgânicas.
O livro dos milagres, do Carlos Orsi. Com essa capa linda, além do jogo de palavras, infelizmente ainda entra para a categoria “não li, mas recomendo” (TM Sílvio Santos). Já recebi minha cópia autografada (!) depois de acertar o desafio que o Takata promoveu, mas ainda não tive o tempo de ler. Recomendo baseado em tudo o mais que o autor escreve, o blog dele está inteiro no meu kindle, para leituras calmas e concentradas, longe do computador. Felizmente, o ScienceBlogs tem uma parceria com a editora Vieira & Lent, e o livro sai com 20% de desconto e frete grátis (ridículos R$24) neste link.
Para completar, na categoria ficção, os livros que me isolaram do mundo. A coleção Crônicas do Gelo e Fogo de George R.R. Martin. Totalmente envolvente, riquíssima e bem adulta, adorei a trama dos livros (que comecei a ler por conta da série da HBO). Há tempos não ficava tão absorvido com um livro (vários na verdade), muito bem representados pela adaptação para TV.
Os livros são gigantes, e o autor não tem piedade dos personagens, o tipo de história que pode ir para qualquer lado. Ainda faltam mais dois livros para serem lançados lá fora, dos sete que completam a história. Aqui, a tradução está no terceiro.
Mitos do HIV
Recentemente, li algo que me deixou bastante decepcionado. Ainda circulam textos dizendo que o HIV não existe, ou não causa a AIDS, ou que foi criado para exterminar os [insira aqui um grupo socialmente discriminado]. Como resposta, este é o primeiro de três textos que sairão no Papo de Homem explicando como e por que a epidemia do HIV se deu como se deu, e por que as malditas teorias conspiracionistas estão erradas.
Antes de mais nada, não se esqueça: a evolução é muito mais competente e tem bilhões de anos de experiência em criar doenças do que nós.
Uma das maiores falácias sobre o HIV é a idéia de que ele foi criado como uma forma de matar/exterminar algum grupo, principalmente devido ao fato de que os primeiros casos de HIV foram reconhecidos em gays – tanto que por algum tempo a AIDS era chamada de doença gay (ou GRID, Gay Related Disease) – e em seguida em usuários de drogas injetáveis, na Europa e nos EUA.
“A AIDS ainda está circulando”, campanha do Quebec, 2003-2004.
Para completar, os primeiros casos em heterossexuais foram encontrados em imigrantes africanos e haitianos nos mesmos países, outro grupo que não costuma ser bem recebido.
São justamente esses grupos de risco que ajudaram a entender de onde veio o HIV. E são eles que vão mostrar por que o HIV não foi criado artificialmente. Antes de tudo, vamos ver por que os gays criaram as condições ideais para o começo da epidemia. E isso tem tudo a ver com o Twitter e o Facebook.
Dois físicos espanhóis estavam investigando, em 2000, um comportamento intrigante de vírus de computador. Mesmo depois da criação de um antivírus que pode ser baixado e utilizado imediatamente, eles – os mesmos vírus – podiam continuar circulando por meses, até anos. Sem querer, Romualdo Pastor-Satorras e Alessandro Vespigniani criaram um modelo de espalhamento de doenças em redes que acabou explicando como o HIV pode ser transmitido em uma comunidade. Resumindo, eles repararam que uma doença nunca vai morrer, não importa quais sejam as medidas tomadas para reduzir a probabilidade de a sua transmissão entre os indivíduos.
Continue lendo o texto completo lá no Papo de Homem.
Por que sabonete bactericida é inútil
[inútil como bactericida, não como sabonete]
Se fala sobre a onda do politicamente correto, e uma série de outras mudanças da sociedade. Uma das mudanças mais óbvias é nossa necesssidade crescente de limpeza e distância da natureza. É legal visitar a natureza nas férias, mas no dia-a-dia todo preferem o bife embalado em uma bandeija de plástico que não lembra de longe a vaca.
E algo cada vez mais comum em prateleiras de supermercado e propagandas são os sabonetes e produtos afins com bactericida. Algumas propaganda inclusive fazem alusão direta à proteção que o sabonete traz ao eliminar bactérias. Agora, qual o embasamento real que eles têm para afirmar isso? Nenhum.
Lavar as mãos é um hábito de higiene essencial, claro. E realmente protege o corpo de uma série de doenças, como diarréia e gripe. De fato, um dos procedimentos médicos que mais salva vidas, principalmente de grávidas no pós-parto, é a lavagem de mãos do cirurgião. A questão é se lavar a mão usando um sabonete com bactericida é melhor do que com um sabonete regular em casa.
Os resultados que vou listar são todos derivados de uma revisão de diversos artigos tratando do uso de sabonetes antibacterianos publicado em 2007 (citado ao final).
Em primeiro lugar, foi levantada a eficácia do triclosano, bactericida mais comum em sabonetes. Encontraram 4 estudos onde se avaliou o risco de doenças como tosse, febre, diarréia e infecções de pele em casas que usavam sabonete comum em comparação com aquelas que usavam bactericidas, durante o período de um ano. Todos mostraram que não havia diferença nestas doenças, independente do tipo de sabonete usado. – Algo que provavelmente contribui para isso é o fato de que muitas destas doenças podem ser causada por vírus, que não são afetados pelo triclosano.
Dos trabalhos que mediram a quantidade de bactérias nas mãos das pessoas após a lavagem com produtos com triclosano, quase que apenas os que utilizaram uma concentração maior do composto (mais de 1%) do que a de produtos domésticos (entre 0,1 e 0,45%) viram uma diminuição. O único trabalho que observou uma diminuição usando um sabonete com uma concentração dentro da comum (0,3%) viu essa redução após cinco dias consecutivos de uso, com 18 lavagens de 30 segundos por dia. Ou seja, para a concentração doméstica de triclosano, é preciso lavar muito a mão para se ver alguma diferença.
Quanto à resistência ao triclosano, encontraram alguns estudos demonstrando que bactérias podem ser tornar resistentes ao composto. Mas a associação com resistência para por aí, não observaram evidências suficientes de que o uso de triclosano facilita a resistência a antibióticos, por exemplo – o baixo número de estudos que demonstraram esta associação, e a grande variedade de antibióticos testados não permitiram nenhuma conclusão direta.
O que me deixa com algumas perguntas sobre sabonetes antibacterianos:
Qual a necessidade de produtos que não possuem evidência nenhuma de benefício com a concentração de triclosano que incluem? Ou melhor, qual a legitimidade de anunciar que o sabonete protege contra bactérias? Pior ainda, qual a legitimidade de dizer que isso protege de doenças?
Por fim, não sei qual a vantagem de expor as bactérias da minha pele à uma concentração sub-ótima do mesmo microbicida que o cirurgião que pode me operar usa.
Para mais em sabonetes e bactérias, recomendo o excelente post do Karl, e a réplica do Takata.
[update] Realmente, o que o Takata fala no NAQ é bem sério, propaganda enganosa do pior tipo:
http://neveraskedquestions.blogspot.com/2011/07/lifebuoy-pra-prevenir-resfriados.html
http://neveraskedquestions.blogspot.com/2010/12/lifebuoy-na-linha-charlatanismo.html
Fonte:
Aiello, A., Larson, E., & Levy, S. (2007). Consumer Antibacterial Soaps: Effective or Just Risky? Clinical Infectious Diseases, 45 (Supplement 2) DOI: 10.1086/519255 [pdf]
Nerdcast 283: epidemias
Esta semana tive o prazer de participar em mais um Nerdcast, junto de Alottoni, Bluehand, Jonny Ken, Tucano e Azaghal. Conversamos por quase duas horas sobre Febre Amarela, Cólera, Varíola, Gripe Espanhola, Peste Negra, Tuberculose, HIV, Baculovíruse o vírus Sabiá. Basta baixar ou ouvir na página do podcast aqui, diversão certa.
Para quem se interessou sobre o tema e quer saber mais, aqui vão alguns posts do blog:
Infecções em geral
- De onde vêm as doenças infecciosas?
- Um parasita quer matar seu hospedeiro?
- John Snow e a transmissão da cólera
A varíola e a vaccinia que circula em primatas no Brasil
- Varíola, uma das maiores pandemias da história
- Vaccinia em mamíferos silvestres: um caso de “humanose”
O influenza e a(s) gripe(s)
- H1N1, mais de 90 anos entre nós: a origem e história desse vírus
- O que foi a gripe espanhola em 1918
- A origem do Influenza A H1N1 ou gripe suína
- O que torna um vírus da gripe mais letal do que outros
Ebola
HIV
Não compre o produto mais caro
Qual a relação entre um copo de refrigerante de mais de um litro e a TV mais cara da loja? Acompanhe neste post meu que saiu no Papo de Homem:
Por que não comprar o mais caro
[...]
Quando oferecidas para cobrar ou pagar um valor por um produto ou serviço, o primeiro impulso de quase todas as pessoas é tentar saber quanto outros cobram ou pagam por aquilo, e usar esta comparação como âncora para seu valor. Nós somos animais comparadores por natureza.Vivemos há milhões de anos em sociedades com vários indivíduos, onde estamos sempre comparando e olhando ao nosso redor para saber nossa posição em relação ao grupo. Um aumento de R$ 2000 para um funcionário seria uma ótima notícia, mas se tornaria um ultraje se ele descobrisse que todos outros receberam R$ 10000 de aumento.
[...]
David Wallerstein foi contratado por uma cadeia de cinemas americana da década de 1950 para aumentar a renda deste comércio. Renda essa que vinha principalmente da venda de bebidas e pipocas. Wallerstein percebeu que, por mais que se esforçasse, não conseguiria fazer cada espectador comprar mais de um refrigerante e uma pipoca. As pessoas não saem no meio do filme para comprar outra pipoca, não só pelo filme, mas por se sentirem gulosas ao comprar mais uma porção. Daí surgiu a ideia de oferecer uma porção com o dobro do tamanho.
Com o tamanho grande e o extra-grande, as pessoas comem o mesmo que comeriam comprando duas unidades, mas não se dão conta disso. Este é outro instinto nosso, tendemos a comer tudo o que pegamos, sem repararmos no tamanho da porção. Um experimento de 2005 mostrou isso ao oferecer para as pessoas sopa em um recipiente que se enchia automaticamente por baixo sem que elas percebessem. O autor acabou ganhando um IgNobel por isso. Como resultado, quem tomou a sopa da tigela sem fundo consumiu em média 60% mais do que quem tinha uma tigela normal. Pelo mesmo motivo, restaurantes de comida por quilo usam pratos enormes: tendemos a enchê-los com mais comida do que pratos normais.
Leia o texto completo aqui.
Algo que não está no texto, recomendo muito o Dilema do Onívoro por uma série de outros motivos. Nunca tinha pensado como o fato de sermos onívoros está diretamente relacionado à condição humana. Também não fazia idéia do que a indústria alimentícia americana tem feito com a montoeira de milho subsidiado que produzem anualmente. Pela discussão sobre a agricultura, os hábitos alimentares, alimentos orgânicos (e outros não tão orgânicos) e tudo o mais, foi sem dúvida um dos melhores livros que já li.
Qual o problema de se tomar um antiretroviral como preventivo?
Este post é uma resposta à pergunta da Lucia Malla. Em um post onde descreve que o tratamento anti-HIV pode causar envelhecimento precoce, ela perguntou se mesmo assim não deveria ser usado como preventivo, uma vez que os antivirais podem impedir a infecção pelo HIV se ingeridos antes do contato sexual. Aqui vai minha resposta atrasada:







“A AIDS ainda está circulando”, campanha do Quebec, 2003-2004.





