Aos graduandos em biologia

Aos graduandos em biologia

  Nesta segunda-feira dia 23/02/2015, tive o prazer de conversar com os bixos de 2015 da Bio-USP sobre a carreira em biologia. Aproveitei para falar sobre a importância do ensino e extensão durante a graduação. Segue a minha fala:   Eu sempre soube que queria cursar biologia, tanto que foi a única opção que marquei no vestibular. Biologia integral, que cursei aqui de 2002 a 2005. Mas não fazia ideia do que viria depois. No que me especializar ou no que trabalhar. Aliás, ainda não me decidi sobre o que vem depois. Continuo gostando de todas as áreas de biologia e lendo sobre tudo. O que me atrapalha demais, já que o caminho acadêmico é o caminho da especialização. De saber cada vez mais sobre cada vez menos. Como disse o Alberto, professor de biologia celular que vocês vão ter o prazer de conhecer, “Por mim, célula não tinha nem núcleo”. Mas gostar de tudo em biologia não quer dizer que eu fiz a melhor das graduações. Passei o terceiro colegial focando nas matérias que precisava para a segunda fase da Fuvest. O que me ajudou muito no vestibular, mas atrapalhou de manhã. Como eu estava aprendendo por conta própria, criei o hábito de dormir nas aulas no colégio. Isso quando as aulas duravam 45 minutos e várias vezes eram dadas em ritmo de cursinho, dinâmico. Imaginem o que aconteceu quando entrei em um sistema de aulas de quatro horas: duas horas, um intervalo, mais duas horas. O resultado foi que dormi em quase todas as aulas durante a graduação. Ou pelo menos pesquei bastante. Até que eu comecei a...
Aos cientistas e professores formados e em formação: cabe a nós falar de ciência

Aos cientistas e professores formados e em formação: cabe a nós falar de ciência

Você lembra da última vez que entrou em uma biblioteca para consultar um livro que poderia ser encontrado na internet? Nem eu. Isso se você já frequentou uma biblioteca. Para a maioria dos alunos em curso esse já não é um hábito que vai ser desenvolvido. Mas temos um problema bem sério com a motivação para que esse conteúdo esteja na internet: quem deveria estar suprindo isso (em parte) somos nós. Um dos maiores motivos é a falta de incentivo financeiro para conteúdo científico original. O próprio modelo de negócios em blogs, ferramentas tidas como uma das maiores fontes de conteúdo reflexivo, já mudou bastante: a maior fonte de renda de muitos durante a década passada, o Adsense, paga cada vez menos. Por um lado, estamos migrando para outras plataformas de visualização de conteúdo que inviabilizam os anúncios, como posts no Facebook, a formatação do Flipboard (que recomendo demais), plataformas mobile e outros. O que quer dizer a publicidade de anúncios em blogs está cada vez menos vinculada ao conteúdo; ele pode fazer muito sucesso, mas as visualizações não necessariamente se transformam em exibições de banners, por exemplo. Mesmo dentro do mundo de anúncios em banner e similares, que não interferem diretamente no conteúdo, outras plataformas são bem mais atraentes. O Facebook, por exemplo, já concentra a maior parte das pessoas interessadas em um assunto. E torna fácil encontrá-las e atingir a todas de uma vez, negociando com apenas um intermediário extremamente profissional e com métricas de impacto prontas. Antigamente, quem quisesse fazer uma campanha que atinja consumidores em um nicho, digamos, colecionadores de lapiseiras, precisava muitas vezes recorrer à um anúncio em uma grande mídia aberta, como um canal de...

O mundo cão das vespas parasitóides

Para matar a saudade de posts biológicos e das vespas que tanto gosto, uma imersão de parasitas. Quando uma lagarta Zygaena sp. é infectada por vespas braconídeas, ao invés de empuparem e emergirem como uma mariposa diurna bem colorida, ela continua comendo e alimentando as larvas da vespa. Estas, quando estão crescidas o suficiente, saem da lagarta para a metamorfose em vespas, deixando algumas colegas para trás. As larvas que ficam para trás paralisam e manipulam a lagarta para que ela proteja as larvas em metamorfose – como já escrevi aqui. Caso contrário, uma segunda vespa, esta sem asas, pode aparecer e colocar os ovos nas larvas parasitas. Sim, a vespa hiper-parasita que parasita as larvas das vespas...
Venha contribuir com o ensino de ciências

Venha contribuir com o ensino de ciências

Aproveitando as aulas da disciplina de ensino de ciências com internet, e seguindo o que proponho, criei uma wiki de ensino e web onde vou colocar o conteúdo das aulas, fontes, links e o que mais puder sobre o tema. E como é a ideia de uma wiki, todos estão convidados a editar e contribuir com o conteúdo. Fique à vontade para comentar, acrescentar conteúdo, material, fontes da internet que você usa ou gostaria de usar em aulas e o que mais achar relevante. O conteúdo está sob licença CC BY-NC, pode ser copiado e reproduzido não comercialmente, se citada a fonte...
Quando vamos deixar de tratar alunos como ouvintes passivos?

Quando vamos deixar de tratar alunos como ouvintes passivos?

Em “Cognitive Surplus: How Technology Makes Consumers into Collaborators“, Clay Shirky escreve como ocupamos grande parte do nosso tempo livre – as 8 horas diárias conquistadas com a implementação da semana de trabalho de 40 horas – com a televisão. Um consumo completamente passivo de tempo e cognição passado sozinho, ou em pequenos grupos. Mas a nossa real vocação é outra, como dizem Nicholas Christakis e James Fawler no “Connected: The Surprising Power of Our Social Networks and How They Shape Our Lives“, nossos genes clamam pela participação em redes sociais. Agora, a internet nos fornece o que faltava na TV, a oportunidade de interagirmos e nos conectarmos com outras pessoas. Não à toa, a audiência da televisão vem caindo paulatinamente desde 2006 – a notícia se refere à Globo, mas a tendência é de todos os canais. Só que desta vez, não é resultado do uso do controle remoto como em 2000, a audiência está indo para a internet. O IBOPE insiste em não ver a tendência e chama o fenômeno de convergência de mídias (vide o print acima deste link). Mas o ponto é: as pessoas agora podem interagir. E o fazem sem dó. Como diz Cory Doctorow, o conteúdo não é o principal, o principal é a conversa que ele gera. Não estamos presos ao conteúdo e sim ao que ele nos gera. E, de fato, com a possibilidade de assistir o conteúdo quando e na ordem que queremos – via Netflix ou locadoras suecas – vivemos uma explosão de séries com narrativas mais longas e envolventes, como Game of Thrones, House of Cards, True Detectives, Breaking Bad e outras geradoras de discussões e...
Devo fazer biologia (ou mesmo ciência em geral)?

Devo fazer biologia (ou mesmo ciência em geral)?

  Me perguntam com certa frequência como fazer biologia, ou se devem prestar o curso ou não. Pessoalmente, sou muito feliz com minha escolha profissional, mas não consigo recomendá-la. Em parte por conta do minguado mercado profissional para biólogos, que não é nada promissor. Tirando a carreira de professor (nada contra ela, mas não deveria ser a única opção), conheço pouca gente exercendo a carreira de biólogo na indústria, em consultoria ambiental, perícia ou o que mais o Bessa tenha comentado. Da minha turma da Bio integral, vários estão lá, mas vários dos 120 que entraram no meu ano não seguiram na área. * Ah, mas e a carreira de pesquisador? Pois bem, também sou muito feliz nela, mas também não consigo recomendá-la. Justamente pelos motivos que o Gustavo Libardi descreve com muito bom humor nesse fluxograma. Então, não fique chateado ou ache que ele está tratando “vender arte” como algo menor, mas pense bem na motivação para seguir uma carreira de pesquisa. Já adianto que financeira não é 😉   * Se quiser uma perspectiva sóbria sobre a carreira de biólogo, acompanhe aqui a carreira os bicos que o biólogo desempregado Luccas Longo está...
Jared Diamond e a falta de água

Jared Diamond e a falta de água

Jared Diamond já escreveu muito sobre a trajetória humana. Desde como as sociedades se desenvolveram em “Armas, Germes e Aço” até por que algumas acabaram, em “Colapso”. Mais recentemente ele lançou um outro livro neste veio de sociedades que falharam e lições que contam, o “O mundo até ontem”, mas como achei que ele já exagerou a mão na desgraceira no Colapso, acabei não lendo. Em um texto seu na Edge, ele resume o mapa de como sociedades falharam em decisões críticas ao lidar com problemas. Inclusive problemas ambientais como a falta de água, que já extinguiu mais de uma sociedade, de acordo com Diamond. Não vivemos mais em uma época isolada, em que cada sociedade se ferra sozinha hoje todo mundo vai para a vala junto. Também temos muito mais tecnologias para ajudar a piorar. Mas, de qualquer forma, gostaria que você lesse os quatro passos e pensasse quantos deles (não) se aplicam à nossa situação paulista – se você não precisa encarar água fedida e estranha saindo da torneira, considere-se com sorte. 1 – Um grupo ou sociedade pode falhar em antecipar um problema antes dele chegar. 2 – Quando o problema chega, pode falhar em percebê-lo. 3 – Depois de perceber, pode não tentar corrigir. 4 – Por último, podem tentar corrigir mas falhar até nisso. [aguardemos] Texto completo do Diamond aqui. Não sei vocês, mas sinto que estamos passando por cada um dos itens. Além de guardar cada balde de água que posso em casa, passo o recado adiante aqui: The Adobe Flash Player is required for video playback.Get the latest Flash Player or Watch this video...
O que li de melhor em 2014

O que li de melhor em 2014

Sei que estou um pouco atrasado, mas se você ainda não trocou aquele vale presente e quiser alguma recomendação de livro para aproveitar o fim de férias, aqui vai o que li de mais marcante nesse ano passado: “The evolution of the human body”, por Daniel Lieberman  Excelente apanhado de como a evolução moldou o corpo humano e como nosso ambiente está entrando em conflito com isso. Vale tanto pela recapitulação da evolução, com as últimas descobertas, quanto pela interação com os ambientes pelos quais passamos. Gostei muito da discussão sobre problemas modernos e como nossos hábitos podem reforçá-los ao invés de corrigir – usar uma cadeira mais confortável por conta de dor nas costas (ao invés de exercício) e com isso os músculos das costas se enfraquecerem mais ainda.     “Proof”, por Adam Rogers  Leitura leve, muito boa. Vai bem acompanhada de uma cerveja. Adam Rogers reconta desde de onde vêm as bebidas ao que acontece durante a destilação, fermentação, envelhecimento e degustação. Ótimo mesmo para quem não curte tanto livros com uma veia científica.         “Perdido em Marte”, por Andy Weir  E para incluir um livro de ficção em tempos de tantas conquistas espaciais, o excelente livro de Weir. Além de dar uma ótima perspectiva em como será nossa missão para Marte, ele consegue construir uma história cativante, com boas sacadas de humor e bastante ciência.         “Acredite, Estou Mentindo”, por Ryan Holiday  Li por indicação do Rafael e não me arrependi. Escrito por um dos idealizadores de movimentos virais e campanhas polêmicas de marcas como a American Apparel, o livro conta como...
Ensino e Internet

Ensino e Internet

Cartaz feito por Fabio Lody, clique para aumentar   Como o próprio blog deixa claro, tenho dado bem mais atenção para a carreira de pesquisador do que para a divulgação. Mas nem tudo foi deixado de lado. Durante o último ano, resolvi colocar a mão na massa e testar algo que sempre disse quando falava de divulgação científica: a maior audiência está no vídeo. E parece realmente ser o caso – se você não conhece o Nerdologia, confira o resultado aqui. Agora vou poder concretizar outro desejo/cobrança que sempre fiz quando falei de ciência na internet: incorporá-la na sala de aula. De quebra, ainda vou poder fazer isso com uma professora que há muito tempo admiro: Sônia Lopes. Sim, aquela do seu livro didático de biologia. Ofereceremos de graça, em janeiro que vem, um curso de ensino de biologia usando internet. As informações estão todas no cartaz acima e no texto abaixo. A ideia é fugir um pouco dos ambientes voltados diretamente para ensino (como o Moodle) e cobrir os diferentes tipos de mídia que os alunos vão encontrar todos os dias na internet: wikis, blogs, vídeos, fóruns, redes sociais, etc. Além de técnicas de ensino que podem fazer uso dessas mídias. Se você não for o público alvo ou não puder participar agora (são bem poucas vagas, 30), não se preocupe. Farei o possível para disponibilizar todo o material online. Além disso, essa é a primeira tentativa do curso, para vermos como ele se desenvolve. Ainda pretendo aprimorá-lo e oferecê-lo muitas outras vezes, em especial para professores da rede pública. O cartaz de chamada feito pelo competentíssimo Fabio Lody, Diretor de Arte da iMasters. Obrigado, Fabio....
Lições da ESOF 2014 (Parte 1)

Lições da ESOF 2014 (Parte 1)

Como dá para perceber por aqui, ando bastante ocupado com o pós-doc ultimamente – conforme a pós chega ao fim, 10% dos posts de blogueiros acadêmicos contém justificativas para atrasos, pode reparar. Também mudei o meu foco: o pouco tempo que sobrou tenho usado em outra iniciativa, o Nerdologia. Há bastante tempo já estava incomodado com o interesse público por ciência escrita, como desabafei aqui. O que me motivou a partir para vídeos e uma outra abordagem de divulgação científica, que ainda vou explorar em outro post. A iniciativa funcionou e superou qualquer expectativa que eu tivesse. Realmente não esperava ter tanta gente interessada em tão pouco tempo. O que deixa clara a competência dos envolvidos nos vídeos: Alexandre Ottoni, Deive Pazos e Rodrigo Tucano. Como já aconteceu com o Lablogatórios, que virou ScienceBlogs Brasil, parece ser mais fácil conseguir reconhecimento internacional do que no Brasil. Fui convidado pelo comunicador de ciência Jens Degett a participar de uma sessão sobre o futuro da comunicação científica no Euroscience Open Forum 2014, em Copenhague (o lugar feio da foto que abre o post). Que me ensinou lições valiosas logo na abertura. Ciência é assunto real O evento foi sediado pela cervejaria Carlsberg – mais sobre isso em instantes – e aberto pela Sua Majestade Margrethe II, que aparece no telão aí em cima. O vídeo todo da abertura está ao final do post, se quiser adiantar para a simpatia da rainha falando sobre a importância da ciência para a Dinamarca, avance para 4:30. A fala é curta: a receita de como lidar com o futuro é a ciência. E passou uma ótima mensagem, fiquei impressionado demais com a...