Ache o Sacculina na foto.
Ache o Sacculina na foto. ©Lycaon, link no fim do texto.

Para quem se interessou por parasitas capazes de controlar o hospedeiro, segue-se um dos casos mais graves. Repare bem na foto acima, o parasita da vez é o Sacculina carcini. O Saculina é um crustáceo, parente das cracas. Cracas são aqueles animais que se aderem em rochas ou outras superfícies (inclusive barcos) e vivem filtrando a água.

O Sacculina aprendeu a se aderir a outra superfície. Durante muito tempo a fase adulta dele era desconhecida, ninguém sabia no que a sua larva era capaz de se metamorfosear (logo o motivo disso vai ficar claro). Suas larvas são nadadoras, e as larvas fêmeas conseguem entrar pelas brânquias de carangueijos – valeu Igor!! – e se fixar dentro do corpo deles. Ao se fixar, a larva atravessa a pele do caranguejo e entra no corpo dele – a superfície do caranguejo é mais fina dentro das brânquias para facilitar a passagem do oxigênio da água para o sangue. O passo-a-passo está na figura abaixo, vg do passo F significa estrutura vegetativa, é nela que estamos interessados.

Figura extraída da fonte 1.
Figura extraída da fonte. [1]

A estrutura vegetativa da larva se dirige para a hemolinfa, o líquido que preenche o interior do corpo do caranguejo. Lá, o Sacculina cresce uma rede de filamentos através dentro do corpo. Os filamentos, parecidos com raízes de uma planta digerem e absorvem os tecidos do caranguejo sem provocar grandes danos, o hospedeiro continua vivo e se comportando quase normalmente. Como parte dos recursos está sendo usada pelo parasita, a capacidade de regeneração de uma garra perdida por exemplo é perdida. Na figura abaixo um desenho mostrando como o Sacculina é capaz de se espalhar por todo o corpo do hospedeiro:

Sacculina sp. dentro do caranguejo (o sistema de canais em preto)
Sacculina sp. dentro do caranguejo (o sistema de canais em preto).

Depois de se desenvolver sugando o caranguejo, quando a Sacculina fêmea atinge a maturidade sexual, atrai larvas macho que também vão entrar no caranguejo e dentro dele vão cruzar com ela. Depois de fecundada, a fêmea precisa produzir seus ovos e para cuidar deles ela usa o caranguejo hospedeiro. Ela põe seus ovos no compartimento de ovos da fêmea do caranguejo, e a fêmea cuida dos ovos como se fossem dela. Lembra da foto lá em cima? O Sacculina é aquela bolsa de ovos amarelada sob o abdomen do caranguejo! – Fica fácil entender a dificuldade de encontrar a fase adulta das larvas, principalmente quando se procurando por uma craca…

Agora o ponto alto. Tudo bem, se o caranguejo hospedeiro é uma fêmea, ela normalmente cria os ovos em seu abdomen. Mas o que fazer se a Sacculina infectar um macho? Simples, a Sacculina fecundada castra o macho, e feminiliza o comportamento dele. O macho muda o formato de seu abdomen, também desenvolve a bolsa de ovos e toma todos os cuidados, protegendo e oxigenando os ovos. Até o comportamento de liberar as larvas recém-nascidas na água através da agitação da bolsa de ovos (a reboladinha com ginga no fim desse vídeo), como se fosse uma fêmea com seus próprios filhotes!

Não bastando crescer dissolvendo os tecidos do caranguejo, o Sacculina é capaz de castrar e mudar o comportamento sexual de seu hospedeiro, um procedimento que não deixa nada a dever a outros manipuladores.

Fontess:

Glenner, Henrik. “Cypris metamorphosis, injection and earliest internal development of the Rhizocephalan Loxothylacus panopaei (Gissler). Crustacea: Cirripedia: Rhizocephala: Sacculinidae.” Journal of Morphology 249, no. 1 (2001): 43-75. doi:10.1002/jmor.1040.

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