Os olhos são a janela do cérebro

olho2.jpg

Imagem modificada, original de ariel is

Algo de estranho com essa figura? Dá aflição, né. Sabe por quê? Porque você não sabe para onde ela está olhando.

Nosso cérebro é impressionante. Ele possui muitas habilidades
especiais que não notamos. Estamos acostumados a pensar que o mundo é
como enxergamos, mas não é. O tempo todo enriquecemos alguns
detalhes e borramos outros. Como o homem na caverna, estamos vivendo o
acontecimento de dentro, e isso dificulta notar muitas coisas. Basta
reparar no que somos capazes de enxergar baseados em 15 pontos que se
movem
.

Comece a reparar nos olhos de outros animais. A maioria dos
mamíferos, como vacas, esquilos, coelhos e inclusive outros primatas,
possui olhos com a esclerótica (a parte branca do olho) pigmentada.
Isso tem um motivo, esconder para onde o animal está olhando. Agora
volte e repare no meu comentário entre parênteses, nossa esclerótica é
branca. Por isso ela faz justamente o contrário, ressalta a posição das
nossas pupilas, e mostra a direção do olhar.

Entre os primatas, somos os que têm a maior parte da esclerótica exposta. Olhos abertos para os lados são ótimos para compensar nosso tamanho, ao invés de movermos a cabeça toda para os lados, movemos apenas os olhos. Ela segue uma regra, quanto maior o primata, maior a área, exceto para nós humanos. Nossa área lateral é a maior de todas, apesar de sermos menores do que os gorilas. Além da esclerótica mais exposta, é a mais clara [1]. Isso mostra o papel importantíssimo do olhar na nossa comunicação.

Os primatas possuem um circuito nervoso especialmente voltado para reconhecer o olhar, circuito este que não é bem desenvolvido em pessoas autistas, possível razão para que eles evitem o contato olho-a-olho.

Para entender o papel que um olhar pode ter na comunicação, outras espécies podem ajudar. Especialmente espécies que possuam um olhar fácil de reconhecer, e que sejam socias. Saber para onde o próximo está olhando pode ser motivo suficiente para a seleção natural. A espécie da vez é a Gralha de nuca cinzenta (Corvus monedula), clique no read on para saber o que ela revelou.

Corvus_monedula.jpgEssa gralha é da família Corvidae, a mesma dos corvos, muito inteligentes. Animais sociais, possuem uma íris bem clara, que evidencia bastante a direção das pupilas.

Os principais predadores dessa espécie de gralha são aves de rapina,
que se baseiam na visão para caçar. Porém, o que indica a direção do
olhar de aves de rapina é o movimento da cabeça. Logo, a capacidade de
reconhecer o movimento dos olhos deve ser fruto da interação dentro da espécie, para
entender os competidores e parceiros. Para testar essa possibilidade,
foi avaliado o papel do olhar na cooperação e competição.

Para simular companheiros das gralhas foram utilizados seres humanos. Treinar outras gralhas para se comportar conforme os experimentos requeriam é complicado demais. Pessoas com as quais as aves já estavam familiarizadas foram usadas como parceiros e pessoas desconhecidas foram usadas como competidores.

Competição

A situação de conflito consistia em colocar o alimento em um ponto da gaiola e contar o tempo que a gralha demorava para coletá-lo, sob diferentes tipos de olhar, de pessoas conhecidas ou desconhecidas pelo animal. Os diferentes tipos de olhar eram: olhar direto, com o rosto e os olhos voltados para a ave; olhar para o lado, com a cabeça voltada para a gralha e os olhos para o lado, em outra direção; cabeça de perfil, tanto o rosto quanto os olhos apontavam para o lado; olhos fechados, com o rosto voltado para a ave; e de costas, com o rosto voltado para o lado oposto da gralha.

Quanto mais direto o olhar, mais tempo a gralha levou para coletar a comida. E essa diferença só aconteceu quando quem olhava para a ave era uma pessoa estranha para ela. Sabendo que a ave discriminava pessoas desconhecidas de conhecidas, e as tomava como ameaça, uma segunda rodada de experimentos mostrou os tipos de olhar que ela reconhece.

olhares.jpg

Diferentes tipos de olhar, direto, indireto e ausente. Com um olho ou dois.

Dessa vez, a pessoa estranha olhava das diferentes formas acima. Quanto mais direto o olhar para a gralha (os olhares da esquerda), mais tempo a gralha levou para pegar a comida. Curiosamente, ela distinguiu entre um olho ou dois voltados para ela. Nenhum primata testado, além de nós e dos macacos resos, foi capaz disso. Para os primatas só eram reconhecidos dois olhos apontando para a mesma direção.

Cooperação

Na situação de cooperação, dois potes eram apresentados à gralha, e a comida estava sob um deles. Pessoas estranhas e conhecidas apontavam para ela qual o pote que continha a comida. Novamente, elas discriminaram entre ambos e só levavam em conta a dica quando quem apontava era conhecido.

E o mais impressionante foi o tipo de dica que consideravam. Os melhores resultados foram obtidos quando o experimentador apontava para o pote certo ou quando ele olhava para a gralha e para o local certo alternadamente. Apontar para o local é reflexo do comportamento das próprias aves, já que usam o bico para mostrar a um companheiro onde está a comida.

O notável é elas reconhecerem o olhar para elas e para o local certo. Entre os primatas que já foram testados, essa técnica só funciona depois de muito treinamento, e ainda sim com pouco sucesso. Novamente a exceção é o macaco reso, que também sabe fazer isso. E dois animais que já são “naturalmente” treinados, chimpanzés domesticados e cães, que convivem com os donos tempo suficiente para aprenderem o comportamento.

O comportamento em relação a competidores e parceiros mostra o quão importante é o olhar na comunicação das gralhas. A diferença entre elas e os primatas mostra que para elas e para os humanos a clareza na direção do olho, proporcionada pelo contraste entre a pupila e o entorno, acrescenta uma complexidade ainda maior nessa interação. Resta saber porque os macacos resos também são capazes de reconhecer as sutilezas[2].

Fonte:

[1] Kobayashi, Hiromi e Kohshima, Shiro. “Unique morphology of the human eye” Nature 387, 767-768 (1997).

[2] Bayern, Auguste M.P. von, e Nathan J. Emery. “Jackdaws Respond to Human Attentional States and Communicative Cues in Different Contexts.” Current Biology. DOI: 10.1016/j.cub.2009.02.062.

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Discussão - 2 comentários

  1. Jay disse:

    Os cães também apresentam essa capacidade certo?!
    Meu cachorro nunca recebeu nenhum treinamento, mas ele apresenta alguns desses comportamentos (ele olha na direção que eu estou olhando, corre na direção que eu aponto… esse tipo de coisa).
    É o mesmo caso que vc descreveu?

  2. Atila disse:

    Sim Jay, isso mesmo. Em cães isso acontece, mas deve estar relacionado com condicionamento (mesmo que involuntário) pela convivência com humanos. O surpreendente na gralha é que esse comportamento é espontâneo, se houve condicionamento foi pela convivência com outras gralhas

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