Mas um grupo do departamento de psicologia de Harvard achou uma solução bem elegante. A intenção foi observar por fMRI (ressonância magnética funcional, também muito usada por House et al.) regiões associadas a conflito, controle cognitivo e inibição de respostas. - Aos interessados, córtex cingulado anterior, região dorsolateral e ventrolateral do córtex pré-frontal.
Se as pessoas tendem a ser honestas e fazem esforço para mentir, a região de controle deve acender ao serem desonestas. Já se tendem a mentir levar vantagem sempre, precisam ativar a região de controle para se comportar honestamente, e ela fica inativa quando estão sendo desonestas.
Um experimento que desse a oportunidade para ganho desonesto foi bolado. Os voluntários eram chamados para um experimento que verificaria a paranormalidade das pessoas através do lançamento de moedas. Assim, haviam duas situações para medir a atividade nervosa: na primeira, o voluntário dava o palpite de qual lado ele achava que cairia para cima, cara ou coroa, e a moeda era jogada. Para cada acerto ele ganhava $3 e para cada erro perdia o mesmo valor. Esta era a atividade normal do cérebro, já que a pessoa não tinha controle sobre os ganhos; na segunda, o voluntário dizia qual o palpite que ele tinha pensado depois do lançamento ser feito. Ele dizia se tinha acertado ou errado, e ganhava ou perdia $3 novamente. Aqui, a pessoa tinha a oportunidade de mentir o palpite, e ser recompensada, sem saber que o teste era montado justamente para medir isso.
Como as chances de uma moeda dar cara ou coroa são de 50%, e ninguém consegue prever o futuro - se você acha que paranormais existem, está no blog errado - detectar os desonestos foi bem simples. Qualquer um que acertasse menos do que 53% dos lançamentos era classificado como honesto, os que acertavam entre 53 e 68% eram postos de quarentena, no grupo ambíguo, e quem acertava 69% ou mais ganhava o rótulo de desonesto (aliás, na cara larga, alguns chegaram a "acertar" 100%).
Na situação em que não havia escolha, e nas que havia mas as pessoas tinham acertado o lado da moeda, não houve diferença nos tempos de resposta nem na atividade das regiões de controle do cérebro. Aqui, o ganho era honesto. Já quando havia a opção de mentir, as pessoas honestas não demoravam mais para responder que haviam perdido, bem como não tinham atividade nervosa alterada. Os indivíduos desonestos acendiam as regiões de controle e levavam bem mais tempo para responder se haviam ganho.
Esse tempo de resposta mais longo indica a tomada de decisão sobre o que responder. E quanto mais desonesta a pessoa, mais atividade nas regiões de controle.
O estudo não resolve se a maior atividade dos centros de conflito e tomada de decisão é porque os indivíduos desonestos precisam se esforçar para mentir ou decidir se compensa ou não mentir naquela situação. Mas mostra que nossa honestidade é espontânea.
Não é o grande estudo final sobre o comportamento humano, e nenhum vai ser, mas abre portas para novos testes. Será que quem mente demora para resolver mentir ou para escolher quando mentir? O que muda em pessoas honestas ou desonestas? Qual a motivação dos honestos?
Como sempre em ciência, uma pergunta respondida abre portas para muitas outras novas.
Fonte:
Greene, J., & Paxton, J. (2009). Patterns of neural activity associated with honest and dishonest moral decisions Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (30), 12506-12511 DOI: 10.1073/pnas.0900152106
Meu nome é Atila Iamarino, sou biólogo e doutorando em evolução de HIV-1. Apaixonado por ciência e viciado em informação.





Comments (2)
Noooossa!Super interessante o estudo!
Apesar de que raciocinando um pouco e discutindo com alguns amigos aqui..acho que isso ja era meio que senso comum..
Todo mundo faz um certo esforço pra mentir.. inclusive quem tem um pouco de sensibilidade (principalmente mulheres) conseguem detectar um mentiroso à distancia exatamente por esses pequenos sinais...
E isso já é uma habilidae humana mio que intrínseca..mnas enfim estudos como esse são sempre interessantes..
Ótimo post..abraços
Posted by: Davi - Bioconnection | julho 29, 2009 3:22 AM