Bagheera kiplingi fêmea comendo um corpo beltiano. Outros corpos aparecem na ponta das folhas. Crédito: M. Milton (artigo citado).

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Quero deixar registrado aqui que perdi um pouco do respeito que
tenho
pelas aranhas saltadoras. Descobriram uma aranha saltadora do
México e América Central, a Bagheera kiplingi, herbívora! Deve ser a crise! Agora
só falta descobrir que ela curte incenso e usa Macintosh. – Na verdade,
não descobriram a aranha, ela já era conhecida. O que descobriram foi o
vergonhoso ato de herbivoria.

Como qualquer recurso sobrando é
energia em potencial, e a biologia vive cheia de exceções, era de se
esperar que uma hora encontrassem uma aranha herbívora. A barreira para
herbivoria é muito grande, uma vez que a carne possui todos os
aminoácidos essenciais e isso dificilmente é encontrado em partes
vegetais. Animais herbívoros contam com uma série de microorganismos
simbiontes que digerem as plantas e transformam seus componentes em
precursores de aminoácidos essenciais e carbohidratos. É assim com
vacas, coelhos, formigas e cupins. Eles possuem protozoários e
bactérias que tornam a dieta vegetal possível. Mas e as aranhas?

O que a Bagheera kiplingi
faz é aproveitar uma deixa. Ela vive em acácias, e as acácias são
plantas muito mais gentis, pelo menos com as formigas. As acácias usam
formigas como forma de defesa, além dos espinhos. Para adquirir e
manter as formigas, elas possuem nectários extra-florais ou peciolares,
ou seja, glândulas que produzem açúcar na base das folhas (o pecíolo), e o corpo beltiano, brotos especiais ricos
proteína e gordura. Estas estruturas especializadas da acácia, com uma
composição bem rica de açúcares, lipídios e proteína é que são usadas
pela aranha. Acompanhe ela coletando um corpo beltiano no vídeo do
artigo disponibilizado por um dos autores no youtube (com direito a HD no link original):

Para completar a dieta, comem principalmente larvas de Pseudomyrmex sp.,
a formiga que habita as acácias. Mas este comportamento é raro, mais de
90% da dieta da aranha no México e cerca de 60% na América Central é
constituída de tecido vegetal. Ainda não se sabe como o sistema
digestivo dela é especializado, pois apesar do valor proteíco, 80% do
conteúdo dos corpos beltianos é fibra vegetal.

A convivência com as formigas também não é das melhores, e frequentemente a B. kipling precisa escapar das Pseudomyrmex e proteger o ninho contra elas.

Mais de 5000 espécies de Salicidae e basta uma delas para jogar a reputação na sarjeta.

Fonte:

Meehan, C., Olson, E., Reudink, M., Kyser, T., & Curry, R. (2009). Herbivory in a spider through exploitation of an ant-plant mutualism Current Biology, 19 (19) DOI: 10.1016/j.cub.2009.08.049

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