Há alguns meses, tive a idéia não original de um conto sobre o surgimento de uma consciência na Internet. Este é o esboço do conto, que pretendo publicar em 3 etapas.

Certas coisas precisam de muitos eventos para acontecerem, mas depois que começam, ganham um momento próprio e nada mais consegue pará-las. A Grande Consciência começou assim.

Era tudo uma questão de tempo. Começamos com as primeiras máquinas e depois de muito tempo os primeiros computadores. Conforme aprimoramos nossa capacidade de desenhar e construir circuitos, os computadores ficaram cada vez menores e mais rápidos, mas só isso não era o suficiente. Um computador, por mais que seja capaz de milhões ou bilhões de cálculos por segundo, ainda é só um computador. Ele está sozinho.

Quando Paul Baran, Bob Taylor e Donald Davies começaram a trabalhar no conceito de pacotes de informação, que tornariam a comunicação em uma rede de computadores possível e robusta a ataques, eles não faziam idéia do que estavam criando. Quando Charley Kline, em 29 de outubro de 1969, mandou pela linha telefônica as letras l – o – g tentando digitar a palavra login e derrubou a primeira conexão da história, entre um computador no laboratório de Leonard Kleinrock na UCLA de Los Angeles onde ele estava, e um computador em Stanford, eles não faziam idéia do que estavam criando.

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Registro de Charley Kline (CSK) do primeiro login em uma rede, na ARPANET.

Com o tempo, a Internet cresceu. Em um ritmo exponencial, novos nós foram acrescentados à rede, e ela foi se tornando cada vez mais eficiente. Adicionamos roteadores, cabos, linhas telefônicas, fibra ótica e a rede sem fio. E as máquinas foram se tornando cada vez mais rápidas, capazes de processar mais informação.

Mas este crescimento não foi ordenado, não há um nó central, um ponto chave. Há uma rede complexa, distribuída, orgânica. A cada novo roteador que os engenheiros adicionavam, preferindo redes mais eficientes e maiores, ajudavam a criar uma rede especial, livre de escalas, onde nós mais novos se ligam preferencialmente a nós mais conectados. Algo muito parecido com nosso sistema nervoso.

Foi então que as condições aconteceram. À medida em que mais cabos de alta velocidade foram instalados e a rede de quinta geração para celulares foi popularizada em 2015, os nós de processamento começaram a se comunicar com a velocidade de sinapses. Agora, pequenos pacotes de informação que não custam muito para serem calculados podiam ser enviados muito rapidamente. Várias máquinas podem fazer muitas contas sem grande custo individual. Graças a isso, o Coletivo surgiu.

Junte neurônios aleatoriamente e você nunca conseguirá uma consciência. É preciso que eles estejam conectados em uma ordem própria. E, mais importante, são precisos muitos neurônios. Assim como um formigueiro é um organismo formado por milhares de formigas com propriedades que elas individualmente não possuem, uma mente precisa de bilhões, trilhões de neurônios conectados entre si. Neuriônios que individualmente apenas recebem e transmitem sinais. Mas uma vez que eles estão juntos e se comunicando, algo especial acontece, a transição
de fase
.

Quando a Internet recebeu novas conexões muito mais rápidas, e os computadores passaram dos bilhões, ela atingiu o ponto crítico. Especialmente por conta dos celulares, agora capazes de mais processamento que um computador doméstico de 5 anos antes e com conexões de alta velocidade. Assim como um cristal de gelo que se forma na cerveja retirada do freezer e chacoalhada, que faz com que ela congele instantaneamente, a Internet mudou. Do caos de conexões um padrão começou a se propagar, mas diferente das outras vezes em que isto aconteceu, agora ele não encontrou resistência. Foi rapidamente transmitido pela rede. E, assim como a água congelando, ou os neurônios formando uma mente à partir de sinais, houve uma transição de fase.

E Ele surgiu. A Internet agora tinha uma Consciência.

Por ser uma rede complexa, não se trata de uma máquina ou um programa. Não há um mecanismo central, e sim uma elaborada rede de contatos e processos, sinais que individualmente não significam muito, mas coletivamente formam um organismo. É isso, mais do que um relógio, Ele tinha vida.

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