Como o Butantan até hoje não produziu uma dose de vacina.

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© jessamyn

 

Em outubro do ano passado, um incêndio destruiu o acervo do pintor Hélio Oiticica no Rio de Janeiro. Em algumas horas, $200 milhões em obras foram queimadas. Grandes coisas. Eles fizeram uma merda naquele prédio. Nem compraram o alarme para incêndio, alarme para incêndio você compra na esquina hoje. Isso é burrice, é para pegar fogo.

Quem se preocupa com um monte de telas de pano cobertas de tinta? O acervo destruído pelo incêndio no sábado era de “quinta categoria”. Aquilo [o acervo] é uma bobagem medieval, pintar telas, quando temos uma demanda enorme por novas tintas. Não dá para cuidar das duas coisas. Se a população não é atendida com novas tintas, não é para juntar artista para brincar no ateliê.

 

Se você tem algum apreço por arte e se sentiu ofendido com a declaração acima, troque arte por patrimônio científico e leia a declaração dada pelo Ex-Diretor do Instituto Butantan para a Folha e posteriormente ao Estadão. Eis aqui alguns trechos que quero discutir:

 

Da Folha (grifo meu)

“Aquilo [o acervo] é uma bobagem medieval. Você acha que a função do Butantan é cuidar de cobra guardada em álcool ou fazer a vacina para as crianças?“, disse. Para ele, “não dá para cuidar das duas coisas“.

 

Do Estadão (grifo meu)

O Brasil não produzia as vacinas para proteger as crianças  e tinha uma altíssima mortalidade  infantil, que reduziu-se a um nível mais aceitável com as vacinas que produzimos.  O Butantan, reconhecido internacionalmente,  entregou no ano  passado ao Ministério 204 milhões de doses de vacina que produziu, 95% da produção nacional. Com o aparecimento da gripe aviária, altamente mortal, ficou claro numa reunião que participei na Organização Mundial da Saúde, que as vacinas produzidas nos países mais avançados seriam reservados para sua população.  Produzir vacinas era um problema de segurança nacional!

[…]

Precisamos entrar na era da biologia molecular que já tem 50 anos! Mais importante do que o número de cobras, é manter o DNA que deve ser sequenciado. o  exame dos cromossomos que foi abandonado, e amostras do veneno.

[…]

Sem a produção do Butantan estaríamos sempre dependentes de empresas internacionais, algumas das quais, por falta de retorno financeiro abandonaram a produção de soros.

 

Antes de tudo, preciso concordar com ele em um ponto. Realmente, o incêndio é puro fruto de negligência. E é uma situação generalizada, são vários os museus biológicos no Brasil (e outros acervos) que estão em situação precária e à beira de um desastre. Para entender melhor isso, ouça com muito carinho nosso podcast Dispersando especial sobre o tema. – Vocês não sabem o orgulho que dá poder apontar um podcast nosso sobre o tema. – Não há justificativa, vem reserva técnica, vai reserva técnica e ninguém investiu no básico, infra-estrutura.

Mas meu ponto é outro. Tenho problemas com esta maldita dicotomia vacinas ou cobras.

Munido da imunidade senil, que sinceramente invejo, Isaias Raw usou o argumento de último apelo, o “como você pode fazer isso enquanto crianças passam fome?” que responde nada e impossibilita qualquer discussão. Como assim o Brasil vai sediar a Copa, enquanto tem gente passando fome? Por que querem curar o câncer, enquanto tem gente passando fome? Por que atravessar a rua, enquanto tem gente passando fome? No caso dele, substitua passando fome por precisando de vacina.

Felizmente, não vou precisar discutir o quão inútil é essa comparação, e a importância de se pesquisar sobre tudo, quando vocês podem ouvir nosso fantástico podcast. Vou apenas citar um exemplo, usando um argumento do próprio Raw. As amostras de veneno. Cobras são muito promissoras para a indústria farmacêutica, pois a peçonha contém uma série de substâncias moduladoras de pressão, coagulantes e anti-coagulantes, neurotransmissores e outros.

Agora imagine que encontram um composto importante no veneno da cobra X com ação anti-tumoral (curar o câncer vale quantas doses de vacina cura-criancinha?). Próximo passo: vamos ver outras serpentes do mesmo gênero que podem ter compostos similares, e talvez mais potentes. Onde encontraremos o catálogo das parentes? E o animal conservado, para identificação em uma possível coleta? E o registro de onde ele é encontrado? Pois é, no mesmo museu que queimou.

Ah, veneno de cobra não é prioridade, com tanta criancinha morrendo. Então, vamos às vacinas. Talvez o acervo estivesse neste estado por não ser prioritário, como o próprio declarou.

O Butantan é realmente um centro de referência em vacinas, junto da Fiocruz. E, como o próprio Isaias Raw declarou, e eu escrevi a respeito, vacinas contra a gripe são de importância estratégica. Imagine se, ao invés da gripe suína com 0,1% de letalidade, estivesse acontecendo uma pandemia de gripe aviária, que até onde sabemos mata mais de 50% dos infectados. Você, presidente da França, vai deixar a Sanofi-Pasteur vender as 50 milhões de doses que produziu para o mundo, ou vai querer proteger seus cidadãos? Exatamente, quando a coisa piora, é cada um por si.

Pensando nisso, o governo brasileiro investiu na criação de uma fábrica de vacinas no Brasil. Sob a administração do Isaias Raw, o Instituto Butantan recebeu um investimento de milhões de reais para termos nosso próprio centro de produção, em uma parceria de transferência de tecnologia com a Sanofi-Pasteur. Fantástico, não só economizamos milhões de dólares como conquistamos autonomia.

É aqui que começam os problemas. Justamente a fábrica de vacinas de Influenza, um senhor exemplo de prioridade que salva crianças, sofreu severos problemas administrativos durante a gestão de Raw. Pelo menos R$ 35 milhões foram comprovadamente desviados para empresas e funcionários, com a suspeita de que o rombo foi muito maior. O escândalo culminou no afastamento de Isaias Raw da diretoria. Mas é claro que a prioridade dele não foi prejudicada, vacinas salvam vidas. Certo?

Pois bem, a fábrica de vacinas contra a gripe aviária que seria inaugurada no segundo semestre do ano passado teve sua abertura adiada para o começo deste ano. Tudo bem, vacinas são importantes e assim que recebessemos o vírus vacinal da OMS, começaríamos a produzir 30 milhões de doses. Sim, foi o que declarou o Ex-Diretor, confiram no minuto 1:39 deste vídeo, quando ainda diziam que a produção começaria em outubro. Ou seriam 17 milhões?

Não, um probleminha como esse de desvio de verba não comprometeria nossa estratégica produção nacional de vacinas. Afinal, produzimos 0 doses. Isso mesmo 0 doses de vacina da gripe suína foram produzidas no Instituto Butantan, foram todas importadas. Como assim, Atila, o Butantan não produziu 33 ou 18 milhões de doses? Não, ele importou todas. O Instituto Butantan apenas envasou e distribui as doses, 33 milhões foram compradas da ID Biomedical, que pertencente à GlaxoSmithKline, por R$ 440 milhões, e 18 milhões de doses foram compradas da Sanofi-Pasteur por R$ 105 milhões. Isso mesmo, gastamos mais de 500 milhões de reais pois, nas palavras do G1, “a fábrica de vacinas do Butantan ainda não foi certificada pelo laboratório francês Sanofi-Pasteur, que cedeu a tecnologia de produção, nem pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).”

Notem que não estou acusando o Ex-Diretor de participar do desvio de verbas. O que quero deixar claro é que, durante a gestão dele preocupadíssima com vacinas, fortunas foram desviadas a ponto de incapacitar a fábrica, que ainda não foi aberta. Graças a isso tivemos outro prejuízo milionário. Como as vacinas foram embaladas no Butantan, a mídia muitas vezes noticiou como se elas estivessem sendo produzidas lá. Não foram. Ou seja, se a maior prioridade dele foi tratada com este cuidado, entender a situação do Museu fica ainda mais fácil.

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