Um bom tema para mostrar como vírus não são apenas os Causadores de Doenças do Mal © que a maioria das pessoas conhece – e eu mesmo ajudei a reforçar, tratando quase exclusivamente de vírus como influenza e ebola aqui.

Como eles causam
ResearchBlogging.orgTumores são células que perderam o controle sobre quando parar de se dividir. Corremos um risco constante disso acontecer quanto temos trilhões de entidades capazes de se reproduzir em nosso corpo. Temos também vários mecanismos que impedem os tumores de se desenvolverem. A própria célula possui uma série de proteínas como a p53, que é ativada quando há dano no DNA e promove seu reparo. Elassão capazes de iniciar o processo de autodestruição chamado apoptose, uma morte programada. No caso da p53, a apoptose é induzida quando o dano ao DNA é muito extenso.
Nosso sistema imune busca células expressando proteínas estranhas ou com vias de sinalização que deixam de funcionar. O linfócito CD8  um dos linfócitos que compõe o sistema imune  por exemplo, checa quais proteínas as células estão produzindo em seu interior, e quando uma célula não apresenta nada ou apresenta proteínas estranhas ao corpo, ele induz a apoptose da célula checada.
Eventualmente, alguma célula do corpo pode sofrer mutações em seu DNA que não só acabam com o controle da divisão celular, como interferem na capacidade desta célula fazer apoptose e/ou reportar ao sistema imune o que está acontecendo. É a transformação de uma célula comum em uma célula maligna. E os vírus podem interferir direta ou indiretamente neste ponto.
Os vírus da hepatite B e C (HBV e HCV) são bastante preocupantes em grande parte pelo dano indireto que causam. Uma parte significativa dos infectados, principalmente no caso do HCV, pode desenvolver a forma crônica da doença. Nela, o sistema imune não consegue exterminar o invasor, e o portador pode passar anos com o vírus causando danos em seu fígado, algumas vezes associados a comportamentos como alcoolismo que agravam a condição ainda mais. Como o fígado é um órgão capaz de muita regeneração, se mantém constantemente repondo as células danificadas, dando chances constantes para que uma delas saia de controle. Daí a presença de hepatite viral em grande parte dos casos de hepatocarcinoma.
Outros vírus como o Epstein-Barr (EBV) e o Papiloma Humano (HPV) são capazes de transformar células comuns em células tumorais. Eles estabelecem infecções latentes, ou seja, não produzem partículas virais assim que entram na célula. Ao invés disso, inserem o seu DNA no núcleo em uma estrutura circular chamada epissomo, onde podem permancer inativos.
Para se manter dentro da célula por longos períodos de tempo, ambos sabotam a via de apoptose. O HPV, por exemplo, expressa uma proteína chamada E6 que induz a degradação da p53, enquanto a E7 estimula a produção de telomerase, enzima que repõe as pontas dos cromossomos que gastas a cada divisão celular. Assim, ele não só impede a célula de se destruir, como a torna capaz de se dividir indefinidamente. Graças a isso, Papiloma vírus sexualmente transmitidos como o HPV 16 estão presentes em 99% dos casos de câncer cervical do tipo carcinoma de célula escamosa, incluinido as famosas células HeLa. Além de causarem tumores em vários outros locais envolvidos no sexo, boca, faringe, reto e (até!) esôfago.
Já o EBV é tão eficiente em transformar células, que a maior parte do dano que causa ocorre por conta do aumento do número de linfócitos infectados, ao invés da destruição deles, como a maioria dos vírus. Quando associado a outras infecções como o HIV, é capaz de causar uma série de linfomas, como o linfoma de Burkitt que atingia crianças na África. Como os casos de linfoma ocorriam parecidos com uma epidemia, o médico inglês Denis Burkitt enviou para Londres as amostras que permitiram a Anthony Epstein e Yvonne Barr identificar o EBV como o primeiro vírus causador de tumores em humanos, um oncovírus.
Como eles curam
As mesmas alterações que as células comuns precisam para se tornarem tumores podem torná-las suscetíveis. O motivo de sermos infectados por alguns tipos de vírus e outros não está em nossas defesas. Vírus que nos infectam são aqueles que foram selecionados para driblar a barreira que nosso sistema imune impõe. Quando uma proteína viral é selecionada para destruir uma via de resposta imune, ou reconhecer uma molécula presente na superfície de uma célula, está deixando de interagir com várias outras.
Nem sempre este é o caso, existem vírus com o da raiva que são capazes de infectar e se replicar em uma série de hospedeiros. Mas isto não ocorre com o vírus da mixomatose do coelho. Este vírus foi isolado aqui na América do Sul e usado como controle do coelho europeu na Austrália, sem muito sucesso. Antes de ser introduzido nos coelhos de lá, foi necessário testar o quão contagioso este vírus era para outros mamíferos, incluindo humanos, para não terem mais um problema de contaminação.
Acontece que o vírus da mixomatose é bem restrito ao coelho como hospedeiro. E grande parte desta restrição acontece porque o vírus só consegue impedir a resposta imune de células deste roedor lagomorfo (valeu Takata!). Em outras células, uma molécula bastante importante na defesa celular chamada interferona é capaz de impedir a replicação do mixoma.
E adivinhe que tipo de célula não produz interferona. Justamente as células tumorais, ou já teram entrado em apoptose antes. Assim, surgiu a idéia de tratar tumores com o vírus da mixomatose. Dentro de qualquer outro mamífero que não o coelho, apenas células que não respondem ao ineterferon, as tumorais, são atacadas. O sonho de qualquer um desenvolvendo terapias contra o câncer, um tratamento específico, capaz de atacar um alvo sem causar efeitos em células saudáveis.
O vírus já foi testado em camundongos, para tratar glioma cerebral, um tumor de células nervosas muito delicado, dado o local onde ocorre. Os resultados foram animadores, o vírus foi capaz de se replicar e destruir células tumorais, persistindo neste tecido por mais de 1 mês, sem ser encontrado em outros tecidos.
Ainda são necessários muitos passos para podermos utilizar vírus capazes de destruir tumores, os vírus oncolíticos, para o tratamento do câncer. Uma das maiores limitações
é a resposta imune do hospedeiro, que tende a impedir o vírus de se difundir por todo o corpo e chegar nos tecidos alvo, além da produção de anticorpos que atacam o vírus em uma segunda inoculação. Estratégias como drogas que reprimem a resposta imune logo após a inoculação estão sendo testadas e parecem ser uma boa alternativa.
Quem disse que vírus só causam doenças?

Fontes: 

Hausen HZ. Infections causing human cancer. Wiley-VCH; 2006:517.
Lun X, Yang W, Alain T, Shi ZQ, Muzik H, Barrett JW, McFadden G, Bell J, Hamilton MG, Senger DL, & Forsyth PA (2005). Myxoma virus is a novel oncolytic virus with significant antitumor activity against experimental human gliomas. Cancer research, 65 (21), 9982-90 PMID: 16267023
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