O evento do SWU deste ano mal acabou e já começa um #mimimi geral, com reclamações de que foi ruim, mal organizado e afins. Essa é a maior das provas de que as pessoas — principalmente os chamados formadores de opinião — não estão preparadas para tomar uma atitude sustentável de verdade. Tais queixas são claramente de quem não entendeu o espírito do evento, e provavelmente possuem uma mente pequena demais para acomodar o conceito de uma atitude verde.
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Antes de tudo, gostaria de deixar claro que, em uma atitude mais do que sustentável que começou comigo, eu não fui ao SWU e poupei uma enorme emissão de carbono. Portanto vou me basear no relato da Isabella Ianelli, do Isabellices, e do Igor, para explicar como o SWU está sendo mal compreendido.
Pista Premium e preços humilhantes
Ao cobrar o ridículo preço de R$640, mesmo com patrocínio e apoio da Lei Rouanet, a organização do SWU adotou uma postura desafiadora que foi mal compreendida. Um dos pilares de uma atitude sustentável é a diminuição do consumo, o ato de pensar e repensar sobre o que compramos. Ao privar os participantes deste dinheiro, o SWU garantiu que muito consumo supérfluo fosse repensado. Com certeza, milhares de iPhones, iPads, Xbox360 e _______ [insira seu bem de consumo capitalista aqui] foram poupados.
Preços ridículos da comida e confisco do que levaram
Obviamente os alimentos que os espectadores levaram foram confiscados por um motivo. A organização sabia que quem levasse alimentos estaria utilizando embalagens individuais, muitos produtos que utilizam plástico para confinar doses ínfimas de comida, aumentando a emissão de carbono de cada participante.
Ao cobrar um preço exorbitante por uma comida horrível, os organizadores do SWU estavam convidando as pessoas a repensarem e reduzirem o seu consumo. E com certeza conseguiram diminuir a quantidade de carbono emitido por participante, ao forçá-los a um consumo energético digno de um vietnamita, povo sabidamente menos poluidor.
Aquele hambúrguer nojento de R$12 é um claro recado aos carnívoros, convidando-os a repensarem esta dieta rica em gordura e baseada no sacrifício de animais, fazendo-os considerar comer a grama do chão como melhor alternativa.
Copos plásticos para bebidas enlatadas e merchandising
Aqui mais uma atitude contestadora e inovadora, que foi mal interpretada. Ao montar uma barraca de merchandising com produtos certamente caríssimos e distribuindo copos plásticos para quem poderia estar bebendo diretamente da latinha, o SWU mostrou o quão patética é a cultura atual. Forçou os participantes a encararem a dura realidade e serem obrigados a repensar o que estavam fazendo lá.
Banheiros imundos
Mesmo cobrando o que cobraram de entrada, e com recursos para instalar fontes de água mineral dentro dos banheiros, a organização do SWU se viu obrigada a mantê-los imundos para diminuir a pegada de carbono de cada participante. Com mais uma atitude inovadora, conseguiram fazer com que cada participante segurasse até o último instante para utilizar os sanitários e o fizessem da maneira mais rápida possível, pensando duas vezes se colocariam a mão na válvula de descarga, diminuindo absurdamente o consumo de água.
Falta de organização
Mais um ponto em que a equipe do SWU saiu prejudicada por conta de uma decisão inovadora. Contratando um grupo reduzido e mal informado de funcionários, o SWU conseguiu ao mesmo tempo diminuir o impacto abiental com uma equipe menor e incentivar as pessoas a se comunicarem.
Ao invés da atitude mecânica de apenas responder certamente ao que era perguntado, a produção conseguiu criar um clima de colaboração e interação entre os participantes do evento, trazendo de volta o boca-a-boca há muito abandonado em nossa cultura. Uma maneira de convidar os participantes a repensarem o mundo virtual e desprovido de contato pessoal em que vivem.
Os “problemas” de som
Esta foi a decisão mais difícil e mal compreendida tomada pelo SWU. O que todos que estão reclamando não percebem é que, para ser um evento totalmente sustentável, foram instalados equipamentos capazes de conter a emissão de carbono do evento. Assim que uso do som ameaçava ser maior do que a capacidade de repôr o carbono emitido com árvores que serão plantadas onde ninguém vai ver, os circuitos de som entravam no modo econômico, reduzindo parcial ou completamente o gasto de energia.
Vocês fazem idéia da energia gasta por uma banda como o  Rage Against the Machine? Em uma posição de sacrifício próprio, os organizadores do SWU foram capazes de pensar tanto no ambiente que decidiram sacrificar o que seria fundamental no evento, e será necessário muito tempo para que o mundo entenda esta inovação.
Por fim, fica claro que o SWU foi prejudicado por ter uma atitude de acordo com o que pregou. Como bem disse o Gustavo Gitti, o SWU foi divulgado como um algo sustentável, e não um mero festival de música. Até o lema do show foi seguido, se alguém precisa fazer o papel de idiota em prol da sustentabilidade, it Starts With You.
**Atenção: este não foi um publieditorial para dar boa imagem ao SWU. Em uma atitude insustentável, não estou recebendo nada pelos elogios.**
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