Fonte: Nacho Diaz Arjona

Uma expressão bastante famosa em biologia evolutiva, atribuída a J.B.S. Haldane, é a proposta que bastava encontrarem um esqueleto de coelho em amostras de rocha do pré-cambriano para que ele deixar de acreditar na evolução. A idéia proposta é clara: e evolução é um processo tão complexo e elaborado, que basta um achado contraditório para que muito do que foi proposto seja revogado. Para que a evolução se mantenha como uma hipótese razoável e aceita, ela depende de inúmeros passos serem comprovados toda vez que encontramos algo novo.

E é exatamente isso que vem se repetindo. A edição deste mês da revista Science tem dois belos exemplos – acesso restrito a assinantes, infelizmente. Dois artigos discutindo a complexidade e possível pigmentação de penas fósseis. Um deles, o que trata da complexidade das penas e proto-penas está usando amostras conservadas em âmbar. Sim, penas de verdade, visíveis, com 70 milhões de anos.

O predicado por trás da descoberta é bastante simples. Os répteis deram origem a duas linhagens animais que transformaram a secreção de queratina da pele em estruturas úteis para isolamento térmico, proteção, comunicação e outras coisas. Um destes grupos deu origem a pêlos, e um indivíduo do gênero que perdeu boa parte deles mas ainda cultiva tufos no topo da cabeça está escrevendo este texto. Enquanto o outro grupo deu origem a penas, em um longo e tortuoso caminho que acabou com um de seus indivíduos também perdendo as penas, mas à força, e acabando no prato do almoço do supracitado dono dos tufos de pêlos. Evolution is a bitch.

Acontece que, até muito pouco tempo atrás, o único fóssil conhecido com penas era o Arqueoptérix, já bastante parecido com aves modernas. De maneira que as penas já apareciam bastante complexas em fósseis, e dando pistas para estimar sua origem. Tanto que os dinossauros do Jurassic Park foram desenhados sem elas, e estão aí para mostrar o quão velho você é, “da época em que dinossauro era pelado”.

Mais recentemente, vários fósseis muitíssimo bem preservados de dinossauros relacionados às aves modernas mostraram que eles já tinham penas. Não só tinham penas, como seus contemporâneos não relacionados à aves também foram penosos. O que quer dizer que as penas precedem as aves, e já deviam estar presentes nos répteis que deram origem a elas.

Estágios de complexidade da evolução das penas (à esquerda, A) e penas encontradas em âmbar que pertenciam ao estágio 1 (B) e 2 (C e D ampliado). Copyright e fonte: Science/AAAS.

Para explicar esta origem, foram propostos vários modelos de como elas teriam evoluído, de simples tubos a elementos cada vez mais ramificados e complexos. Eis que, um dos trabalhos deste mês (que bão vou discutir aqui pois está bem fora da minha área) mostra peças de âmbar com cerca de 70 milhões de anos, em vários destes estágios, com os mais simples presentes em animais contemporâneos aos que dariam origem às aves e já tinham penas mais complexas. Ou seja, os dinossauros e répteis próximos tinham uma grande variedade de penas, não só aquelas presentas nas aves.

Agora pense nisso: a astrologia com seus milhares de anos não consegue acertar em qual mês [valeu, @Takata] uma pessoa nasceu se baseando em sua personalidade, o que não impede que mais jornais tenham horóscopo do dia do que caderno de ciência, quem dirá caderno diário. Ja á evolução, área criada há menos de 300 anos, permite que sejam estimados que idade precisam ter fragmentos de resina de qual tipo de planta para que seja encontrado certo tipo de estrutura de um animal que morreu há 70 milhões de anos. E acerta.

Até hoje, nenhum fóssil fora de lugar apareceu. Talvez por que criacionistas estão cavando no lugar errado. Deviam tentar o terreno da Hanna-Barbera. Assim, da próxima vez que você ouvir argumentos de que a evolução não explica tudo, que macacos “ainda estão aí apesar de termos evoluído deles” – tenho a impressão de que motos foram desenvolvidas à partir de bicicletas, e as últimas também não sumiram – por favor, mostre essa imagem:

 

 

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