[inútil como bactericida, não como sabonete]

sabonetes

©AdamKR

Se fala sobre a onda do politicamente correto, e uma série de outras mudanças da sociedade. Uma das mudanças mais óbvias é nossa necesssidade crescente de limpeza e distância da natureza. É legal visitar a natureza nas férias, mas no dia-a-dia todo preferem o bife embalado em uma bandeija de plástico que não lembra de longe a vaca.

ResearchBlogging.orgE algo cada vez mais comum em prateleiras de supermercado e propagandas são os sabonetes e produtos afins com bactericida. Algumas propaganda inclusive fazem alusão direta à proteção que o sabonete traz ao eliminar bactérias. Agora, qual o embasamento real que eles têm para afirmar isso? Nenhum.

Lavar as mãos é um hábito de higiene essencial, claro. E realmente protege o corpo de uma série de doenças, como diarréia e gripe. De fato, um dos procedimentos médicos que mais salva vidas, principalmente de grávidas no pós-parto, é a lavagem de mãos do cirurgião. A questão é se lavar a mão usando um sabonete com bactericida é melhor do que com um sabonete regular em casa.

Os resultados que vou listar são todos derivados de uma revisão de diversos artigos tratando do uso de sabonetes antibacterianos publicado em 2007 (citado ao final).

Em primeiro lugar, foi levantada a eficácia do triclosano, bactericida mais comum em sabonetes. Encontraram 4 estudos onde se avaliou o risco de doenças como tosse, febre, diarréia e infecções de pele em casas que usavam sabonete comum em comparação com aquelas que usavam bactericidas, durante o período de um ano. Todos mostraram que não havia diferença nestas doenças, independente do tipo de sabonete usado. – Algo que provavelmente contribui para isso é o fato de que muitas destas doenças podem ser causada por vírus, que não são afetados pelo triclosano.

Dos trabalhos que mediram a quantidade de bactérias nas mãos das pessoas após a lavagem com produtos com triclosano, quase que apenas os que utilizaram uma concentração maior do composto (mais de 1%) do que a de produtos domésticos (entre 0,1 e 0,45%) viram uma diminuição. O único trabalho que observou uma diminuição usando um sabonete com uma concentração dentro da comum (0,3%) viu essa redução após cinco dias consecutivos de uso, com 18 lavagens de 30 segundos por dia. Ou seja, para a concentração doméstica de triclosano, é preciso lavar muito a mão para se ver alguma diferença.

Quanto à resistência ao triclosano, encontraram alguns estudos demonstrando que bactérias podem ser tornar resistentes ao composto. Mas a associação com resistência para por aí, não observaram evidências suficientes de que o uso de triclosano facilita a resistência a antibióticos, por exemplo – o baixo número de estudos que demonstraram esta associação, e a grande variedade de antibióticos testados não permitiram nenhuma conclusão direta.

O que me deixa com algumas perguntas sobre sabonetes antibacterianos:

Qual a necessidade de produtos que não possuem evidência nenhuma de benefício com a concentração de triclosano que incluem? Ou melhor, qual a legitimidade de anunciar que o sabonete protege contra bactérias? Pior ainda, qual a legitimidade de dizer que isso protege de doenças?

Por fim, não sei qual a vantagem de expor as bactérias da minha pele à uma concentração sub-ótima do mesmo microbicida que o cirurgião que pode me operar usa.

Para mais em sabonetes e bactérias, recomendo o excelente post do Karl, e a réplica do Takata.

 

[update] Realmente, o que o Takata fala no NAQ é bem sério, propaganda enganosa do pior tipo:

http://neveraskedquestions.blogspot.com/2011/07/lifebuoy-pra-prevenir-resfriados.html

http://neveraskedquestions.blogspot.com/2010/12/lifebuoy-na-linha-charlatanismo.html

 

Fonte:

Aiello, A., Larson, E., & Levy, S. (2007). Consumer Antibacterial Soaps: Effective or Just Risky? Clinical Infectious Diseases, 45 (Supplement 2) DOI: 10.1086/519255 [pdf]

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