Como aquele xixi acumulado que te faz levantar do sofá, precisei de muito para me tirar da inércia do blog. Vamos ver o que sai. – meu palpite? Se você está lendo isso, provavelmente me conhece há tempos.

Minha definição do que é divulgação científica.

Minha definição do que é divulgação científica. Os nomes em inglês apenas são para não favorecer/desfavorecer autores nacionais.

A esta altura, você que clicou aqui já viu estes outros posts discutindo a crise dos blogs de ciência. Por que pararam de surgir novos blogs? E por que os existentes, vide este, diminuíram muito o ritmo (ou pararam)? – O Renan, nosso físico hipster parou muito antes de isso ser moda.

Parte do conteúdo saiu

Número de posts e de citações a artigos científicos indexados pelo Research Blogging.

Número de posts e de citações a artigos científicos indexados pelo Research Blogging.

No começo deste blog, eu costumava postar todo tipo de coisa. Links interessantes, objetos de desejo, vídeos, quadrinhos e até textos científicos (vide categorias à direita). Hoje, fora os textos científicos, todo o restante deste conteúdo eu simplesmente compartilho no Twitter. Isso por que não uso o Facebook, já que para mim é um serviço 0,8 ou 80%, em termos do tempo que se pode dedicar a ele. E não sou só eu que acabei fazendo isso.

Discordo da noção do Hotta de que o SbBr (ou o isolamento dos blogs mais antigos) seja capaz de inibir o surgimento de novos blogs. Gostaria muito que tivéssemos um alcance capaz de provocar isso. Mas vejo o mesmo lá fora.

A figura acima, extraída do artigo que participo sobre o Research Blogging, mostra exatamente esta tendência. O número de posts indexados pela plataforma aumenta até 2010, por conta do aumento de postagens e novos blogs incorporados. E começa a cair em 2011. Agora reparem no número de citações: ele não cai proporcionalmente. Ou seja, os posts passaram a citar mais artigos. Ficaram mais densos, provavelmente por que o conteúdo menos científico foi para outras plataformas.

Ainda considero blogs exatamente isso, a melhor plataforma para conteúdo denso. Tanto que estou escrevendo aqui e não no buraco negro do Zuckerberg. Quero que este post continue aqui em uma semana. E quero que quem busque por ele no Google ainda o encontre. Agora, não tenho esperança de que seja lido por muitos.

Útil para quem?

Embora escreva pouco atualmente – não quero dar a desculpa de tempo, mas este texto está sendo escrito de madrugada, e vai ferrar meu dia – ainda acho blogs extremamente úteis. É o que mais prego por aí. Mas vejo o grupo para o qual eles são importantes diminuindo.

Entendo o blog atualmente muito mais como uma vitrine. Uma forma do autor mostrar o que produz, “leia minhas ideias”, e não só o que consome, “gosto de games e da série X”. Como o próprio Carlos Orsi escreveu:
Sou o primeiro a admitir que o trabalho aqui no blog foi importante para que eu conseguisse esses dois espaços, só que muito menos por conta da visibilidade (alguém aí?) e mais pela disciplina de trabalho e pela experiência acumulada na busca por fontes de informação.

Digo o mesmo por mim. O Rainha Vermelha foi e continua sendo importante. Me rendeu colaborações, me fez refletir muito sobre comunicação científica, permitiu produzir conteúdo para lugares como a BIREME, o SciELO e me fez conhecer muita gente muito interessante aqui do SbBr e de fora. É essa experiência que me faz ver blogs como uma etapa importante na formação do pesquisador, que vai ensinar ele a ler conteúdo de outras fontes além de artigos, a interagir, escrever e se comunicar com o público. É o que vai fazer o cientista migrar gradualmente na porção azul do gráfico que abre o texto para a área do que considero divulgação científica.

Mas não vejo muito incentivo para autores que não são entusiastas da ciência, como ressalta o Bruno de PierroNão ganho nenhuma remuneração financeira (diretamente) escrevendo aqui. Aliás, acho que nenhum blog de ciência em português gera renda suficiente para o autor se manter com ele. Ganho indiretamente, como disse no parágrafo acima. Outras prioridades entram na frente.

E não vejo um futuro onde blogs (especialmente em português) terão visitas suficientes para gerar receita.

Parte do público saiu

Público potencial e apelo de cada mídia.

Público potencial e apelo de cada mídia.

Tentei resumir em uma figura o que acho que aconteceu com o público leitor dos blogs. Quem chegava aqui buscando conteúdo no Google continua chegando. Afinal, o conteúdo das outras mídias é bem menos indexável. Quem costumava ler blogs de ciência rotineiramente, os convertidos, continua lendo, embora menos – falo baseado em N=1 (eu). Já quem clicava espontaneamente em links e até topava ler sobre ciência, embora não buscasse especificamente por isso, o grande público buscado pela divulgação não está mais aqui.

Fora mídias como blogs de tecnologia ou o Nerdcast, com um público cativo, a massa que a divulgação busca não está aqui. O Pirula conseguiu em um ano ou dois de vídeos regulares (se descontarmos os poucos vídeos mais antigos) mais de 100 mil assinantes. Adoraria conhecer um blog que não seja de humor com esse número de assinantes de feed. O mesmo vale para o vídeo do Eli Vieira, discutindo ciência pesada, com mais de um milhão e meio de visualizações.

Os blogs não morreram, e acredito que vão continuar sendo importantes indefinidamente. Porém, o grande público está lá fora. Não é para ele que estamos escrevendo em blogs, nem vai ser. Quem quer atingir uma grande audiência ou quer ter um retorno financeiro pelo esforço dedicado, especialmente em português, está procurando em outro canto.

Estou escrevendo para compadres, para aqueles que já me leram antes e não tinham texto novo para voltar. Se não acredita em mim, conte o número de comentários nos posts dos links citados no segundo parágrafo. Uma mariola para quem encontrar um comentário de quem não é compadre.

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