We_Can_Do_It!

Você lembra da última vez que entrou em uma biblioteca para consultar um livro que poderia ser encontrado na internet? Nem eu. Isso se você já frequentou uma biblioteca. Para a maioria dos alunos em curso esse já não é um hábito que vai ser desenvolvido. Mas temos um problema bem sério com a motivação para que esse conteúdo esteja na internet: quem deveria estar suprindo isso (em parte) somos nós.
Um dos maiores motivos é a falta de incentivo financeiro para conteúdo científico original. O próprio modelo de negócios em blogs, ferramentas tidas como uma das maiores fontes de conteúdo reflexivo, já mudou bastante: a maior fonte de renda de muitos durante a década passada, o Adsense, paga cada vez menos. Por um lado, estamos migrando para outras plataformas de visualização de conteúdo que inviabilizam os anúncios, como posts no Facebook, a formatação do Flipboard (que recomendo demais), plataformas mobile e outros. O que quer dizer a publicidade de anúncios em blogs está cada vez menos vinculada ao conteúdo; ele pode fazer muito sucesso, mas as visualizações não necessariamente se transformam em exibições de banners, por exemplo. Mesmo dentro do mundo de anúncios em banner e similares, que não interferem diretamente no conteúdo, outras plataformas são bem mais atraentes. O Facebook, por exemplo, já concentra a maior parte das pessoas interessadas em um assunto. E torna fácil encontrá-las e atingir a todas de uma vez, negociando com apenas um intermediário extremamente profissional e com métricas de impacto prontas.

Antigamente, quem quisesse fazer uma campanha que atinja consumidores em um nicho, digamos, colecionadores de lapiseiras, precisava muitas vezes recorrer à um anúncio em uma grande mídia aberta, como um canal de televisão ou uma página em uma revista, para atingir milhares ou milhões, dos quais centenas ou alguns milhares seriam o público alvo. Com o crescimento dos blogs e do conteúdo de nicho na internet, anunciantes que quisessem promover uma campanha para aquele grupo poderiam entrar em contato com os vários blogs que tratam daquele tema, negociar o espaço publicitário, em geral na forma de banners, e anunciar para um público mais específico. Com isso, dispensam a necessidade de falar com milhões para atingir centenas ou milhares. Mas nesse caminho, precisavam entrar em contato com inúmeros blogs para atingir uma audiência crítica, negociar com cada um individualmente e lidar com diferentes níveis de profissionalismo e condições de publicação. Hoje podem mais facilmente comprar uma campanha no Facebook ou no YouTube para aqueles que curtem sites ou páginas ou vídeos de lapiseiras e com isso atingir milhares de interessados no assunto negociando com apenas um ou dois intermediários.

Dentro desse mundo de menos publicidade sendo exibida à toa e maneiras mais eficientes de atingir o público, o valor publicitário do conteúdo criado em blogs, podcasts e outros mudou. Eles não são mais pontos de exibição de anúncio. Os criadores de conteúdo agora são mais eficientes como formadores de opinião. Eles são mais eficientes para criar conteúdo sobre um determinado produto ou serviço. Agora, ao invés de pagar um anúncio de centenas de milhares de reais e caçar os compradores na multidão, é mais fácil gastar alguns milhares para que a vlogueira de moda fazer jabá da sua maquiagem. Para as blogueiras de moda, esse pode ser um negócio muito lucrativo – se você ignorar que o número de privilegiadas que recebem altos valores é uma micro-fração das milhares de blogueiras de moda existentes. Já para o anunciante, pagar R$10 mil por um vídeo que vai ser exibido para milhares de potenciais consumidoras, com uma recomendação pessoal da pessoa que elas admiram, é muito mais barato do que um anúncio em um jornal. Não à toa, o dinheiro (share) de publicidade para mídias tradicionais vem caindo, principalmente nos meios impressos – alguém aí no fundo falou sobre crise no jornalismo?

Viva a mídia digital, o conteúdo 2.0, os blogs e os novos criadores de conteúdo, certo? Humm… não é tão simples. Essa migração da verba para as mídias digitais cria alguns novos problemas. Primeiro, o dinheiro que sai das mídias tradicionais não é proporcional ao que entra. Novas mídias, em especial redes como Facebook e YouTube, tornam a publicidade muito mais eficiente, o que quer dizer que precisa se investir muito menos para atingir muito mais gente. Aliás, segundo um estudo ainda de 2009, o investimento em televisão no Brasil continua muito mais por inércia e problemas estruturais – uso de métricas como audiência, agências publicitárias “tradicionais”, falta de acesso de internet à camada mais pobre – do que por retorno. O que quer dizer que essa verba menor precisa ser disputada mais competitivamente, suporta menos criadores de conteúdo e menos conteúdo de qualidade. E quem tem mais a perder é a ciência.

A possibilidade de deterioração do conteúdo é um problema exposto muito bem no “Acredite, Estou Mentindo”, de Ryan Holiday. Blogs de tecnologia e moda, para dar os exemplos que ele cita, conseguem ter o alcance de uma mídia tradicional a uma fração do custo. Mas há um preço a ser pago. E não falo nem de qualificação profissional, falo de responsabilidade e ética. Com a pulverização da mídia, é fácil pagar pouco e conseguir publicidade não sinalizada. Além do crescimento de plataformas como o Facebook, que ao mandar o conteúdo publicado para apenas uma fração dos seguidores, enterra o conteúdo original e favorece aquelas comunidades nojentas que vivem de traduzir e copiar milhares de posts por dia. Enquanto um texto bem pensado e bem escrito é compartilhado com menos de 10% dos seguidores, quem copiou mais de 10 postagens conseguiu atingir muito mais gente.

Dentro dessa competição por verbas menores, também fica mais difícil sustentar conteúdo em uma das áreas que tradicionalmente traz menos retorno publicitário. Sim, aquela prima pobre da medicina, da nutrição, da estética e da tecnologia: a ciência. Ciência que também não será beneficiada pelo modelo de negócios atual, que financia conteúdo patrocinado como Native Advertising – que esse vídeo do John Oliver descreve tão bem – e jabá. Ciência que foi uma das primeiras limadas dentro das redações de jornais – e que, na minha humilde opinião, não está vendo um crescimento de blogs que suplanta isso. Deixando de lado a motivação financeira para conteúdo científico, nos resta a motivação ideológica.

Conteúdo científico foi e continua sendo atraente. Especialmente quando envolto em um contexto interessante – algo que ainda vou comentar aqui. Mas falar de ciência em um contexto interessante demanda tempo, trabalho e idoneidade. Tempo e trabalho que claramente não são valorizados por plataformas como o Facebook e idoneidade que é comprometida com jabá. O resultado, para quem quer criar conteúdo de qualidade, é que publicidade não necessariamente é o suficiente para criação bom conteúdo. Dê uma olhada nos podcasts, por exemplo:

Podcasts mais ouvidos no iTunes US

Podcasts são uma das mídias mais ricas em conteúdo. O compromisso de investir mais de 20 minutos a quase duas horas (a duração da maioria dos programas) de atenção é enorme. E o espaço publicitário dessa mídia é bem reduzido. Falando em conteúdo, dos doze podcasts mais ouvidos no iTunes US, felizmente, grande parte deles trata de conteúdo científico (Invisibilia, Radiolab, TED, Freakonomics, Stuff You Should Know e StarTalk, dos que conheço). O que pode ser um reflexo do público que consome esse tipo de mídia. Da sobreposição dos mais ouvidos, repare quantos são sustentados em parte por rádios públicas (marcados em vermelho), da rádio pública nacional americana (NPR) às de Chicago e Nova Iorque (WYNC, que também suporta o Freakonomics). No YouTube, vários dos canais de ciência também são patrocinados pela iniciativa pública, como o It’s Okay To Be Smart e o Idea Channel (PBS) e o Brain Scoop (Chicago Field Museum). Em várias das novas mídias, o conteúdo científico não está sendo produzido por fins lucrativos, ou pelo menos não apenas sustentado por anúncios.

Se você não fala sobre ciência, alguém vai falar

O que nos traz ao conteúdo criado por motivação ideológica. Faça uma busca no Google (ou, se tiver estômago forte, YouTube) por câncer, AIDS, evolução ou aquecimento global e você vai ver que tipo de ideologia gera conteúdo: a do bem público e a do bem particular. Pelo lado do bem público estão os interessados em explicar ciência para o público em geral, em promover conhecimento. Pelo lado do interesse particular, estão os que querem defender um ponto de vista motivado por incentivos financeiros ou político-religiosos, como “curas alternativas” ou negacionistas do clima. O mesmo vale para quem edita artigos da Wikipedia, há os interessados em construir conhecimento e os interessados em defender um ponto de vista.

Enquanto isso, a maioria dos cientistas que atuam como professores no Brasil estão se formando e lecionando na rede pública. Financiada com a verba de um país carente dessa educação, mas que muitas vezes não tem acesso à ela. Em grande parte, esse problema demanda uma solução através das políticas públicas de acesso à educação de qualidade, claro. Mas parte desse acesso à informação poderia ser dado aqui mesmo, pela internet. Temos uma massa intelectual científica enorme, sem conflitos de interesse (motivação particular ou político-religiosa) em produzir e distribuir o conteúdo que ficaria preso dentro da universidade.

Por outro lado, as mesmas ferramentas que tornaram a publicação e distribuição de conteúdo algo tão simples e barato, que estão destruindo parte da mídia tradicional, podem ser usadas por nós para produzir conteúdo científico. Hoje, cada professor, pesquisador ou aluno pode ser um produtor de conteúdo, que não precisa do carisma e projeção de alguém como Carl Sagan para ter acesso às mídias e ao público. E, o melhor, a diversidade de plataformas dá espaço para que cada um contribua com o que se sente mais à vontade para fazer. Você é tímido e não se sente à vontade para fazer um canal do YouTube? Sem problemas, comece um blog. Não quer assinar o conteúdo autoral com receio de escrever algo errado? Contribua com a Wikipedia? Não quer produzir conteúdo? Sem problemas, apoie iniciativas que já estão andando.

Em universidades em especial, falar sobre ciência pode ser algo simples, que não consome muito do tempo, especialmente se for feito em parceria com docentes e alunos. Alguns exemplos:

  • Gravar aulas e distribuí-las juntos dos slides;
  • Produzir blogs, podcast e vídeos de ciência como forma de divulgação de um projeto de pesquisa;
  • Incentivar os alunos a produzir conteúdo para internet, passando exercícios que ao invés de serem entregues e engavetados são publicados em blogs, vídeos ou mesmo em artigos da Wikipedia;
  • Dar crédito a pós-graduandos por escreverem textos de divulgação científica sobre a sua área de pesquisa ou mesmo um resumo acessível de sua tese.

São todas formas de transformar o conhecimento que a universidade gera em um bem público. Além usar ferramentas criativas muito mais envolventes para os alunos, que ajudam a desenvolver a habilidade de escrita, comunicação, resolução de problemas e ajudam a formar um currículo virtual.

Os alunos do presente e do futuro são uma geração que nasceu em um mundo onde a internet já existia – os nativos digitais. Para eles, a internet é a fonte primária de conhecimento, sem falar no instrumento de aprendizado. Se eles vão encontrar informação científica de qualidade ou conteúdo ruim, falso, distorcido ou plantado para difundir ignorância, depende de nós. Fato é que a maior fonte de informação deles será a internet. Se queremos que eles encontrem conteúdo científico de qualidade, isento de ideologias que distorcem o conhecimento, somos nós que vamos ter que produzi-lo. Neste caso, não agir também implica em assumir responsabilidades. 

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