Celular tocando audiolivro

Seu kit básico para começar: um bom livro e fones.

Quando comecei o doutorado, já estava morando perto o suficiente do laboratório para ir a pé todos os dias, o que matou o período onde mais lia, o transporte público. Junto com o volume de leitura que a pós-graduação demandava, a quantidade de livros lidos foi para o chão. Se eu tivesse tempo para sentar e ler, lia artigos científicos. Os livros continuavam se acumulando, se conseguisse ler dois ou três por ano era muito. Até que no final de 2009, descobri os audiolivros. Livros narrados por atores, autores ou dubladores, especificamente com essa finalidade – e não aplicativos que soletram um texto. O gráfico de livros que marco como lidos no Goodreads dá uma noção do que essa descoberta fez com meu hábito de leitura:

Livros lidos por ano

O espaço que eu antes ocupava com podcasts começou a ser dividido com livros. Agora, cada momento “distraído” começou a ser aproveitado: caminhando para o laboratório, fazendo compras, limpando a casa, no eventual transporte público (sem enjoar!), etc. Continuei lendo os dois ou três livros físicos por ano, mas agora podia ouvir um livro novo a cada semana ou duas. E em boa medida, isso foi o que viabilizou o Nerdologia quando terminei o doutorado, já que agora eu podia ter contato com conteúdo novo e continuar aproveitando as horas de leitura normais para ler artigos científicos. Então, aqui vão algumas dicas para quem se interessa pelo tema.

Onde encontrar?

Infelizmente, assim como a Wikipedia, a maior parte dos livros que temos para ouvir estão em inglês, mas tem uma alternativa em português. Ossos do ofício, quando a maior parte do mundo com educação e dinheiro para ter acesso a esse tipo de conteúdo fala inglês, essa é a língua que viabiliza os audiolivros. Aqui vão as alternativas que eu uso (longe de serem todas que há):

Audible – A Audible é de longe a maior loja e publicadora de audiolivros. Foram incorporados pela Amazon (não sei se eram parte dela desde o começo) e oferecem um serviço de assinatura muito bom – que valia mais quando o dólar estava mais baixo. Por $15,90 mensais, você assina o programa e tem direito a um crédito por mês, que na prática equivale a um livro. Também vendem livros individualmente, mas costumam ser bem mais caros ($22 ou mais) do que o preço para assinantes. Só compro livros à parte, sem os créditos, quando estão em promoção por $5 ou algo próximo. Aceitam cartão internacional do Brasil, embora isso restrinja o acesso a alguns títulos, dependendo do acordo que a editora tem com a Amazon – não consegui comprar a versão completa de World War Z, por exemplo. Também oferecem o primeiro mês grátis para quem se inscreve com links como o meu, o que dá uma boa oportunidade para ouvir, ver o que acha e cancelar se não gostar. E são bem práticos com refunding, quando comprei a versão errada do WWZ, me devolveram meu crédito na hora.

Audiolivro + ebookAmazon – Adoro meu Kindle e a Amazon é quem oferece de longe a maior diversidade de títulos que podemos comprar sem precisar esperar os Correios. E com a conta internacional, passaram a integrar a versão em áudio junto dos ebooks, muitas vezes por um preço excelente. Por várias vezes deixei de comprar um audiolivro pela Audible porque se comprasse o ebook para Kindle e adicionasse o audiolivro, o preço final era bem próximo, se não o mesmo (como ao lado).

Tocalivros – A Tocalivros é uma empresa brasileira que produz e vende audiolivros em português. Além da vantagem da língua e dos métodos de pagamento – se pode pagar pelo site ou pelos aplicativos de celular, mas com a comissão de iTunes fica mais caro – ainda estão produzindo obras que só saíram na nossa língua. São títulos bem mais limitados, claro, mas estamos em um mercado novo para isso que depende do interesse de leitores para crescer. Eles me mandaram gratuitamente o História do Mundo Sem as Partes Chatas, narrado pelo humorista Paulo Pontes, para testar o sistema e o aplicativo. Sim, humorista, porque a Tocalivros produz os audiolivros com trilha sonora própria, atuação e até efeitos 3D (fica o áudio abaixo para você experimentar o que isso significa). Ouvir um livro na língua nativa e com um toque de humor foi uma experiência bem diferente, que me deu o relaxamento de ouvir sem esforço que só tive com o inglês depois de anos de treino.

Livros em domínio público – Também existem bancos como o LibriVox, onde voluntários narram livros que já estão em domínio público e disponibilizam gratuitamente. Se você quiser ouvir o livro do primeiro grupo que atingiu e voltou do Pólo Sul, por exemplo.

Como ouvir?

A foto que abre o post mostra o kit básico do que preciso para ouvir um audiolivro, um celular e fones de ouvido. Os sistemas Android e Windows têm players gratuitos. O tocador nativo do iPhone entende audiolivros como audiolivros se quando você adicioná-los no iTunes, marcar as faixas como tal. E as lojas Audible e Tocalivros têm aplicativos próprios que fazem o serviço muito bem também. Além do aplicativo do Kindle.

Um ponto importante (para mim) é a escolha de fones. Como precisamos entender cada palavra para acompanhar o conteúdo, usar um fonte interno foi fundamental para não ficar surdo. Usando os fones que vêm com o celular, toda vez que eu entrava em um ônibus ou no metrô, precisava aumentar o volume para entender bem a narração. E quando descia deles, reparava no quão alto e nada saudável isso era. Com fones internos, o barulho de fora é barrado e o volume não precisa ser alto, bom para entender e bom para seu ouvido. Só lembre de usar só um fone quando estiver andando na rua, para estar ciente dos arredores e não ser atropelado. Se você puder gastar um pouco mais, fones sem fio são uma ótima pedida. Sempre tem a chance de ficar sem bateria quando estamos na rua (para isso mantenho um com fio na bolsa), mas não ter fio para enroscar na roupa, prender no celular, entortar na base, etc é mágico. Fora que, se você deu mais de R$1000 em um celular, não faz muito sentido ferrar o ouvido porque só topa pagar R$15 em um fone ruim.

Independente do tipo de de fone, ter um botão de play/pause acessível faz toda a diferença nas inúmeras horas em que você precisa parar de ouvir o livro para se concentrar em outra coisa, se não quiser perder o fio da leitura.

Porque ouvir?

Antes de tudo, o tempo aproveitado – nunca fui tão tolerante com trânsito. Encarar o transporte público ou uma viagem longa de carro é muito melhor quando estamos ouvindo um livro. Uma boa ficção torna tudo melhor, um bom não-ficção torna o tempo gasto uma aula. Minha última viagem longa de carro se tornou em 3 livros lidos, ao invés de 18 horas de estrada (entre ida e volta), além de ajudar a ficar atento. Pessoalmente, gosto de deixar as melhores ficções para obrigações como a academia, assim me forço a ir para a esteira se quiser continuar na história (win-win).

Audiolivros em inglês também são mais fáceis de entender do que um podcast, por exemplo. Enquanto o podcast é um diálogo (e traz um vocabulário bem mais coloquial), livros são narrados por pessoas qualificadas para serem claros e compreensíveis. Muitos aplicativos dão a opção de voltar de 15 em 15 ou 30 em 30 segundos, o que facilita muito voltar só aquele trecho. E no caso dos pacotes ebook e audiolivro da Amazon, você tem a opção de sincronizar a leitura do ebook com a narração do áudio, o que dá muitas vantagens. Quando escuto algo importante no audiolivro que quero marcar, para o Nerdologia por exemplo, basta ir para o aplicativo do Kindle e o trecho que acabei de ouvir está lá. Quando a bateria do fone morre e estou no metrô, posso continuar lendo. E se você quiser treinar o seu inglês, ainda pode habilitar a narração em sincronia com a leitura e ouvir o audiolivro enquanto lê. Mágica.

Bônus para os que já dominaram bem o hábito: dá para acelerar o livro e tocar 1,5 a 2,5 vezes mais rápido. O que estraga um livro de ficção (não recomendo), mas agiliza bastante na hora de ouvir não-fiçção e me ajudou a encarar várias obras que não leria se tivesse que parar para pegar o livro. Especialmente com obras recentes que têm uma boa ideia explicada repetidamente ao longo do livro. Quatrocentas páginas ouvidas em algumas horas. Mágica.

Por onde começar

Os audiolivros da Tocalivros podem ser uma ótima forma de você ver se se acostuma com o formato. Arrume um fone com play/pause e se prepare para usar o botão até se acostumar a acompanhar o áudio até se distrair.

Se quiser uma diversidade maior de títulos e topar treinar o inglês, ouvir livros de não-ficção como os vários que citei no Nerdologia é uma ótima forma. Além de aprender com o livro, ainda são obras narradas justamente para clareza de conceitos. Livros muito técnicos e cheios de dados, como A Próxima Peste ou Armas, Germes e Aço, são difíceis de acompanhar e bastante conteúdo se perde, pessoalmente não gosto de ouví-los. Em compensação, livros mais soltos e com um conteúdo mais histórico, como o Sapiens que aparece na foto, são mais fáceis de acompanhar e legais.

Algumas obras de ficção, como World War ZDiscworld e Songs of Ice and Fire, são narrados por atores e atrizes que fazem dos audiolivros uma obra de arte à parte. Sem falar no vocabulário literário, ótimo para aprender novas palavras. WWZ foi narrado por atores com os sotaques dos respectivos personagens e o jornalista que faz as entrevistas é Max Brooks, o autor do livro, o que resultou em uma obra premiada – o livro é bem diferente do filme e muito melhor, na minha opinião.  Os livros do Pratchett são uma série narrada por um mesmo ator por 10 ou mais obras seguidas, o que me fez criar uma familiaridade com as vozes onde sei quem é o personagem só pela voz. E os Songs of Ice and Fire foram narrados pelo ator inglês Roy Dotrice (tirando o quarto livro). São fenomenais. Dotrice consegue fazer vozes diferentes para mais de 200 personagens, além da voz do pensamento de vários deles, o que faz ouvir os livros do George Martin uma experiência única. Me tornou muito mais compulsivo por audiolivros, me fez criar o hábito de andar com o fone no pescoço o tempo todo e me deixou bem antisocial enquanto ouvia as obras. Já que fazia questão de almoçar sozinho para continuar ouvindo.

Então escolha seu livro, arrume onde ouvir e bom proveito do seu tempo.

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