Aos cientistas e professores formados e em formação: cabe a nós falar de ciência

We_Can_Do_It!

Você lembra da última vez que entrou em uma biblioteca para consultar um livro que poderia ser encontrado na internet? Nem eu. Isso se você já frequentou uma biblioteca. Para a maioria dos alunos em curso esse já não é um hábito que vai ser desenvolvido. Mas temos um problema bem sério com a motivação para que esse conteúdo esteja na internet: quem deveria estar suprindo isso (em parte) somos nós.
Um dos maiores motivos é a falta de incentivo financeiro para conteúdo científico original. O próprio modelo de negócios em blogs, ferramentas tidas como uma das maiores fontes de conteúdo reflexivo, já mudou bastante: a maior fonte de renda de muitos durante a década passada, o Adsense, paga cada vez menos. Por um lado, estamos migrando para outras plataformas de visualização de conteúdo que inviabilizam os anúncios, como posts no Facebook, a formatação do Flipboard (que recomendo demais), plataformas mobile e outros. O que quer dizer a publicidade de anúncios em blogs está cada vez menos vinculada ao conteúdo; ele pode fazer muito sucesso, mas as visualizações não necessariamente se transformam em exibições de banners, por exemplo. Mesmo dentro do mundo de anúncios em banner e similares, que não interferem diretamente no conteúdo, outras plataformas são bem mais atraentes. O Facebook, por exemplo, já concentra a maior parte das pessoas interessadas em um assunto. E torna fácil encontrá-las e atingir a todas de uma vez, negociando com apenas um intermediário extremamente profissional e com métricas de impacto prontas.

Antigamente, quem quisesse fazer uma campanha que atinja consumidores em um nicho, digamos, colecionadores de lapiseiras, precisava muitas vezes recorrer à um anúncio em uma grande mídia aberta, como um canal de televisão ou uma página em uma revista, para atingir milhares ou milhões, dos quais centenas ou alguns milhares seriam o público alvo. Com o crescimento dos blogs e do conteúdo de nicho na internet, anunciantes que quisessem promover uma campanha para aquele grupo poderiam entrar em contato com os vários blogs que tratam daquele tema, negociar o espaço publicitário, em geral na forma de banners, e anunciar para um público mais específico. Com isso, dispensam a necessidade de falar com milhões para atingir centenas ou milhares. Mas nesse caminho, precisavam entrar em contato com inúmeros blogs para atingir uma audiência crítica, negociar com cada um individualmente e lidar com diferentes níveis de profissionalismo e condições de publicação. Hoje podem mais facilmente comprar uma campanha no Facebook ou no YouTube para aqueles que curtem sites ou páginas ou vídeos de lapiseiras e com isso atingir milhares de interessados no assunto negociando com apenas um ou dois intermediários.

Dentro desse mundo de menos publicidade sendo exibida à toa e maneiras mais eficientes de atingir o público, o valor publicitário do conteúdo criado em blogs, blogs, podcasts e outros mudou. Eles não são mais pontos de exibição de anúncio. Os criadores de conteúdo agora são mais eficientes como formadores de opinião. Eles são mais eficientes para criar conteúdo sobre um determinado produto ou serviço. Agora, ao invés de pagar um anúncio de centenas de milhares de reais e caçar os compradores na multidão, é mais fácil gastar alguns milhares para que a vlogueira de moda fazer jabá da sua maquiagem. Para as blogueiras de moda, esse pode ser um negócio muito lucrativo – se você ignorar que o número de privilegiadas que recebem altos valores é uma micro-fração das milhares de blogueiras de moda existentes. Já para o anunciante, pagar R$10 mil por um vídeo que vai ser exibido para milhares de potenciais consumidoras, com uma recomendação pessoal da pessoa que elas admiram, é muito mais barato do que um anúncio em um jornal. Não à toa, o dinheiro (share) de publicidade para mídias tradicionais vem caindo, principalmente nos meios impressos – alguém aí no fundo falou sobre crise no jornalismo?

Viva a mídia digital, o conteúdo 2.0, os blogs e os novos criadores de conteúdo, certo? Humm… não é tão simples. Essa migração da verba para as mídias digitais cria alguns novos problemas. Primeiro, o dinheiro que sai das mídias tradicionais não é proporcional ao que entra. Novas mídias, em especial redes como Facebook e YouTube, tornam a publicidade muito mais eficiente, o que quer dizer que precisa se investir muito menos para atingir muito mais gente. Aliás, segundo um estudo ainda de 2009, o investimento em televisão no Brasil continua muito mais por inércia e problemas estruturais – uso de métricas como audiência, agências publicitárias “tradicionais”, falta de acesso de internet à camada mais pobre – do que por retorno. O que quer dizer que essa verba menor precisa ser disputada mais competitivamente, suporta menos criadores de conteúdo e menos conteúdo de qualidade. E quem tem mais a perder é a ciência.

A possibilidade de deterioração do conteúdo é um problema exposto muito bem no “Acredite, Estou Mentindo”, de Ryan Holiday. Blogs de tecnologia e moda, para dar os exemplos que ele cita, conseguem ter o alcance de uma mídia tradicional a uma fração do custo. Mas há um preço a ser pago. E não falo nem de qualificação profissional, falo de responsabilidade e ética. Com a pulverização da mídia, é fácil pagar pouco e conseguir publicidade não sinalizada. Além do crescimento de plataformas como o Facebook, que ao mandar o conteúdo publicado para apenas uma fração dos seguidores, enterra o conteúdo original e favorece aquelas comunidades nojentas que vivem de traduzir e copiar milhares de posts por dia. Enquanto um texto bem pensado e bem escrito é compartilhado com menos de 10% dos seguidores, quem copiou mais de 10 postagens conseguiu atingir muito mais gente.

Dentro dessa competição por verbas menores, também fica mais difícil sustentar conteúdo em uma das áreas que tradicionalmente traz menos retorno publicitário. Sim, aquela prima pobre da medicina, da nutrição, da estética e da tecnologia: a ciência. Ciência que também não será beneficiada pelo modelo de negócios atual, que financia conteúdo patrocinado como Native Advertising – que esse vídeo do John Oliver descreve tão bem – e jabá. Ciência que foi uma das primeiras limadas dentro das redações de jornais – e que, na minha humilde opinião, não está vendo um crescimento de blogs que suplanta isso. Deixando de lado a motivação financeira para conteúdo científico, nos resta a motivação ideológica.

Conteúdo científico foi e continua sendo atraente. Especialmente quando envolto em um contexto interessante – algo que ainda vou comentar aqui. Mas falar de ciência em um contexto interessante demanda tempo, trabalho e idoneidade. Tempo e trabalho que claramente não são valorizados por plataformas como o Facebook e idoneidade que é comprometida com jabá. O resultado, para quem quer criar conteúdo de qualidade, é que publicidade não necessariamente é o suficiente para criação bom conteúdo. Dê uma olhada nos podcasts, por exemplo:

Podcasts mais ouvidos no iTunes US

Podcasts são uma das mídias mais ricas em conteúdo. O compromisso de investir mais de 20 minutos a quase duas horas (a duração da maioria dos programas) de atenção é enorme. E o espaço publicitário dessa mídia é bem reduzido. Falando em conteúdo, dos doze podcasts mais ouvidos no iTunes US, felizmente, grande parte deles trata de conteúdo científico (Invisibilia, Radiolab, TED, Freakonomics, Stuff You Should Know e StarTalk, dos que conheço). O que pode ser um reflexo do público que consome esse tipo de mídia. Da sobreposição dos mais ouvidos, repare quantos são sustentados em parte por rádios públicas (marcados em vermelho), da rádio pública nacional americana (NPR) às de Chicago e Nova Iorque (WYNC, que também suporta o Freakonomics). No YouTube, vários dos canais de ciência também são patrocinados pela iniciativa pública, como o It’s Okay To Be Smart e o Idea Channel (PBS) e o Brain Scoop (Chicago Field Museum). Em várias das novas mídias, o conteúdo científico não está sendo produzido por fins lucrativos, ou pelo menos não apenas sustentado por anúncios.

Se você não fala sobre ciência, alguém vai falar

O que nos traz ao conteúdo criado por motivação ideológica. Faça uma busca no Google (ou, se tiver estômago forte, YouTube) por câncer, AIDS, evolução ou aquecimento global e você vai ver que tipo de ideologia gera conteúdo: a do bem público e a do bem particular. Pelo lado do bem público estão os interessados em explicar ciência para o público em geral, em promover conhecimento. Pelo lado do interesse particular, estão os que querem defender um ponto de vista motivado por incentivos financeiros ou político-religiosos, como “curas alternativas” ou negacionistas do clima. O mesmo vale para quem edita artigos da Wikipedia, há os interessados em construir conhecimento e os interessados em defender um ponto de vista.

Enquanto isso, a maioria dos cientistas que atuam como professores no Brasil estão se formando e lecionando na rede pública. Financiada com a verba de um país carente dessa educação, mas que muitas vezes não tem acesso à ela. Em grande parte, esse problema demanda uma solução através das políticas públicas de acesso à educação de qualidade, claro. Mas parte desse acesso à informação poderia ser dado aqui mesmo, pela internet. Temos uma massa intelectual científica enorme, sem conflitos de interesse (motivação particular ou político-religiosa) em produzir e distribuir o conteúdo que ficaria preso dentro da universidade.

Por outro lado, as mesmas ferramentas que tornaram a publicação e distribuição de conteúdo algo tão simples e barato, que estão destruindo parte da mídia tradicional, podem ser usadas por nós para produzir conteúdo científico. Hoje, cada professor, pesquisador ou aluno pode ser um produtor de conteúdo, que não precisa do carisma e projeção de alguém como Carl Sagan para ter acesso às mídias e ao público. E, o melhor, a diversidade de plataformas dá espaço para que cada um contribua com o que se sente mais à vontade para fazer. Você é tímido e não se sente à vontade para fazer um canal do YouTube? Sem problemas, comece um blog. Não quer assinar o conteúdo autoral com receio de escrever algo errado? Contribua com a Wikipedia? Não quer produzir conteúdo? Sem problemas, apoie iniciativas que já estão andando.

Em universidades em especial, falar sobre ciência pode ser algo simples, que não consome muito do tempo, especialmente se for feito em parceria com docentes e alunos. Alguns exemplos:

  • Gravar aulas e distribuí-las juntos dos slides;
  • Produzir blogs, podcast e vídeos de ciência como forma de divulgação de um projeto de pesquisa;
  • Incentivar os alunos a produzir conteúdo para internet, passando exercícios que ao invés de serem entregues e engavetados são publicados em blogs, vídeos ou mesmo em artigos da Wikipedia;
  • Dar crédito a pós-graduandos por escreverem textos de divulgação científica sobre a sua área de pesquisa ou mesmo um resumo acessível de sua tese.

São todas formas de transformar o conhecimento que a universidade gera em um bem público. Além usar ferramentas criativas muito mais envolventes para os alunos, que ajudam a desenvolver a habilidade de escrita, comunicação, resolução de problemas e ajudam a formar um currículo virtual.

Os alunos do presente e do futuro são uma geração que nasceu em um mundo onde a internet já existia – os nativos digitais. Para eles, a internet é a fonte primária de conhecimento, sem falar no instrumento de aprendizado. Se eles vão encontrar informação científica de qualidade ou conteúdo ruim, falso, distorcido ou plantado para difundir ignorância, depende de nós. Fato é que a maior fonte de informação deles será a internet. Se queremos que eles encontrem conteúdo científico de qualidade, isento de ideologias que distorcem o conhecimento, somos nós que vamos ter que produzi-lo. Neste caso, não agir também implica em assumir responsabilidades. 

O mundo cão das vespas parasitóides

Para matar a saudade de posts biológicos e das vespas que tanto gosto, uma imersão de parasitas. Quando uma lagarta Zygaena sp. é infectada por vespas braconídeas, ao invés de empuparem e emergirem como uma mariposa diurna bem colorida, ela continua comendo e alimentando as larvas da vespa. Estas, quando estão crescidas o suficiente, saem da lagarta para a metamorfose em vespas, deixando algumas colegas para trás.

As larvas que ficam para trás paralisam e manipulam a lagarta para que ela proteja as larvas em metamorfose – como já escrevi aqui. Caso contrário, uma segunda vespa, esta sem asas, pode aparecer e colocar os ovos nas larvas parasitas. Sim, a vespa hiper-parasita que parasita as larvas das vespas parasitóides.

Venha contribuir com o ensino de ciências

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Aproveitando as aulas da disciplina de ensino de ciências com internet, e seguindo o que proponho, criei uma wiki de ensino e web onde vou colocar o conteúdo das aulas, fontes, links e o que mais puder sobre o tema. E como é a ideia de uma wiki, todos estão convidados a editar e contribuir com o conteúdo. Fique à vontade para comentar, acrescentar conteúdo, material, fontes da internet que você usa ou gostaria de usar em aulas e o que mais achar relevante. O conteúdo está sob licença CC BY-NC, pode ser copiado e reproduzido não comercialmente, se citada a fonte original.

Quando vamos deixar de tratar alunos como ouvintes passivos?

8 horas de trabalho, 8 horas de sono, 8 horas para o que der na telha

Fonte: Wikipedia

Em “Cognitive Surplus: How Technology Makes Consumers into Collaborators“, Clay Shirky escreve como ocupamos grande parte do nosso tempo livre – as 8 horas diárias conquistadas com a implementação da semana de trabalho de 40 horas – com a televisão. Um consumo completamente passivo de tempo e cognição passado sozinho, ou em pequenos grupos. Mas a nossa real vocação é outra, como dizem Nicholas Christakis e James Fawler no “Connected: The Surprising Power of Our Social Networks and How They Shape Our Lives“, nossos genes clamam pela participação em redes sociais. Agora, a internet nos fornece o que faltava na TV, a oportunidade de interagirmos e nos conectarmos com outras pessoas. Não à toa, a audiência da televisão vem caindo paulatinamente desde 2006 – a notícia se refere à Globo, mas a tendência é de todos os canais. Só que desta vez, não é resultado do uso do controle remoto como em 2000, a audiência está indo para a internet.

Ignore o problema, mude o nome dele, e quem sabe ele some ¯\_(ツ)_/¯

Ignore o problema, mude o nome dele, e quem sabe ele some ¯\_(ツ)_/¯

O IBOPE insiste em não ver a tendência e chama o fenômeno de convergência de mídias (vide o print acima deste link). Mas o ponto é: as pessoas agora podem interagir. E o fazem sem dó. Como diz Cory Doctorow, o conteúdo não é o principal, o principal é a conversa que ele gera. Não estamos presos ao conteúdo e sim ao que ele nos gera. E, de fato, com a possibilidade de assistir o conteúdo quando e na ordem que queremos – via Netflix ou locadoras suecas – vivemos uma explosão de séries com narrativas mais longas e envolventes, como Game of Thrones, House of Cards, True Detectives, Breaking Bad e outras geradoras de discussões e incontáveis conversas:

Adivinhe que autor/série provoca isso.

Não só escrevemos nossas reações, como escrevemos sobre as reações dos outros.

Aqui sim há conversa de mídia. Como a pesquisa do IBOPE confirma, e eu vivo todos os dias no Twitter, o principal motivo que leva as pessoas a comentarem na internet enquanto assistem programas de TV (66% delas) é a necessidade de expressar sua opinião pessoal. Tudo o que mais queremos é nos expressar. Alias, como bem aponta Clay Shirky, expressar e criar. O que trazia audiência para a TV não era a qualidade da programação – isso podia até contar na disputa entre canais – e sim o tempo livre das pessoas. Afinal, se conteúdo bem produzido fosse a resposta, não veríamos uma audiência massiva em vários vídeos mal gravados/editados/pixelados do YouTube. Ou algo bem mais simples, o compartilhamento e a criação de incontáveis memes. O que explica isso é a vontade de se conectar, se expressar e criar. Ou tudo isso ao mesmo tempo, na nuvem de brasileiros que levou o Zuckerberg a bloquear comentários em seu perfil.

Queremos tanto criar e nos expressar que inundamos mídias sociais. Que criamos e mantemos Wikis sobre todo tipo de assunto. Que subvertemos jogos como o Minecraft criando obras de arte dentro do jogo (e até máquinas de Turing). Que usamos o WhatsApp para criar e circular memes. Como cientistas e educadores, nunca tivemos tantas ferramentas à mão e um público tão ávido por criar, participar e interagir. E o que fazemos com nossos alunos? Mantemos a bunda deles colada na cadeira, como os consumidores passivos de televisão.

O Nerdologia dá um passo tímido no sentido de usar as novas mídias. Ele aceita a realidade da audiência: fala com ela na rede em que está, o YouTube, usando a cultura que ela conhece, seus quadrinhos, filmes, jogos e curiosidades. Além de dar espaço para comentários e conteúdo para promover a conversa – basta ver quantos usam o soco do Flash como argumento em uma disputa de quem seria o mais forte. E mesmo assim, só atinge uma fração da audiência que canais do YouTube podem ter no Brasil (tomando os 10M de assinantes do Porta dos Fundos como teto).

Quando vamos sair do papel de (só) escrever artigos e acreditar que eles vão ser lidos e entendidos pelo mundo, enquanto poderíamos usar mídias de alcance enorme com baixíssimo custo? Por quanto tempo ainda vamos acreditar que os alunos vão repentinamente criar interesse pelo conteúdo sendo ditado em aulas, enquanto ele continua sendo passado da mesma forma há dezenas de anos? E não se engane, lousa, PowerPoint ou projeção holográfica futurística continuam dependendo da mesma aula expositiva que o obriga o aluno a ficar quieto e calado. Passivo.

Quando vamos usar o potencial de alunos que querem participar e interagir em ferramentas como blogs, wikis, Facebook, vídeos e qualquer outra plataforma que use conteúdo criado pelo usuário para motivá-los? Em relação à mídia, estamos vivendo a transição de uma sociedade passiva, que via televisão e consultava fontes “de confiança” que custavam fortunas, para uma sociedade ativa, que ao menos comenta sobre o que está consumindo. Quando não discute, compartilha ou mesmo cria trabalhos derivados. Usando as mesmas ferramentas simples e intuitivas que poderíamos usar para engajá-la. Ou que outros com motivos muito menos nobres vão usar para manipulá-la.

Devo fazer biologia (ou mesmo ciência em geral)?

Fluxograma para decidir entre ficar pobre fazendo ciência ou ficar pobre fazendo arte.

Crédito: Gustavo Libardi – https://avidadebiologo.wordpress.com/

 

Me perguntam com certa frequência como fazer biologia, ou se devem prestar o curso ou não. Pessoalmente, sou muito feliz com minha escolha profissional, mas não consigo recomendá-la. Em parte por conta do minguado mercado profissional para biólogos, que não é nada promissor. Tirando a carreira de professor (nada contra ela, mas não deveria ser a única opção), conheço pouca gente exercendo a carreira de biólogo na indústria, em consultoria ambiental, perícia ou o que mais o Bessa tenha comentado. Da minha turma da Bio integral, vários estão lá, mas vários dos 120 que entraram no meu ano não seguiram na área. *

Ah, mas e a carreira de pesquisador? Pois bem, também sou muito feliz nela, mas também não consigo recomendá-la. Justamente pelos motivos que o Gustavo Libardi descreve com muito bom humor nesse fluxograma. Então, não fique chateado ou ache que ele está tratando “vender arte” como algo menor, mas pense bem na motivação para seguir uma carreira de pesquisa. Já adianto que financeira não é ;)

 

* Se quiser uma perspectiva sóbria sobre a carreira de biólogo, acompanhe aqui a carreira os bicos que o biólogo desempregado Luccas Longo está considerando.

Jared Diamond e a falta de água

Represa Jaguari em agosto de 2013 (acima) e agosto de 2014 (abaixo). Crédito: NASA Earth Observatory, imagem por Jesse Allen, com dados do U.S. Geological Survey.

Jared Diamond já escreveu muito sobre a trajetória humana. Desde como as sociedades se desenvolveram em “Armas, Germes e Aço” até por que algumas acabaram, em “Colapso”. Mais recentemente ele lançou um outro livro neste veio de sociedades que falharam e lições que contam, o “O mundo até ontem”, mas como achei que ele já exagerou a mão na desgraceira no Colapso, acabei não lendo.

Em um texto seu na Edge, ele resume o mapa de como sociedades falharam em decisões críticas ao lidar com problemas. Inclusive problemas ambientais como a falta de água, que já extinguiu mais de uma sociedade, de acordo com Diamond. Não vivemos mais em uma época isolada, em que cada sociedade se ferra sozinha hoje todo mundo vai para a vala junto. Também temos muito mais tecnologias para ajudar a piorar. Mas, de qualquer forma, gostaria que você lesse os quatro passos e pensasse quantos deles (não) se aplicam à nossa situação paulista – se você não precisa encarar água fedida e estranha saindo da torneira, considere-se com sorte.

1 – Um grupo ou sociedade pode falhar em antecipar um problema antes dele chegar.

2 – Quando o problema chega, pode falhar em percebê-lo.

3 – Depois de perceber, pode não tentar corrigir.

4 – Por último, podem tentar corrigir mas falhar até nisso. [aguardemos]

Texto completo do Diamond aqui. Não sei vocês, mas sinto que estamos passando por cada um dos itens. Além de guardar cada balde de água que posso em casa, passo o recado adiante aqui:

O que li de melhor em 2014

Sei que estou um pouco atrasado, mas se você ainda não trocou aquele vale presente e quiser alguma recomendação de livro para aproveitar o fim de férias, aqui vai o que li de mais marcante nesse ano passado:

“The evolution of the human body”, por Daniel Lieberman 

Capa_humanbodyExcelente apanhado de como a evolução moldou o corpo humano e como nosso ambiente está entrando em conflito com isso. Vale tanto pela recapitulação da evolução, com as últimas descobertas, quanto pela interação com os ambientes pelos quais passamos. Gostei muito da discussão sobre problemas modernos e como nossos hábitos podem reforçá-los ao invés de corrigir – usar uma cadeira mais confortável por conta de dor nas costas (ao invés de exercício) e com isso os músculos das costas se enfraquecerem mais ainda.

 

 

“Proof”, por Adam Rogers 

Capa_proofLeitura leve, muito boa. Vai bem acompanhada de uma cerveja. Adam Rogers reconta desde de onde vêm as bebidas ao que acontece durante a destilação, fermentação, envelhecimento e degustação. Ótimo mesmo para quem não curte tanto livros com uma veia científica.

 

 

 

 

“Perdido em Marte”, por Andy Weir 

Capa_perdido_MarteE para incluir um livro de ficção em tempos de tantas conquistas espaciais, o excelente livro de Weir. Além de dar uma ótima perspectiva em como será nossa missão para Marte, ele consegue construir uma história cativante, com boas sacadas de humor e bastante ciência.

 

 

 

 

“Acredite, Estou Mentindo”, por Ryan Holiday 

Capa_acrediteLi por indicação do Rafael e não me arrependi. Escrito por um dos idealizadores de movimentos virais e campanhas polêmicas de marcas como a American Apparel, o livro conta como blogs e outras novas mídias são facilmente manipuláveis. E como redes como Gawker e Huffington Post não estão nem um pouco preocupadas com isso, mas sim com o número de cliques. Qualquer lista do Buzzfeed de 20 gatos que se parecem com você nas férias não é mera coincidência.

 

 

“Who Owns the Future?”, por Jaron Lanier

Capa_Lanier[este livro ainda não tem tradução em português, não confundir com o Bem-vindo ao Futuro de 2012] Jaron Lanier é um dos “visionários excêntricos” do Vale do Silício. Não li nenhum de seus outros títulos, nem sei o quanto concordo com todos argumentos do livro, mas ele vale por uma ideia: estamos caminhando para uma fortuna de poucos com os grandes servidores. Lanier descreve no livro como poucos grandes servidores como Amazon, Über, Airbnb e outros estão concentrando serviços antes feitos por muitos, e no processo falindo várias empresas menores e concentrando bilhões e muito poder na mão de poucos. Viva o livro acessível (este mesmo comprei pela Amazon) e o serviço de hospedagem barato. Mas isso tudo tem um custo, que ele deixa muito claro. Muitos destes serviços estão lucrando também por pegar as externalidades (consequências negativas) e repassá-las para a comunidade e para os consumidores – em tempos passados, a empresa de táxi também responderia pelo estupro cometido por um motorista da Über na Índia, em tempos atuais a Über se isenta da responsabilidade.

 

 

Ainda tem mais coisa que li, mas por um motivo ou por outro (não gostei tanto, não foi marcante, não é de interesse geral) acabei não incluindo na lista acima. Alguns gostei até mais do que outros listados, mas estes são os que transmitiram as ideias que vou levar para 2015.

Ensino e Internet

Cartaz_curso

Cartaz feito por Fabio Lody, clique para aumentar

 

Como o próprio blog deixa claro, tenho dado bem mais atenção para a carreira de pesquisador do que para a divulgação. Mas nem tudo foi deixado de lado. Durante o último ano, resolvi colocar a mão na massa e testar algo que sempre disse quando falava de divulgação científica: a maior audiência está no vídeo. E parece realmente ser o caso – se você não conhece o Nerdologia, confira o resultado aqui.

Agora vou poder concretizar outro desejo/cobrança que sempre fiz quando falei de ciência na internet: incorporá-la na sala de aula. De quebra, ainda vou poder fazer isso com uma professora que há muito tempo admiro: Sônia Lopes. Sim, aquela do seu livro didático de biologia. Ofereceremos de graça, em janeiro que vem, um curso de ensino de biologia usando internet. As informações estão todas no cartaz acima e no texto abaixo. A ideia é fugir um pouco dos ambientes voltados diretamente para ensino (como o Moodle) e cobrir os diferentes tipos de mídia que os alunos vão encontrar todos os dias na internet: wikis, blogs, vídeos, fóruns, redes sociais, etc. Além de técnicas de ensino que podem fazer uso dessas mídias.

Se você não for o público alvo ou não puder participar agora (são bem poucas vagas, 30), não se preocupe. Farei o possível para disponibilizar todo o material online. Além disso, essa é a primeira tentativa do curso, para vermos como ele se desenvolve. Ainda pretendo aprimorá-lo e oferecê-lo muitas outras vezes, em especial para professores da rede pública.

O cartaz de chamada feito pelo competentíssimo Fabio Lody, Diretor de Arte da iMasters. Obrigado, Fabio.

 

 

Curso de Difusão Cultural

Instituto de Biociências USP

 

Título: Internet no ensino de Ciências e Biologia

Público Alvo: Alunos de graduação em Ciências Biológicas

Ministrantes: Dra. Sônia Lopes, docente e pesquisadora do IB-USP e autora de livros didáticos de Biologia para ensino médio;

                         Dr. Atila Iamarino, comunicador de ciência em blogs desde 2007, participou da criação da rede de blogs científicos ScienceBlogs Brasil, participa frequentemente de podcasts como Dragões de Garagem, SciCast e Nerdcast, além de escrever e narrar o canal de YouTube Nerdologia.

 

Carga Horária: 30 horas

Data e horário: de 19 a 30 de janeiro de 2015; de segunda a sexta-feira das 14 às 17hs

Local: Centro Didático do Instituto de Biociências USP

Inscrições: até dia 12 de janeiro de 2015 – enviar email para [email protected]

Vagas: 30

 

Objetivos

Considerando que a internet é uma fonte crescente de informação para alunos de ensino fundamental e médio, este curso visa capacitar os participantes a utilizar recursos online como blogs, vídeos, redes sociais e podcasts no processo de ensino-aprendizagem de Ciências e Biologia, trazer visão crítica do conteúdo online, construir e avaliar sequências didáticas empregando a metodologia de resolução de problemas, discutir ética e leitura crítica de conteúdo e elaborar materiais didáticos.

Lições da ESOF 2014 (Parte 1)

Pôr-do-Sol

Pôr-do-Sol depois das 10 da noite em Copenhague

Como dá para perceber por aqui, ando bastante ocupado com o pós-doc ultimamente – conforme a pós chega ao fim, 10% dos posts de blogueiros acadêmicos contém justificativas para atrasos, pode reparar. Também mudei o meu foco: o pouco tempo que sobrou tenho usado em outra iniciativa, o Nerdologia.

Há bastante tempo já estava incomodado com o interesse público por ciência escrita, como desabafei aqui. O que me motivou a partir para vídeos e uma outra abordagem de divulgação científica, que ainda vou explorar em outro post. A iniciativa funcionou e superou qualquer expectativa que eu tivesse. Realmente não esperava ter tanta gente interessada em tão pouco tempo. O que deixa clara a competência dos envolvidos nos vídeos: Alexandre Ottoni, Deive Pazos e Rodrigo Tucano.

Como já aconteceu com o Lablogatórios, que virou ScienceBlogs Brasil, parece ser mais fácil conseguir reconhecimento internacional do que no Brasil. Fui convidado pelo comunicador de ciência Jens Degett a participar de uma sessão sobre o futuro da comunicação científica no Euroscience Open Forum 2014, em Copenhague (o lugar feio da foto que abre o post). Que me ensinou lições valiosas logo na abertura.

Ciência é assunto real

Cerimônia de abertura do ESOF 2014

O evento foi sediado pela cervejaria Carlsberg – mais sobre isso em instantes – e aberto pela Sua Majestade Margrethe II, que aparece no telão aí em cima. O vídeo todo da abertura está ao final do post, se quiser adiantar para a simpatia da rainha falando sobre a importância da ciência para a Dinamarca, avance para 4:30. A fala é curta: a receita de como lidar com o futuro é a ciência. E passou uma ótima mensagem, fiquei impressionado demais com a atitude da rainha de participar em um evento científico.

Em tempos de crise, ciência é o futuro

Logo depois da rainha, música nórdica com o grupo dinamarquês Dreamer’s Circus (muito boa, por sinal). E depois a fala do presidente do Comitê Europeu de Pesquisa, José Manuel Barroso. Que também reforçou a mensagem: a ciência é responsável por muito do que temos hoje, em qualidade de vida e tecnologia, e é o futuro da humanidade. Tanto que, em tempos de crise e com todo tipo de orçamento sendo cortado, a verba para pesquisa em ciência do comitê aumentou em 30%. E foi direcionada para verbas de pesquisa que estão vinculadas aos pesquisadores dos países participantes, independente de nacionalidade ou instituição.

Meu respeito à Carlsberg

Do alto da minha ignorância, estava achando curioso o fato do evento ser hospedado dentro da antiga fábrica da cervejaria Carlsberg. Achei que fosse só por conta da paixão dos dinamarqueses por cerveja –Nos cafés da convenção, as opções eram frutas, cookies, água, café de garrafa térmica (juro) e quatro torneiras de chope diferentes. Além de garrafas de cerveja premium.

Mas a fala da ministra do Ensino Superior e da Ciência explicou tudo. Segundo Sofie Carsten Nielsen, ciência é nossa amiga, a receita para o futuro (novamente) e a Carlsberg representa isso muito bem. Fundada em 1847, eles têm um laboratório de pesquisa desde 1875! Entre outros avanços como desenvolver o conceito de pH, foram os primeiros a conseguir isolar a levedura durante a produção de cerveja. Por isso mesmo, a levedura usada para fazer cerveja lager se chama Saccharomyces carlsbergensis. Não patentearam o método, ajudaram várias outras cervejarias a desenvolver a produção de cerveja, e ainda são financiadores de muita pesquisa feita na Dinamarca. Impressionante.

A ciência nos aproxima

Para completar a cerimônia, um debate que me arrepiou, entre a apresentadora Dominique Leglu, a física e porta-voz do CERN Fabiola Gianotti, e o diretor do centro Rolf-Dieter Heuer. Gianotti explicou como o CERN é composto por cerca de 10 mil pesquisadores de todos os cantos do mundo, de países que muitas vezes não se falam em outras áreas. Como mulheres participam cada vez mais da pesquisa e como mesmo pesquisadores jovens contribuem com ideias.

Para completar, com anos de experiência, Heuer fez algumas observações fundamentais. Depois de mais de 60 anos de pesquisa e bilhões investidos, o CERN está longe de se justificar só com o bóson de Higgs. Não que toda ciência tenha que levar a algo aplicado, mas o centro, que passou a ser mundial, não só europeu, desenvolveu e compartilhou tecnologias como a internet e aceleradores de partículas. Para não falar da internet, maior ferramenta de compartilhamento de gatos que a humanidade concebeu, por mais que pareçam algo exótico e restrito à centros de pesquisa, são mais de 30 mil aceleradores de partículas no mundo, usados tanto na indústria como em centros médicos.

 

O que recebi da abertura (e do Fórum como um todo) e vou levar por muito tempo:

Ciência é o que nos propiciou a tecnologia e a qualidade de vida que temos hoje. Ciência é o que nos aproxima, compartilhamos e construímos conhecimento juntos. Ciência é o futuro.

 

 

Salvemos todos os bichos fofos

Ontem e hoje (talvez um pouco antes, mas não estava acompanhando) houve uma enorme comoção em torno do Instituto Royal, que realiza testes em animais para a indústrias farmacêuticas e cosméticas, onde supostamente teria ocorrido maus tratos a animais. Supostamente por que houve denúncias, mas não foi constatada evidência de maus tratos, segundo o que li aqui. Supostamente por que muita gente estava acusando o local de maus tratos, ao ponto de invadirem o instituto e libertarem os cachorros de lá, sem evidências.

Então, aproveitando o puxão de orelha do Luiz Bento hoje de tarde, vou juntar aqui o que escrevi a respeito no Twitter e deixar minha opinião sobre o tema, mais na ordem argumentativa do que cronológica. Não quero entrar na discussão de que se animais devem ou não ser usados para testar medicamentos, isso já foi muito bem discutido em outros lugares (e aos que fizeram isso, desculpem minha pressa e a falta de links). Quero só mostrar como, uma vez que o uso de animais pela pesquisa é algo legítimo, que acontece dentro da lei, interferir com isso pode ser mais prejudicial aos bichos que estão tentando proteger. E como um lugar que opere com ética pode causar os mesmos sustos que este instituto causou.

E desculpem o código marromenos do Storify, foi o jeito que arrumei de tacar tudo aqui

[UPDATE] Parece que na afobação e no espírito de manada, invadiram um dos piores lugares que poderiam invadir, que fazia experimentação séria e de importância médica. Link via Luiz Bento:

[UPDATE 2] Tuítes infelizmente removidos por que o código do Storify estava derrubando o blog!

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