A aranha mais nerd

Aranha Portia fimbriata

©vipin baliga

ResearchBlogging.orgSalticidae é uma família de aranhas muito inteligentes (para alguém com o cérebro daquele tamanho). São caçadoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem caçar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da visão, daí os olhos enormes, e acabam adotando comportamentos bem ricos. Agora, se elas já são predadores bastante inteligentes, como seria uma aranha que caça esses predadores (uma aranha araneofágica)? Conheça as aranhas Portia, e por que elas são chamadas de gatos de oito olhos [link para pdf].

Portia é um gênero de aranhas saltadoras (também são Salticidae) com cerca de 20 espécies conhecidas, que são especialistas em caçar outras aranhas, especialmente membras da mesma família. Ocorrem na África, Ásia e Oceania, para meu desapontamento. Para poderem caçar, adotam uma série de táticas bastante complexas, sendo capazes de classificar o tipo de presa e responder de acordo, o que as coloca entre os invertebrados mais inteligentes.

Para atacar outras Salticidae, as estratégias das Portia são únicas. Algumas Portia podem fazer teias, e manter os insetos pegos para atrair outras saltadoras. Outras partem ativamente para a caça, quando sua camuflagem vem a calhar: se a Salticidae que está caçando a vê, a Portia congela seus movimentos, e encolhe seus palpos e patasse camuflando de detrito para uma vítima que depende da visão, podendo até simular movimentos causados pelo vento. O que não se comparar com as táticas que adotam em situações mais delicadas. [1]

Atacando em território inimigo

Um dia de caça típico da Portia fimbriata, simpática espécie acima, serve de exemplo do que elas são capazes de fazer. Uma das presas que esta espécie ataca é a aranha de teia Argiope appensa, que pode ser muito maior do que ela. Mesmo sem nunca ter visto uma aranha Argiope a P. fimbriata sabe o que fazer quando encontra sua teia. Ela pisa com cuidado em um dos fios, e começa a fazer uma série de vibrações diferentes – a maioria das aranhas de teia são quase cegas, e o sentido que mais usam é o tato – em intervalos até encontrar a vibração que atrai a dona da teia para seu ataque (algumas espécies podem fazer isso por dias). Se ela reage, a Portia continua com aquele estímulo. Caso contrário, volta a variar seus sinais, até receber resposta novamente. A P. fimbriata australiana pode inclusive imitar movimentos da fêmea da espécie na teia, para atrair o macho.

Por vezes, ela pode resolver subir pela teia para atacar sua dona. Mas só quando houver vento ou outra condição que vibre a teia e mascare seu movimento ninja caminhar pelos fios, para que ela não se torne a presa. Nem sempre a Argiope é pega desprevenida, ela pode chacoalhar a teia com força se perceber a Portia, ou mesmo atacá-la. Nestes casos a P. fimbriata pode partir para um ataque muito mais hollywoodiano. Ela caminha ao redor da teia, muitas vezes perdendo contato visual com a presa e fazendo contornos que podem levar mais de uma hora, para se posicionar exatamente acima da vítima e descer por um fio para o grande ataque. Sim, a Portia pode julgar que este ataque é mais eficaz, planejar toda uma rota, e seguir em um comportamento longo e complexo para completar seu objetivo. [2]

O vídeo abaixo mostra o comportamento de imitação em presas e o ataque planejado, com direito a close nos olhos de vilão do mal (uma versão mais curta que não consegui embedar está aqui):

E este não é o único exemplo de tomada de decisão complexa. A espécie Portia labiata das Filipinas demonstra muito bem esta capacidade. Na região de Los Baños, ela encontra e caça aranhas cuspideiras da espécie Scytodes pallidus. As Scytodes também são araneofágicas, e secretam um misto de teia e veneno pelas quelíceras que é lançado sobre as presas (daí o nome cuspideira), grudando-as. Assim, para caçar esta cuspideira especializada em aranhas saltadoras, a P. labiata precisa de uma tática especial. As P. labiata desta região se aproximam de teias de Scytodes e provocam vibrações, mas não fazem o ataque direto. Elas normalmente fazem a volta e tomam o caminho mais longo para atacar a cuspideira por trás, e evitar a extremidade que lança a cola. Portia da mesma espécie mas de outra região, não fazem isso e são mais facilmente mortas pela Scytodes. E seu repertório pode ser ainda mais diverso: se a Scytodes dona da teia for uma fêmea carregando uma bolsa de ovos com a boca, o que diminui muito as chances de ela cuspir teia, a P. labiata de Los Baños adota o comportamento mais curto de atacar diretamente. [3]

Tomada de decisão, classificação de presas, acuidade visual e leitura para diferenciar um inseto preso na teia da aranha, e para diferenciar uma fêmea carregando ovos ou não… acabo de eleger as Portia como saltadoras mais nerds, escolher meu gênero predileto de Salticidae.

 

Fontes:

[1] Clark, R., & Jackson, R. (2000). Web use during predatory encounters between Portia fimbriata, an araneophagic jumping spider, and its preferred prey, other jumping spiders New Zealand Journal of Zoology, 27 (2), 129-136 DOI: 10.1080/03014223.2000.9518218

[2] Wilcox RS, Jackson RR (2002). Jumping spider tricksters: deceit, predation, and cognition. In: Bekoff M, Allen C, Burghardt G (eds) The cognitive animal. MIT Press, Cambridge, Mass., pp 27–33 [pdf]

[3] Jackson RR, Pollard SD, Li D, & Fijn N (2002). Interpopulation variation in the risk-related decisions of Portia labiata, an araneophagic jumping spider (Araneae, Salticidae), during predatory sequences with spitting spiders. Animal cognition, 5 (4), 215-23 PMID: 12461599

Quer assustar seus predadores? Faça uma aranha gigante.

Aranha falsa, feita de detritos

Imagem feita por Phil Torres

Esta semana topei com um exemplo fantástico de mimetismo em aranhas. Exemplo bem deliberado e feito com cuidado. Algumas aranhas são capazes de criar disfarces, imagens delas mesmas, verdadeiros espantalhos feitos de sujeira, restos de presas e bolsas de ovos que elas deixam na teia para (imagina-se) distrair predadores.

Mas nunca havia visto um disfarce como este ao lado. Esta aranha foi feita por uma pequena Cyclosa sp., fotografada por Phil Torres nas matas do Peru.

 

 

 

Cyclosa sp. que vive na teia tem menos de meio centímetro, e consegue montar esse disfarce muito parecido com uma aranha enorme, de vários centímetros, pendurada em sua teia. Até então, todos os outros exemplos conhecidos de disfarces feitos por outras aranhas do mesmo gênero eram réplicas iguais às donas, feitas mais para confundir do que para assustar. Trata-se do primeiro caso conhecido de disfarce maior do que a autora, que me lembrou muito do Mágico de Oz.

 

Imagens e fonte de Phil Torres, via @BoraZ.

 

Mais aranhas pavão (e pr0n de aranhas)

Sim, mais um vídeo com aranhas pavão macho. Simplesmente por que não resisto a aranhas saltadoras tentando impressionar as fêmeas, ainda mais quando são tão coloridas.

Desta vez temos mais ação. Fruto do trabalho de Jürgen Otto (autor do vídeo) e David Hill, que estudam este gênero de aranhas australianas. No começo, vários machos mostrando seus talentos, abrindo e agitando o abdômen iridescente enquanto agitam o terceiro par de patas – o único par com meias – e chacoalham os pedipalpos.


Acho muito curioso o paralelo de demonstrações de cores e movimentos das aranhas saltadoras, que dependem muito da visão para caçar, com comportamentos similares em aves. Pouco depois, podemos ver o medo de um macho de meio centímetro que precisa conquistar uma fêmea maior do que ele (marrom, no vídeo), e mais do que acostumada a atacar pequenos artrópodes que se aventurem na frente dela. Depois da conquista, o macho usa seu pedipalpo para inserir o esperma na fêmea.

Vídeo via io9, que pegou do boingboing via Bug Girl

Um review bem recente gênero, de autoria de Jürgen Otto e David Hill, com a melhor coleção de figuras de um artigo que já li está disponível aqui. [pdf]

Continuo amando as Salticidae

Vê a formiga estranha, pensa… pensa… Ah, é uma teia no chão! Aí vem o final, surpreendente.

Via Haznos, nos itens compartilhados do Ivo Neuman

Pequenos predadores, grandes presas

Semanas atrás, o vídeo do pequeno besouro da espécie Epomis dejeani me deixou bastante impressionado. Filmado por pesquisadores israelenses interessados na interação deste inseto com sapos, frequentemente encontrados juntos no ambiente, ele se mostrou capaz de matar com veneno e comer um animal muito maior do que ele. Me dei conta do quão impressionante é ver um vertebrado sendo comido por um artrópode, invertendo pouco a relação predador-presa com a qual estamos acostumados.

Então, para diversão geral, em um momento Youtube que há tempos não acontecia aqui no blog, aqui vão alguns artrópodes predadores capazes de comer presas muito maiores do que eles, em vídeo:
Aranhas Nephila
Este grupo de aranhas é famoso por tecer teias extremamente resistentes, onde as fêmeas conseguem prender animais muito maiores do que seria de esperar. Esta do vídeo é uma espécie australiana (claro que tem que vir de lá) capaz de comer pássaros. Os machos, por outro lado, são muito menores e têm comportamentos sexuais bastante interessantes, que já tratei aqui. Algumas são capazes de pegar inclusive morcegos.

Lembro que no corredor do prédio da Zoologia, no Instituto de Biociências onde estudei, algumas Nephila faziam teias que desciam do teto, e quem batesse nelas não rasgava a teia não. Em algum ponto da minha graduação acabaram removendo as teias, e dizem que arruinou um projeto de mestrado. Aliás, as teias são tão resistentes e compatíveis com tecidos biológicos que estudam usar o material para cirurgias.

Aranha Golias
A aranha-golias-comedora-de-pássaro é uma tarântula amazônica, considerada a maior de todas (se não a maior, certamente a mais pesada). Apesar do que o nome diz, ela não costuma comer pássaros, mas não dispensa pequenos rodedores, lagatos e até mesmo cobras. Não é lá um predador pequeno para seguir o título do post, veja o tamanho dela na mão do apresentador aos 57 segundos.
Menção honrosa
Claro que eu não podia deixar de fora meus insetos favoritos, por mais que não predem vertebrados, as vespas parasitóides. Por mais que as Nephila e as tarântulas sejam grandes e comam presas maiores ainda, ambas podem ser vítimas das vespas. Seja as vespas falcão caçadoras de tarântulas, que as paralisam com uma ferroada para depositar um ovo e enterrar a aranha viva como comida para sua larva; ou as vespas parasitóides, que depositam ovos nas costas das Nephila ainda na teia, que são escravizadas posteriormente para tecer a teia que serve de casulo para a larva que a devora.

O show da aranha pavão

Já falei por aqui desta linda aranha saltadora (tinha que ser australiana com estas cores), que exibe o abdomen para as fêmeas. Mas as imagens não são páreo para o vídeo da dancinha! 

Não ligue para ofato do vídeo ser em inglês. Basicamente, ele mostra machos procurando parceiras, elas observando (são as marronzinhas sem cor), e a dança pela atenção (parecida com um pavão, obviamente). Sei que é estranho alguém ficar empolgado com aranhas levantando as perninhas e abrindo o abdomen, mas me divirto. Aquele jeito de “olha eu!”é impagável. E o medo delas depois…

Via Why Evolution Is True.

Já tomou sua neurotoxina hoje? Café como inseticida.

teias_cafeina.jpg 
Fonte: Wikimedia
ResearchBlogging.orgJá se perguntou porque uma planta que não possui sistema nervoso produz um composto capaz de nos deixar alerta? Talvez tenha alguma outra função para a planta que não sabemos. Mas no caso da cafeína, provavelmente se trata de mais um dos milhares de compostos que as plantas sintetizam para dar um fim em engraçadinhos que se aproveitam da imobilidade delas.
Esta capacidade inseticida da cefeína foi mostrada pelo neurologista James Nathanson, que levou a sério os ensaios das aranhas drogadas de Peter Witt, farmacologista famoso por testar o efeito todo tipo de droga na construção de teias em 1948. Nathanson mostrou que a cafeína mata uma série de insetos, em questão de horas ou dias, mesmo em pequenas doses, utilizando folhas de chá e sementes de café em pó (além de cafeína pura, para excluir a possibilidade de outros compostos terem este efeito). Tremores, hiperatividade e perda de apetite são alguns dos sintomas apresentados pelas largartas do tabaco que serviram de cobaias, e não parecem nem um pouco estranhos a quem já tomou uma caneca ou duas de café forte. 
O que faz todo o sentido quando olhamos de volta para plantas como o café e o chá - não só estas plantas, cacau e noz de cola também - que impregnam as folhas com cafeína, acabando com qualquer inseto que tentar mastigá-las. Na verdade, a cafeína é produzida inclusive pelas raízes, o que somado ao que é liberado por folhas caídas, torna o solo de ao redor das plantas totalmente cafeinado, um campo minado para predadores. No caso do café, quantidades ainda maiores são acumuladas nas sementes, o que garante intoxicação de pequenos artrópodes que poderiam destruí-la. Além da dispersão por aves (imagino que seja o caso, pelo tamanho e cor dos frutos) e eventuais mamíferos eretos e pelados que curtiram o efeito da cafeína em vertebrados.
O que me faz imaginar como o Peter Parker fica depois do café da manhã.
Fonte:
Nathanson, J. (1984). Caffeine and related methylxanthines: possible naturally occurring pesticides Science, 226 (4671), 184-187 DOI: 10.1126/science.6207592

Parasitoides em ação, aranhas sob comando

Sabendo da minha predileção por vespas parasitóides, a Luciana Fernandes do INCT Hympar (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitóides da Região Sudeste Brasileira [ufa!]) me mandou este vídeo recém produzido pelo instituto.

Trata-se de uma vespa Hymenoepimecis bicolor e a aranha Nephila clavipes, nossa versão nacional da relação que já tratei aqui, onde a larva da vespa suga a aranha de fora e quando chega no último estágio de desenvolvimento obriga sua hospedeira a fazer uma teia especial onde ela pode produzir o casulo onde sofrerá metamorfose.
Vídeo perfeito para quem estiver dando aula sobre relações ecológicas, didático e bem narrado, garanto muito mais interesse do que o pássaro paliteiro. Aquele ovopositor enorme entrando na boca da aranha e em seguida no abdome é inspiradora para qualquer roteirista de filmes de terror.
Ah, e para quem torce pela aranha, assista até depois dos 7 minutos.

Aranha armadeira e o gato ninja

Já mostrei antes aqui a aranha trapdoor, que faz uma toca e usa a teia para montar uma tampa com alça que ela usa para se esconder e dar o bote em uma vítima que encoste na teia ao redor da toca. 

No vídeo de baixo está o gato que aprendeu muito bem como se faz:
 
Vi no Neatorama que viu no Geekologie, e quem compartilhou foi o Kentaro.

Aranhas que se disfarçam de formigas (e bônus)

Há um tempo atrás, falei das aranhas Myrmarachne, que imitam formigas a fim de evitar predadores e conviver facilmente com eles. Mas as fotos não mostram o comportamento delas.

Veja então estes vídeos, e compartilhe comigo a admiração por estas aranhas:

 

Bônus 1:
Um macho da espécie Phidippus mystaceus fotografado e filmado por Thomas Shahan autor da lindas fotos de Salticidae que postei aqui e aqui. Segundo Thomas, há anos ele procura o macho adulto desta espécie, e a ponto de compor e cantar a música do vídeo que fez quando encontrou uma.

Phidippus_mystaceus.jpg

Bônus 2: clique aqui e veja a maior aranha que já vi correndo (!) atrás de uma mulher!

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