A aranha mais nerd
Salticidae é uma família de aranhas muito inteligentes (para alguém com o cérebro daquele tamanho). São caçadoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem caçar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da visão, daí os olhos enormes, e acabam adotando comportamentos bem ricos. Agora, se elas já são predadores bastante inteligentes, como seria uma aranha que caça esses predadores (uma aranha araneofágica)? Conheça as aranhas Portia, e por que elas são chamadas de gatos de oito olhos [link para pdf].
Portia é um gênero de aranhas saltadoras (também são Salticidae) com cerca de 20 espécies conhecidas, que são especialistas em caçar outras aranhas, especialmente membras da mesma família. Ocorrem na África, Ásia e Oceania, para meu desapontamento. Para poderem caçar, adotam uma série de táticas bastante complexas, sendo capazes de classificar o tipo de presa e responder de acordo, o que as coloca entre os invertebrados mais inteligentes.
Para atacar outras Salticidae, as estratégias das Portia são únicas. Algumas Portia podem fazer teias, e manter os insetos pegos para atrair outras saltadoras. Outras partem ativamente para a caça, quando sua camuflagem vem a calhar: se a Salticidae que está caçando a vê, a Portia congela seus movimentos, e encolhe seus palpos e patas, se camuflando de detrito para uma vítima que depende da visão, podendo até simular movimentos causados pelo vento. O que não se comparar com as táticas que adotam em situações mais delicadas. [1]
Atacando em território inimigo
Um dia de caça típico da Portia fimbriata, simpática espécie acima, serve de exemplo do que elas são capazes de fazer. Uma das presas que esta espécie ataca é a aranha de teia Argiope appensa, que pode ser muito maior do que ela. Mesmo sem nunca ter visto uma aranha Argiope a P. fimbriata sabe o que fazer quando encontra sua teia. Ela pisa com cuidado em um dos fios, e começa a fazer uma série de vibrações diferentes – a maioria das aranhas de teia são quase cegas, e o sentido que mais usam é o tato – em intervalos até encontrar a vibração que atrai a dona da teia para seu ataque (algumas espécies podem fazer isso por dias). Se ela reage, a Portia continua com aquele estímulo. Caso contrário, volta a variar seus sinais, até receber resposta novamente. A P. fimbriata australiana pode inclusive imitar movimentos da fêmea da espécie na teia, para atrair o macho.
Por vezes, ela pode resolver subir pela teia para atacar sua dona. Mas só quando houver vento ou outra condição que vibre a teia e mascare seu movimento ninja caminhar pelos fios, para que ela não se torne a presa. Nem sempre a Argiope é pega desprevenida, ela pode chacoalhar a teia com força se perceber a Portia, ou mesmo atacá-la. Nestes casos a P. fimbriata pode partir para um ataque muito mais hollywoodiano. Ela caminha ao redor da teia, muitas vezes perdendo contato visual com a presa e fazendo contornos que podem levar mais de uma hora, para se posicionar exatamente acima da vítima e descer por um fio para o grande ataque. Sim, a Portia pode julgar que este ataque é mais eficaz, planejar toda uma rota, e seguir em um comportamento longo e complexo para completar seu objetivo. [2]
O vídeo abaixo mostra o comportamento de imitação em presas e o ataque planejado, com direito a close nos olhos de vilão do mal (uma versão mais curta que não consegui embedar está aqui):
E este não é o único exemplo de tomada de decisão complexa. A espécie Portia labiata das Filipinas demonstra muito bem esta capacidade. Na região de Los Baños, ela encontra e caça aranhas cuspideiras da espécie Scytodes pallidus. As Scytodes também são araneofágicas, e secretam um misto de teia e veneno pelas quelíceras que é lançado sobre as presas (daí o nome cuspideira), grudando-as. Assim, para caçar esta cuspideira especializada em aranhas saltadoras, a P. labiata precisa de uma tática especial. As P. labiata desta região se aproximam de teias de Scytodes e provocam vibrações, mas não fazem o ataque direto. Elas normalmente fazem a volta e tomam o caminho mais longo para atacar a cuspideira por trás, e evitar a extremidade que lança a cola. Portia da mesma espécie mas de outra região, não fazem isso e são mais facilmente mortas pela Scytodes. E seu repertório pode ser ainda mais diverso: se a Scytodes dona da teia for uma fêmea carregando uma bolsa de ovos com a boca, o que diminui muito as chances de ela cuspir teia, a P. labiata de Los Baños adota o comportamento mais curto de atacar diretamente. [3]
Tomada de decisão, classificação de presas, acuidade visual e leitura para diferenciar um inseto preso na teia da aranha, e para diferenciar uma fêmea carregando ovos ou não… acabo de eleger as Portia como saltadoras mais nerds, escolher meu gênero predileto de Salticidae.
Fontes:
[1] Clark, R., & Jackson, R. (2000). Web use during predatory encounters between Portia fimbriata, an araneophagic jumping spider, and its preferred prey, other jumping spiders New Zealand Journal of Zoology, 27 (2), 129-136 DOI: 10.1080/03014223.2000.9518218
[2] Wilcox RS, Jackson RR (2002). Jumping spider tricksters: deceit, predation, and cognition. In: Bekoff M, Allen C, Burghardt G (eds) The cognitive animal. MIT Press, Cambridge, Mass., pp 27–33 [pdf]
[3] Jackson RR, Pollard SD, Li D, & Fijn N (2002). Interpopulation variation in the risk-related decisions of Portia labiata, an araneophagic jumping spider (Araneae, Salticidae), during predatory sequences with spitting spiders. Animal cognition, 5 (4), 215-23 PMID: 12461599
Quer assustar seus predadores? Faça uma aranha gigante.

Imagem feita por Phil Torres
Esta semana topei com um exemplo fantástico de mimetismo em aranhas. Exemplo bem deliberado e feito com cuidado. Algumas aranhas são capazes de criar disfarces, imagens delas mesmas, verdadeiros espantalhos feitos de sujeira, restos de presas e bolsas de ovos que elas deixam na teia para (imagina-se) distrair predadores.
Mas nunca havia visto um disfarce como este ao lado. Esta aranha foi feita por uma pequena Cyclosa sp., fotografada por Phil Torres nas matas do Peru.
A Cyclosa sp. que vive na teia tem menos de meio centímetro, e consegue montar esse disfarce muito parecido com uma aranha enorme, de vários centímetros, pendurada em sua teia. Até então, todos os outros exemplos conhecidos de disfarces feitos por outras aranhas do mesmo gênero eram réplicas iguais às donas, feitas mais para confundir do que para assustar. Trata-se do primeiro caso conhecido de disfarce maior do que a autora, que me lembrou muito do Mágico de Oz.
Imagens e fonte de Phil Torres, via @BoraZ.
Mais aranhas pavão (e pr0n de aranhas)
Sim, mais um vídeo com aranhas pavão macho. Simplesmente por que não resisto a aranhas saltadoras tentando impressionar as fêmeas, ainda mais quando são tão coloridas.
Desta vez temos mais ação. Fruto do trabalho de Jürgen Otto (autor do vídeo) e David Hill, que estudam este gênero de aranhas australianas. No começo, vários machos mostrando seus talentos, abrindo e agitando o abdômen iridescente enquanto agitam o terceiro par de patas – o único par com meias – e chacoalham os pedipalpos.
Acho muito curioso o paralelo de demonstrações de cores e movimentos das aranhas saltadoras, que dependem muito da visão para caçar, com comportamentos similares em aves. Pouco depois, podemos ver o medo de um macho de meio centímetro que precisa conquistar uma fêmea maior do que ele (marrom, no vídeo), e mais do que acostumada a atacar pequenos artrópodes que se aventurem na frente dela. Depois da conquista, o macho usa seu pedipalpo para inserir o esperma na fêmea.
Vídeo via io9, que pegou do boingboing via Bug Girl
Um review bem recente gênero, de autoria de Jürgen Otto e David Hill, com a melhor coleção de figuras de um artigo que já li está disponível aqui. [pdf]
Continuo amando as Salticidae
Vê a formiga estranha, pensa… pensa… Ah, é uma teia no chão! Aí vem o final, surpreendente.
Spider attack from Ahmet Ozkan on Vimeo.
Pequenos predadores, grandes presas
Semanas atrás, o vídeo do pequeno besouro da espécie Epomis dejeani me deixou bastante impressionado. Filmado por pesquisadores israelenses interessados na interação deste inseto com sapos, frequentemente encontrados juntos no ambiente, ele se mostrou capaz de matar com veneno e comer um animal muito maior do que ele. Me dei conta do quão impressionante é ver um vertebrado sendo comido por um artrópode, invertendo pouco a relação predador-presa com a qual estamos acostumados.
Lembro que no corredor do prédio da Zoologia, no Instituto de Biociências onde estudei, algumas Nephila faziam teias que desciam do teto, e quem batesse nelas não rasgava a teia não. Em algum ponto da minha graduação acabaram removendo as teias, e dizem que arruinou um projeto de mestrado. Aliás, as teias são tão resistentes e compatíveis com tecidos biológicos que estudam usar o material para cirurgias.
O show da aranha pavão
Já falei por aqui desta linda aranha saltadora (tinha que ser australiana com estas cores), que exibe o abdomen para as fêmeas. Mas as imagens não são páreo para o vídeo da dancinha!
Já tomou sua neurotoxina hoje? Café como inseticida.
Parasitoides em ação, aranhas sob comando
Sabendo da minha predileção por vespas parasitóides, a Luciana Fernandes do INCT Hympar (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitóides da Região Sudeste Brasileira [ufa!]) me mandou este vídeo recém produzido pelo instituto.
Aranha armadeira e o gato ninja
Já mostrei antes aqui a aranha trapdoor, que faz uma toca e usa a teia para montar uma tampa com alça que ela usa para se esconder e dar o bote em uma vítima que encoste na teia ao redor da toca.
Aranhas que se disfarçam de formigas (e bônus)
Há um tempo atrás, falei das aranhas Myrmarachne, que imitam formigas a fim de evitar predadores e conviver facilmente com eles. Mas as fotos não mostram o comportamento delas.
Veja então estes vídeos, e compartilhe comigo a admiração por estas aranhas:
Bônus 1:
Um macho da espécie Phidippus mystaceus fotografado e filmado por Thomas Shahan autor da lindas fotos de Salticidae que postei aqui e aqui. Segundo Thomas, há anos ele procura o macho adulto desta espécie, e a ponto de compor e cantar a música do vídeo que fez quando encontrou uma.
Bônus 2: clique aqui e veja a maior aranha que já vi correndo (!) atrás de uma mulher!









