A natureza da homossexualidade e os comentários de @EliVieira e @IzzyNobre

Um exemplo de comportamento aprendido pela depravação que passa na TV Serengueti.

Foi impossível não tomar conhecimento (e não me indignar) de uma grande exposição de opinião preconceituosa e ignorante contra homossexuais veiculada recentemente. O cerne da discussão foi a noção de que homossexualidade é um comportamento adquirido, e não herdado, e como tal poderia ser evitado ou prevenido. Como se isso fizesse alguma diferença ou, pior ainda, como se isso dissesse respeito a alguém que não os homossexuais. Mas vamos aos fatos.

Homossexualidade é natural e comum, e pode ser favorecida pela evolução

Homossexualidade é um comportamento com forte influências genéticas, que parece ser herdável, e é encontrado em diversos outros animais. Como já discuti em 2009 no Papo de Homem, diversos outros animais praticam sexo homossexual, em uma parte ou durante toda sua vida. E as evidências de como o cérebro de homossexuais funciona apontam para diferenças fisiológicas no interesse por indivíduos do mesmo sexo e do sexo oposto.

Quem discute bem isso e aponta diversos estudos combatendo cada argumento ignorante é o Eli Vieira, biólogo e autor do Bule Voador, do Evolucionismo e da Liga Humanista.

Quanto à implicação do parágrafo anterior e do vídeo, como a evolução favorece ou mantém na natureza um comportamento que diminui as chances de reprodução, recomendo novamente o texto no Papo de Homem, em especial o seguinte trecho:

Supondo que exista um gene que determine a orientação gay (mais adiante discuto as chances disso ser verdade), ele deve beneficiar alguém para que seja passado adiante. Uma situação pode ser o valor do heterozigoto, ou seja, a vantagem está no portador de apenas um alelo da característica, e o portador de dois alelos é prejudicado – de novo, em termos evolutivos.

Como recebemos material genético do pai e da mãe, seria o caso de um homem portador do gene “gay” de apenas um dos pais ser beneficiado, enquanto o homem que herda o gene de ambos sai em desvantagem. Outra pode ser o benefício para apenas um dos sexos, uma competição de interesses. Se for uma característica presente no cromossomo X por exemplo, ela pode trazer vantagens para mulheres, que portam duas cópias do cromossomo (XX), enquanto nos homens , que portam uma só (XY) é desvantajosa.

Se a homossexualidade é natural ou não, isso não lhe diz respeito

Estava pensando em escrever sobre o direito dos homossexuais, das implicações do comportamento ser natural ou não. Mas não tenho por que falar disso. Por um simples motivo. Isso não me diz respeito. Não diz respeito ao pastor também. E não diz respeito a quem opina ou legisla contra o direito de homossexuais se casarem. Isso só diz respeito aos homossexuais.

Discutir se homossexuais podem ou não exercer sua orientação é a mesma coisa que discutir se humanos tem ou não direito de serem humanos. Se duas pessoas querem estar juntas, consensualmente, dois adultos responsáveis, por exemplo, isso diz respeito só a eles. Eu não tenho o direito de permitir ou não que eles se casem ou se beijem, assim como eles não tem o direito de acabar com o meu casamento. Isso não é um direito que precisaria ser adquirido. Nas palavras (fortes) de Louis C. K.:

A noção de que homossexualidade é algo errado ou condenável é extremamente nociva. Não só por abrir espaço para que a homofobia cresça e crimes como o espancamento de jovem que “parecem gays” seja visto como algo aceitável. É nociva por dizer a crianças e adolescentes que estão crescendo e se descobrindo homossexuais que aquilo é errado, que é pecado e deveria ser evitado. O caminho para uma vida deprimida e miserável, tentando evitar sua natureza.

Nesse sentido, acho o vídeo do Eli especialmente importante. Não por rebater uma entidade que se alimenta da ignorância e da miséria humana, material farto no Brasil. Mas por mostrar para quem busca uma orientação que existe sim uma base natural para o que sentem, que aquilo é comum, aceitável, e não há nada de errado nisso. Quem argumenta que homossexualidade é um comportamento aprendido, e por isso cada vez mais comum, não entende que isso na verdade é um reflexo do aumento de nossa tolerância, e de que as pessoas finalmente estão podendo expressar sua preferência.

Gosto muito da noção compartilhada por Steven Pinker em seu livro The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined, de que estamos mudando como sociedade para uma postura mais humanista, onde estendemos [brigado, Diego!] os direitos para todos à nossa volta. Não toleramos mais violência como antes (vide os desenhos e filmes da década de 80), respeitamos muito mais o direito dos animais e nosso círculo de empatia se estende cada vez mais. Até máquinas podem despertar nossa compaixão, mesmo quando elas são grossas.

Então, quem sabe, como diz o Izzy Nobre, esse grito preconceituoso e desesperado por atenção não se cala nos próximos anos.

A aranha mais nerd

Aranha Portia fimbriata

©vipin baliga

ResearchBlogging.orgSalticidae é uma família de aranhas muito inteligentes (para alguém com o cérebro daquele tamanho). São caçadoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem caçar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da visão, daí os olhos enormes, e acabam adotando comportamentos bem ricos. Agora, se elas já são predadores bastante inteligentes, como seria uma aranha que caça esses predadores (uma aranha araneofágica)? Conheça as aranhas Portia, e por que elas são chamadas de gatos de oito olhos [link para pdf].

Portia é um gênero de aranhas saltadoras (também são Salticidae) com cerca de 20 espécies conhecidas, que são especialistas em caçar outras aranhas, especialmente membras da mesma família. Ocorrem na África, Ásia e Oceania, para meu desapontamento. Para poderem caçar, adotam uma série de táticas bastante complexas, sendo capazes de classificar o tipo de presa e responder de acordo, o que as coloca entre os invertebrados mais inteligentes.

Para atacar outras Salticidae, as estratégias das Portia são únicas. Algumas Portia podem fazer teias, e manter os insetos pegos para atrair outras saltadoras. Outras partem ativamente para a caça, quando sua camuflagem vem a calhar: se a Salticidae que está caçando a vê, a Portia congela seus movimentos, e encolhe seus palpos e patasse camuflando de detrito para uma vítima que depende da visão, podendo até simular movimentos causados pelo vento. O que não se comparar com as táticas que adotam em situações mais delicadas. [1]

Atacando em território inimigo

Um dia de caça típico da Portia fimbriata, simpática espécie acima, serve de exemplo do que elas são capazes de fazer. Uma das presas que esta espécie ataca é a aranha de teia Argiope appensa, que pode ser muito maior do que ela. Mesmo sem nunca ter visto uma aranha Argiope a P. fimbriata sabe o que fazer quando encontra sua teia. Ela pisa com cuidado em um dos fios, e começa a fazer uma série de vibrações diferentes – a maioria das aranhas de teia são quase cegas, e o sentido que mais usam é o tato – em intervalos até encontrar a vibração que atrai a dona da teia para seu ataque (algumas espécies podem fazer isso por dias). Se ela reage, a Portia continua com aquele estímulo. Caso contrário, volta a variar seus sinais, até receber resposta novamente. A P. fimbriata australiana pode inclusive imitar movimentos da fêmea da espécie na teia, para atrair o macho.

Por vezes, ela pode resolver subir pela teia para atacar sua dona. Mas só quando houver vento ou outra condição que vibre a teia e mascare seu movimento ninja caminhar pelos fios, para que ela não se torne a presa. Nem sempre a Argiope é pega desprevenida, ela pode chacoalhar a teia com força se perceber a Portia, ou mesmo atacá-la. Nestes casos a P. fimbriata pode partir para um ataque muito mais hollywoodiano. Ela caminha ao redor da teia, muitas vezes perdendo contato visual com a presa e fazendo contornos que podem levar mais de uma hora, para se posicionar exatamente acima da vítima e descer por um fio para o grande ataque. Sim, a Portia pode julgar que este ataque é mais eficaz, planejar toda uma rota, e seguir em um comportamento longo e complexo para completar seu objetivo. [2]

O vídeo abaixo mostra o comportamento de imitação em presas e o ataque planejado, com direito a close nos olhos de vilão do mal (uma versão mais curta que não consegui embedar está aqui):

E este não é o único exemplo de tomada de decisão complexa. A espécie Portia labiata das Filipinas demonstra muito bem esta capacidade. Na região de Los Baños, ela encontra e caça aranhas cuspideiras da espécie Scytodes pallidus. As Scytodes também são araneofágicas, e secretam um misto de teia e veneno pelas quelíceras que é lançado sobre as presas (daí o nome cuspideira), grudando-as. Assim, para caçar esta cuspideira especializada em aranhas saltadoras, a P. labiata precisa de uma tática especial. As P. labiata desta região se aproximam de teias de Scytodes e provocam vibrações, mas não fazem o ataque direto. Elas normalmente fazem a volta e tomam o caminho mais longo para atacar a cuspideira por trás, e evitar a extremidade que lança a cola. Portia da mesma espécie mas de outra região, não fazem isso e são mais facilmente mortas pela Scytodes. E seu repertório pode ser ainda mais diverso: se a Scytodes dona da teia for uma fêmea carregando uma bolsa de ovos com a boca, o que diminui muito as chances de ela cuspir teia, a P. labiata de Los Baños adota o comportamento mais curto de atacar diretamente. [3]

Tomada de decisão, classificação de presas, acuidade visual e leitura para diferenciar um inseto preso na teia da aranha, e para diferenciar uma fêmea carregando ovos ou não… acabo de eleger as Portia como saltadoras mais nerds, escolher meu gênero predileto de Salticidae.

 

Fontes:

[1] Clark, R., & Jackson, R. (2000). Web use during predatory encounters between Portia fimbriata, an araneophagic jumping spider, and its preferred prey, other jumping spiders New Zealand Journal of Zoology, 27 (2), 129-136 DOI: 10.1080/03014223.2000.9518218

[2] Wilcox RS, Jackson RR (2002). Jumping spider tricksters: deceit, predation, and cognition. In: Bekoff M, Allen C, Burghardt G (eds) The cognitive animal. MIT Press, Cambridge, Mass., pp 27–33 [pdf]

[3] Jackson RR, Pollard SD, Li D, & Fijn N (2002). Interpopulation variation in the risk-related decisions of Portia labiata, an araneophagic jumping spider (Araneae, Salticidae), during predatory sequences with spitting spiders. Animal cognition, 5 (4), 215-23 PMID: 12461599

Não compre o produto mais caro

Qual a relação entre um copo de refrigerante de mais de um litro e a TV mais cara da loja? Acompanhe neste post meu que saiu no Papo de Homem:

Por que não comprar o mais caro

[...]

Quando oferecidas para cobrar ou pagar um valor por um produto ou serviço, o primeiro impulso de quase todas as pessoas é tentar saber quanto outros cobram ou pagam por aquilo, e usar esta comparação como âncora para seu valor. Nós somos animais comparadores por natureza.Vivemos há milhões de anos em sociedades com vários indivíduos, onde estamos sempre comparando e olhando ao nosso redor para saber nossa posição em relação ao grupo. Um aumento de R$ 2000 para um funcionário seria uma ótima notícia, mas se tornaria um ultraje se ele descobrisse que todos outros receberam R$ 10000 de aumento.

[...]

David Wallerstein foi contratado por uma cadeia de cinemas americana da década de 1950 para aumentar a renda deste comércio. Renda essa que vinha principalmente da venda de bebidas e pipocas. Wallerstein percebeu que, por mais que se esforçasse, não conseguiria fazer cada espectador comprar mais de um refrigerante e uma pipoca. As pessoas não saem no meio do filme para comprar outra pipoca, não só pelo filme, mas por se sentirem gulosas ao comprar mais uma porção. Daí surgiu a ideia de oferecer uma porção com o dobro do tamanho.

Com o tamanho grande e o extra-grande, as pessoas comem o mesmo que comeriam comprando duas unidades, mas não se dão conta disso. Este é outro instinto nosso, tendemos a comer tudo o que pegamos, sem repararmos no tamanho da porção. Um experimento de 2005 mostrou isso ao oferecer para as pessoas sopa em um recipiente que se enchia automaticamente por baixo sem que elas percebessem. O autor acabou ganhando um IgNobel por isso. Como resultado, quem tomou a sopa da tigela sem fundo consumiu em média 60% mais do que quem tinha uma tigela normal. Pelo mesmo motivo, restaurantes de comida por quilo usam pratos enormes: tendemos a enchê-los com mais comida do que pratos normais.

 

Leia o texto completo aqui.

Algo que não está no texto, recomendo muito o Dilema do Onívoro por uma série de outros motivos. Nunca tinha pensado como o fato de sermos onívoros está diretamente relacionado à condição humana. Também não fazia idéia do que a indústria alimentícia americana tem feito com a montoeira de milho subsidiado que produzem anualmente. Pela discussão sobre a agricultura, os hábitos alimentares, alimentos orgânicos (e outros não tão orgânicos) e tudo o mais, foi sem dúvida um dos melhores livros que já li.

E jaleco lá transmite doença?

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Eis que temos até campanha para médico limpinho, com boas alternativas ao jaleco. Porém, antes de entrar na discussão da higiene do jaleco em ambientes públicos de novo, quero deixar algo claro: não tenho nada contra médicos, nem inveja. Não nasci para ser médico, não tenho a menor vocação para cuidar dos outros, muito menos responsabilidade para ter vidas dependendo diretamente de mim desta forma. Prestei biologia como primeira e única opção no vestibular, e dei sorte de passar. 
Provavelmente devo minha vida a vários médicos, do obstetra que pariu esta cabeça enorme que tenho aos que trataram minha bronquite durante toda minha infância. Também entendo perfeitamente que tenham orgulho de sua profissão, em especial dado o esforço para entrar e sair da graduação. Aliás, respeito todo profissional com orgulho do que faz, menos políticos e alguns religiosos, dado o comportamento de seus companheiros.
Os comentários aqui são direcionados aos médicos pois foram eles que vi comendo no café do hospital, mas poderiam ser direcionados a quaisquer outros profissionais em outro local com condições similares. Poderiam muito bem tratar de um biólogo comendo com equipamento de proteção no refeitório do meu departamento, se isso acontecesse.
Agora, voltando aos jalecos. Vou pinçar aqui alguns dos comentários defendendo o uso dos mesmos em locais públicos, e juro que deixei alguns dos mais inflamados de fora (grifos meus, grafia original):
Jaleco não é instrumento de proteção, é apenas acessorio de identificação do profissional. [jaleco = crachá] fonte
Terceiro, os jalecos são brancos por um motivo. E isso exige lavagem diária dos mesmos, o que os torna muito mais limpos do que vcs estão defendendo.
[...] O jaleco não é fonte de contaminação. Se fosse, os maiores prejudicados por comer de jaleco seriam os próprios médicos, expondo sua comida a esse tipo de risco. E acreditem, isso não acontece.
Antes da faculdade tinha uma opinião similar a de vcs. Mas só o conhecimento de um hospital e imersão nesse mundo faz com que algumas práticas sejam melhor entendidas. fonte 
Preocupo-me mais com um profissional ou um visitante que NAO LAVA AS MÃOS CORRETAMENTE E FREQUENTEMENTE, do que o médico que vai a um refeitório vestindo jaleco. [concordo perfeitamente aqui, inclusive, se eu fosse médico, lavava as mãos antes e depois de ir ao banheiro]
Francamente! Sejamos sensatos!! Já tenho muitos anos de medicina. Não é porque como com o jaleco que tive infecções alimentares graves! Na verdade, os médicos adoecem das mesmas doenças e sob os mesmos germes que a população comum!! fonte 
O problema de infecções hospitalares é causado por visitantes que não tem que estar no hospital. Hospital é lugar de médicos e pacientes, não da família com 10 integrantes que vão passar o fim de semana com o familiar internado. Se tem nojo de profissionais que usam o uniforme de trabalho no almoço, deveria trocar de roupa sempre que vai a um restaurante. Em qualquer hospital americano ou europeu (já estive em alguns), o normal é usar jaleco ou roupa de bloco cirúrgico em qualquer área. E a taxa de infecções hospitalares é menor. O mais certo é que um dos fatores seja a menor circulação de pessoal sem envolvimento com o tratamento do paciente. fonte
O último comentário é uma tirada da reta extremamente boçal, que pode ser desmentida com a descrição do ocorrido em uma unidade de terapia intensiva, onde garanto que não há 10 familiares pentelhos atrapalhando a vida do pobre profissional. Nas palavras do Karl, que podem ser lidas no link: “É surpreendente que uma equipe treinada, frente a um novo e ameaçador inimigo, no caso a gripe H1N1, tenha respondido com tal eficácia a ponto de influenciar a densidade de outras infecções endêmicas na UTI e zerá-la. Resta-me então concluir que os staffs das unidades de terapia intensiva não estão convencidos de que a infecção hospitalar é uma ameaça séria e por isso, não dão o seu máximo.
Mas estou divergindo. O que quero apontar com o negrito nos comentários é um erro de lógica muito comum, que certamente atrapalha. São todas justificativas baseadas em casos anedóticos, experiências pessoas sem o menor embasamento de fatos. “Já tenho muitos anos de medicina.”, “Em qualquer hospital americano ou europeu”, e por aí vai. De qualquer forma, somos facilmente tocados por relatos pessoais, o que torna mais fácil se convencer por argumentos deste tipo.
Felizmente, o Leo Martins provém o embasamento científico para a discussão. Ele compilou uma série de artigos que tratam do tema, nos quais vou aplicar um tremendo viés e escolher dois que demonstram o que quero afirmar. Aqui vai uma meia tradução de alguns trechos:
De 149 jalecos de atendentes de grandes turnos, 34 estavam contaminados com a bactéria Staphylococcus aureus, dos quais 6 eram multiresistentes (MRSA). [...] Jalecos podem ser importantes vetores para a transmissão de S. aureus entre pacientes. fonte

Pesquisadores mostraram que grandes inóculos de Staphylococcus aureus resistentes e outras bactérias podiam ser transferidos do jaleco para tecido celular cultivado de porcos após, 1, 5 e 30 minutos da inoculação. fonte

Os outros artigos discutem também quais tipos de contaminantes podem ser encontrados em vestimentas e equipamentos, quanto tempo microorganismos podem permanecer viáveis nestes ambientes e algumas especulações sobre o papel que isso pode ter na ocorrência de infecções hospitalares. Leiam no blog dele.
Portanto, volto a pedir: caro proctologista, mantenha seu jaleco longe do meu almoço.

Médico, para que o jaleco?

Só eu fico com nojo desta imagem?

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Esta semana passada, fiz um curso na faculdade de medicina, e algumas aulas foram dadas em um hospital. Em um dos dias, saíamos na hora do almoço quando tive esta visão perturbadora. A lanchonete estava forrada de médicos de jaleco, comendo. Tem coisa mais nojenta do que isso?
Tudo que eu conseguia pensar é que um deles trabalha com tuberculose, outro era proctologista, e por aí vai. Qual o sentido de usar o jaleco no restaurante do hospital? Para não sujar a roupa? Por que, se o jaleco está limpo, o dono vai levar restos de comida para dentro do consultório. Agora, se já estiver sujo…
Com o passar do curso, reparando mais ao meu redor, fiquei ainda mais impressionado. Descobri que mais do que a suposta proteção, ou a real falta de higiene, o jaleco é uniforme. É um crachá que grita: sou médico. Sim, pois não vejo outro sentido para alguém pegar o metrô já de jaleco, desde casa. Ainda mais com o estetoscópio no pescoço. Alguém ainda usa isso? Para que andar de estetoscópio no metrô?
Provavelmente o sujeito vai andar 4 anos com um estetoscópio pendurado para um dia usá-lo, em um outro passageiro que desmaiou por conta do calor, e tudo vai ser justificado. Mas, para infelicidade do resgatado, ele vai desenvolver uma infecção cutânea massiva, pelo que quer que seja que habitava aquele estetoscópio nojento.
Basta passar entre o Hospital das Clínicas e o InCor em Pinheiros para se ver dezenas de médicos devidamente sinalizados, para lá e para cá trajando o guarda-pó. Na rua. Pegando metrô e (de vez em nunca) ônibus.
A necessidade do uniforme, do traje do médico é tanta, que vi alguns colocarem o jaleco para sair do hospital. Sim, a pessoa estava de camisa, no escritório, e quando foi sair para comer colocou o jaleco! Quase um paletó. Outros, vi abotoando o jaleco ao entrar no auditório, simplesmente para assistir a uma apresentação. Qual o sentido?
Se antes eu achava tosco alunos de odonto e enfermagem serem obrigados a assistir aula de roupa branca em algumas faculdades (achava que estivessem indo ou voltado do trabalho, mas descobri que se tratava de convenção mesmo), acabo de eleger algo muito pior. E mais porco. Para que serve o jaleco, afinal?
[update] Como bem lembrado pelo nelas, pelo  Roberto Takata e por outros, vários restaurantes proíbem a entrada de pessoas com jaleco, e a prefeitura de Belo Horizonte proibiu a circulação fora do ambiente de trabalho. A que ponto se precisa chegar para que o profissional mais bem informado sobre a consequência do que faz tome a atitude correta.

Salvem os heterossexuais e viva Bolsonaro

Nesta quinta-feira (12/05), o nobre deputado do PP Bolsonaro deu uma demonstração mais explícita do que ele já havia sido acusado antes e não assumia, sua homofobia. Em sua defesa, acusou a senadora do PSOL de heterofóbica. Eu sou obrigado a concordar. Alguém precisa se levantar contra este preconceito direcionado aos heterossexuais.
Onde a sociedade vai parar com tanta tolerância a homossexuais? Até quando vão cercear nosso direito heterossexual de demonstrar afetividade. Eu mesmo fui quase linchado em um shopping ao dar um beijo em minha esposa. E tive amigos e conehcidos agredidos em festas por beijarem alguém do sexo oposto. Centenas de heterossexuais morrem atacados nas ruas por sua orientação sexual. E ninguém pune os culpados. Onde já se viu?
E as crianças, como diria Pelé? Quem pensa em nossas criancinhas? Como vamos impedir todas as crianças de serem contaminadas pela demonstração de amor e carinho entre duas pessoas? Serem obrigadas a saber que outras crianças têm pais do mesmo sexo que têm a pachorra de se amarem a ponto de querer constituir uma família. Além dos apelidos infelizes que torturam crianças heterossexuais por toda sua infância, que cansam de ser chamadas por nomes pejorativos no colégio, “macho”, ” pegador”, “hétero” e outros.
Quem vai impedir esta praga gay de se espalhar e contaminar todos que ficaram vulneráveis, agora que casais de mesmo sexo correm o risco de serem tratados como cidadãos? Mesmo por que, só a grande maioria das outras espécies demonstra alguma outra forma de homossexualidade. Como, a uma altura destas, o ser humano, um animal tão superior e evoluído ainda suporta este tipo de comportamento?
Chega de ditarem com quem podemos ou não nos relacionar. Chega de me impedirem de seguir minha orientação sexual e curtir minha mulher. Chega de heterofobia. Alguém tem que me defender a orientação do deputado antes que os outros mudem ela. 

Centenas de mortos e um cachorro afogado

Veja o vídeo acima por sua conta.

Quando vi a notícia de uma senhora resgatada durante a série de enchentes no estado do RJ de um telhado, por um vizinho em um prédio ao lado, a notícia do Jornal da Globo tinha tudo para ser mais uma notícia comovente desta série de desastres. Esta com um final feliz. Mas, durante a notícia, vi que ela tinha um cachorro preto no colo, e quando passou pela água, o cachorro sumiu.

Em meio a uma situação caótica, e infelizmente previsível e evitável de acordo com a diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres da ONU, onde centenas de pessoas morreram, aquele cachorro desaparecendo na água me comoveu. Fiquei perturbado com a cena, e mais ainda com o fato de aquilo ter mexido muito mais comigo do que o desastre em si. Centenas de pessoas afogadas, milhares sem casa, comida, parentes e eu fiquei realmente preocupado com um cachorro. Me deu um misto de dó, pesar pela cena e uma estranheza pelo que estava sentindo.

No dia seguinte, vejo o vídeo no Sedentário. Não tive coragem de assistir de novo, e comentei no Twitter e no Reader que tinha ficado muito mais marcado pela cena do cachorro do que com o desastre em si. Eis que várias pessoas me responderam pelos dois canais que sentiram a mesma coisa, alguns inclusive com um pouco de culpa. Aparentemente, não fui o único.

A vítima identificável

Coincidentemente, estou lendo (na verdade, ouvindo o audiolivro) o Positivamente Irracional do economista Dan Ariely. Trata-se da continuação de outro livro dele que já comentei no Papo de Homem. Eis que no capítulo 9, o autor trata do fenômeno da vítima identificável, bastante investigado pelo professor de psicologia Paul Slovic.

O princípio é bastante simples, e pode se ilustrado pelo seguinte exemplo (adaptado do livro):

Imagine que você esteja indo para uma entrevista de emprego, vestindo um terno bastante caro e com um smartphone no bolso, quando passa perto de um lago muito barrento. Então você vê uma criança se afogando. Você sabe nadar bem e não tem tempo de tirar o terno ou as coisas de seu bolso. Você se atiraria na água para salvar a criança?

Muito provavelmente sim. Você, eu, e a maioria das pessoas tentaria resgatar a criamça se afogando. E gastaria facilmente com isso um ou dois mil reais no terno e no smartphone. Mas aquela vida vale isso. No entanto, se alguém pedisse dois mil reais para salvar pessoas com malária no Sudão, poucos dariam dariam o mesmo valor. Mesmo que este dinheiro potencialmente salve mais gente. A questão é que podemos ver a criança sofrendo.

Parece irracional, mas é muito mais fácil apoiarmos uma pequena causa com a qual nos identificamos, como gastar milhões no resgate de mineiros no Chile, do que apoiar um problema muito maior em um local remoto. E por mais que pareça intuitivo falar sobre o tamanho do acidente, quantas milhares ou milhões de pessoas morreram ou podem morrer em decorrência de algum desastre, falar em números só diminui a conexão que sentimos com o problema [link com pdf] e a votade de ajudar.

Quanto mais pessoal é o relato de um destre, com detalhes sobre alguém que está sofrendo, membros da família que a pessoa perdeu, os ferimentos que sofreu ou a condição em que se encontra, mais provável é que a ajuda seja dada. Independente da escala em que o problema se dá. Somos muito mais propensos a ajudar um vizinho em problemas do que milhares de anônimos. Na verdade, quando as pessoas ouvem números e estatísticas, são mais propensas a doarem menos para ajudar (confira no artigo do link).

E o efeito da identificação aumenta quando podemos ver os efeitos da nossa ajuda, o efeito chamado gota d’água em um balde. Se a roupa que doei vai ser usada por alguém, e posso visualizar isso, me sinto mais conectado do que doando um dos milhões de reais que vai para algum lugar remoto.

Nas palavras de Albert Szent-Györgi (retiradas também do livro):

“Sou profundamente comovido se vejo um homem sofrendo e vou arriscar minha vida por ele. No entanto, posso falar de maneira impessoal sobre a possível pulverização de nossas grandes cidades, com centenas de milhões de mortos. Eu sou incapaz de multiplicar o sofrimento de uma pessoa por um milhão.”

O que fazer então

O que li me ajudou bastante a entender como me senti em relação ao vídeo. Foi muito fácil me imaginar na mesma situação que Dona Ilair, ser resgatado e tentar salvar meus cachorros – não tenho filhos, imagino que quem tem se sinta especialmente tocado por notícias de crianças vitimadas. 

E este é o caminho para você pensar ao decidir se vai ajudar ou não em uma situação de desastre. Ao invés de focar nos milhares de mortos, ou nos efeitos do desastre, imagine que está ajudando uma família, ou uma pessoa entre todas aquelas. Eu, por exemplo, não vou doar roupas e alimentos para as enchentes. Vou doar o que puder para Dona Ilair, que além de sofrer com tudo que perdeu, ainda não teve a chance de resgatar seu cachorro.

Como ajudar:

Projeto Enchentes

RJ:

Saiba como ajudar as vítimas das enchentes da região serrana do Rio de Janeiro

SP:

SP inicia campanha para arrecadar donativos às vítimas das chuvas

Defesa Civil

Vídeos via Sedentário&Hiperativo

Cara, cadê minha bactéria?

H_pylori.jpgHelicobacter pyloriFonte.

ResearchBlogging.orgHelicobater pylori foi um microorganismo humano descoberto bastante recentemente (1979-82), o que é surpreendente dados os problemas que pode causar. Seus descobridores, Robin Warren e Barry Marshall ganharam o prêmio Nobel de Medicina em 2005 por terem encontrado a primeira bactéria reconhecida como carcinogênica em humanos, causadora de mais de meio milhão de casos de câncer gástrico no mundo.

Assim que foi feita a associação entre H. pylori e os problemas de estômago, que além do câncer local incluem úlceras e linfomas, uma busca enorme por maneiras de controlar esta bactéria começou. Tratamentos com antibióticos foram os mais adotados, mas vacinas estão em desenvolvimento e até o chá verde já foi tentado como forma de controle. Nas palavras [tradução minha] dos autores deste artigo, “[...] H. pylori é um patôgeno crônico, sério e transmissível que ninguém precisa, merece, ou deseja. [...] É hora de juntar forças para erradicá-lo e para deixar H. pylori juntar-se à varíola e pólio na lista de indesejáveis.”
Mas talvez isso nem seja necessário, a H. pylori já está segue o caminho da extinção. Estamos nos livrando de nossas bactérias estomacais.
Espécies próximas de Helicobater estão presentes em todos os mamíferos estudados, e a diversidade da espécie humana mostra que ela se diferenciou após nossa saída da África, o que indica que estava presente há pelo menos 60 mil anos. Ou seja, todos os mamíferos provavelmente evoluíram com a presença desta bactéria nos estômago e os humanos possivelmente seguiram este mesmo caminho. Uma das evidências desta coevolução é o fato de que cerca de metade da população mundial está infectada por H. pylori. 
Neste momento você deve estar se perguntando como um dos microorganismos mais bem sucedidos pode estar sendo extinto. E a resposta está na distribuição desigual desta bactéria. Enquanto países pobres ainda possuem grandes taxas de infecção, nos países mais desenvolvidos este não é mais o caso. Nos EUA, por exemplo, menos de 6% das crianças carregam ela em seu estômago, provavelmente fruto do aumento dos cuidados com os alimentos, do consumo de antibióticos e dos partos por cesária. Sim, pois uma das prováveis vias de entrada da H. pylori é o contato do bebê com a flora microbiana da mãe no nascimento.
Mas há um outro lado nesta história. Ao mesmo tempo em que os casos de câncer de estômago diminuíram nestes países, os casos de adenocarcinoma de esôfago aumentaram, bem como de refluxo. Em uma relação inversa ao desaparecimento da H. pylori. O que faz bastante sentido, se pensarmos que estamos eliminando um microorganismo que sempre esteve presente em nosso corpo, durante toda a nossa evolução, interagindo com nosso sistema imune e nosso estômago.
Mesmo o aparecimento de tumores e úlceras em pessoas infectadas pode fazer parte desta relação. Quando pensamos que casos de câncer gástrico normalmente se manifestam ao final da vida, período em que antigamente as pessoas já teriam tido e criado os filhos, e não há mais pressão evolutiva para a sobrevivência.
Além da relação aparentemente protetora contra câncer de esôfago, existem trabalhos traçando um paralelo entre a perda de H. pylori e o aumento da produção de grelina pelo estômago, hormônio que promove a fome. Nos mesmos países em que novos hábitos estão acabando com a bactéria estomacal, a obesidade tem aumentado, e talvez este seja um dos fatores. A ligação com alterações fisiológicas vai mais além, alguns estudos vêem o mesmo efeito de diminuição dos casos de Helicobacter e aumento de casos de asma e alergias. Ambos podem ser fruto de uma mudança do sistema imune, e no caso da asma existe uma grande relação com refluxo, imagina-se que parte do líquido digestivo pode acabar no trato respiratório.
Claro que não se trata de um evento de causa e efeito. O que se vê são relações. Pode muito bem ser o caso de uma pessoa com mais alergias ou asma consumir mais antibióticos, e por isso mesmo não ter mais a bactéria em seu estômago. Eu mesmo tive muita bronquite quando criança, e sei pelas últimas endoscopias que não tenho H. pylori. – O que me deixa pensando se produzo mais grelina, uma boa desculpa para meu excesso de peso.
A questão que me deixou pensante não é exatamente a interação entre a H. pylori e o câncer de estômago ou esôfago. Muito ainda precisa ser estudado, e efeitos de correlação são bastante complicados. O intrigante é a mudança microbiana pela qual estamos passando. É natural que após milhares, ou mais provavelmente milhões de anos coevoluindo esta bactéria tenha desenvolvido maneiras de explorar e manipular nossa fisiologia,talvez inclusive regulando a acidez estomacal. E uma vez eliminada, um componente do nosso corpo não estará mais disponível. Componente sim, pois existem 10 vezes mais células bacterianas do que humanas em qualquer pessoa.
Quantos mais microorganismos de nossa flora não estamos eliminando com os novos hábitos de higiene e o constante consumo de antibióticos? E qual será o efeito que eles têm em nosso microorganismo, principalmente aqueles com os quais compartilhamos milhões de anos de evolução?
Fonte:
Blaser, M. (2010). Helicobacter pylori and Esophageal Disease: Wake-up Call? Gastroenterology, 139 (6), 1819-1822 DOI: 10.1053/j.gastro.2010.10.037

Já tomou sua neurotoxina hoje? Café como inseticida.

teias_cafeina.jpg 
Fonte: Wikimedia
ResearchBlogging.orgJá se perguntou porque uma planta que não possui sistema nervoso produz um composto capaz de nos deixar alerta? Talvez tenha alguma outra função para a planta que não sabemos. Mas no caso da cafeína, provavelmente se trata de mais um dos milhares de compostos que as plantas sintetizam para dar um fim em engraçadinhos que se aproveitam da imobilidade delas.
Esta capacidade inseticida da cefeína foi mostrada pelo neurologista James Nathanson, que levou a sério os ensaios das aranhas drogadas de Peter Witt, farmacologista famoso por testar o efeito todo tipo de droga na construção de teias em 1948. Nathanson mostrou que a cafeína mata uma série de insetos, em questão de horas ou dias, mesmo em pequenas doses, utilizando folhas de chá e sementes de café em pó (além de cafeína pura, para excluir a possibilidade de outros compostos terem este efeito). Tremores, hiperatividade e perda de apetite são alguns dos sintomas apresentados pelas largartas do tabaco que serviram de cobaias, e não parecem nem um pouco estranhos a quem já tomou uma caneca ou duas de café forte. 
O que faz todo o sentido quando olhamos de volta para plantas como o café e o chá - não só estas plantas, cacau e noz de cola também - que impregnam as folhas com cafeína, acabando com qualquer inseto que tentar mastigá-las. Na verdade, a cafeína é produzida inclusive pelas raízes, o que somado ao que é liberado por folhas caídas, torna o solo de ao redor das plantas totalmente cafeinado, um campo minado para predadores. No caso do café, quantidades ainda maiores são acumuladas nas sementes, o que garante intoxicação de pequenos artrópodes que poderiam destruí-la. Além da dispersão por aves (imagino que seja o caso, pelo tamanho e cor dos frutos) e eventuais mamíferos eretos e pelados que curtiram o efeito da cafeína em vertebrados.
O que me faz imaginar como o Peter Parker fica depois do café da manhã.
Fonte:
Nathanson, J. (1984). Caffeine and related methylxanthines: possible naturally occurring pesticides Science, 226 (4671), 184-187 DOI: 10.1126/science.6207592

O tamanho dos grupos humanos

Deixo aqui o link para meu último (mais recente) post no Papo de Homem, sobre o tamanho dos grupos humanos e a relação com o tamanho do cérebro:

O número de Dunbar e seus contatos no Facebook

Realmente, quanto maior o tamanho do grupo, maior o tamanho do cérebro dos que convivem. Chimpanzés e babuínos, por exemplo, possuem grupos de até 60 animais, o maior entre primatas não-humanos, e também têm os maiores cérebros. Projetando o tamanho de grupo deles para o nosso volume de cérebro, chegamos ao número de Dunbar, algo entre 100 e 230 indivíduos, mais provavelmente 150.

O número de Dunbar significa dizer que nós interagimos mais intimamente com cerca de 150 pessoas ao longo de nossa vida. Isso não quer dizer que você não possa conhecer mais gente, mas sim que você não vai ser tão próximo de todos eles. Mesmo que seu MSN tenha uma lista de 2 mil contatos, dificilmente você vai conversar com mais de 50 regularmente.
E este número de 150 pessoas é bastante frequente em agrupamentos. O número de pessoas em grupos de caçadores da Nova Guiné costuma ser esse, bem como o de soldados na maioria das companhias militares. Muitas empresas pautam o tamanho de divisões nesta medida. E tão ou mais importante do que o número em si é uma consequência que nos acompanha até hoje. A fala.

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