Walt Disney, Motörhead e Fungos – interCiência
Este post participa da blogagem coletiva “interCiência“, uma farofa um Amigo Oculto dos Blogs de Ciência Brasileiros. Algum blogueiro muito paciente topou mandar um texto de microbiologia (este post) para o Rainha Vermelha, e agora temos que adivinhar (deduzir pelo estilo) quem ele foi dentre os participantes que serão divulgados no Raio-X. Ainda dá tempo de participar e inscrever o seu texto, basta dar uma olhada em como fazer aqui. Vamos ao texto:
Como é possível notar, há uma relação pouco trivial entre os termos que sustentam este post. Me foi dada a tarefa de escrever sobre um tema que gosto, a microbiologia, para um blog de divulgação científica que também gosto bastante, o Rainha Vermelha. Tentei apresentar algumas informações interessantes sobre um microorganismo não tão conhecido, mas que é de interesse clínico. Talvez este texto pudesse ser resumido na forma “Walt Disney+Motörhead=Paracoccidioides“. Trata-se de um fungo, eis que surge um dos termos (Ok, isso não ajuda muito!). O sujeito é o Paracoccidioides brasiliensis (Pb), um fungo com algumas caraterísticas curiosas e outras de interesse clínico. Bem, vamos às características clínicas primeiro. O Pb é o que se pode chamar de um fungo termo-dimórfico, o que quer dizer que assume uma morfologia ou outra dependendo da temperatura a que está submetido.
Quando em temperatura ambiente o Pb assume a forma de micélio, um agrupamento de hifas. Nesta morfologia o fungo consegue sobreviver no ambiente, livre de um hospedeiro e fazer um metabolismo aeróbico (i.e., dependente de oxigênio). Mas como já mencionei, trata-se de um fungo de interesse clínico, o que significa que é um microorganismo patogênico. De fato, o Pb pode causar infecção sistêmica, mas é mais comun a infecção do trato respiratório. O Pb produz conídeos, que alguns dizem serem produzidos com a finalidade de infectar o hospedeiro e, por isso, na clínica damos o nome de propágulos infectantes, quando na verdade trata-se de um esporo com fins reprodutivos.
Se os conídios têm como destino final o meio ambiente, eles se desenvolvem na forma de novas hifas e formam micélios. Contudo, se acidentalmente os conídios são inalados por um hospedeiro mamífero, eles viajam pelo trato respiratório até os pulmões, onde encontram um ambiente com características que o forçam a mudar a morfologia. Frente à mudança térmica de ~25°C para ~37°C o Pb assume a morfologia de levedura e passa a fazer um metabolismo mais anaeróbico (i.e., independente de oxigênio). Estas características morfológicas tem interesses diversos, como identificar o perfil de expressão gênica de uma forma ou outra a fim de estabelecer fatores de virulência, o que se aplica também às fases de transição de micélio para levedura, por exemplo.
Mas até aqui você deve estar se perguntando: onde entram o Walt Disney e o Motörhead nessa história toda? Para responder isso, nos voltaremos para a divisão celular do Pb. Quando o Pb causa a paracoccidioidomicose (eita palavrão!) ou infecção, para ser mais sucinto, ele está na forma de levedura. Você pode então pensar, “bem, leveduras são leveduras! elas se dividem todas da mesma forma!”. Contudo, o Pb tem um modo bem interessante de dizer “estou aqui, não sou qualquer levedura!” ele começa a formar brotos a partir de uma célula mãe e esses brotos, por vezes, parecem homenagear o “mofado” Walt Disney desenhando o Mickey na sua lâmina histológica (figura abaixo).

Quanto ao Motörhead! Bem, é impossível falar de Motörhead sem lembrar do poeta (Ok, isso pode ter sido exagerado!) Lemmy Kilmister (figura ao lado). E, não! você não vai encontrar a cara do Lemmy numa lâmina histológica. Na verdade, esta é parte mais constrangedora da minha fórmula. Além da forma de Mickey Mouse, as leveduras de Pb quando estão gerando os brotos também podem assumir a forma de rodas de leme (figura abaixo), aquelas que servem para controlar a orientação das embarcações utilizando o leme. Ok, a piada com o Lemmy pode ter sido horrível, mas veja o lado positivo disso. Você jamais esquecerá a morfologia típica de um Pb numa lâmina! Em minha defesa tenho a declarar apenas que, sendo um cientista, minhas piadas devem ser ruins por natureza.

Referências sugeridas:
Tereza C.V. Rezende, Clayton L. Borges, Adriana D. Magalhães, Marcelo Valle de Sousa, Carlos A.O. Ricart,Alexandre M. Bailão, Célia M.A. Soares. A quantitative view of the morphological phases of Paracoccidioides brasiliensis using proteomics. J Proteomics. 2011 Dec 21;75(2):572-87. doi: 10.1016/j.jprot.2011.08.020. Epub 2011 Sep 3.
Taborda CP, da Silva MB, Nosanchuk JD, Travassos LR. Melanin as a virulence factor of Paracoccidioides brasiliensis and other dimorphic pathogenic fungi: a minireview. Mycopathologia. 2008 Apr-May;165(4-5):331-9.
Paracoccidioides brasiliensis Sequencing Project, Broad Institute of Harvard and MIT (http://www.broadinstitute.org/).
Não compre o produto mais caro
Qual a relação entre um copo de refrigerante de mais de um litro e a TV mais cara da loja? Acompanhe neste post meu que saiu no Papo de Homem:
Por que não comprar o mais caro
[...]
Quando oferecidas para cobrar ou pagar um valor por um produto ou serviço, o primeiro impulso de quase todas as pessoas é tentar saber quanto outros cobram ou pagam por aquilo, e usar esta comparação como âncora para seu valor. Nós somos animais comparadores por natureza.Vivemos há milhões de anos em sociedades com vários indivíduos, onde estamos sempre comparando e olhando ao nosso redor para saber nossa posição em relação ao grupo. Um aumento de R$ 2000 para um funcionário seria uma ótima notícia, mas se tornaria um ultraje se ele descobrisse que todos outros receberam R$ 10000 de aumento.
[...]
David Wallerstein foi contratado por uma cadeia de cinemas americana da década de 1950 para aumentar a renda deste comércio. Renda essa que vinha principalmente da venda de bebidas e pipocas. Wallerstein percebeu que, por mais que se esforçasse, não conseguiria fazer cada espectador comprar mais de um refrigerante e uma pipoca. As pessoas não saem no meio do filme para comprar outra pipoca, não só pelo filme, mas por se sentirem gulosas ao comprar mais uma porção. Daí surgiu a ideia de oferecer uma porção com o dobro do tamanho.
Com o tamanho grande e o extra-grande, as pessoas comem o mesmo que comeriam comprando duas unidades, mas não se dão conta disso. Este é outro instinto nosso, tendemos a comer tudo o que pegamos, sem repararmos no tamanho da porção. Um experimento de 2005 mostrou isso ao oferecer para as pessoas sopa em um recipiente que se enchia automaticamente por baixo sem que elas percebessem. O autor acabou ganhando um IgNobel por isso. Como resultado, quem tomou a sopa da tigela sem fundo consumiu em média 60% mais do que quem tinha uma tigela normal. Pelo mesmo motivo, restaurantes de comida por quilo usam pratos enormes: tendemos a enchê-los com mais comida do que pratos normais.
Leia o texto completo aqui.
Algo que não está no texto, recomendo muito o Dilema do Onívoro por uma série de outros motivos. Nunca tinha pensado como o fato de sermos onívoros está diretamente relacionado à condição humana. Também não fazia idéia do que a indústria alimentícia americana tem feito com a montoeira de milho subsidiado que produzem anualmente. Pela discussão sobre a agricultura, os hábitos alimentares, alimentos orgânicos (e outros não tão orgânicos) e tudo o mais, foi sem dúvida um dos melhores livros que já li.
Esferas Magnéticas Zen Magnets
Enquanto a pós não me deixa fôlego para escrever algo mais completo por aqui, aproveito para dar uma dica da minha terapia pelos últimos meses. As esferas magnéticas, garantia de entreter qualquer cientista – sério, o primeiro kit que comprei sumiu da minha mesa do laboratório há tempos, e volta só de vez em quando.
Comecei como quem não queria nada, e comprei um kit bem baratinho da China, com 100 bolinhas. Óbvio que depois de dois dias brincando com as bolinhas, eu queria bem mais. Depois de alguma pesquisa, descobri a Zen Magnets, que além de provar por a+b que é melhor do que as outras marcas (e são várias, de várias cores), ainda tinha o melhor preço. Acabei pagando $30 com o envio para cá em um pacote de 216 bolinhas. O preço de um kit genérico que vi em uma loja no shopping foi R$300.
Um dos melhores brinquedos que já tive. Sem prestar atenção, dá para passar horas mexendo com eles, fazendo todo tipo de formato. Enrolar a fileira completa no dedo é ter a melhor descrição de como um vírus helicoidal se forma, monômero por monômero, espontaneamente. Infelizmente, ainda me falta outro kit (a desculpa ideal) para poder formar o capsídeo clássico dos bacteriófagos, a cauda fica incompleta com 216. Perfeitos para uma aula de virologia.
Desnecessário dizer que deve ser mantido longe de crianças, basta imaginar o que acontece quando se engole duas bolinhas em tempos diferentes, e elas se encontram em partes diferentes do intestino (bom passeio pelas imagens).
Agora só me falta arrumar um kit de massinha magnética para ver o ataque do macrófago.
Update: Aqui no Brasil eles foram lançados pela Nanodots, que vende inclusive outras cores como preto e dourado, a partir de R$79.
Formiga planadora
Cephalotes atratus ©Alex Wild
Para uma formiga arborícola no alto, cair de mais de 20 metros de altura significa uma boa escalada tronco acima, sem contar a chance de não achar de novo a árvore de onde partiu. Qual a melhor solução para evitar isso? Planar de volta para o tronco antes de chegar ao chão. Pelo menos é o que a Cephalotes atratus consegue.
Cephalotes atratus caindo ©Alex Wild
Segundo o Cais de Gaia, o entomólogo Stephen Yanoviak descobriu isso (e publicou aqui) quando estava coletando insetos no alto de uma árvore e jogou algumas formigas para baixo para se distrair, e viu que elas planavam de volta para o tronco – passa tempo predileto de qualquer um em um lugar alto que vê uma formiga inocente passando. Veja no vídeo abaixo a comparação entre uma formiga comum e a formiga planadora, como ela localiza o tronco e plana de volta.
Essa capacidade de planar virou tema de estudo, já colocaram inclusive a C. atratus em um tunel de vento para ver como ela usa as patas de trás para controlar o vôo – que nas palavras de Woody, não é vôo, é cair com estilo. Aqui algumas tomadas da queda assistida.
Para mais formigas e curiosidades sobre elas, recomendo este post.
Cheiro de terra, cheiro de chuva, cheiro de guerra: geosmina
Que cheiro uma imagem desta evoca? ©Dr. RawheaD
Uma das coisas que mais gostava ao visitar minha avó no interior de São Paulo nas férias de janeiro era o cheiro da chuva no fim da tarde. Parecia mais intenso lá. E uma coisa que sempre me intrigou era como eu sentia o cheiro antes mesmo de começar a chover. Se o cheiro era de chuva, por que aparecia antes? Apenas na graduação fui entender que era o cheiro de uma guerra microbiana.
Assim como o DMSP dá o cheiro de mar, existe um composto químico que dá o cheiro característico de terra úmida que reconhecemos facilmente. Seu nome é geosmina, literalmente cheiro de terra. Uma série de bactérias, algas e fungos a produzem, e um dos propósitos que se imagina que ela tenha é o de controle de inimigos, matando concorrentes que atrasam o crescimento destes microrganismos. Por isso mesmo seria liberada pouco antes de chover, de maneira que a água a espalhe junto de outras substâncias com a mesma finalidade.
Esta mesma geosmina produzida por algas marinhas pode se acumular nos tecidos de vários peixes, dando aquele gosto de terra na carne. Como ela não é levada facilmente pela água, não adianta lavar a carne que não sai. Produzida por bactérias de solo, pode se acumular em beterrabas e no vinho, onde também dá o mesmo gosto. Uma das maneiras de eliminar o sabor de terra de vegetais e carnes é usar vinagre, já que o pH ácido degrada rapidamente a geosmina.
Curiosamente, por mais que o cheiro de chuva seja atraente para nós, pode ser muito mais essencial para os camelos. Como Keith Charter especulou (já que não achei publicação que sustentasse sua idéia), camelos devem saber localizar água a quilômetros de distância pela geosmina liberada por bactérias que crescem no solo úmido de oásis, e ao beberem a água ajudam a dispersar seus esporos para outros locais, perpetuando uma simbiose.
Mais certa do que a atração dos camelos pelo cheiro da geosmina é o apelo que ela tem para insetos. Se nós já associamos umidade e chuva a esse cheiro, imagine o efeito que ele tem em regiões desérticas. Tão grande que alguns cactos que têm flores diurnas – as noturnas geralmente são polinizadas por morcegos – produzem geosmina para atrair insetos polinizadores, usando o cheiro de umidade para enganá-los.
Se, como disse Dawkins, entender fenômenos naturais através da ciência só os torna mais belos e complexos, da próxima vez em que alguém mencionar que gosta do cheiro de chuva ou terra molhada, você já sabe muito mais sobre o que está envolvido em uma situação tão comum. De camelos a besouros, todo mundo gosta do cheiro de chuva. Menos na comida.
Obrigado ao pessoal do This Week in Microbiology por mandar o nome do composto. Para mais, recomendo o texto do Swissprot, o perfume da terra.
Já tomou sua neurotoxina hoje? Café como inseticida.
Repetindo idéias
Cala boca Galvão, o Boeing e o RNA

Insetos assassinos
Os insetos assassinos (assassin bugs) são membros da ordem dos percevejos (Hemiptera) com uma habilidade muito interessante. São predadores pacientes, que esperam as presas e sugam os fluídos delas através do canudão (nome científico do rostro), o aparelho bucal elongado que pode injetar uma saliva venenosa que paralisa e dissolve os tecidos de sua presa.
Fontes:
Weirauch, C., & Cassis, G. (2006). ATTRACTING ANTS: THE TRICHOME AND NOVEL GLANDULAR AREAS ON THE STERNUM OF PTILOCNEMUS LEMUR (HETEROPTERA: REDUVIIDAE: HOLOPTILINAE) Journal of the New York Entomological Society, 114 (1 & 2), 28-37 DOI: 10.1664/0028-7199(2006)114[28:AATTAN]2.0.CO;2
Muito cuidado ao mergulhar
Atenção, este e post é sério! Repasse e não duvide!
Muito cuidado ao mergulhar com sua câmera! Um peixe-palhaço vai lhe destrair com malabarismos enquanto um polvo treinado da Mongólia ataca sorrateiramente e foge nadando com ela.
Fui informado por um mergulhador que sofreu este ataque e descobriu na Marinha que muitas outras pessoas já passaram pelo mesmo. Não seja a próxima vítima!
Dizem que eles estão finalmente se organizando para 2012.
Desculpem o tamanho da fonte e o negrito, mas não resisti à homenagem ao e-mail que recebi hoje falando que estão jogando ácido nas pessoas no semáforo…
Via OMEDI.


















