Quem está escondendo a vacina contra a AIDS?

No terceiro e último texto da série sobre os mitos do HIV publicado no Papo de Homem, falo sobre a dificuldade em se desenvolver e manter uma terapia contra o HIV, uma vez que ele quase só usa fatores celulares para se replicar, e ainda é capaz de mutar e escapar dos antivirais.

Estamos muito mal acostumados com a medicina moderna. Até poucas décadas atrás, antes do desenvolvimento de antibióticos, garganta inflamada era causa de morte comum. Hoje, para muitas infecções, até mesmo para o HIV, existem medicamentos que se não resolvem, ajudam. Mas não foi o que aconteceu nos primeiros anos da AIDS.

Não perca a cabeça por causa de uma foda. Use camisinha.

Para os primeiros pacientes, e entenda-se aqui milhares de pessoas, o diagnóstico de AIDS era sentença certa de morte. Médicos, parentes e amigos eram obrigados a ver de mãos atadas pacientes com menos de 30 anos morrendo de infecções banais, como uma forma de pneumonia que até então matava apenas crianças e idosos. E, quando se descobriu que a doença era causada por um vírus, a perspectiva não melhorou muito.

O remédio ideal para combater uma bactéria, um fungo, um vírus, um câncer ou qualquer outro organismo indesejável que possa estar crescendo em nosso corpo, é aquele que ataca apenas o outro. Antibióticos costumam ser medicamentos sem grandes efeitos colaterais justamente por que atacam estruturas que apenas as bactérias têm. Fungos são um pouco mais complicados, pois são organismos mais parecidos conosco, ao ponto de muitos antifúngicos serem de aplicação local, como pomadas, pois são tóxicos se ingeridos.

A AIDS pode atingir qualquer um. Mesmo. Campanha da organização francesa AIDES.

Os vírus e o câncer são o auge deste problema. Tumores são células do corpo crescendo descontroladamente, e vírus são parasitas que usam quase exclusivamente apenas estruturas de nossas células para se reproduzir. Isso deixa pouquíssimas alternativas para serem atacadas.

Acompanhe o texto todo por lá.

AIDS, arma biológica contra negros?

Saiu no Papo de Homem o segundo texto da série desconstruindo mitos do HIV. Desta vez, explico como sabemos que se trata de um vírus que ocorre naturalmente, e por que ele começou a se espalhar entre africanos e afro-descendentes. Confira na íntegra por lá.

 

Semana passada, falei do mito de que a AIDS seria doença de gay. Infelizmente, existe também outro mito: de que seria doença geneticamente desenvolvida para matar afrodescendentes.

No começo da década de oitenta, apesar de ainda atingir desproporcionalmente os homossexuais, fora de grandes centros como São Francisco e Paris já era possível encontrar heterossexuais com recém-descoberto HIV. Especialmente imigrantes africanos recém-chegados.

Arma racista de extermínio em massa que saiu de controle? Humm… não. O entendimento da origem do vírus estava contido neles, e quem revelou esta informação foi o DNA. O mesmo DNA que nos mostra que o HIV não é um organismo artificial.

A princípio, observando seres tão distintos quanto plantas, lagartas e bactérias, pode até parecer que são muito diferentes. Mas a vida tem muito em comum, em especial o material genético. Todos os seres vivos são compostos do mesmo tipo de moléculas orgânicas, como lipídios (gorduras), aminoácidos (proteínas) e carboidratos (açúcares), e a receita de como eles serão produzidos e organizados está toda contida no ácido nucléico, o DNA. Alguns vírus, que não são seres vivos nem possuem células, tem a liberdade de usar como material genético outro ácido nucléico, o RNA.

Campanha da organização francesa AIDES, de 2004. Legenda: "Sem preservativo, é como se você estivesse fazendo amor com a própria AIDS. Proteja-se."

Campanha da organização francesa AIDES, de 2004. Legenda: "Sem preservativo, é como se você estivesse fazendo amor com a própria AIDS. Proteja-se."

Assim como o material genético (DNA ou RNA) está contido em todos organismos, ele também compartilha informações. Nós e os chimpanzés, nossos primos peludos, compartilhamos entre 90% e 98% de material genético idêntico (dependendo da porção dele que comparamos). E, mesmo a parte que não é idêntica, pode ser reconhecida como compartilhada, embora um pouco diferente.

Pouco depois que o HIV foi isolado de pacientes com AIDS, seu DNA começou a ser sequenciado. O vírus do HIV possui um genoma de RNA, e é um dos poucos que o traduz em DNA, caminho contrário do que normalmente fazemos. Daí seu nome, retrovírus. Este DNA que ele produz se integra no nosso genoma, de onde produz novas partículas que vão invadir outras células. Este DNA do HIV, que foi sequenciado e pode ser comparado, é o que nos permite saber quem ele é e de onde veio.

 

Continua aqui.

Mitos do HIV

Recentemente, li algo que me deixou bastante decepcionado. Ainda circulam textos dizendo que o HIV não existe, ou não causa a AIDS, ou que foi criado para exterminar os [insira aqui um grupo socialmente discriminado]. Como resposta, este é o primeiro de três textos que sairão no Papo de Homem explicando como e por que a epidemia do HIV se deu como se deu, e por que as malditas teorias conspiracionistas estão erradas.

Antes de mais nada, não se esqueça: a evolução é muito mais competente e tem bilhões de anos de experiência em criar doenças do que nós.

Uma das maiores falácias sobre o HIV é a idéia de que ele foi criado como uma forma de matar/exterminar algum grupo, principalmente devido ao fato de que os primeiros casos de HIV foram reconhecidos em gays – tanto que por algum tempo a AIDS era chamada de doença gay (ou GRID, Gay Related Disease) – e em seguida em usuários de drogas injetáveis, na Europa e nos EUA.

"A AIDS ainda está circulando", campanha do Quebec, 2003-2004.“A AIDS ainda está circulando”, campanha do Quebec, 2003-2004.

Para completar, os primeiros casos em heterossexuais foram encontrados em imigrantes africanos e haitianos nos mesmos países, outro grupo que não costuma ser bem recebido.

São justamente esses grupos de risco que ajudaram a entender de onde veio o HIV. E são eles que vão mostrar por que o HIV não foi criado artificialmente. Antes de tudo, vamos ver por que os gays criaram as condições ideais para o começo da epidemia. E isso tem tudo a ver com o Twitter e o Facebook.

Dois físicos espanhóis estavam investigando, em 2000, um comportamento intrigante de vírus de computador. Mesmo depois da criação de um antivírus que pode ser baixado e utilizado imediatamente, eles – os mesmos vírus – podiam continuar circulando por meses, até anos. Sem querer, Romualdo Pastor-Satorras e Alessandro Vespigniani criaram um modelo de espalhamento de doenças em redes que acabou explicando como o HIV pode ser transmitido em uma comunidade. Resumindo, eles repararam que uma doença nunca vai morrer, não importa quais sejam as medidas tomadas para reduzir a probabilidade de a sua transmissão entre os indivíduos.

Continue lendo o texto completo lá no Papo de Homem.

Por que sabonete bactericida é inútil

[inútil como bactericida, não como sabonete]

sabonetes

©AdamKR

Se fala sobre a onda do politicamente correto, e uma série de outras mudanças da sociedade. Uma das mudanças mais óbvias é nossa necesssidade crescente de limpeza e distância da natureza. É legal visitar a natureza nas férias, mas no dia-a-dia todo preferem o bife embalado em uma bandeija de plástico que não lembra de longe a vaca.

ResearchBlogging.orgE algo cada vez mais comum em prateleiras de supermercado e propagandas são os sabonetes e produtos afins com bactericida. Algumas propaganda inclusive fazem alusão direta à proteção que o sabonete traz ao eliminar bactérias. Agora, qual o embasamento real que eles têm para afirmar isso? Nenhum.

Lavar as mãos é um hábito de higiene essencial, claro. E realmente protege o corpo de uma série de doenças, como diarréia e gripe. De fato, um dos procedimentos médicos que mais salva vidas, principalmente de grávidas no pós-parto, é a lavagem de mãos do cirurgião. A questão é se lavar a mão usando um sabonete com bactericida é melhor do que com um sabonete regular em casa.

Os resultados que vou listar são todos derivados de uma revisão de diversos artigos tratando do uso de sabonetes antibacterianos publicado em 2007 (citado ao final).

Em primeiro lugar, foi levantada a eficácia do triclosano, bactericida mais comum em sabonetes. Encontraram 4 estudos onde se avaliou o risco de doenças como tosse, febre, diarréia e infecções de pele em casas que usavam sabonete comum em comparação com aquelas que usavam bactericidas, durante o período de um ano. Todos mostraram que não havia diferença nestas doenças, independente do tipo de sabonete usado. – Algo que provavelmente contribui para isso é o fato de que muitas destas doenças podem ser causada por vírus, que não são afetados pelo triclosano.

Dos trabalhos que mediram a quantidade de bactérias nas mãos das pessoas após a lavagem com produtos com triclosano, quase que apenas os que utilizaram uma concentração maior do composto (mais de 1%) do que a de produtos domésticos (entre 0,1 e 0,45%) viram uma diminuição. O único trabalho que observou uma diminuição usando um sabonete com uma concentração dentro da comum (0,3%) viu essa redução após cinco dias consecutivos de uso, com 18 lavagens de 30 segundos por dia. Ou seja, para a concentração doméstica de triclosano, é preciso lavar muito a mão para se ver alguma diferença.

Quanto à resistência ao triclosano, encontraram alguns estudos demonstrando que bactérias podem ser tornar resistentes ao composto. Mas a associação com resistência para por aí, não observaram evidências suficientes de que o uso de triclosano facilita a resistência a antibióticos, por exemplo – o baixo número de estudos que demonstraram esta associação, e a grande variedade de antibióticos testados não permitiram nenhuma conclusão direta.

O que me deixa com algumas perguntas sobre sabonetes antibacterianos:

Qual a necessidade de produtos que não possuem evidência nenhuma de benefício com a concentração de triclosano que incluem? Ou melhor, qual a legitimidade de anunciar que o sabonete protege contra bactérias? Pior ainda, qual a legitimidade de dizer que isso protege de doenças?

Por fim, não sei qual a vantagem de expor as bactérias da minha pele à uma concentração sub-ótima do mesmo microbicida que o cirurgião que pode me operar usa.

Para mais em sabonetes e bactérias, recomendo o excelente post do Karl, e a réplica do Takata.

 

[update] Realmente, o que o Takata fala no NAQ é bem sério, propaganda enganosa do pior tipo:

http://neveraskedquestions.blogspot.com/2011/07/lifebuoy-pra-prevenir-resfriados.html

http://neveraskedquestions.blogspot.com/2010/12/lifebuoy-na-linha-charlatanismo.html

 

Fonte:

Aiello, A., Larson, E., & Levy, S. (2007). Consumer Antibacterial Soaps: Effective or Just Risky? Clinical Infectious Diseases, 45 (Supplement 2) DOI: 10.1086/519255 [pdf]

Nerdcast 283: epidemias

Esta semana tive o prazer de participar em mais um Nerdcast, junto de Alottoni, Bluehand, Jonny Ken, Tucano e Azaghal. Conversamos por quase duas horas sobre Febre Amarela, Cólera, Varíola, Gripe Espanhola, Peste Negra, Tuberculose, HIV, Baculovíruse o vírus Sabiá. Basta baixar ou ouvir na página do podcast aqui, diversão certa.

Para quem se interessou sobre o tema e quer saber mais, aqui vão alguns posts do blog:

Infecções em geral

A varíola e a vaccinia que circula em primatas no Brasil

O influenza e a(s) gripe(s)

Ebola

HIV

 

Qual o problema de se tomar um antiretroviral como preventivo?

 

Japão depois do terremoto, Haiti antes do terremoto

 

Este post é uma resposta à pergunta da Lucia Malla. Em um post onde descreve que o tratamento anti-HIV pode causar envelhecimento precoce, ela perguntou se mesmo assim não deveria ser usado como preventivo, uma vez que os antivirais podem impedir a infecção pelo HIV se ingeridos antes do contato sexual. Aqui vai minha resposta atrasada:

Os antivirais
O uso de antivirais contra HIV é um processo cheio de detalhes, com consequências enormes se ignorados. A idéia de distribuir remédios como preventivos aumenta ainda mais o problema, pois estamos lidando com a chance de contrair a doença, e não com a certeza de tratar alguém já infectado, daí as várias considerações que vou fazer. E que, obviamente, refletem a opinião de um biólogo preocupado com evolução viral, que nunca foi a campo muito menos tratou doentes, e pode deixar muita coisa importante de lado.
Antivirais costumam ter um alvo muito específico, devido à maneira como são desenvolvidos. Bactérias são o exemplo clássico de microorganismos tratados com sucesso, pois possuem alvos como enzimas e estruturas celulares que nós humanos não temos, de maneira que os antibióticos em geral podem atacá-las sem grandes efeitos colaterais. Já os vírus não são organismos celulares, e utilizam praticamente só componentes da célula hospedeira para se reproduzir, o que deixa poucos alvos específicos a serem atacados. As poucas enzimas que só eles possuem são o alvo da maioria das terapias, como os inibidores de transcriptase reversa e de protease usados contra o HIV. Existem efeitos colaterais, sempre, mas eles são bem pequenos se comparados com o efeito destas drogas no vírus.
Por outro lado, esta especificidade que possibilita os antivirais também permite a falha deles. Vírus como o HIV e o Influenza são capazes de mutar muito, o que somado à população enorme que podem atingir – o HIV faz mais de 10 bilhões de partículas por dia em uma pessoa não tratada – permitem que eles evoluam muito rápido. Assim, em pouco tempo, se forem expostos a uma mesma droga, estes vírus sofrem mutações nos alvos específicos que impedem o antiviral de agir, e se tornam resistentes. As mutações tendem a prejudicar a replicação viral, mas sob a pressão do tratamento são melhores do que nada. Por isso não se usa apenas uma droga contra o HIV, tomando apenas AZT um paciente sofrerá com o surgimento de resistência em menos de 1 mês, e em menos de 6 meses a droga não terá mais efeito.
A resistência
Assim, combinamos várias drogas como forma de conter o vírus. Com mais de um alvo sendo atacado, fica difícil para o vírus mutar todos ao mesmo tempo, e ele não consegue se replicar. Mas é uma questão de tempo até que isso aconteça, e o paciente precisa ser acompanhado e ter seu vírus amostrado e estudado periodicamente para o sucesso do tratamento. *
Este combate à resistência também tem um aspecto populacional. Quando surgem variantes resistentes em um paciente, a quantidade de partículas virais em seu organismo pode aumentar a níveis que permitem novamente a transmissão do HIV, sendo que desta vez ele será de uma linhagem resistente. Se este vírus resistente for transmitido para uma pessoa que nunca tomou antivirais, a tendência é o vírus perder as mutações que o tornaram resistente, quando são prejudiciais, e esta pessoa recém infectada terá apenas vírus suscetíveis. Em poucos casos um vírus resistente pode manter as mutações mesmo sem antivirais, o que complica bastante o tratamento.
Agora, o que acontece se as pessoas que serão expostas ao novo vírus já estiverem em tratamento? Será que isso não aumenta as chances de que um vírus resistente seja transmitido e persista? A grande maioria das transmissões não acontece neste contexto, o vírus que se espalha mais é o mais eficiente, que normalmente não tem mutações de resistência. Porém, vírus são bem conhecidos por contornarem barreiras evolutivas, como o influenza mostra. O influenza H1N1 de 2009, que causou a gripe suína, era perfeitamente resistente à amandatina, um antiviral muito usado contra gripe. E várias outras linhagens de influenza resistentes já se propagaram, graças à popularidade destes remédios em países de primeiro mundo. Não vejo por que o HIV não poderia fazer o mesmo.
Quando usar os antivirais então?
Para evitar o aspecto da resistência, o ideal seria focar este tipo de tratamento em grupos que realmente estivessem sob maior risco de contágio, evitando a população como um todo. Dar este tratamento para quem está em risco também seria uma forma de manter os efeitos colaterais do estresse causado pelo medicamento (aceleração do envelhecimento celular) em quem seria beneficiado mesmo assim.
Em regiões africanas onde o HIV ataca até 20% da população, a expectativa de vida caiu para menos de 50 anos. Neste tipo de situação, tomar um medicamento profilático que reduz a expectativa de vida de 70 para 60 anos ainda vale mais do que viver menos de 40 com o vírus. Mas, nestes locais, talvez o dinheiro de antivirais fosse mais bem gasto de outras formas. O tratamento de outras infecções que podem aumentar as chances de contágio por HIV, como sífilis, pode ser feito com antibióticos baratos que têm como efeito colateral uma qualidade de vida melhor, e não pior.
Já em locais mais desenvolvidos, com um bom saneamento básico, talvez o tratamento profilático beneficiasse grupos específicos, como usuários de drogas injetáveis. Por mais que não exista mais grupo de risco atualmente – o HIV não pergunta a opção sexual de quem infecta – as chances de cada grupo social se expor ao HIV ainda são bastante diferentes. Usuários de drogas injetáveis estão muito mais propensos ao contrair HIV do que não usuários, imagino que centenas de milhares de vezes (não tenho os números aqui, mas tenho um link [pdf]sugerindo um risco maior de contrair o vírus se o parceiro for IDU), de maneira que o benefício do tratamento para eles seria milhares de vezes maior, e poderia compensar.
Outro ponto é o de atingir inidvíduos mais importantes na epidemia. Pessoas que têm mais parceiros sexuais estão sob muito mais chance de contrair HIV, e podem transmitir para muitos outros. A influência de tratar um indivíduo com mais de 500 parceiros sexuais em um ano (acreditem, existem pessoas com mais do que isso) é muito maior do que tratar alguém que teve 3 parceiros ao longo dos últimos anos.
Concluindo, não acho que o tratamento de todo mundo com antivirais seja interessante, mesmo sem os efeitos colaterais, dada a chance do surgimento de resistência. Algo que já vemos com o uso indiscriminado de antibióticos, em casa e na agricultura. Dados os efeitos colaterais, acho ainda mais complicado. Mas, dada a chance diferente em cada grupo de risco, ou mesmo em cada país, de se contrair HIV, acredito que existem situações onde pode ser uma boa abordagem. Não esquecendo que, seja no caso da AIDS, de outras doenças, ou mesmo em casos de desastres naturais, o que mata mesmo é ser pobre. O desenvolvimento de regiões mais pobres traria muito mais benefícios que qualquer tratamento milagroso.
* Para se ter uma noção do que envolve a terapia anti-HIV, recomendo muito este post do Efeito Adverso

A atuação da OMS durante a gripe suína de 2009

Em março de 2011, como parte de seu sistema de avaliação, a OMS divulgou o rascunho dos comentários de um comitê de avaliadores externos [pdf] sobre a maneira com que a pandemia de Influenza A (H1N1) 2009 foi conduzida. O rascunho foi apresentado e comentado em um congresso em maio de 2011. Ele contém críticas, elogios e sugestões sobre a atuação da OMS, e também sobre o mundo como um todo, com uma conclusão bastante cruel (tradução livre): 
“O mundo está mal preparado para responder a uma pandemia de influenza severa, ou qualquer emergência de saúde pública global similar, ameaçadora. [...] a realidade inevitável é que dezenas de milhões de pessoas estariam sob risco de morte em uma pandemia global severa.”
As críticas mais duras foram em relação à maneira como a OMS tratou a comunicação e a divulgação em torno da pandemia de 2009. Mais duras não só pelo que ocorreu, mas pelo fato de que muito do que não foi feito era possível. A OMS não tem poder de alterar a maneira com que os países tratam a legislação em torno das vacinas, nem de criar um novo antiviral que resolva a ameaça da gripe, mas pode mudar sua definição e política de pandemias.
Segundo o comitê externo, a definição de pandemia baseada na abrangência geográfica do patógeno, e não na severidade como se dava a entender, assustou o público quando o nível de alerta foi elevado ao máximo. Muitos vincularam a mudança do nível de alerta a sintomas que o vírus causaria, e na falta destes sintomas atribuíram à OMS o interesse em aumentar o nível de alerta para favorecer laboratórios produtores de vacina. E houve mais suspeitas sem fundamento em torno da produção de vacinas.
De acordo os avaliadores, o pano de fundo da tomada de decisões da OMS foi o pior dos cenários, a ameaça do H5N1, e não houve exagero no alerta levantado. Decisões precisavam ser tomadas rapidamente durante o começo da pandemia, e vacinas precisavam ser produzidas o mais cedo possível. Com base no tipo de prejuízo que um vírus como este poderia causar, a política adotada foi a de evitar qualquer morte desnecessária, de forma que em momentos de incerteza, optou-se pelas ações mais seguras. Em momentos de dúvida, foi preferível errar por excesso de precaução.
Tais medidas ativas associadas a problemas de comunicação que o comitê julgou que poderiam ser evitados deram margem a queixas. Como os nomes dos consultores que participaram do planejamento foram divulgados apenas ao fim da pandemia, após 10 de agosto de 2010, conflitos de interesse foram explicitados tarde demais. O fato de consultores terem trabalhado na produção de vacinas, embora essencial para trazer experiência e embasamento para o planejamento, tal vínculo não foi declarado adequadamente, o que levantou suspeitas evitáveis de favorecimento de fabricantes de vacinas. Desnecessárias pois segundo os avaliadores não foram encontradas evidências de influência comercial na tomada de decisões.
Ainda de acordo com a avaliação externa, burocracia, problemas de legislação e transporte fizeram com que milhões de doses de vacina sobrassem sem uso. Vacinas estas que por motivos fora do alcance da OMS demoraram muito para serem produzidas em ovos, e ficaram indisponíveis em muitos países pobres. Também alheio à OMS mas criticada foi a forma com que alguns países tentaram conter a pandemia, barrando a entrada de produtos derivados de porcos, quando se sabia que o Influenza é transmitido por via respiratória e não pela comida.
Por fim, foram feitos elogios e sugestões por parte do comitê. Entre os elogios estão a distribuição eficaz de mais de 3 milhões de doses de antivirais para mais de 72 países, a detecção precoce dos casos e a quantidade de testes realizados, embora estes números precisem ser ainda mais altos em caso de uma pandemia mais severa. A pronta produção e distribuição por parte da OMS de uma linhagem vacinal de Influenza, utilizada por diversos laboratórios para a produção dos milhões de doses também foi elogiada e mencionada como importantíssima em casos futuros. E para garantir a distribuição em tempo hábil, acordos prévios sobre a legislação de vacinas deveriam ser feitos entre países e fabricantes para garantir que este não será um limitador.
Para resolver o problema da burocracia, pois entenderam que a quantidade de documentos avulsos produzidos pela OMS e cobrados para a confirmação de casos em laboratório, os avaliadores sugerem a criação de padrões de envio e avaliação de documentos. Quanto ao nível de alerta que confundiu a população, sugerem que a pandemia seja quebrada em três etapas: normal, em alerta e pandemia estabelecida. Mesmo assim, a severidade de uma pandemia emergente deve ser monitorada e considerada em decisões, levando em conta fatores como o número de casos, número de mortes, internações em hospitais e outros.
O painel também sugere a criação de um fundo de $100 milhões para prevenção e montagem de um grupo de experts em emergências a postos. A reserva de 10% de doses de vacinas por parte dos produtores, para serem destinadas a países pobres e uma presença maior e mais clara da OMS para o público, através de seu site e de redes sociais, ajudando o esclarecimento do público onde ele busca mais informação também foi recomendada.

Dos pepinos espanhóis ao genoma nos blogs: E. coli patogênica na Alemanha

Como bactérias saltando entre intestinos e genes saltando entre bactérias vão para sua salada.

 

E_coli

Escherichia coli Fonte: Wiki

 

Desde a segunda metade de maio, a Alemanha vem sofrendo de casos de síndrome hemolítico-urêmica (HUS) infecciosa. Os sintomas são diarréia sanguinolenta, dores abdominais, vômitos e presença de sangue na urina, em mais de 600 casos envolvendo até dia 05 de maio (hoje) 15 mortes. O agente causador foi confirmado como a variante enterohemorrágica de Escherichia coli O104:H4 (EAggEC VTEC), que além da síndrome hemolítico-urêmica causou outros 1536 casos de infecção que incluem 6 mortes.

A princípio, a contaminação foi ligada a pepinos espanhóis, fonte que foi descartada posteriormente em um embaraço internacional que gerou a foto da ministra espanhola abaixo. A fonte mais provável até o momento parece ser brotos de feijão produzidos na própria Alemanha, mas de qualquer forma não é recomendado o consumo de vegetais produzidos no país como um todo.

Mas, para entender melhor o que está se passando, quem é esta E. coli e como ela (não) foi parar no pepino, precisamos ir um pouco mais a fundo…

pepino

(Foto: Francisco Bonilla / Reuters)

Da fralda de bebês ao O104:H4

Isolada em 1885 pelo pediatra alemão-austríaco Theodor Escherich das fezes de crianças alimentadas apenas com leite materno, a Escherichia coli foi nomeada por seu descobridor Bacterium coli-communis, ou bactéria comum do intestino. Ela só recebeu seu nome moderno como homenagem a Theodor em 1918, e desde então é o ser vivo mais estudado e conhecido pela ciência [1].

Sua classificação e nomenclatura foi baseada no reconhecimento de suas moléculas por anticorpos, técnica bastante comum em microrganismos antes das tecnologias mais recentes de sequenciamento de DNA, mesmo princípio que serve para nomear variantes do influenza. As variantes de seu flagelo, proteína que a bactéria usa para se locomover no meio líquido, são chamadas de H, do alemão Hauch, no sentido de nuvem, por causa do movimento das bactérias. Quando tratadas com álcool, elas perdiam os flagelos, ficando sem movimento, Ohne Hauch, expondo seus antígenos O. Hoje sabemos que os antígenos O são lipídios da membrana externa desta bactéria. Atualmente, são conhecidos mais de 170 antígenos O e 56 antígenos H [2]. Assim, esta linhagem recebe seu nome por conter a variante 104 de O e 4 de H.

Conforme o sequenciamento relâmpago feito pelo BGI (Beijing Genomics Institute), um centro de pesquisa chinês, trata-se de uma variante inédita de O104 – que segundo o Mike, the Mad Biologist não é tão nova assim, e talvez circule desde 2001. Esta linhagem compartilha mais de 90% de seu genoma com a linhagem EHEC 55989 conhecida por causar diarréia grave isolada da República Centro-Africana.

De inofensiva ao EAggEC VTEC

Quando falamos E. coli, nos referimos a uma espécie de bactéria que possui muito mais faces do que o nome revela. Se organismos complexos como animais possuem linhagens distintas por genes compartilhados e com algumas diferenças entre si, uma mesma espécie bacteriana pode apresentar uma variedade de genes únicos de algumas linhagens. Bactérias trocam genes em uma quantidade absurda.

Graças a esta troca toda de material genético, a E. coli é capaz de adquirir diversos estilos de vida diferentes, de acordo com o que carrega. A linhagem EHEC 55989 por exemplo, possui proteínas que permitem que ela se prenda na superfície do intestino, sendo muito mais persistente que a variante mais comum em nossos intestinos e causando diarréias graves por conta da inflamação que desencadeia. Esta capacidade de se ligar à células intestinais, inclusive células epiteliais em cultura, foi o que deu seu nome, E. coli EnteroAgregativa, EAggEC [3].

Outro gene que a linhagem O104 adquiriu e é a fonte da síndrome hemolítico-urêmica que causa é a verotoxina. Seu nome vem da capacidade de destruir células Vero em cultura. Esta toxina é formada por duas subunidades A e B. A subunidade B reconhece proteínas que ficam na superfície das células epiteliais de vasos sanguíneos e lança a subunidade A para dentro delas. Uma vez dentro da célula, a subunidade A impede o funcionamento dos ribossomos e bloqueia a produção de proteínas celulares, matando-a.

A destruição das células epiteliais dos capilares sanguíneos pela VeroToxina da E. coli, ou VTEC, faz com que estes vasos se rompam e ocorra sangramento. O sangramento nos intestinos causa a diarréia hemolítica, e a destruição dos vasos dos néfrons, unidades filtradoras de sangue nos rins, causa os problemas urêmicos.

Do intestino de outros animais ao nosso

Existem diversas linhagens EnteroHemorrágicas de E. coli, as EHECs, muitas das quais habitam o intestino de animas de criação. Como a verotoxina e outras similares precisam reconhecer proteínas de superfície da célula, e animais como o gado e os porcos muitas vezes não possuem tais receptores, eles podem ser hospedeiros assintomáticos destas bactérias.

Quando a água utilizada na irrigação dos vegetais está contaminada, ou o adubo animal no caso dos alimentos orgânicos, a E. coli patogênica pode sobreviver dias. E a contaminação também pode ocorrer durante o transporte e no processamento dos alimentos, algo que não pode ser descartado neste surto alemão. Outros casos de EHECs já foram ligados a carne contaminada, inclusive hambúrgueres.

Um dos maiores problemas desta fonte é que muitas vezes criadores dão antibióticos aos seus animais, para aumentar o ganho de peso ou mesmo conservar a carne depois de processada. A consequência direta é que muitas linhagens patogênicas possuem genes de resistência a antibióticos que dificultam em muito seu tratamento. Esta linhagem de O104 possui genes de resistência a pelo menos três classes de antibióticos, que incluem drogas de uso comum como Amoxicilina, Tetraciclina e Ampicilina, segundo o sequenciamento feito pelo BGI e o relatório do Instituto Robert Koch.

Do sequenciamento aos blogs

Como uma boa epidemia moderna, todo tipo de dado já está disponível sobre este surto. A exemplo da epidemia de H1N1 de 2009,  BGI já disponibilizou o genoma da O104 no NCBI, e vem atualizando seu Twitter constantemente com informação mais recente. Um GitHub também já foi criado para a análise de dados colaborativa.

Aliás, algo que me deixou positivamente surpreso é quantidade de análise que está sendo publicada em blogs. Sim, antes de qualquer grande artigo na Nature, Lacet ou Science, blogs escritos por pesquisadores estão publicando as primeiras análises do genoma sequenciado. Se quiser acompanhar, aqui vão os primeiros posts:

EdgeBio – First Look Analysis of Deadly E. Coli in Germany

EdgeBio – Digging Deeper on TY2482 and Intro of Second Sequenced Bug – German E. coli Outbreak Strains

Pathogens: Genes and Genomes – EHEC Genome Assembly

bacpathgenomics – EAEC / STEC genomes

bacpathgenomics – EHEC genomes

Fontes:

[1] Zimmer, C. (2008). Microcosm: E. Coli and the New Science of Life (p. 256). Knopf Doubleday Publishing Group.

[2] Schaechter, M., & Lederberg, J. (2004). The desk encyclopedia of microbiology (p. 417). Academic Press.
[3] Wiedmann, M. (2011). Genomics of Foodborne Bacterial Pathogens (p. 133). Springer.

Células tumorais expostas a reportagem tiveram vergonha alheia

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Cientistas sem revião por pares.
Ainda em 29 de março, o Carlos compratilhou uma notícia bem estranha no G1: Células tumorais expostas à “Quinta Sinfonia”, de Beethoven, perderam tamanho ou morreram. Se fosse publicada dias depois, no primeiro de Abril, eu jurava que era mentira. A reportagem tem tanto potencial que vou quebrar em partes para explicá-la. [comentários meus neste formato]
Uma pesquisa do Programa de Oncobiologia da UFRJ expôs uma cultura de células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, à meia hora da obra ["Quinta Sinfonia" de Ludwig van Beethoven]. Um em cada cinco delas morreu, numa experiência que abre um nova frente contra a doença, por meio de timbres e frequências.
[...]
Como as MCF-7 duplicam-se a cada 30 horas, Márcia esperou dois dias entre a sessão musical e o teste dos seus efeitos. Neste prazo, 20% da amostragem morreu. Entre as células sobreviventes, muitas perderam tamanho e granulosidade.
O que temos até aqui é um remake de um estudo de 1993 que ainda é levado à sério. O trabalho de Frances Eauscher e Gordom Shaw publicado na Nature testou o desempenho de voluntários em testes cognitivos depois de expostos a três situações: depois de ouvir 10 minutos de Mozart — Sonata para dois pianos em ré maior, que curiosamente fica de fora de todos os CDs “fique esperto com Mozart”; depois de ouvir o mesmo tempo de técnicas de relaxamento; e depois de 10 minutos de silêncio. Corrigindo os resultados para uma escala equivalente aos pontos de QI, viram que só quando ouviam Mozart os voluntários aumentavam até 9 pontos de QI no teste, o chamado efeito Mozart.
O problema é que quase nenhum trabalho posterior conseguiu reproduzir os mesmo resultados. Ou melhor, nenhum trabalho fora os feitos pelos mesmos autores do primeiro. A situação chegou a tal ponto que em 1999 foi publicado um artigo chamado The Mystery of the Mozart Effect: Failure to Replicate, uma comparação entre vários artigos que tentaram reproduzir o efeito Mozart, chegando a um valor de 1,4 ponto a mais para estudos que reproduziram o mesmo tipo de teste.
A BBC, em uma demonstração para desbancar o estudo de 1993, elencou 8 mil crianças de 10 e 11 anos de escolas londrinas — a BBC faz experimentos incríveis, diga-se de passagem. Neste experimento, Blur funcionou muito melhor do que música clássica, o que deu o nome do artigo, Music Listening and Cognitive Abilities in 10- and 11-Year-Olds: The Blur Effect. A conclusão? Qualquer música que a pessoa goste pode deixar ela mais disposta antes de um teste, mas nenhum efeito de grande aumento de QI.
Mesmo assim, o efeito Mozart ainda faz um tremendo sucesso. Um dos maiores motivos, segundo o excelente livro The invisible gorilla, de onde tirei esta explicação toda, é que o público se identifica com o achado. Todos gostam de pensar que possuem uma capacidade mental muito maior, facilmente acessível quando se escuta uma música. Basta ver quantos divulgaram a reportagem d’o Globo no Twitter. Você tem alguma dúvida de que o efeito Mozart ainda tem apelo?
O resultado da pesquisa é enigmático até mesmo para Márcia. A composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, provocou efeitos semelhantes àqueles registrados com Beethoven. Mas a “Sonata para 2 pianos em ré maior” [a mesma do estudo sobre QI], de Wolfgang Amadeus Mozart, uma das mais populares em musicoterapia, não teve efeito.
- Foi estranho, porque esta sonata provoca algo conhecido como o “efeito Mozart”, um aumento temporário do raciocínio espaço-temporal – pondera a pesquisadora. – Mas ficamos felizes com o resultado. Acreditávamos que as sinfonias provocariam apenas alterações metabólicas, não a morte de células cancerígenas.
Pronto, o estudo aparece novamente. Me espanta o fato da pesquisadora da UFRJ ter lido o artigo de 1993, mas nenhum dos vários outros que refutaram o achado desde então. Outro ponto, por que notas músicais e não outras formas de vibração? Se bem que o estudo vai além:
Quando conseguir identificar o que matou as células, o passo seguinte será a construção de uma sequência sonora especial para o tratamento de tumores. O caminho até esta melodia passará por outros gêneros musicais. A partir do mês que vem, os pesquisadores testarão o efeito do samba e do funk sobre as células tumorais.
Sabe o que aconteceria se ouvesse a menor relação entre música e regressão de tumores? As indústrias farmacêuticas que gastam bilhões testando o efeito de novos fármacos montariam uma estrutura de laboratório onde testariam de uma vez milhares de músicas todos os dias. Assim que tivessem encontrado as três ou quatro que causam mais efeito, quebrariam a música em partes para ver qual delas é a importante, mudariam o trecho um pouco para ver se o efeito melhora ou piora e patenteariam com o nome terminado em ex ou on. Anos e anos de pesquisa e ninguém testou som?
Agora a melhor conclusão da reportagem:
A pesquisa também possibilitou uma conclusão alheia às culturas de células. Como ficou provado que o efeito das músicas extrapola o componente emocional, é possível que haja uma diferença entre ouví-la com som ambiente ou fone de ouvido.
- Os resultados parciais sugerem que, com o fone de ouvido, estamos nos beneficiando dos efeitos emocionais e desprezando as consequências diretas, como estas observadas com o experimento – revela Márcia. 
Quer dizer, como as células tumorais regridem ao ouvir música, devemos ouvir música sem fones de ouvido, para podermos beneficiar o corpo todo de uma vez. De primeira, já imagino que DJ’s (e hoje em dia todo mundo ataca de DJ), ou pelo menos maestros, já que se trata de música clássica, não sofrem tumores. Sim, pois estão com o corpo diretamente exposto às ondas sonoras grande parte do dia. Ou algumas músicas possuem o efeito contrário, causam câncer, e no final os efeitos se balanceiam?
Na verdade, o que aconteceu aqui foi um exemplo de inexperiência do jornalista. Jornalistas como os que escrevem na Folha ou o Carlos Orsi sabem muito bem, não se escreve sobre pesquisa não publicada, a não ser que o artigo já tenha sido aceito. Sim, pois não vi nenhuma menção a um artigo em periódico revisado por pares na reportagem. E revisores têm justamente a função de filtrar resultados enviesados, como imagino que sejam estes. Ali

John Snow e a transmissão da cólera

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Em 1854 o bairro de Soho em Londres sofreu o mais sério surto de cólera da cidade na história. John Snow, médico inglês pioneiro em técnicas de anestesia com éter e colofórmio, reuniu meticulosamente dados sobre os casos em seu bairro, mapeando as casas atingidas e relacionando os casos com pessoas que haviam bebido água da fonte de Broad Street. Pela primeira vez alguém utilizava dados e mapas para entender e impedir uma infecção.

John Snow basicamente fundou a epidemiologia moderna, indo contra o pensamento corrente na época de que a cólera seria transmitida pelo mau cheiro (teoria do miasma), ao propor que alguma coisa contida nas fezes dos doentes transmitiria a doença quando ingerida junto da água. Isso, claro, antes da idéia de que germes seriam os causadores de doenças infecciosas. Entre ele propor sua teoria em 1849, demonstrá-la diretamente ao fechar a bomba em 1854, e as autoridades londrinas aceitarem sua teoria e impedirem outro surto em 1866, foram quase 20 anos para que suas idéias fossem aceitas.
De certa forma, é mais uma história que ilustra como a ciência leva tempo para aceitar novas idéias, e como teorias correntes dificultam este processo. Um pioneiro propondo algo importantíssimo que não foi levado a sério, e depois de aceito acabou revolucionando a maneira como compreendemos uma questão. 
Este é um dos argumentos mais usados por quem propõe “ciência alternativa” como homeopatia ou auto-hemoterapia: cientistas estão ocupados demais com suas teorias correntes para aceitar algo inovador. O que não se menciona é que Snow precisou de muito embasamento para sua teoria. Precisou utilizar dados estatísticos sobre o número e local de doentes e mortos, precisou da ajuda do reverendo Henry Whitehead para traçar as condições e hábitos dos moradores locais e precisou mostrar como o poço havia sido contaminado para mostrar que a água podia transmitir cólera. Ele chegou ao ponto de mapear a distância a pé das casas à bomba para explicar locais aparentemente próximos que haviam se salvado, e locais distantes condenados. 
Acima de tudo, John Snow teve de mostrar que sua teoria funcionava, e aplicá-la. Criacionismo, homeopatia e outras idéias furadas não são novas teorias que a ciência não aceita. São teorias antigas que não aceitaram o avanço da ciência. Ainda acreditam na mágica do mau-cheiro. Não foram capazes e juntar dados para mostrar o que propõe, muito menos propor maneiras de testar o que se afirma de maneira que sejam refutadas ou não.
Deixando de lado o miasma, acompanhem a palestra do TED (legendas em PT clicando em view subtitles) de Steven Johnson, autor do livro The Ghost Map: The Story of London’s Most Terrifying Epidemic–and How It Changed Science, Cities, and the Modern World onde faz uma ótima descrição de como Snow mudou a maneira de se pensar sobre doenças, e das consequências que vemos até hoje. Recomendo bastante o livro, que não foi lançado aqui.
[atualização] conforme o ze informou nos comentários (obrigado), o livro foi lançado aqui e está disponível.

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