Redes sociais, artigos científicos e novas métricas
No post anterior, discuti um pouco sobre as novas formas de compartilhar e medir o impacto da pesquisa. Agora, o SciELO publicou o vídeo do seminário. Ou melhor, os vídeos, pois ele foi quebrado em seis partes. Para organizar as ideias todas em um mesmo lugar, seguem os vídeos (a apresentação começa mesmo aos 8 minutos) e o material da apresentação:
Parte 2 // Parte 3 // Parte 4 // Parte 5 // Parte 6
Aqui vão os slides:
E o material de referência, links e artigos citados na apresentação, bem como outros relacionados. Recomendo especialmente o material de Jason Priem, um dos pesquisadores mais engajados em novas métricas. Quem tiver material relacionado, e puder compartilhar os links nos comentários, agradeço e incluo na lista.
Science Communication on the Web and Altmetrics is a group in Computer and Information Science, Education on Mendeley.
E a política de acesso aberto no Brasil?
A postura acadêmica a respeito do modelo tradicional de publicação está mudando, e o Brasil poderia se posicionar muito bem em relação a isso.

Toda indústria da comunicação está sofrendo para se adaptar às últimas tecnologias. SOPA, PIPA, e várias outras tentativas de regular esta mudança dão sinais de que a maneira como consumimos informação está mudando. E tudo indica que a área das publicações científicas estava de fora desta mudança. Estava.
Por mais que a maneira como acessamos artigos tenha mudado, conto nos dedos as vezes em que precisei ir à biblioteca para pegar um artigo. Até bem pouco tempo atrás a única diferença na maneira como consumo informação acadêmica estava no acesso. O sistema de distribuição dos artigos impressiona por se manter quase o mesmo. As bibliotecas e instituições ainda precisa assinar pacotes de revistas das editoras – quem aqui ainda assina jornal ou revista? – e mesmo o que encontramos online ainda quase sempre vem no formato PDF, o que transmite a impressão de que se pudessem, escaneariam a página da revista e mandariam a imagem mesmo. Formatos como epub e outros começam timidamente a serem adotados por editoras. A Nature foi pioneira (em 2010!) por lançar um aplicativo para iphones e ipads com conteúdo otimizado, mas nem se ouve falar no próprio formato epub que ela usa em navegadores para desktops.
Ao contrário das outras mídias, onde autores e participantes são remunerados, e muito bem pagos em alguns casos, publicações científicas remuneram bem pouca gente no caminho. Os autores, muitas vezes financiados pelo dinheiro público, não recebem pelo trabalho enviado. Pelo contrário, em alguns casos precisam pagar mais por páginas extras ou figuras coloridas do artigo. Os revisores, também pesquisadores financiados pelo governo, vão investir considerável tempo para ler e avaliar os trabalhos dos colegas, também sem receber pelo que fazem. A mão de obra remunerada fica por conta dos funcionários das editoras que vão formatar e publicar o artigo, de longe a menor parte do processo. Mas, ao final disto tudo, depois que o trabalho é publicado, as instituições públicas, aquelas mesmas que financiaram os pesquisadores e a pesquisa, ainda precisam pagar pelo acesso aos artigos.
E não são valores baixos. Imagine a situação de um paciente que queira ler o trabalho onde foram publicados os resultados do medicamento que ele está prestes a tomar. Se ele não tiver acesso institucional à revista, através de uma universidade por exemplo, precisa pagar em torno de 40 dólares por um artigo de 10 páginas. Sim, 40 dólares por um trabalho que foi produzido, escrito e revisado com verba pública, e não gera um centavo de lucro para quem o produzir, enquanto uma música que remunera do autor à gravadoras custa 0,99 dólares em um site como o iTunes. Valores altos que faziam sentido em uma época onde a edição era o processo mais caro de um artigo, dada a pequena circulação da maioria das revistas, não são mais realistas com a distribuição online.
Enquanto o custo de distribuição dos artigos diminuiu, uma vez que muitos assinantes consomem apenas a versão online dos artigos, o lucro das editoras é impressionante. Segundo Alma Swan, o preço das publicações subiu quatro vezes mais do que a inflação americana nas últimas duas décadas. Apenas em 2010, a editora holandesa Elsevier lucrou $1,16 bilhões em uma margem de 36% da receita, em um ano de crise. E margens de lucro de mais de 30% parecem ser a regra para editoras acadêmicas, levando a considerações sobre o quanto as editoras estariam na verdade atrapalhando a pesquisa.
A reação contra as principais editoras e o acesso restrito e pago ao conhecimento começou a mudar com a criação do movimento Open Access (OA), que provê acesso aberto aos artigos e deixa o custo da edição e manutenção todo por conta dos autores dos artigos ou de financiamento externo. Modelo esse que não é lá tão novo, mas ganhou diversos adeptos desde 2000. Entre eles uma das iniciativas mais bem sucedidas, a Public Library of Science, ou PLoS, lançada em 2001, que embora se manifeste contra o fator de impacto – outro exemplo de monopólio e uma caixa preta de tratamento de dados da editora Thomson – tem ótimos índices para suas revistas (apesar da torcida contra). O Brasil deu exemplo de iniciativa OA com a implementação do Scielo em 1997, e a maioria das revistas nacionais são de acesso aberto.
Ainda se discute se o fato de um artigo ser de acesso aberto aumenta suas citações, em um trabalho publicado em 2011 Philip Davis colocou aleatoriamente 712 artigos de 2533 em acesso aberto e os acompanhou durante 3 anos, vendo que não foram mais citados do que os outros 1821. Mas este mesmo trabalho mostrou que os artigos de acesso aberto são baixados duas vezes mais pelos leitores, provavelmente de outras áreas – já que não houve aumento de citações. Publicar em acesso aberto significa um retorno imediato para o público do investimento feito. Ao invés de precisar pagar novamente para acessar o trabalho que financiaram, os resultados ficam disponíveis para quem se interessar.
Se o cenário das editoras internacionais já não estava tão bom, este ano só piorou. As manifestações vão de críticas bem diretas à distribuição de mais de 18 mil de artigos em um torrent disponibilizado no PirateBay – imagine o estrago que faria um agregador de torrents de artigos que pudesse ser buscado como o PubMed, até na pirataria o mercado acadêmico está atrasado. O estopim se deu no começo de 2012, com a proposta do Research Works Act, um projeto de lei que basicamente acaba com a resolução do NIH de 2008 de disponibilizar para acesso livre toda pesquisa financiada por ele. Segundo a denúncia de Michael Eisen, professor da UC Berkeley e um dos fundadores da PLoS, uma das autoras do projeto de lei, a congressita Carolyn Maloney recebeu 12 contribuições financeiras da editora Elsevier em 2011.
Depois do estrago feito pela denúncia, as tentativas da Elsevier de se justificar acabaram causando a reação contrária ao esperado. Argumentos como os de que a maior parte do trabalho é feito pelas editoras – ignorando a escrita e revisão dos artigos pelos pesquisadores – fomentaram ainda mais a rejeição à editora. Ao ponto que o matemático Timothy Gowers resolveu deixar de submeter e revisar artigos para a Elsevier, e convidou outros pesquisadores a fazer isso e deixar o nome em um site-manifesto, que durante a escrita deste artigo estava fora do ar devido ao número de acessos. As justificativas dele, o preço dos jornais e a venda casada e forçada de títulos inúteis junto de jornais importantes apenas somam ao Research Works Act, e mostram um descontentamento de longa data.
Aqui no Brasil, muito poderia ser feito sobre isso. Grande parte do dinheiro investido em pesquisa é público [obrigado pelo link, Takata], e vem de agências governamentais, que regulam sua aplicação e avaliam os pesquisadores. São exatamente estas agências que poderiam orientar os pesquisadores a publicarem em jornais de acesso aberto. Pelo menos nos casos em que o impacto da revista é similar ao de alternativas de acesso restrito, quando não há alternativa para jornais como Science, Nature, Cell, etc. Economicamente, é uma alternativa que se paga. Por mais que precisem ser pagos pelos pesquisadores, artigos de acesso aberto saem mais barato para serem acessados, enquanto a assinatura de revistas pela Capes gera um custo anual de 40 80 milhões de dólares [valeu, Fábio] e disponibiliza o conteúdo apenas para as instituições credenciadas.
Publicar em revistas internacionais de acesso aberto no Brasil não é algo tão simples. Quem não pode recorrer rapidamente a órgãos como a Fapesp e depende de verba aprovada em longos processos de editais, não chega ao final de um projeto com $1000 a $4000 para pagar a publicação do(s) artigo(s) gerados. – E mesmo na Fapesp á um pouco trabalhoso conseguir a verba para publicar, já recebi a resposta de que uma revista que não é impressa não poderia cobrar custo de impressão, mas acabaram pagando a PLoS. Verba que poderia ser alocada com esta finalidade logo no início do projeto. Mil dólares em um projeto de 20 a 400 mil reais não é um custo alto, especialmente considerando que a publicação do artigo é o maior retorno maioria dos casos. Economizar menos 1% da verba de pesquisa para publicá-la é bastante contraditório, ainda mais quando ele ficará indisponível para o público e precisará ser pago pela Capes para que seja acessado.
Exclusivo: Jornalista explica porque ainda dão trela para malucos
São Paulo – Pode parecer que em pleno ano de 2011 ainda é possível encontrar horóscopos e todo tipo de notícias bizarras em jornais, que poderiam ser desmentidas com 2 cliques no Google, mas não é por burrice que isto acontece. Nossos repórters descobriram como funciona a rede internacional de notícias envolvendo lunáticos e o que parece ser o maior plano de inclusão já promovido pela mídia.
“Pode parecer que os jornalistas e editores responsáveis por este tipo de notícia são pessoas que ligariam para serviços de ‘Trago Amado em 3 dias’, só que é proposital.”, explicou o autor anônimo de notícias de um famoso portal de internet, que descreveu a rede de médiuns e paranormais criada para gerar explicações ridículas para eventos mundanos. Segundo averiguamos, na verdade trata-se de uma grande preocupação dos veículos de notícia com aqueles que morreriam de fome se capim fosse amarelo, “Nossa intenção é não deixar ninguém de fora do que acontece pelo mundo. Se escrevemos uma notícia completa, apenas com fontes confiáveis, as camadas da sociedade com QI de ambeba seriam excluídas do que se passa.”
Assim, basta conseguir uma declaração absurda para que o fato se torne mais atraente e compreensível. Afinal, para o público alvo, é muito mais fácil a vida se originar em outro planeta, e a evolução de lá gerar um animal muito próximo de todos que temos aqui, com a mesma disposição de órgãos e mesma necessidade de temperatura e oxigênio, ele cruzar o universo em tempo hábil para chegar aqui ainda vivo, aterrizar discretamente na Terra e ficar desnorteado o suficiente para ser entrevistado, é mais provável do que uma fraude.
E parece que esta estratégia ainda tem apelo em camadas mais inteligentes da sociedade, repetindo a tática de restaurantes com cardápios com erros ortográficos grosseiros e deliberados, para que clientes se sintam melhores e gastem mais, como explicou um dos jornalistas do G1 portal: “Quem tem um mínimo de entendimento das coisas percebe que se trata de uma asneira, e se sente mais inteligente ao criticar. Conseguimos fazer até comentaristas do Youtube se sentirem gênios.”
Segundo o entrevistado, esta escola de escrita criada por tablóides ingleses no século XVIII, só foi trazida para o Brasil na década de 1950, e popularizada por grandes revistas de variedades, “A Veja, por exemplo, se tornou a maior revista em circulação no Brasil simplesmente escrevendo besteiras absurdas. O que você acha que mantém pessoas como o Datena no ar?” explicou ele, mostrando como até o Patrick poderia ser incluído ao ver TV.
Portanto, se você espera mais inteligência dos meios de notícia, entenda apenas que você não é o público alvo.
Acompanhe nosso infográfico de como notícias aparentemente estúpidas não são escritas por acaso:
Ciência Brasileira e o Culto à carga
Em uma conversa recente sobre produtividade científica, estava discutindo com amigos sobre a disparidade entre o Brasil e centros de pesquisa no exterior, onde conseguem publicar artigos mais citados e em revistas mais relevantes. Não só em países ricos da América do Norte e Europa, mas também em desenvolvimento, como Índia e China. Quando surgiu uma analogia que não pude evitar: o Culto à Carga.
Um documentário de 1963 apresentou o fenômeno, sobre o qual fui saber pela primeira vez no livro Armas, Germes e Aço do Jared Diamond. Trata-se de um reflexo da ocupação moderna de ilhas no oceano Pacífico, principalmente depois da Segunda Guerra. Muitas tribos locais ao verem aviões pousando e desembarcando comida e produtos manufaturados, começaram a se perguntar por que também não recebiam esta dádiva dos céus. Começaram então a construir pistas de pouso e até aviões e torres de controle de madeira e bambú, na esperança de atrair um daqueles instrumentos do paraíso para eles.
O vídeo acima é um pedaço do documentário de 1963, Mondo Cane, que espero que comece aos 6 minutos, onde mostram uma das pistas construídas. Um tipo de culto que foi relativemante comum entre 1950 e 1970, e que segundo a BBC ainda ocorre em Vanuatu. Para mim, é uma condição que descreve muito bem o que se faz em ciência no Brasil, um culto à carga.
E não me refiro à pseudo-ciência que Feynman cunhou [link para pdf], mas sim um culto a carga bem mais refinado. Não construímos nossa pesquisa com torres de bambú e aviões espantalho. A FAPESP e o CNPq financiam bem a pesquisa nacional – não posso falar propriamente sobre o CNPq, em especial fora do estado de São Paulo, mas aqui a FAPESP financia quase todo projeto com o qual tive contato, muitas vezes com mais de 5 casas decimais dígitos (brigado, Igor), muito dinheiro investido em pesquisa. Não tenho os números para comparar, mas garanto que em termos de porcentagem do PIB investido em pesquisa, não estamos tão longe de países desenvolvidos, embora não contemos com muito financiamento privado. A porcentagem é algo cruel, por mais que o total seja uma fração pequena do que se investe em outros países, proporcionalmente os números são similares. Mas não é esta a discussão aqui.
Nosso culto a carga é muito mais sofisticado. Temos equipamentos modernos, pirosequenciadores, sequenciadores Sanger, espectrômetros de massa, citômetros de fluxo, e vários outros métodos caros que desconheço. A burocracia com certeza atrapalha, já vi gente perdendo reagentes e até animais transgênicos na alfândega, mas não impede, e mesmo assim continuamos debatendo por que o Brasil publica muitos trabalhos mas de pouco fator de impacto. É aqui que entra o culto.
Publicar trabalhos de menor índice de impacto significa dizer que brasileiros produzem artigos que são menos lidos e menos citados pela comunidade científica. E não acho que o motivo seja só o fato de nomes latinos serem menos citados. Assim como os nativos das ilhas do Pacífico manipulam instrumentos de mentira, fuzis feitos de bambú e torres de controle de madeira e folhas, sem entender o princípio por trás de um carregamento chegando de avião, nós fazemos ciência aqui sem entender a motivação que está por trás de cada experimento.
Já vi diversas apresentações de trabalhos relevantes, que envolviam experimentos arrojados feitos por gente com muita capacidade, quase sempre sem um ingrediente fundamental de embasamento, uma boa hipótese. Basta olhar em volta, quantos experimentos são feitos, amostras coletadas e analisadas, sequenciamentos sem fim de todo tipo de genomas, quase sempre sem um motivo claro em vista. Nada contra a pesquisa básica, ela é extremamente necessária para o desenvolvimento de qualquer tecnologia, mas mesmo ciência básica precisa de um propósito claro. Não podemos levantar dados simplesmente por levantar. No entanto, são raros os trabalhos com um propósito claro, que começa com um problema a ser abordado e conta com passos definidos nessa direção.
Uma boa medida de como falta entendimento do que se faz é a carência de bioinformatas. Justamente o tipo de pesquisador que deveria ajudar a interpretar os dados massivos que estão sendo gerados, a responder e formular novas hipóteses, é o tipo de pesquisador mais escasso e mais procurado em vários institutos. É um problema lá fora também, mas que está sendo resolvido a muito mais tempo. O centro de computação e biologia de sistemas do MIT foi criado antes de 2005, e segundo a Wikipedia outros começaram ainda antes, e só de uns dois anos para cá comecei a ouvir o termo biologia de sistemas aqui. Um termo que implica em métodos bem mais abrangentes para a interpretação de dados.
E a coisa complica nos alunos também. Já fui taxado de chato em seminários, simplesmente por perguntar o motivo de um experimento, ou como estava sendo feito o controle positivo ou negativo. Algo recorrente é o aluno de mestrado ou mesmo doutorado que está simplesmente seguindo a linha de pesquisa do laboratório e sequer entende onde a pesquisa dele se insere - e não digo que estou de fora dessa. Apertando os botões e copiando os aviões dos estrangeiros, sem saber por que a carga não vem.
Entendam, não estou me queixando de falta de dinheiro ou de tecnologia. Longe da síndrome da ciência vira-lata, para mim um dos maiores atrasos que temos é na geração e interpretação de perguntas interessantes. Gerar dados e sequências todo mundo faz, mas depositá-las no GenBank não é o fim da pesquisa. Uma árvore filogenética ou a estrutura tridimensional de uma proteína não informam nada sem um propósito para serem feitas. Entender o que os dados informam é uma tarefa enorme e exige muita capacitação, que parece nos faltar.
Seguimos reproduzindo experimentos que fazem lá fora, comprando equipamentos e reagentes que compram lá fora, mas por algum motivo os aviões da Science, da Nature, da Cell e de várias outras revistas insistem em não pousar na nossa pista.
Células tumorais expostas a reportagem tiveram vergonha alheia
Uma pesquisa do Programa de Oncobiologia da UFRJ expôs uma cultura de células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, à meia hora da obra ["Quinta Sinfonia" de Ludwig van Beethoven]. Um em cada cinco delas morreu, numa experiência que abre um nova frente contra a doença, por meio de timbres e frequências.[...]Como as MCF-7 duplicam-se a cada 30 horas, Márcia esperou dois dias entre a sessão musical e o teste dos seus efeitos. Neste prazo, 20% da amostragem morreu. Entre as células sobreviventes, muitas perderam tamanho e granulosidade.
O resultado da pesquisa é enigmático até mesmo para Márcia. A composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, provocou efeitos semelhantes àqueles registrados com Beethoven. Mas a “Sonata para 2 pianos em ré maior” [a mesma do estudo sobre QI], de Wolfgang Amadeus Mozart, uma das mais populares em musicoterapia, não teve efeito.- Foi estranho, porque esta sonata provoca algo conhecido como o “efeito Mozart”, um aumento temporário do raciocínio espaço-temporal – pondera a pesquisadora. – Mas ficamos felizes com o resultado. Acreditávamos que as sinfonias provocariam apenas alterações metabólicas, não a morte de células cancerígenas.
Quando conseguir identificar o que matou as células, o passo seguinte será a construção de uma sequência sonora especial para o tratamento de tumores. O caminho até esta melodia passará por outros gêneros musicais. A partir do mês que vem, os pesquisadores testarão o efeito do samba e do funk sobre as células tumorais.
A pesquisa também possibilitou uma conclusão alheia às culturas de células. Como ficou provado que o efeito das músicas extrapola o componente emocional, é possível que haja uma diferença entre ouví-la com som ambiente ou fone de ouvido.- Os resultados parciais sugerem que, com o fone de ouvido, estamos nos beneficiando dos efeitos emocionais e desprezando as consequências diretas, como estas observadas com o experimento – revela Márcia.
Ciência, ética e suas consequências
Depois de mostrar na prática como a informação científica pode ser distorcida ao ser transmitida, acompanhem o peso ético que um resultado pode ter.
Nosso artigo sobre Hepatite C ainda está rendendo discussões. As maiores e mais inflamadas foram levantadas por portadores do vírus da Hepatite C que não gostaram de ver a associação com o número de parceiros reportada na Folha de São Paulo – falo da FSP e não do artigo pois, como expliquei aqui, a maioria sequer leu o artigo original, e a Folha atinge um público leigo muito maior.
Para mostrar o tipo de consequências que um artigo pode ter, e a ética envolvida em uma pesquisa e sua divulgação, vou aproveitar a situação que passei (passamos na verdade, todos os autores).
A reação
Para colorir o que estou falando e dar uma medida do tipo de impacto que um artigo científico pode ter na vida das pessoas, e do tipo de portador de HCV que se sentiu ofendido, vou usar alguns trechos de comentários e textos de portadores deixados aqui no Rainha e em outros locais (grifos meus):
Do Hepato.com (escrito por Carlos Varaldo):
É inevitavel o prejuizo enorme que tal divulgação vai causar no estigma e discriminação aos infectados com hepatite C.
Dos comentários aqui no blog:
Carlos Varaldo – Já a PloS ONE e considerada nos meios científicos como um jornal de classificados que circula somente na Internet, tal qual um Blog. É só pagar os 1.350.- dólares que sem nenhum critério o artigo será publicado. É bom para o ego dos pesquisadores, mas não é levado em consideração pela comunidade cientifica.
A palavra “promiscuidade” por você utilizada na divulgação para vender a matéria ao jornal costuma ser usada num sentido depreciativo. Rotular o comportamento sexual de uma pessoa como promíscuo é considerado ofensivo. Não acredito que essa seja a ética ensinada e adotada na USP e sim uma colocação de quem acredita ser um DEUS superior.
Segundo os dicionários promiscuidade (u-i) s. f.: Mistura confusa e desordenada. Reunião confusa de pessoas em que predominam as de baixa classe. Assim, publicar no PloS ONE também é um ato prosmicuo por parte dos pesquisadores.
Fico feliz de ver que um dos participantes da pesquisa, o biólogo Atila Iamarino publica no blog a mesma pesquisa, mas respeitando a ética e sem criar fantasias sexuais reprimidas
Joel Martini de Campos – Também um erro gravíssimo é informar tratar-se de doença incuravel pois para o genótipo 1a a CURA ocorre em 52% dos pacientes e para os demais genótipos e de quase 70% a CURA, portanto é curavel em parte.Sou portador de hepatite C, genótipo 1a, descoberto em 1991 quando da doação de sangue para a filha do Dr. Villa que estava com câncer no Hospital Albert Einstein e era qualificada ainda como hepatite não A e não B.
sonia maria – Sou Enfermeira Sanitarista, tenho 65 anos, há 37 anos me contaminei(?) hoje diagnosticado Hepatite C, após transfusões sanguíneas em 1973 e 1974, trabalhadora de Saúde nos Programas de AIDS, Hepatites, emergencias Obstetricas, etc. Sem fator de risco sexual , nunca fiz tatuagens, piercing, ou usei seringas em rodas de drogadição…
Obviamente, muitos portadores se sentiram profundamente ofendidos com o artigo, principalmente por conta do noticiamento dado a ele. Os comentários de Carlos Varaldo, completamente dirigidos aos autores do artigo e à revista PLoS One – que possui um excelente corpo de revisores científicos e um índice de impacto de 4,3, maior do que muitas outras revistas, diga-se de passagem – e não aos dados, “respeitado a ética e sem criar fantasias sexuais reprimidas“, mostram o quão pessoal foi a ofensa.
Não culpo a Folha de São Paulo, nem a jornalista Sabine Righetti por isso, o que eles fizeram foi escrever com base nas informações que nós passamos. O problema para mim é a interpretação que as pessoas fizeram do artigo. E acredito que independente de como a reportagem fosse escrita, citar a relação entre um subtipo e pessoas com muitos parceiros ao longo da vida inevitavelmente daria margem para este tipo de interpretação.
Agora faço a pergunta: se a transmissão sexual de Hepatite C é bastante controversa, e só foi demonstrada em alguns casais heterosexuais e em HSH (homens que fazem sexo com homens) praticantes de sexo de alto risco (que envolve até troca de sangue), há a necessidade de tratar disto em um artigo? Se usar o número de parceiros como medida para delimitar grupos inevitavelmente vai levar a interpretações errôneas, vale a pena tratar disso em um artigo?
O papel da ciência
Não acho que a ciência deva abordar todo e qualquer problema. Certas situações são complicadas demais para compensarem os problemas que certos estudos podem gerar, seja por que os problemas são muito grandes, ou por que os benefícios que podemos extrair de tais experimentos não são motivo suficiente. POr esta área passam vários dos dilemas envolvidos no sequenciamento de larga escala do genoma e estudos de associação entre genes e características como doenças ou quociente de inteligência. Então convido vocês a entenderem o tamanho das consequências do que afirmamos no artigo, para avaliar o que está em jogo.
Antes de tudo, revejam o gráfico de crescimento dos subtipos:
Reparem no crescimento do subtipo 1a (em vermelho) de HCV após 1993, quando começam os testes em bolsas de sangue. Agora revejam o gráfico sobre número de parceiros e comportamento de risco.
Basta olha para os gráficos acima para entender como a indignação dos portadores é cruel, por ser desnecessária acima de tudo. O comportamento dos indivíduos com mais de 50 parceiros é o marcado em barras escuras à direita. Menos de 20% deles fez transfusão antes de 1993, ou seja, mais de 80% sequer teve a chance de contrair o vírus por bolsas de sangue. A imensa maioria é do sexo masculino, dos quais 1/3 faz sexo com outros homens. E mais de 70% é já teve DSTs, o que é bastante explicável quando vemos que muitos nunca usaram camisinha. Justamente o tipo de paciente de risco que outros trabalhos relacionaram com a transmissão sexual – sim, há trabalhos que reportam a transmissão sexual do HCV, e justamente neste grupo de risco. Este é o perfil dos portadores de Hepatite C no Brasil?
Obviamente não! Nem afirmamos isso. As sentenças “há 37 anos me contaminei”, “descoberto em 1991″, são exemplos de quem se sentiu ofendido pela reportagem, e eles não são os portadores que estamos alertando com o artigo. Eles foram contaminados por transfusões ou objetos contaminados ainda antes de 1993. Muito provavelmente estão na esquerda do gráfico de número de parceiros, como a imensa maioria das pessoas.
O alerta não é dirigido aos portadores contaminados há 20 ou 30 anos, provavelmente pelo subtipo 1b, e sim para os contaminados pelo subtipo mais recente, e pessoas com muitos parceiros. Mas, se é uma parcela pequena, devemos expôr os dados e fazer este tipo de alerta? Qual a relevância de se falar de uma minoria dos casos, que não retrata o portador de HCV típico?
As consequências
A figura acima foi retirada deste artigo e mostra uma rede de contatos sexuais no Reino Unido, composta principalmente por homens que fazem sexo com homens. O mesmo tipo de rede que retratamos quando investigamos o número de parceiros que cada paciente nosso teve. Redes sexuais apresentam duas propriedades muito importantes que ficam bastante evidentes na figura acima. A primeira é o preferential attachment, algo como conexão preferencial, onde novos pontos da rede se ligam mais facilmente à pontos que já são muito conectados. Ou seja, pessoas que já possuem muitos contatos sexuais são as que mais provavelmente recebem novos contatos (como sites muito conhecidos recebem mais links na internet), como os pontos que marquei em vermelho. Eles são os chamados hubs. A segunda propriedade é uma consequência disso, a maioria das pessoas possuem poucos ou nenhum parceiro, enquanto alguns possuem muitos.
Olhe para os pontos em azul. Eles representariam os pacientes com poucos parceiros sexuais, estão quase fora desta rede. Mesmo os conectados aos hubs, em sua maioria não possuem muitos contatos. Estes são os pacientes que se sentiram ofendidos com a ligação entre hepatite C e muitos parceiros. E sem dúvida são a maioria de nossa amostra.
Agora imagine que os pacientes com muitos parceiros, infectados pelo subtipo mais recente e com vários comportamentos de risco, são os pontos em vermelho. Eles são os hubs desta rede, poucos, mas muito importantes para mantê-la ligada. Mesmo que o HCV esteja circulando entre eles por comportamentos de risco e não a transmissão sexual, a quantidade de pessoas que está ligada a eles é muito grande. E, como qualquer rede social, muito provavelmente compartilham dos mesmos hábitos de risco.
Eis aqui a maior implicação do que falamos e a importância de falar de uma pequena parcela dos infectados. Esta parcela pequena é composta pelos hubs, que são ligados a muitas pessoas com riscos similares, por mais que sejam parceiros sexuais e a via sexual não seja importante para o HCV como um todo. Já que eles muito provavelmente compartilham outros riscos também. E a importância deles se mostra pelo fato de estarem infectados por um subtipo mais recente que está crescendo muito.
Olhe novamente para a figura acima, e retire um ponto aleatório. São grandes as chances da rede se manter intacta, pois a maioria dos pontos está ligada a outros poucos. Retire então um dos hubs. A rede se desmancha. Uma das propriedades de uma rede como esta é que poucos pontos são muito importantes, e retirá-los da rede faz com que ela toda caia, como aconteceria com a internet se o Google caísse, muitos outros sites ficariam quase inacessíveis. Daí são deduzidas as consequências do trabalho, se não levarmos o foco para os poucos pontos da rede que possuem um comportamento diferente da maioria dos outros, por receio de ofender ou retratar de maneira errada o grupo, estaremos desviando a atenção de quem de fato faz as ligações.
O retrato atual dos portadores de HCV é um reflexo daqueles que contraíram o vírus há vários anos, provavelmente por vias que já não são mais tão importantes, como a tranfusão. E por mais que eles sejam a maioria, não possuem mais um papel tão ativo na transmissão do vírus. Ainda não sabemos como se dá a maioria dos eventos de transmissão de HCV. Precisamos olhar e discutir o que acontece com os portadores que ainda não sabem que estão com o vírus, transmitindo o subtipo mais recente que como o Joel Martini destacou, tem o menor sucesso de tratamento, pois quando descobrirem, daqui a 10, 20 anos, a rede já terá mudado e o estrago já estará feito. Estes são os portadores de HCV que precisarão de transplante de fígado nos próximos anos.
Então eu pergunto, é relevante tratar de um tema que sabemos ser polêmico, se ele pode ser importante?
O ciclo da notícia científica
O PhD Comics acertou em cheio com o quadrinho acima, que peguei traduzido no Blog Brasil Acadêmico (clique para aumentar, se estiver ilegível). O povo dos blogs científicos gostou e reproduziu a imagem. Agora eu tenho a oportunidade de ilustrar com um artigo em que participo, acompanhem como a informação científica se deteriora ao ser propagada:
O artigo
Comecemos com o estudo. No artigo que acabamos de publicar na revista científica PLoS One, afirmamos com base no gráfico acima que o subtipo mais recente de Hepatite C no Brasil está associado à pessoas que possuem mais parceiros sexuais. A explicação completa está aqui, mas o gráfico é deixa bem claro. Na esquerda está a distribuição de subtipos (1b, 1a e 3a) dos pacientes que estudamos com 5 ou menos parceiros sexuais a vida toda, e à direita está a distribuição para os que tiveram 50 ou mais parceiros. O subtipo 1a é o segundo mais comum da nossa amostra, mas entre as pessoas com muitos parceiros sexuais ele é o principal.
A hepatite C não é tida como uma doença sexualmente transmissível, e nós não afirmamos isso no artigo. Usamos o número de parceiros para visualizar as interações sociais de nossos pacientes, pois vimos que os subtipos estão concentrados em pessoas de certas idades e queríamos saber se elas tinham comportamentos diferentes. E vimos, tanto que os pacientes com mais de 50 parceiros estão expostos a muitos outros comportamentos de risco, uso de drogas injetáveis, sexo desprotegido, etc, do que os outros, como a segunda metade do gráfico deixa clara – de novo, vejam o post anterior para entender.
O que este gráfico significa é que o subtipo mais recente está circulando em pessoas mais conectadas, praticantes de mais comportamentos de risco e com mais potencial para continuar se espalhando sem controle.
O press release
Embora eu mesmo tenha escrito nosso press release com ajuda dos autores principais do artigo – o press release é uma espécie de resumo, com destaque para os pontos altos do artigo, para a imprensa -, ainda comi bola. Tomamos todo o cuidado para afirmar que associamos subtipos mais recentes a redes sociais diferentes, e que não os relacionamos com a transmissão sexual, mas deixamos o dado errado de que os testes em bolsas de sangue foram implantados em 1990. Na verdade, as bolsas de sangue começaram a ser testadas em 1993, como dissemos no artigo.
Ou seja, mesmo sendo escrito pelos autores do artigo, o press release já distorceu um pouco a informação.
A imprensa
Com muito orgulho, tivemos o nosso artigo divulgado na Folha de São Paulo e na Agência Fapesp. E lá ocorreram os próximos passos de distorção:
Na Folha:
Hepatite C é ligada a jovens que fazem sexo com muitas pessoas
O “relacionamos subtipos mais recentes com pessoas mais novas e com mais parceiros” virou “Hepatite C é ligada a jovens que fazem sexo com muitas pessoas”. Normal, um artigo de jornal tem outro tipo de conotação e é muito mais desenhado para chamar a atenção do público do que um artigo científico. No mais, o texto segue muito bem e deixa claro o tipo de associação que encontramos:
“Não existe confirmação de que a relação heterossexual possa transmitir hepatite C. Mas observamos uma maior incidência de um subtipo do vírus entre pessoas com mais parceiros”, diz Romano.
Na Agência Fapesp, foi um pouco mais complicado (grifo meu):
O estudo mostrou que o subtipo 1b do VHC é o mais antigo e avançou mais lentamente que os subtipos 1a e 3a, em múltiplas classes sociais e faixas etárias. Por outro lado, os subtipos 1a e 3a estão associados a pessoas mais jovens, infectadas mais recentemente, com taxas mais altas de transmissão sexual.
Embora o autor do texto tenha vindo ao laboratório e conversado com os autores, acabou ocorrendo o deslize. Normal, é difícil não falar em transmissão sexual com os dados que apresentamos, e minutos após contatarmos o autor o texto já estava reparado.
Mas os minutos antes do reparo foram suficientes para que o exército do Ctrl+C Ctrl+V propagasse o erro por diversas agência de notícia, como o Correio do Brasil e mesmo o Estadão.
Aliás, o UOL dá uma imagem mais clara do que acontece. Assinando a notícia como “Da Redação”, foram capazes de manter o seguinte trecho:
mas nós optamos por uma amostra aleatória”, explicou Zanotto à Agência Fapesp.
No mínimo, quem copiou o texto não leu o que estava escrito. Caso contrário não teriam mantido a assinatura.
Até aqui, quem reproduziu a notícia e leu o artigo foram apenas os jornalistas da Agência Fapesp e da Folha.
A crítica
O mesmo problema de tratar do assunto sem ler o artigo em questão aconteceu no site de um grupo de apoio a portadores de Hepatite, o Hepato.com. Um trecho da crítica (grifo meu, novamente):
O artigo já começa desconhecendo o assunto. No primeiro parágrafo da matéria e colocado que a hepatite C e uma doença incurável. Lendo a integra da pesquisa publicada na PloS ONE eles colocam que desde 1990 o
sangue e testado no Brasil, quando na realidade deveriam ter se informado que o teste nos bancos de sangue aconteceu no final de 1992 e 1993.
Falam ainda que os casos de hepatite C estão aumentando e para tal, erradamente, estão se baseando no diagnostico de casos crônicos. Ora bolas! Para se saber se existem novos infectados, se a doença está se propagando, devem ser analisados casos agudos, pois somente eles podem ser validos para assegurar quem se infectou recentemente. Qualquer profissional de saúde sabe disso.
Fazem ainda uma ilação entre o genótipo 1-a e a transmissão sexual. Ora bolas novamente! O genótipo 1-a e comum em São Paulo. Porque o relacionar com atividade sexual se na mesma pesquisa eles encontram que a maioria utilizou drogas. Tiveram o mínimo cuidado de pesquisar se tais indivíduos utilizaram instrumento de manicure, se foram ao dentista, se tomaram vacinas na infância quando as seringas eram de vidro, etc. etc.?
No artigo, usamos como data para tranfusão de risco quem recebeu sangue antes de 1993, baseamos nosso diagnóstico na diversidade genética viral, independente do caso ser crônico ou não, e não fizemos relação com transmissão sexual. Além disso, todos nossos pacientes tiveram um dente extraído ou alguma pequena cirurgia, e este tipo de risco não foi informativo, como deixamos claro nos métodos. Ou seja, quem escreveu a crítica não leu o artigo também. Mas esperem pela reação popular.
O público geral
Graças à notícia da Folha, pude acompanhar a reação das pessoas pelo Twitter buscando tweets com a palavra chave hepatite. Me digam se não é o final do ciclo:
O que mais chama a atenção é a relação entre Hepatite e quem tem muitos parceiros. Daí a divergências é um pulo.

Começa a sumir a associação e resta apenas o sexo com muitas pessoas. Sexo com muitas pessoas já virou uma atitude comum entre os infectados, apesar de afirmarmos que a relação depende de certas condições. Mas a melhor pérola eu deixo para o final.
Pronto, estabelecemos tudo. Artigo afirma que Hepatite é transmitida sexualmente, tudo foi explicado – claro que o uso de camisinha deve ser promovido e previne muita coisa, mas vamos com calma.
Só posso terminar com esta imagem:

Antibióticos e a falta de controle
Há algum tempo atrás, falei sobre as premissas que estão implícitas em uma
hipótese científica. Agora, vamos ver a importância de se ter um
controle nos experimentos.

Teste de inibição por antibióticos. Cada pastilha branca contém uma concentração de determinado antibiótico que pode impedir a bactéria de crescer, formando os anéis mais transparentes.
Imaginem que eu resolvi partir para a
ciência Globo Repórter (alterna entre saúde/alimentação, ambiente e emprego) e quero desenvolver drogas que combatem o câncer
- como se câncer fosse uma coisa só. Eis que, após um processo árduo de
triagem de compostos, eu encontro uma molécula promissora. Vamos
chamá-la de fator X.
Melhor não, fator X tem conotação de droga que
causa mutações em todo filme. Vamos chamá-la de poção Gummy.
Em
testes com células tumorais em cultura, eu percebo que minha poção
Gummy consegue matar 99% das mesmas. Prêmio Nobel a caminho! Consegui
matar 99% das células tumorais com uma pequena dose de poção Gummy! Vou
publicar um artigo relatando minha descoberta no grande periódico
Tibiriçá News and Chemical Agents.
Mas, um dos revisores me pergunta
qual a letalidade da minha poção Gummy em células normais, não
tumorais. Humm, interessante, esqueci este detalhe…
Ao jogar a poção em um frasco com células normais, descubro que ela
mata 100%. Ok, adiem o Nobel. Patentear água sanitária como
quimioterápico não deu certo.
O que me faltou em meu
experimento? – Além de noção e vergonha na cara? – Me faltou o
controle. Experimentos científicos precisam de algo que os MythBusters
nunca fazem, os controles positivos e/ou negativos. Eles são experimentos muito parecidos com o
que se quer testar e servem para garantir que o efeito observado é causado
pelo proposto, e não por qualquer outra coisa.
Controle
negativo é aquele onde você vai repetir quase tudo o que fez, mas sem o
“princípio ativo” do seu experimento. No meu caso, seria
testar as células tumorais com a água que dissolvi minha poção
meu hipoclorito para ver se apenas a água já não interfere nos
resultados que obtive. Também precisaria testar meu princípio ativo em
outro tipo de célula, normal, para garantir que os efeitos que estou
observando acontecem apenas em células tumorais, e não no corpo todo.
Não que isso seja 100% garantido, quimioterápicos comuns costumam ter
efeito sobre células normais, mas muito mais severos em células
tumorais, de forma que cumprem o seu papel.
E acontece esse tipo de coisa em artigos? Opa, claro:
Resistência
a antibióticos por bactérias é uma das maiores preocupações da medicina
moderna. Bactérias capazes de sobreviver ao tratamento são um problema
crescente, principalmente em hospitais, pois em alguns casos droga
nenhuma é capaz de ajudar o paciente e pouco se pode fazer além disso.
Em um estudo sobre a prevalência de resistência a antibióticos na
China, pesquisadores resolveram buscar o gene da ß-lactamase, uma enzima que degrada antibióticos como a penicilina..
Normalmente, o que se faz é coletar uma amostra – com aquele cotonete
que o povo do CSI usa – e cultivar as bactérias em um ambiente que
contém antibiótico. Assim, quem crescer é resistente. Mas há algumas
desvantagens neste método: só se pode fazer isso com bactérias
cultiváveis, as que não crescem em meio de cultura escapam do teste e,
organismos que tenham crescimento lento podem demorar semanas para
crescer e dar o resultado. Daí a idéia de se detectar o gene de
resistência.
Detectar um gene conhecido é uma tarefa relativamente simples. Basta
sintetizar um pedacinho da sequência do gene conhecido como primer. O
primer vai servir de “semente” para a sequência de DNA que se quer
detectar. Se ela estiver presente na amostra, o primer vai se ligar a
ela e uma polimerase de DNA – enzima que faz a cópia de moléculas de
DNA – vai extender aquela região, que vai ser detectada depois.
A bactéria escolhida foi a Streptococcus pneumoniae,
bem comum em nosso sistema respiratório, mas com potencial para graves
problemas de saúde como pneumonia, meningite e infecções em vários
outros órgãos. Os pesquisadores detectaram uma frequência assustadora
do gene em 91% dos isolados. Assustadora não só pelo grande número,
este gene de resistência nunca havia sido encontrado neste tipo de
bactéria. Os genes foram sequenciados e depositados no GenBank (aliás, ainda estão lá).
Acontece que os pesquisadores esqueceram de um pequeno detalhe. Eles
não realizaram o controle negativo de utilizar uma amostra sem
bactérias para testar se encontravam o gene lá também. Para amplificar
o DNA colhido, eles utilizaram uma enzima chamada Taq polimerase, uma polimerase de DNA de bactéria termófila (Thermus aquaticus, que sobrevive em temperaturas de até 70°C) capaz de aguentar as variações de temperatura utilizadas no procedimento PCR. E ela traz alguns poréns.
Os fabricantes de Taq não utilizam a T. aquaticus para fazer mais enzima, eles inserem o gene da enzima em outra bactéria, a E. coli, muito mais fácil de cultivar. E como eles sabem que a E. coli
possui este gene que inseriram? Junto da Taq, colocam um gene de
resistência a penicilina e adicionam penicilina ao meio de cultura para
impedir outros microrganismos de crescerem. O mesmo gene que foi
detectado em Streptococcus pneumoniae. Exatamente o mesmo. O gene de resistência que encontraram na verdade era um contaminante.
Se eles tivessem utilizado um controle sem bactérias no experimento,
veriam que ainda ocorre a detecção do gene de resistência. Justamente
porque a Taq estava contaminada com ele. E todos os resultados
que tiveram foram decorrentes disso.
Agora eu pergunto, quantos outros
não encontraram genes de resistência por pura e simples contaminação, simplesmente por que não fazem o controle negativo?
Fonte:
Koncan, R., Valverde, A., Morosini, M., Garcia-Castillo, M., Canton, R., Cornaglia, G., Baquero, F., & del Campo, R. (2007). Learning from mistakes: Taq polymerase contaminated with -lactamase sequences results in false emergence of Streptococcus pneumoniae containing TEM Journal of Antimicrobial Chemotherapy, 60 (3), 702-703 DOI: 10.1093/jac/dkm239
Beijo na boca e a hipótese científica
Segundo Colin Hendrie e Gayle Brewer, o beijo na boca surgiu como
proteção: uma forma do homem transmitir para a mulher Citomegalovírus
(um tipo de herpervírus humano, o HHV-5) antes da gravidez. Fetos não
são muito afetados por citomegalovírus se a grávida já teve contato
prévio com ele. Mas se a mãe contrai o vírus durante o período de
gestação, mais de 30% dos fetos morre e os sobreviventes sofrem graves
danos como microcefalia e retardo mental. Assim, o beijo na boca, uma
forma muito comum de transmissão do HHV-5, serviria como exposição prévia
e garante que a mãe não será infectada durante a gravidez. Boa
idéia!… não tão boa assim.
Costumo apresentar aqui no Rainha resultados já prontos, como se fossem
absolutos. Fulano viu, beltrano descobriu, tal coisa funciona assim. E
nunca mostro o tipo de pensamento que está por trás de um dado desse.
Então resolvi fazer isso hoje. Aproveitando que o artigo foi publicado
no Medical Hypotheses que, como o nome diz, apresenta hipóteses, vou desconstruir um pouco o que os autores propõem e mostrar como tudo gira em torno da evolução.
Antes de tudo, para uma característica seja favorecida pela seleção
natural, é necessária uma pressão sobre ela. A morte de quase um terço
dos fetos infectados por uma doença bem distribuída me parece algo bem
razoável, até aqui ok. Mas para a evolução ocorrer também é necessário
tempo. Então faço a primeira pergunta: Há quanto tempo o
Citomegalovírus circula em humanos? Eu não achei esta resposta -
confesso que nem procurei muito – e o autor não mencionou nada sobre
isso no artigo. Sim, pois para que haja a seleção sobre o comportamento
de beijo, imagino que sejam necessárias umas boas gerações, e sei de
vírus que nos infectam há muito tempo e outros pouquíssimo. Qual o caso
desse?
[update] de acordo com o artigo que um amigo do laboratório me passou, o Citomegalovírus Humano deve nos acompanhar desde nossa divergência dos chimpanzés. Os herpesvírus são um caso de codivergência espécie-hospedeiro em primatas, e estiveram presentes sim durante nossa evolução. O que considero o passo mais importante para a hipótese do artigo ser plausível, junto com a possibilidade do beijo ser herdável (mesmo que seja culturalmente). E a consequência disso pode ser vistas em povos que não beijam na boca, já que é esperado que eles também tenham HHv-5.
Supondo que o vírus nos infecte há tempo suficiente, vamos para a
segunda pergunta: beijo na boca realmente é protetor? Para que uma
característica selecionada, ela precisa conferir uma vantagem ao
portador. Se for este o caso, ele deveria ser universal. Os autores
mencionam que 90% das culturas humanas estudadas se beijam na boca. E
nas outras 10%, como é a circulação de citomegalovírus? Se há a
infecção, qual é a letalidade do vírus, é maior? Qual a história
evolutiva do beijo e do vírus, eles coincidem?
“Ah Atila, mas você pode estar deixando de lado outras doenças que
seriam transmitidas pelo beijo além do citomegalovírus, talvez elas
também tenham um papel importante. Podem ser até mais antigas, como
você esperaria.”
Ok, já temos a pressão seletiva sobre o feto e, imaginando que o beijo
realmente confira vantagem, ainda nos falta algo. A característca
precisa ser herdável. Logo, o beijo precisaria ter origem genética.
Antes de sair caçando um gene do beijo, há algumas formas de já ter uma
noção sobre isso: Qual o parentesco das populações que beijam na boca?
Elas são relacionadas, de forma que a característica possa ter surgido
e sido passada adiante? Ou elas não tem relação clara, e o beijo parece
ter surgido de maneira independente em vários locais? Populações que
não beijam podem ser mais informativas, por serem um pouco mais raras.
Qual o caso, nunca desenvolveram o beijo ou desenvolveram e perderam?
Enfim, para a hipótese do artigo fazer sentido, é necessário levar em
conta uma série de fatores importantíssimos. Uma hipótese traz
implícita uma série de premissas, que podem ou não ser possíveis. Para
assumir que o beijo possa ter se desenvolvido como forma de proteção,
precisamos crer também que o vírus está presente tempo suficiente, que
o beijo realmente protege e é selecionado e que ele é herdável. Eu
realmente não acho que seja o caso, e não vi os autores discutirem mais
a fundo no artigo.
Toxoplasmose também é letal ao feto quando contraída durante a gestação
e serena se contraída antes. E é muito difundida no mundo todo. Será
que as pessoas vão ser selecionadas para gostar de gatos e ter mais
contato com eles antes da gravidez? E beijinho, rola?
Post originado de uma dica do Kentaro.
Fonte:
Hendrie CA, & Brewer G (2009). Kissing as an evolutionary adaptation to protect against Human Cytomegalovirus-like teratogenesis. Medical hypotheses PMID: 19828260











