Garanta o futuro de sua carreira científica: crie um currículo online
Um dos motivos recentes para a falta da atualizações aqui foi uma disciplina de Organização e Escrita que estava preparando. Durante o preparo das aulas, reparei em algo que esperava dos alunos e não encontrei: um currículo online. E não me refiro à um perfil no LinkedIn ou qualquer rede do gênero, me refiro a bem mais do que isso.

Independente da carreira que você pretende seguir, e de quão próximo de entrar em qualquer mercado de trabalho, graduação, pós ou outros, ter mais a oferecer online do que algumas fotos no Facebook visíveis pode ser bastante importante. Imagine seu empregador, alguém do RH de uma empresa para a qual você mandou um currículo, ou mesmo o chefe do laboratório onde você quer fazer sua pós graduação procurando por seu nome na web. O que essa pessoa vai encontrar?
Leia mais e conheça pessoas além do seu círculo
Ler blogs e outras fontes de conteúdo que não apenas as tradicionais é uma excelente forma de se informar e de descobrir novas oportunidades. Blogs não só colocam os leitores em contrato com material novo e importante, mas muitas vezes são escritos por profissionais com grande experiência, de maneira que cada texto além de trazer informação nova, traz uma forma de ler ou analisar adquirida com experiência. Ler uma análise de artigo escrita por um pesquisador com anos de experiência é uma forma de pular vários degraus profissionais e adquirir uma postura crítica.
E não é só por conteúdo ou forma de análise que blogs valem a pena. Muitos publicam mais do que pesquisa, e tratam de temas pessoais ou profissionais, como estou fazendo aqui. De maneira que é possível trocar experiências, ver mais gente que já passou pelo que estamos passando e acompanhar a discussão, ou mesmo avaliar uma área profissional antes de embarcar nela.
Mais do que isso. Acompanhar blogs, e o perfil de profissionais, jornalistas e pesquisadores interessantes em redes como o Twitter ou o Facebook é uma excelente forma de sair da sua área específica e conhecer mais gente. São estas pessoas que, voluntariamente ou não, mais provavelmente podem indicar uma posição profissional, um congresso ou concurso importante.
Como o Barabási discute em Linked, um livro excelente, são justamente as pessoas de fora do seu círculo de amizade próximo que podem trazer os melhores contatos profissionais. Isso porque amigos próximos provavelmente lêem as mesmas coisas e conhecem as mesmas pessoas que você. De maneira que eles estão sabendo das mesmas oportunidades, e muitas vezes podem ser seus concorrentes. São as pessoas de fora da sua área, ou de outra universidade, de outro ano, que vão indicar referências que você não acompanha, que trazem novas oportunidades.
Produza conteúdo online
Escrever, na forma de um blog, um perfil do Twitter, uma página do Facebook ou o que mais for que permita que você assine seu conteúdo pode ser muito importante para sua carreira. O treino que a escrita traz é útil não só para desenvolver a habilidade da retórica. Ele vai vir bem a calhar na hora de organizar e escrever o conteúdo de um trabalho de conclusão de curso ou uma tese – algo que me foi tão útil que criei uma disciplina para passar isso adiante.
Mais do que o treino, produzir conteúdo autoral é garantir que quem procurar pelo seu nome vai encontrar bom material. Se você reparou na imagem que ilustra este post, aqueles são os termos de busca relacionados ao meu nome, em uma busca anônima do Google (para não ter o histórico do meu usuário). Quem procurou pelo meu nome em muitos casos buscava o blog ou meu currículo Lattes. Felizmente, em qualquer dos casos, quem fizer essa busca vai encontrar material.
Ter o blog, um perfil no Mendeley, no Google Scholar, no Twitter, no ResearchGate, aulas no SlideShare e outros é uma forma de criar um currículo virtual, com produção acadêmica, artigos lidos, artigos discutidos e até as apresentações e aulas dadas. Eu tenho como saber, por exemplo, que minha apresentação sobre divulgação científica na Web pelo SciELO teve mais de 15 mil views. O mesmo vale para quem estiver interessado no que produzo – Desculpem a egotrip aqui, mas é o exemplo que tenho à mão.
O que vai para a internet não fica só na internet
Não se esqueça de que tudo, repito com muito cuidado, tudo o que você publica na internet estará disponível para sempre. Suas atualizações de perfil no Facebook, seu perfil no Twitter, emails mandados, fotos compartilhadas (mesmo que com poucos), tudo. Pergunte para a Dieckman. Ou para a garota inglesa de 17 anos que precisa responder pelos tuítes racistas de quando tinha 14.
Por isso, se tudo o que você produz vai continuar na internet, produza algo útil, algo que vai depor a seu favor.
[update]
Caso você tenha se motivado com o texto, aproveite o post que escrevi sobre como começar um blog:
http://scienceblogs.com.br/rainha/2010/10/entao_voce_quer_escrever_um_bl/
E a política de acesso aberto no Brasil?
A postura acadêmica a respeito do modelo tradicional de publicação está mudando, e o Brasil poderia se posicionar muito bem em relação a isso.

Toda indústria da comunicação está sofrendo para se adaptar às últimas tecnologias. SOPA, PIPA, e várias outras tentativas de regular esta mudança dão sinais de que a maneira como consumimos informação está mudando. E tudo indica que a área das publicações científicas estava de fora desta mudança. Estava.
Por mais que a maneira como acessamos artigos tenha mudado, conto nos dedos as vezes em que precisei ir à biblioteca para pegar um artigo. Até bem pouco tempo atrás a única diferença na maneira como consumo informação acadêmica estava no acesso. O sistema de distribuição dos artigos impressiona por se manter quase o mesmo. As bibliotecas e instituições ainda precisa assinar pacotes de revistas das editoras – quem aqui ainda assina jornal ou revista? – e mesmo o que encontramos online ainda quase sempre vem no formato PDF, o que transmite a impressão de que se pudessem, escaneariam a página da revista e mandariam a imagem mesmo. Formatos como epub e outros começam timidamente a serem adotados por editoras. A Nature foi pioneira (em 2010!) por lançar um aplicativo para iphones e ipads com conteúdo otimizado, mas nem se ouve falar no próprio formato epub que ela usa em navegadores para desktops.
Ao contrário das outras mídias, onde autores e participantes são remunerados, e muito bem pagos em alguns casos, publicações científicas remuneram bem pouca gente no caminho. Os autores, muitas vezes financiados pelo dinheiro público, não recebem pelo trabalho enviado. Pelo contrário, em alguns casos precisam pagar mais por páginas extras ou figuras coloridas do artigo. Os revisores, também pesquisadores financiados pelo governo, vão investir considerável tempo para ler e avaliar os trabalhos dos colegas, também sem receber pelo que fazem. A mão de obra remunerada fica por conta dos funcionários das editoras que vão formatar e publicar o artigo, de longe a menor parte do processo. Mas, ao final disto tudo, depois que o trabalho é publicado, as instituições públicas, aquelas mesmas que financiaram os pesquisadores e a pesquisa, ainda precisam pagar pelo acesso aos artigos.
E não são valores baixos. Imagine a situação de um paciente que queira ler o trabalho onde foram publicados os resultados do medicamento que ele está prestes a tomar. Se ele não tiver acesso institucional à revista, através de uma universidade por exemplo, precisa pagar em torno de 40 dólares por um artigo de 10 páginas. Sim, 40 dólares por um trabalho que foi produzido, escrito e revisado com verba pública, e não gera um centavo de lucro para quem o produzir, enquanto uma música que remunera do autor à gravadoras custa 0,99 dólares em um site como o iTunes. Valores altos que faziam sentido em uma época onde a edição era o processo mais caro de um artigo, dada a pequena circulação da maioria das revistas, não são mais realistas com a distribuição online.
Enquanto o custo de distribuição dos artigos diminuiu, uma vez que muitos assinantes consomem apenas a versão online dos artigos, o lucro das editoras é impressionante. Segundo Alma Swan, o preço das publicações subiu quatro vezes mais do que a inflação americana nas últimas duas décadas. Apenas em 2010, a editora holandesa Elsevier lucrou $1,16 bilhões em uma margem de 36% da receita, em um ano de crise. E margens de lucro de mais de 30% parecem ser a regra para editoras acadêmicas, levando a considerações sobre o quanto as editoras estariam na verdade atrapalhando a pesquisa.
A reação contra as principais editoras e o acesso restrito e pago ao conhecimento começou a mudar com a criação do movimento Open Access (OA), que provê acesso aberto aos artigos e deixa o custo da edição e manutenção todo por conta dos autores dos artigos ou de financiamento externo. Modelo esse que não é lá tão novo, mas ganhou diversos adeptos desde 2000. Entre eles uma das iniciativas mais bem sucedidas, a Public Library of Science, ou PLoS, lançada em 2001, que embora se manifeste contra o fator de impacto – outro exemplo de monopólio e uma caixa preta de tratamento de dados da editora Thomson – tem ótimos índices para suas revistas (apesar da torcida contra). O Brasil deu exemplo de iniciativa OA com a implementação do Scielo em 1997, e a maioria das revistas nacionais são de acesso aberto.
Ainda se discute se o fato de um artigo ser de acesso aberto aumenta suas citações, em um trabalho publicado em 2011 Philip Davis colocou aleatoriamente 712 artigos de 2533 em acesso aberto e os acompanhou durante 3 anos, vendo que não foram mais citados do que os outros 1821. Mas este mesmo trabalho mostrou que os artigos de acesso aberto são baixados duas vezes mais pelos leitores, provavelmente de outras áreas – já que não houve aumento de citações. Publicar em acesso aberto significa um retorno imediato para o público do investimento feito. Ao invés de precisar pagar novamente para acessar o trabalho que financiaram, os resultados ficam disponíveis para quem se interessar.
Se o cenário das editoras internacionais já não estava tão bom, este ano só piorou. As manifestações vão de críticas bem diretas à distribuição de mais de 18 mil de artigos em um torrent disponibilizado no PirateBay – imagine o estrago que faria um agregador de torrents de artigos que pudesse ser buscado como o PubMed, até na pirataria o mercado acadêmico está atrasado. O estopim se deu no começo de 2012, com a proposta do Research Works Act, um projeto de lei que basicamente acaba com a resolução do NIH de 2008 de disponibilizar para acesso livre toda pesquisa financiada por ele. Segundo a denúncia de Michael Eisen, professor da UC Berkeley e um dos fundadores da PLoS, uma das autoras do projeto de lei, a congressita Carolyn Maloney recebeu 12 contribuições financeiras da editora Elsevier em 2011.
Depois do estrago feito pela denúncia, as tentativas da Elsevier de se justificar acabaram causando a reação contrária ao esperado. Argumentos como os de que a maior parte do trabalho é feito pelas editoras – ignorando a escrita e revisão dos artigos pelos pesquisadores – fomentaram ainda mais a rejeição à editora. Ao ponto que o matemático Timothy Gowers resolveu deixar de submeter e revisar artigos para a Elsevier, e convidou outros pesquisadores a fazer isso e deixar o nome em um site-manifesto, que durante a escrita deste artigo estava fora do ar devido ao número de acessos. As justificativas dele, o preço dos jornais e a venda casada e forçada de títulos inúteis junto de jornais importantes apenas somam ao Research Works Act, e mostram um descontentamento de longa data.
Aqui no Brasil, muito poderia ser feito sobre isso. Grande parte do dinheiro investido em pesquisa é público [obrigado pelo link, Takata], e vem de agências governamentais, que regulam sua aplicação e avaliam os pesquisadores. São exatamente estas agências que poderiam orientar os pesquisadores a publicarem em jornais de acesso aberto. Pelo menos nos casos em que o impacto da revista é similar ao de alternativas de acesso restrito, quando não há alternativa para jornais como Science, Nature, Cell, etc. Economicamente, é uma alternativa que se paga. Por mais que precisem ser pagos pelos pesquisadores, artigos de acesso aberto saem mais barato para serem acessados, enquanto a assinatura de revistas pela Capes gera um custo anual de 40 80 milhões de dólares [valeu, Fábio] e disponibiliza o conteúdo apenas para as instituições credenciadas.
Publicar em revistas internacionais de acesso aberto no Brasil não é algo tão simples. Quem não pode recorrer rapidamente a órgãos como a Fapesp e depende de verba aprovada em longos processos de editais, não chega ao final de um projeto com $1000 a $4000 para pagar a publicação do(s) artigo(s) gerados. – E mesmo na Fapesp á um pouco trabalhoso conseguir a verba para publicar, já recebi a resposta de que uma revista que não é impressa não poderia cobrar custo de impressão, mas acabaram pagando a PLoS. Verba que poderia ser alocada com esta finalidade logo no início do projeto. Mil dólares em um projeto de 20 a 400 mil reais não é um custo alto, especialmente considerando que a publicação do artigo é o maior retorno maioria dos casos. Economizar menos 1% da verba de pesquisa para publicá-la é bastante contraditório, ainda mais quando ele ficará indisponível para o público e precisará ser pago pela Capes para que seja acessado.







