Pequenos predadores, grandes presas

Semanas atrás, o vídeo do pequeno besouro da espécie Epomis dejeani me deixou bastante impressionado. Filmado por pesquisadores israelenses interessados na interação deste inseto com sapos, frequentemente encontrados juntos no ambiente, ele se mostrou capaz de matar com veneno e comer um animal muito maior do que ele. Me dei conta do quão impressionante é ver um vertebrado sendo comido por um artrópode, invertendo pouco a relação predador-presa com a qual estamos acostumados.

Então, para diversão geral, em um momento Youtube que há tempos não acontecia aqui no blog, aqui vão alguns artrópodes predadores capazes de comer presas muito maiores do que eles, em vídeo:
Aranhas Nephila
Este grupo de aranhas é famoso por tecer teias extremamente resistentes, onde as fêmeas conseguem prender animais muito maiores do que seria de esperar. Esta do vídeo é uma espécie australiana (claro que tem que vir de lá) capaz de comer pássaros. Os machos, por outro lado, são muito menores e têm comportamentos sexuais bastante interessantes, que já tratei aqui. Algumas são capazes de pegar inclusive morcegos.

Lembro que no corredor do prédio da Zoologia, no Instituto de Biociências onde estudei, algumas Nephila faziam teias que desciam do teto, e quem batesse nelas não rasgava a teia não. Em algum ponto da minha graduação acabaram removendo as teias, e dizem que arruinou um projeto de mestrado. Aliás, as teias são tão resistentes e compatíveis com tecidos biológicos que estudam usar o material para cirurgias.

Aranha Golias
A aranha-golias-comedora-de-pássaro é uma tarântula amazônica, considerada a maior de todas (se não a maior, certamente a mais pesada). Apesar do que o nome diz, ela não costuma comer pássaros, mas não dispensa pequenos rodedores, lagatos e até mesmo cobras. Não é lá um predador pequeno para seguir o título do post, veja o tamanho dela na mão do apresentador aos 57 segundos.
Menção honrosa
Claro que eu não podia deixar de fora meus insetos favoritos, por mais que não predem vertebrados, as vespas parasitóides. Por mais que as Nephila e as tarântulas sejam grandes e comam presas maiores ainda, ambas podem ser vítimas das vespas. Seja as vespas falcão caçadoras de tarântulas, que as paralisam com uma ferroada para depositar um ovo e enterrar a aranha viva como comida para sua larva; ou as vespas parasitóides, que depositam ovos nas costas das Nephila ainda na teia, que são escravizadas posteriormente para tecer a teia que serve de casulo para a larva que a devora.

Parasitoides em ação, aranhas sob comando

Sabendo da minha predileção por vespas parasitóides, a Luciana Fernandes do INCT Hympar (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitóides da Região Sudeste Brasileira [ufa!]) me mandou este vídeo recém produzido pelo instituto.

Trata-se de uma vespa Hymenoepimecis bicolor e a aranha Nephila clavipes, nossa versão nacional da relação que já tratei aqui, onde a larva da vespa suga a aranha de fora e quando chega no último estágio de desenvolvimento obriga sua hospedeira a fazer uma teia especial onde ela pode produzir o casulo onde sofrerá metamorfose.
Vídeo perfeito para quem estiver dando aula sobre relações ecológicas, didático e bem narrado, garanto muito mais interesse do que o pássaro paliteiro. Aquele ovopositor enorme entrando na boca da aranha e em seguida no abdome é inspiradora para qualquer roteirista de filmes de terror.
Ah, e para quem torce pela aranha, assista até depois dos 7 minutos.

Parasitas em imagens

Estava na dúvida sobre o que escrever, então resolvi apelar para um assunto recorrente. As vespas parasitóides, claro:

Esta bela e gorda lagarta não está decorada à toa. Cada algodão daquele pendurado na Maduca sexta (a lagarta da folha do tabaco) é um casulo de uma vespa Cotesia congregata.
Cada vespinha foi depositada com cuidado dentro da lagarta e, com a
ajuda de um vírus simbionte que destrói a resposta imune da lagarta,
elas cresceram durante cerca de 14 dias liberando compostos que castram
a Manduca e a fazem continuar no estágio de larva se alimentando e incapaz de sofrer metamorfose. Em alguns dias novas vespinhas adultas emergirão dos casulos.
Isso mesmo, para a Cotesia
invadir a lagarta, ela utiliza um vírus que destrói as defesas do
hospedeiro. Talvez diga também que é um príncipe herdeiro que precisa
de uma conta para depositar seus ovos. Ou que achou fotos íntimas da Manduca e que basta ela clicar no meusovos.exe.

©Dong-Hwan Choe Enciclopédia da vida.

Já estas três vespas simpáticas não estão coversando nem se encarando.
São fêmeas depositando ovos. Que ovos? Onde? As mamães buscam larvas de
besouro da madeira Phoracantha recurva, que estão se alimentando dentro tronco de árvore que está sob elas, para depositar seus ovos.
Mais do que isso. As mães sabem a qualidade da larva em que estão pondo ovos,
e nas larvas mais novas, com cerca de 2 semanas, colocam apenas ovos de
machos, que são menores e requerem menos recursos para crescer. Já em
larvas mais velhas, como 5 semanas, preferem colocar mais ovos de
fêmeas, que são maiores. Por aquele buraquinho na madeira.

Mais vespas parasitas

Desta vez, dois insetos já conhecidos aqui no blog, vespas e pulgões:

Neste vídeo da NatGeo, pulgões comem plantas, que para se defender soltam compostos químicos voláteis que atraem vespas parasitóides – nada muito estranho, para quem já leu este post.

As vespas parasitóides depositam os ovos dentro dos pulgões, onde suas larvas vão se desenvolver e sofrer metamorfose – também não é estranho para quem viu este vídeo. Depois de madura, a vespinha abandona o pulgão morto.

Aproveitando o post para levantar uma discussão que não fiz antes: Como a planta sabe chamar a vespa?

Ela não sabe. Eis aqui o provável caminho:
Vespas parasitóides que por acaso nasceram com a capacidade de detectar o cheiro de uma planta sendo mastigada, acharam mais presas e tiveram mais filhos. Logo, todas as vespas daquela espécie eram capazes de reconhecer o cheiro daquela planta sendo devorada. Se você acha isso difícil de acontecer, pense na água na boca que você tem quando sente o cheiro de picanha (eu, pelo menos, salivo bastante).
Logo, outras plantas que também por acaso foram capazes de liberar os mesmos compostos quando devoradas também foram recompensadas. Afinal, seus predadores misteriosamente morriam, e elas podiam se reproduzir mais.

Isso abre caminho para que mais plantas liberem mais compostos e atraiam mais tipos de predadores. Evolução é o caminho para a diversificação.

O vídeo foi retirado do site do Hympar, o Insituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitóides (as vespinhas que eu tanto gosto) da Região Sudeste, que tem bastante material legal, e inclusive linka este blog.

In Utero

A National Geogrephic lança neste dia das mães um especial sobre o desenvolvimento de alguns animais. Pena que é lá fora, e eu não tenho tevê por assinatura. E adivinhem qual o animal que mais gostei de ver se desenvolvendo?

Claro que foi a vespa parasita! Com câmeras especiais, conseguiram filmar o desenvolvimento da larva de uma espécie de vespa parasitóide dentro da lagarta. Não satisfeitos, ainda filmaram as larvas saindo de dentro da lagarta (você não comeu agora a pouco né?) e fazendo com que a lagarta atacada proteja as vespinhas em desenvolvimento de outras vespas que podem parasitá-las. Sim, é um mundo de vespa parasitando vespa lá fora.

Para entender o que está acontecendo com a lagarta, recomendo este post. Também tem mais sobre vespas, com a vespa que transforma a barata em zumbi, a que faz a aranha produzir uma teia só para ela, a que parasita a borboleta parasita e a que se aproveita do sexo dos outros, e aprende com o cheiro. E ainda há muitas outras sobre as quais blogar!

Aproveite que a resolução do vídeo é boa, e veja em tela cheia.

Para mais, visite o site da NATGEO.

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