A natureza da homossexualidade e os comentários de @EliVieira e @IzzyNobre

Um exemplo de comportamento aprendido pela depravação que passa na TV Serengueti.

Foi impossível não tomar conhecimento (e não me indignar) de uma grande exposição de opinião preconceituosa e ignorante contra homossexuais veiculada recentemente. O cerne da discussão foi a noção de que homossexualidade é um comportamento adquirido, e não herdado, e como tal poderia ser evitado ou prevenido. Como se isso fizesse alguma diferença ou, pior ainda, como se isso dissesse respeito a alguém que não os homossexuais. Mas vamos aos fatos.

Homossexualidade é natural e comum, e pode ser favorecida pela evolução

Homossexualidade é um comportamento com forte influências genéticas, que parece ser herdável, e é encontrado em diversos outros animais. Como já discuti em 2009 no Papo de Homem, diversos outros animais praticam sexo homossexual, em uma parte ou durante toda sua vida. E as evidências de como o cérebro de homossexuais funciona apontam para diferenças fisiológicas no interesse por indivíduos do mesmo sexo e do sexo oposto.

Quem discute bem isso e aponta diversos estudos combatendo cada argumento ignorante é o Eli Vieira, biólogo e autor do Bule Voador, do Evolucionismo e da Liga Humanista.

Quanto à implicação do parágrafo anterior e do vídeo, como a evolução favorece ou mantém na natureza um comportamento que diminui as chances de reprodução, recomendo novamente o texto no Papo de Homem, em especial o seguinte trecho:

Supondo que exista um gene que determine a orientação gay (mais adiante discuto as chances disso ser verdade), ele deve beneficiar alguém para que seja passado adiante. Uma situação pode ser o valor do heterozigoto, ou seja, a vantagem está no portador de apenas um alelo da característica, e o portador de dois alelos é prejudicado – de novo, em termos evolutivos.

Como recebemos material genético do pai e da mãe, seria o caso de um homem portador do gene “gay” de apenas um dos pais ser beneficiado, enquanto o homem que herda o gene de ambos sai em desvantagem. Outra pode ser o benefício para apenas um dos sexos, uma competição de interesses. Se for uma característica presente no cromossomo X por exemplo, ela pode trazer vantagens para mulheres, que portam duas cópias do cromossomo (XX), enquanto nos homens , que portam uma só (XY) é desvantajosa.

Se a homossexualidade é natural ou não, isso não lhe diz respeito

Estava pensando em escrever sobre o direito dos homossexuais, das implicações do comportamento ser natural ou não. Mas não tenho por que falar disso. Por um simples motivo. Isso não me diz respeito. Não diz respeito ao pastor também. E não diz respeito a quem opina ou legisla contra o direito de homossexuais se casarem. Isso só diz respeito aos homossexuais.

Discutir se homossexuais podem ou não exercer sua orientação é a mesma coisa que discutir se humanos tem ou não direito de serem humanos. Se duas pessoas querem estar juntas, consensualmente, dois adultos responsáveis, por exemplo, isso diz respeito só a eles. Eu não tenho o direito de permitir ou não que eles se casem ou se beijem, assim como eles não tem o direito de acabar com o meu casamento. Isso não é um direito que precisaria ser adquirido. Nas palavras (fortes) de Louis C. K.:

A noção de que homossexualidade é algo errado ou condenável é extremamente nociva. Não só por abrir espaço para que a homofobia cresça e crimes como o espancamento de jovem que “parecem gays” seja visto como algo aceitável. É nociva por dizer a crianças e adolescentes que estão crescendo e se descobrindo homossexuais que aquilo é errado, que é pecado e deveria ser evitado. O caminho para uma vida deprimida e miserável, tentando evitar sua natureza.

Nesse sentido, acho o vídeo do Eli especialmente importante. Não por rebater uma entidade que se alimenta da ignorância e da miséria humana, material farto no Brasil. Mas por mostrar para quem busca uma orientação que existe sim uma base natural para o que sentem, que aquilo é comum, aceitável, e não há nada de errado nisso. Quem argumenta que homossexualidade é um comportamento aprendido, e por isso cada vez mais comum, não entende que isso na verdade é um reflexo do aumento de nossa tolerância, e de que as pessoas finalmente estão podendo expressar sua preferência.

Gosto muito da noção compartilhada por Steven Pinker em seu livro The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined, de que estamos mudando como sociedade para uma postura mais humanista, onde estendemos [brigado, Diego!] os direitos para todos à nossa volta. Não toleramos mais violência como antes (vide os desenhos e filmes da década de 80), respeitamos muito mais o direito dos animais e nosso círculo de empatia se estende cada vez mais. Até máquinas podem despertar nossa compaixão, mesmo quando elas são grossas.

Então, quem sabe, como diz o Izzy Nobre, esse grito preconceituoso e desesperado por atenção não se cala nos próximos anos.

A aranha mais nerd

Aranha Portia fimbriata

©vipin baliga

ResearchBlogging.orgSalticidae é uma família de aranhas muito inteligentes (para alguém com o cérebro daquele tamanho). São caçadoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem caçar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da visão, daí os olhos enormes, e acabam adotando comportamentos bem ricos. Agora, se elas já são predadores bastante inteligentes, como seria uma aranha que caça esses predadores (uma aranha araneofágica)? Conheça as aranhas Portia, e por que elas são chamadas de gatos de oito olhos [link para pdf].

Portia é um gênero de aranhas saltadoras (também são Salticidae) com cerca de 20 espécies conhecidas, que são especialistas em caçar outras aranhas, especialmente membras da mesma família. Ocorrem na África, Ásia e Oceania, para meu desapontamento. Para poderem caçar, adotam uma série de táticas bastante complexas, sendo capazes de classificar o tipo de presa e responder de acordo, o que as coloca entre os invertebrados mais inteligentes.

Para atacar outras Salticidae, as estratégias das Portia são únicas. Algumas Portia podem fazer teias, e manter os insetos pegos para atrair outras saltadoras. Outras partem ativamente para a caça, quando sua camuflagem vem a calhar: se a Salticidae que está caçando a vê, a Portia congela seus movimentos, e encolhe seus palpos e patasse camuflando de detrito para uma vítima que depende da visão, podendo até simular movimentos causados pelo vento. O que não se comparar com as táticas que adotam em situações mais delicadas. [1]

Atacando em território inimigo

Um dia de caça típico da Portia fimbriata, simpática espécie acima, serve de exemplo do que elas são capazes de fazer. Uma das presas que esta espécie ataca é a aranha de teia Argiope appensa, que pode ser muito maior do que ela. Mesmo sem nunca ter visto uma aranha Argiope a P. fimbriata sabe o que fazer quando encontra sua teia. Ela pisa com cuidado em um dos fios, e começa a fazer uma série de vibrações diferentes – a maioria das aranhas de teia são quase cegas, e o sentido que mais usam é o tato – em intervalos até encontrar a vibração que atrai a dona da teia para seu ataque (algumas espécies podem fazer isso por dias). Se ela reage, a Portia continua com aquele estímulo. Caso contrário, volta a variar seus sinais, até receber resposta novamente. A P. fimbriata australiana pode inclusive imitar movimentos da fêmea da espécie na teia, para atrair o macho.

Por vezes, ela pode resolver subir pela teia para atacar sua dona. Mas só quando houver vento ou outra condição que vibre a teia e mascare seu movimento ninja caminhar pelos fios, para que ela não se torne a presa. Nem sempre a Argiope é pega desprevenida, ela pode chacoalhar a teia com força se perceber a Portia, ou mesmo atacá-la. Nestes casos a P. fimbriata pode partir para um ataque muito mais hollywoodiano. Ela caminha ao redor da teia, muitas vezes perdendo contato visual com a presa e fazendo contornos que podem levar mais de uma hora, para se posicionar exatamente acima da vítima e descer por um fio para o grande ataque. Sim, a Portia pode julgar que este ataque é mais eficaz, planejar toda uma rota, e seguir em um comportamento longo e complexo para completar seu objetivo. [2]

O vídeo abaixo mostra o comportamento de imitação em presas e o ataque planejado, com direito a close nos olhos de vilão do mal (uma versão mais curta que não consegui embedar está aqui):

E este não é o único exemplo de tomada de decisão complexa. A espécie Portia labiata das Filipinas demonstra muito bem esta capacidade. Na região de Los Baños, ela encontra e caça aranhas cuspideiras da espécie Scytodes pallidus. As Scytodes também são araneofágicas, e secretam um misto de teia e veneno pelas quelíceras que é lançado sobre as presas (daí o nome cuspideira), grudando-as. Assim, para caçar esta cuspideira especializada em aranhas saltadoras, a P. labiata precisa de uma tática especial. As P. labiata desta região se aproximam de teias de Scytodes e provocam vibrações, mas não fazem o ataque direto. Elas normalmente fazem a volta e tomam o caminho mais longo para atacar a cuspideira por trás, e evitar a extremidade que lança a cola. Portia da mesma espécie mas de outra região, não fazem isso e são mais facilmente mortas pela Scytodes. E seu repertório pode ser ainda mais diverso: se a Scytodes dona da teia for uma fêmea carregando uma bolsa de ovos com a boca, o que diminui muito as chances de ela cuspir teia, a P. labiata de Los Baños adota o comportamento mais curto de atacar diretamente. [3]

Tomada de decisão, classificação de presas, acuidade visual e leitura para diferenciar um inseto preso na teia da aranha, e para diferenciar uma fêmea carregando ovos ou não… acabo de eleger as Portia como saltadoras mais nerds, escolher meu gênero predileto de Salticidae.

 

Fontes:

[1] Clark, R., & Jackson, R. (2000). Web use during predatory encounters between Portia fimbriata, an araneophagic jumping spider, and its preferred prey, other jumping spiders New Zealand Journal of Zoology, 27 (2), 129-136 DOI: 10.1080/03014223.2000.9518218

[2] Wilcox RS, Jackson RR (2002). Jumping spider tricksters: deceit, predation, and cognition. In: Bekoff M, Allen C, Burghardt G (eds) The cognitive animal. MIT Press, Cambridge, Mass., pp 27–33 [pdf]

[3] Jackson RR, Pollard SD, Li D, & Fijn N (2002). Interpopulation variation in the risk-related decisions of Portia labiata, an araneophagic jumping spider (Araneae, Salticidae), during predatory sequences with spitting spiders. Animal cognition, 5 (4), 215-23 PMID: 12461599

Esquilo suicida? Nem perto

 

Se você achou muito extrema a atitude tomada pelo esquilo aos 20 segundos e, como alguns dos que vi compartilhando o vídeo, pensou que o esquilo estivesse tentando se matar, fique tranquilo. Como descrevi neste post, a gravidade é um problema mortal apenas para os grandes animais. Os pequenos podem até aproveitar a queda para planar.

Como o volume corporal aumenta mais rapidamente do que o tamanho, animais maiores possuem muita massa para uma pequena área absorver o impacto de uma queda. Já para animais pequenos, a massa menor é distribuída sobre uma área proporcionalmente maior, que pode absorver o impacto sem grandes problemas. Para o esquilo, mesmo quedas de alturas muito grandes têm pouco impacto. Vide a severidade dos machucados em gatos, que acima de nove andares diminui:

Vi o vídeo primeiro no Chongas.

Mais aranhas pavão (e pr0n de aranhas)

Sim, mais um vídeo com aranhas pavão macho. Simplesmente por que não resisto a aranhas saltadoras tentando impressionar as fêmeas, ainda mais quando são tão coloridas.

Desta vez temos mais ação. Fruto do trabalho de Jürgen Otto (autor do vídeo) e David Hill, que estudam este gênero de aranhas australianas. No começo, vários machos mostrando seus talentos, abrindo e agitando o abdômen iridescente enquanto agitam o terceiro par de patas – o único par com meias – e chacoalham os pedipalpos.


Acho muito curioso o paralelo de demonstrações de cores e movimentos das aranhas saltadoras, que dependem muito da visão para caçar, com comportamentos similares em aves. Pouco depois, podemos ver o medo de um macho de meio centímetro que precisa conquistar uma fêmea maior do que ele (marrom, no vídeo), e mais do que acostumada a atacar pequenos artrópodes que se aventurem na frente dela. Depois da conquista, o macho usa seu pedipalpo para inserir o esperma na fêmea.

Vídeo via io9, que pegou do boingboing via Bug Girl

Um review bem recente gênero, de autoria de Jürgen Otto e David Hill, com a melhor coleção de figuras de um artigo que já li está disponível aqui. [pdf]

Formiga planadora

 

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Cephalotes atratus ©Alex Wild

 

Para uma formiga arborícola no alto, cair de mais de 20 metros de altura significa uma boa escalada tronco acima, sem contar a chance de não achar de novo a árvore de onde partiu. Qual a melhor solução para evitar isso? Planar de volta para o tronco antes de chegar ao chão. Pelo menos é o que a Cephalotes atratus consegue.

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Cephalotes atratus caindo ©Alex Wild

Segundo o Cais de Gaia, o entomólogo Stephen Yanoviak descobriu isso (e publicou aqui) quando estava coletando insetos no alto de uma árvore e jogou algumas formigas para baixo para se distrair, e viu que elas planavam de volta para o tronco – passa tempo predileto de qualquer um em um lugar alto que vê uma formiga inocente passando. Veja no vídeo abaixo a comparação entre uma formiga comum e a formiga planadora, como ela localiza o tronco e plana de volta.

 

 

Essa capacidade de planar virou tema de estudo, já colocaram inclusive a C. atratus em um tunel de vento para ver como ela usa as patas de trás para controlar o vôo – que nas palavras de Woody, não é vôo, é cair com estilo. Aqui algumas tomadas da queda assistida.

 

Para mais formigas e curiosidades sobre elas, recomendo este post.

Continuo amando as Salticidae

Vê a formiga estranha, pensa… pensa… Ah, é uma teia no chão! Aí vem o final, surpreendente.

Via Haznos, nos itens compartilhados do Ivo Neuman

Pequenos predadores, grandes presas

Semanas atrás, o vídeo do pequeno besouro da espécie Epomis dejeani me deixou bastante impressionado. Filmado por pesquisadores israelenses interessados na interação deste inseto com sapos, frequentemente encontrados juntos no ambiente, ele se mostrou capaz de matar com veneno e comer um animal muito maior do que ele. Me dei conta do quão impressionante é ver um vertebrado sendo comido por um artrópode, invertendo pouco a relação predador-presa com a qual estamos acostumados.

Então, para diversão geral, em um momento Youtube que há tempos não acontecia aqui no blog, aqui vão alguns artrópodes predadores capazes de comer presas muito maiores do que eles, em vídeo:
Aranhas Nephila
Este grupo de aranhas é famoso por tecer teias extremamente resistentes, onde as fêmeas conseguem prender animais muito maiores do que seria de esperar. Esta do vídeo é uma espécie australiana (claro que tem que vir de lá) capaz de comer pássaros. Os machos, por outro lado, são muito menores e têm comportamentos sexuais bastante interessantes, que já tratei aqui. Algumas são capazes de pegar inclusive morcegos.

Lembro que no corredor do prédio da Zoologia, no Instituto de Biociências onde estudei, algumas Nephila faziam teias que desciam do teto, e quem batesse nelas não rasgava a teia não. Em algum ponto da minha graduação acabaram removendo as teias, e dizem que arruinou um projeto de mestrado. Aliás, as teias são tão resistentes e compatíveis com tecidos biológicos que estudam usar o material para cirurgias.

Aranha Golias
A aranha-golias-comedora-de-pássaro é uma tarântula amazônica, considerada a maior de todas (se não a maior, certamente a mais pesada). Apesar do que o nome diz, ela não costuma comer pássaros, mas não dispensa pequenos rodedores, lagatos e até mesmo cobras. Não é lá um predador pequeno para seguir o título do post, veja o tamanho dela na mão do apresentador aos 57 segundos.
Menção honrosa
Claro que eu não podia deixar de fora meus insetos favoritos, por mais que não predem vertebrados, as vespas parasitóides. Por mais que as Nephila e as tarântulas sejam grandes e comam presas maiores ainda, ambas podem ser vítimas das vespas. Seja as vespas falcão caçadoras de tarântulas, que as paralisam com uma ferroada para depositar um ovo e enterrar a aranha viva como comida para sua larva; ou as vespas parasitóides, que depositam ovos nas costas das Nephila ainda na teia, que são escravizadas posteriormente para tecer a teia que serve de casulo para a larva que a devora.

Resenha: A Vida Imortal de Henrietta Lacks

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Henrietta Lacks, nascida em 1920, desenvolveu um tumor cervical que mudaria o entendimento de muita coisa na biologia. As células extraídas de sua biópsia ainda estão vivas, e com certeza são muito mais numerosas hoje do que quando ela era viva, até 1951. Já escrevi sobre as células HeLa (nome derivado de suas iniciais) e sua importância aqui.  Mas a história de Henrietta e sua família é muito mais rica do que suas células, e grande parte desta noção seria perdida sem o livro de Rebecca Skloot A Vida Imortal de Henrietta Lacks.
Rebecca_skloot_2010.jpgRebecca, na foto à esquerda, é uma escritora (qual o termo correto para science writter?) com formação em ciências, que queria contar a história de Henrietta desde que ouviu sobre células HeLa aos 16 anos. A Vida Imortal é seu primeiro livro, e consumiu 10 anos  (e um casamento, nas palavras dela) para ser escrito, principalmente porque ela precisou contatar seus familiares e fazer grande parte do levantamento de material com a filha mais nova de Henrietta, Deborah.
Para começar, nem ela nem sua família souberam do destino de suas células. Seus filhos só foram informados do acontecido no começo da década de 1970, por puro interesse, quando se cogitou estudar o conteúdo genético da família Lacks por causa das células. E mesmo assim foram mal informados. O marido de Henrietta, David Lacks mal havia cursado o ensino fundamental, e ao ser informado sobre as células HeLa, sem fazer idéia do que era uma célula, entendeu que sua mulher havia sido mantida viva pelos últimos 20 e poucos anos, sendo utilizada como cobaia em diversos laboratórios para todo tipo de teste.
Rebecca conta em seu livro a dificuldade que foi conseguir encontrar os filhos de Henrietta, em grande parte pela forma com que foram sempre tratados pela mídia e por cientistas, muitas vezes ávidos por fazer perguntas, mas sem paciência nenhuma para explicar o que faziam com as células de sua mãe. Muito pobres e com pouca educação, nunca lucraram com todo o uso comercial que foi feito com as células HeLa. Milhões em vendas de células e reagentes, sem contar os produtos desenvolvidos graças aos testes que elas permitiram.
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Henrietta, em uma das poucas fotos dela que se conhece.
A narrativa do livro segue duas frentes, uma descrevendo o rumo que as células de Henrietta tiveram, entre seu isolamento, a doação para milhares de pesquisadores que obtiveram inúmeros achados, e tiveram até outras culturas contaminadas e dominadas pelas sempre crescentes HeLa. A outra, descrevendo a aventura da autora e de Deborah para descobrir mais sobre sua mãe e sua família, inclusive o destino de uma irmã com problemas mentais que havia desaparecido após a morte de Henrietta. Uma mistura fantástica de ciência e história pessoal, que com certeza contribuiu para o livro ser um dos mais vendidos nos EUA por semanas após seu lançamento. É uma leitura deliciosa para todo tipo de interesse, científico ou não.
Ao fim, uma ótima discussão sobre bioética, sobre o uso de material biológico derivado de pacientes, e as implicações filosóficas, jurídicas e comerciais. Um livro que levou dez anos para ser escrito, e foi concluído e públicado pouco depois da morte de Deborah. De blogueira e escritora para autora de um enorme best-seller, Rebecca com certeza merece a fama que alcançou, ainda mais impressionante por ser seu primeiro livro. 
Para mim, a melhor leitura “não ciência hardcore” do ano passado. Desde então, tenho usado células HeLa em meus experimentos, basicamente para infectá-las com HIV sem que ele se replique, pois ele não encontra os receptores que precisa na superfície destas células. Não consigo evitar pensar na história do livro toda vez que vejo as iniciais no frasco de cultura, e pensar que muita gente deve cultivá-las sem nem saber o que se passou antes de elas estarem no frasco. Alguém aí conhece a história das células Ghost, que também uso?
Obs: Um documentário da BBC de 1997, The Way of All Flesh, por Adam Curtis, que nas palavras do Kentaro “Se é Adan Curtis, tem que ver.” está disponível aqui. Vale não só pela história de Henrietta, mas também por toda a história da descoberta e do combate ao câncer que ele conta. Pode ser visto aqui embaixo, infelizmente sem legendas. 

O show da aranha pavão

Já falei por aqui desta linda aranha saltadora (tinha que ser australiana com estas cores), que exibe o abdomen para as fêmeas. Mas as imagens não são páreo para o vídeo da dancinha! 

Não ligue para ofato do vídeo ser em inglês. Basicamente, ele mostra machos procurando parceiras, elas observando (são as marronzinhas sem cor), e a dança pela atenção (parecida com um pavão, obviamente). Sei que é estranho alguém ficar empolgado com aranhas levantando as perninhas e abrindo o abdomen, mas me divirto. Aquele jeito de “olha eu!”é impagável. E o medo delas depois…

Via Why Evolution Is True.

John Snow e a transmissão da cólera

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Em 1854 o bairro de Soho em Londres sofreu o mais sério surto de cólera da cidade na história. John Snow, médico inglês pioneiro em técnicas de anestesia com éter e colofórmio, reuniu meticulosamente dados sobre os casos em seu bairro, mapeando as casas atingidas e relacionando os casos com pessoas que haviam bebido água da fonte de Broad Street. Pela primeira vez alguém utilizava dados e mapas para entender e impedir uma infecção.

John Snow basicamente fundou a epidemiologia moderna, indo contra o pensamento corrente na época de que a cólera seria transmitida pelo mau cheiro (teoria do miasma), ao propor que alguma coisa contida nas fezes dos doentes transmitiria a doença quando ingerida junto da água. Isso, claro, antes da idéia de que germes seriam os causadores de doenças infecciosas. Entre ele propor sua teoria em 1849, demonstrá-la diretamente ao fechar a bomba em 1854, e as autoridades londrinas aceitarem sua teoria e impedirem outro surto em 1866, foram quase 20 anos para que suas idéias fossem aceitas.
De certa forma, é mais uma história que ilustra como a ciência leva tempo para aceitar novas idéias, e como teorias correntes dificultam este processo. Um pioneiro propondo algo importantíssimo que não foi levado a sério, e depois de aceito acabou revolucionando a maneira como compreendemos uma questão. 
Este é um dos argumentos mais usados por quem propõe “ciência alternativa” como homeopatia ou auto-hemoterapia: cientistas estão ocupados demais com suas teorias correntes para aceitar algo inovador. O que não se menciona é que Snow precisou de muito embasamento para sua teoria. Precisou utilizar dados estatísticos sobre o número e local de doentes e mortos, precisou da ajuda do reverendo Henry Whitehead para traçar as condições e hábitos dos moradores locais e precisou mostrar como o poço havia sido contaminado para mostrar que a água podia transmitir cólera. Ele chegou ao ponto de mapear a distância a pé das casas à bomba para explicar locais aparentemente próximos que haviam se salvado, e locais distantes condenados. 
Acima de tudo, John Snow teve de mostrar que sua teoria funcionava, e aplicá-la. Criacionismo, homeopatia e outras idéias furadas não são novas teorias que a ciência não aceita. São teorias antigas que não aceitaram o avanço da ciência. Ainda acreditam na mágica do mau-cheiro. Não foram capazes e juntar dados para mostrar o que propõe, muito menos propor maneiras de testar o que se afirma de maneira que sejam refutadas ou não.
Deixando de lado o miasma, acompanhem a palestra do TED (legendas em PT clicando em view subtitles) de Steven Johnson, autor do livro The Ghost Map: The Story of London’s Most Terrifying Epidemic–and How It Changed Science, Cities, and the Modern World onde faz uma ótima descrição de como Snow mudou a maneira de se pensar sobre doenças, e das consequências que vemos até hoje. Recomendo bastante o livro, que não foi lançado aqui.
[atualização] conforme o ze informou nos comentários (obrigado), o livro foi lançado aqui e está disponível.

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