Dia da Terra – Como estão as negociações sobre o clima?

ChargeGylvanNature.jpgCharge disponível em: http://www.nature.com/nature/journal/v455/n7214/full/455737a.html

Hoje, 22 de abril, comemora-se o Dia da Terra. Para celebrar essa data, aproveitei uma pseudo-férias para ir à USP, assistir a um debate que promete analisar as negociações sobre mudanças climáticas, o que já foi feito, o que tem sido feito, o que será feito para as negociações internacionais e as perspectivas nacionais em políticas públicas. 
Na chegada ao debate, no IEA, já tive uma pequena disputa de trânsito com uma fulana que definitivamente não sabe dirigir, num Tucson. Está agora sentada ao meu lado. Espero que ela tenha grandes contribuições para dar sobre o tema, já que deve ser uma pessoa muito consciente sobre suas emissões pessoais de gases do efeito estufa. 
Na mesa de discussões, apenas nomes de respeito: Sérgio Serra, Gylvan Meira, Adriano Santhiago, Paulo Artaxo, Tercio Ambrizzi, José Eli da Veiga e Wagner Costa Ribeiro. Em discussão, o encontro em Copenhagen (COP-15), o mapa do caminho de Bali (COP-14) e os trilhos formados pelos grupos de trabalho AWG-KP e AWG-LCA, as políticas públicas dos EUA, o Protocolo de Kyoto e o segundo período de compromisso a ser assumido pós 2012, G-20 e UNFCCC, entre outros. 
Resumo da ópera: 
+ Há um grupo Ad Hoc discutindo o futuro do Protocolo de Kyoto (AWG-KP) e o segundo período de compromissos, que deverá ser firmado após 2012, quando expira o prazo para as reduções de emissões previstas pelo Protocolo. 
+ Há um outro grupo Ad Hoc discutindo formas cooperativas de ação a longo prazo (AWG-LCA) para mitigar as emissões de GEEs.
+ Todos esperam uma definição dos EUA sobre as políticas em relação às mudanças climáticas, mesmo sem terem ratificado o protocolo de Kyoto. Uma política de “cap and dividend”, será?
+ Há uma esperança de que o G-20 – que contempla o grupo dos países que deve ser responsável por cerca de 82% das emissões de gases do efeito estufa do mundo até 2015 – proponha medidas de mitigação dos gases do efeito estufa além dos objetivos da UNFCCC. [Minha opinião: não vai acontecer.]
+ Infelizmente, mitigação parece ser a ponta do tripé mais discutido entre os delegados da UNFCCC. Adaptação (o que faremos quando as consequências do aquecimento global começarem a ser sentidas?) e vulnerabilidade (quais as regiões mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global?) são os primos pobres dessa discussão.

+ No Brasil, há grandes discussões sobre REDD (Redução das Emissões de Desmatamento e Degradação ambiental), ou seja, uma política de incentivos para redução de emissões de gases do efeito estufa provenientes de desmatamento e degradação ambiental em países em desenvolvimento que fazem correta conservação, manejo sustentável e aumento dos estoques de CO2 em florestas. [Deve-se lembrar que o Brasil está planejando a adoção de uma matriz energética movida a combustíveis fósseis (termelétricas), aumentando a intensidade de carbono da economia, fragilizando nossas posições na UNFCCC].

Basicamente, enquanto os delegados dos mais de 192 países membros da UNFCCC discutem se querem trabalhar com um plano de mitigação, adaptação e vulnerabilidade com base em uma perspectiva de um aumento de 2 ou 4 graus Celsius, o Brasil insiste na política da responsabilidade histórica e os países do G-20 fingem que a crise ambiental merece menos atenção do que a crise econômica, o Planeta Terra esquenta, e a fulana do Tucson dirige por aí sem nenhuma responsabilidade por suas ações pessoais e o aquecimento global faz suas vítimas.

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Discussão - 9 comentários

  1. Luiz Bento disse:

    Mais uma vez Paula, não concordo na afirmação de que a política energética brasileira pode ser resumida apenas a termelétricas. Tenha certeza que não é só isso, lendo o plano nacional do clima e os últimos licenciamentos e medidas do MME. Não vamos pegar uma ação isolada que tem um motivo específico e resumir como política energética do país. Temos que tomar cuidado com essas afirmações…
    Tenha certeza que nossa matriz voltada prioritariamente a hidrelétricas é, com certeza, uma das mais limpas do mundo. É tanto verdade que para reduzir nossa emissão em níveis próximos a dos países desenvolvidos precisamos apenas controlar o desmatamento, nossa maior fonte de emissão.

  2. Também acho que não é falta de grana. Acho que é falta de gente, além da vontade política, como você mesma disse… Uma pena, uma pena… Os voos dos parentes dos deputados bem que poderiam passar por lá, assim, pelo menos, eles prestavam algum serviço público pela mamata…

  3. Daniela Lima disse:

    Bem, não acho que seja por causa de grana,nossa força aérea poderia atuar na área… falta de vontade política… quando os políticos querem, fazem de tudo para defender seus interesses, como o caso do meu estado Santa Catarina, querendo que o código ambiental do estado se atravesse sobre código florestal brasileiro, reduzindo as faixas de proteção da mata ciliar, uma vergonha, postei isso no meu blog hoje http://www.conscienciacomcienciaa.blogspot.com o Vivo Verde tb publicou que o código ambiental de SC chegou na ONU, aiiiiiiii q vergonhaaaaaaaaaaaaaa!!!

  4. Daniela,
    Considerando o número de fiscais do ibama e chico mendes por km2 e as condições precárias dos automóveis e aviões para fiscalização de grandes áreas, acho que encontramos a explicação do porque é tão difícil.
    Fora que, em algumas regiões, mal há governo. Há ainda estruturas coronelistas, votos de cabresto e capitães-do-mato com nova roupagem… triste, mas eu não duvido, não duvido…

  5. Daniela Lima disse:

    O que me irrita é que o governo sabe quem faz as queimadas no Brasil, as regiões e não se vê ninguém preso, punido por isso, será que é tão difícil fiscalizar o nosso próprio quintal?

  6. Eu também fico doida da vida, mas eu entendo porque as negociações são tão complicadas.
    Imagina ter que fazer todos os países membros (cerca de 192) com histórias políticas e situações econômicas completamente diferentes concordarem em alguma coisa?
    Todo mundo deve querer falar, explicar sua situação local, discordar do vizinho, proteger seu crescimento econômico e sua matriz energética… não há reunião que baste!
    Também tenho pressa, mas às vezes fica complicado discutir com 5 pessoas – imagina com mais de 190… Perfeito mesmo seria se cada um se conscientizásse de suas possibilidades e limitações e fizesse a sua parte – o nome disso seria paraíso.

  7. Claudia Chow disse:

    O q mais me irrita nesses “encontros” é q pra mim parece sempre mais do mesmo. Me dá a sensação q tá td mundo esperando alguem fazer alguma coisa e ninguem faz muito efetivamente. Triste!

  8. Eu também chego a duvidar… basta estudar o passado histórico da Ilha de Páscoa. Espero que não cheguemos a tanto…

  9. Davi disse:

    Ótimo repasse com perfeitas análises!
    Adorei o post!
    A crise ambiental realmente tem sido deixada de lado(como sempre) em detrimento de qualquer tipo de turbulência econômica, realmente começo a me questionar sobre a “capacidade adaptativa” do ser humano.

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