É capaz de você já ter ouvido ou lido por aí sobre o mais novo escândalo do momento: a importação de lixo tóxico pela empresa Trafigura. É... é isso mesmo. Importação de lixo tóxico, você não leu mal.
Agradeça às mídias sociais por esse escândalo ter vindo à tona. O jornal britânico Guardian, pela primeira vez na sua história e contrariando os direitos de expressão dispostos em lei na Inglaterra desde 1688, foi proibido de falar sobre o caso. Foram pressões vindas de mídias sociais, como o Twitter - na qual #trafigura figurou entre os Trending Topics - que fizeram o bloqueio a censura cair, permitindo que os jornais britânicos seguissem com as denúncias.
O caso é o seguinte: Trafigura, com sede em Londres, é uma imensa comercializadora de óleo e commodities. A empresa é responsável pela morte e danos a mais de 30.000 africanos contaminados com lixo tóxico no que é chamado o pior desastre relacionado a poluição da atualidade.
Na semana passada, denuncias sobre o escândalo chegaram ao parlamento britânico em forma de uma pergunta sutil e de um relatório (conhecido como Minton report) - e foi aí que o jornal Guardian foi impedido de falar sobre o caso. O relatório dizia como o lixo tóxico de enxofre foi parar na região de Abidjan.
Como aconteceu
O óleo de petróleo, comprado pela Trafigura no México, foi transportado pelo navio Probo Koala, e processado de modo, "porco" e barato - envolvia a chamada "lavagem cáustica" - nos tanques do próprio navio. Esse procedimento faz as impurezas do óleo de petróleo barato mexicano, basicamente derivados de enxofre, separarem-se do óleo tornando-o mais "puro" (e mais caro). Os resíduos de enxofre ficaram dessa maneira acumulados no fundo do tanque do navio e o óleo, pode ser comercializado a preços maiores.
Os resíduos que sobraram no fundo, após a retirada do óleo comercializável, geraram uma forma de lixo tóxico, que após ser analisado em Amsterdan, recebeu uma proposta cara de manejo - não era o lixo tóxico habitual, era muito pior. Descontente com a proposta, o navio foi ordenado a buscar outros portos e seguiu para a África.
Dia 19 de agosto de 2006 o lixo foi deixado em Abidjan. Assim que foi deixado, vários moradores locais começaram uma prática comum a eles: reviraram o lixo em busca de algo com valor suficiente para ser vendido.
O terrível cheiro tomou conta da região. Adultos e crianças morreram vítimas da intoxicação. Outras tantas ainda sofrem as consequências, como perda de seus bebês recém-nascidos. Rios foram contaminados, peixes morreram. Tudo isso para satisfazer a ganância por mais lucros da empresa Trafigura.
O que a empresa diz: Cheira, mas não é perigoso!
Entretanto, em entrevista para a Newsnight, em 2007, o co-fundador da Trafigura, Eric de Turckheim não fica muito confortável com as peguntas: "Por que vocês mandaram o lixo para a África?" ou "Por que vocês mandaram para a África um resíduo que custaria meio milhão de euros para ficar seguro na Holanda?"
As respostas de Turckheim são vagas, e passam por "os resíduos eram apenas água, soda cástica e gasolina, não eram perigosos" ou "Ivory Coast é um ponto de comércio e tem autorização para lidar com os resíduos".
A entrevista vale a pena ser assistida se você entende inglês ou não, só para ver o desconforto do entrevistado - é o terceiro vídeo, nesse endereço.
Saiba mais
BBC News - Dirty tricks and toxic waste in Ivory Coast
Guardian - How UK oil company Trafigura tried to cover up African pollution disaster
Wikileaks - Minton report: Trafigura toxic dumping along the Ivory Coast broke EU regulations, 14 Sep 2006
Cada ação e cada escolha que fazemos, gera uma pegada de carbono. Isso
significa que ao longo do nosso dia deixamos para trás um rastro. Como
deixá-lo mais "verde"? Vamos tentar juntos?
Mulher, bióloga, editora, divulgadora de Ciências, paulista, Paula.

Comments (5)
"Cheira mas não é perigoso"
Ele colocou o nariz dele no tanque para sentir o cheiro? Para saber se era perigoso ou não? Como ele tem coragem de dizer uma coisa dessas depois de tudo o que a população da cidade passou?
Certamente ele nem chegou a pisar nesse navio. Lamentável a atitude da empresa e a entrevista. O entrevistador nem precisou de muito para deixar o Turckheim desconcertado e sem respostas.
Obrigado por divulgar essa atrocidade que já aconteceu há três anos e que é amplamente desconhecida!
vlw
Posted by: Gustavo | outubro 20, 2009 3:58 PM