Rastro de Mercúrio

Este post é uma parte do InterCiência! O amigo secreto científico dos blogs mais lindos e cheirosos da blogosfera! O trabalho de nossos leitores é descobrir quem foi o autor dessa peça e… descobrir onde foi parar o texto que foi escrito por esta pessoa que vos fala!

E se você ainda quer participar da nossa brincadeira, ainda dá tempo! Instruções aqui

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Rastro de Mercúrio

Rastro de Mercúrio!

Rastro de Mercúrio!

Não, não vamos falar do rastro que o planeta mais próximo do sol deixa no céu a noite. Vamos falar de sujeira “pesada”. Sim, pesada e suja. O rastro em questão é de um dos elementos mais paquidérmicos do universo: o denso e tóxico mercúrio (o Hg da tabela periódica).

Mercúrio: o esculhambador geral das proteínas

Apesar de ser um elemento bem bonito, parecendo até “prata líquida” (daí que vem o símbolo “Hg”, da palavra para “prata líquida” em latim: “hydrargyrum”), você não vai querer por a mão nesse líquído prateado.

O "hydrargyrum", a "prata líquida". Vulgo mercúrio!

O “hydrargyrum”, a “prata líquida”. Vulgo mercúrio!

Legenda: O “hydrargyrum”, a “prata líquida”. Vulgo mercúrio!

Essa belezinha é uma substância bem tóxica. Pra falar a verdade é tóxica pra caramba. Não é aquele tipo de coisa que faz você morrer na hora, mas o contato excessivo com essa substância atrapalha o funcionamento e causa danos severos a diversos órgãos. Só pra mostrar quantos lugares ele se acumula, eis uma “pequena” listinha: cérebro, tireóide, seios, miocárdio, músculos, glândulas adrenais, fígado, rins, pele, glândulas sudoríparas, pâncreas, enterócitos, pulmões, glândulas salivárias, testículos e próstata, e etc [1].
O seu variado alvo de toxicidade no organismo se deve ao fato de se ligar à cisteínas e selenocisteínas das proteínas do nosso corpo e alterar suas estruturas terciárias e quaternárias [1]. Ou seja: o mercúrio estraga a maquinaria celular! Além disso, estudos apontam que esse metal pesado interfere também com a transcrição do DNA e a síntese de proteínas [1]. No cérebro em desenvolvimento (De bebezinhos! Veja só!), ele chega a destruir o retículo endoplasmático de células e o ribossomo. Se há alguma coisa horrível de se destruir dentro de uma célula é o ribossomo. Sem ele não existem proteínas – que são basicamente as protagonistas da mágica da vida!

Terroristas Anônimos

OK, sabemos que o mercúrio faz bem mal. Imagine então se o mercúrio fosse usado como arma química! Um veneno! Sim! Imagine se algum grupo terrorista espalhasse mercúrio por aí, colocando-o na sua comida, no ar que você respira e na água que você bebe! Seria horrível não!? Imagine os bebezinhos sem ribossomo! Que tragédia! Mas vamos falar sério agora: tenho duas notícias importantes sobre esse assunto. Uma muito boa e outra muito ruim.
Boa notícia: não há grupos terroristas que espalham mercúrio por aí para matar bebezinhos! Viva a humanidade!
Má notícia: segundo um estudo conjunto de duas organizações em defesa do meio ambiente (o Biodiversity Research Institute e o IPEN – não, não é o IPEN brasileiro!), em amostras de peixe de diversos locais do globo, cerca de 86% estavam contaminados por mercúrio acima dos níveis seguros de consumo [2].
Se não há um grupo terrorista, como diabos estamos sendo envenenados!? Quem está fazendo isso!? Resposta: “nós” mesmos.
Não somente as águas, mas também o ar, estão sendo contaminados principalmente devido a atividades de mineração e a queima de combustíveis fósseis.

Retirado da fonte [2].

Retirado da fonte [2]

As principais causas de contaminação da água são similares. Os principais contaminadores antropogênicos são usinas de produção de compostos cloro-alcáli (ex: produção de NaOH e Cl2 a partir de NaCl), plantas energéticas à base de carvão e mineiração de ouro em pequena escala [2].

Extração artesanal de ouro - um risco à saúde e ao meio ambiente.

Extração artesanal de ouro – um risco à saúde e ao meio ambiente.

De acordo com o estudo, se você morar nas regiões dos 9 países em que foram realizadas coletas, comer peixe mais de uma vez ao mês poderia já exceder os níveis seguros de consumo de mercúrio na dieta. Segundo outro estudo, dessa vez realizado pela UNEP (United Nations Environment Programme), cerca de 260 toneladas de mercúrio são despejadas em rios e lagos todos os anos [3]. É mercúrio pra caramba!

Pegadas Tóxicas

Assim como os famigerados ciclos do nitrogênio, oxigênio e da água, há uma cadeia alimentar que leva o mercúrio até nós – e cada vez mais concentrado.

A concentração de mercúrio aumenta o quanto mais próximo do topo da cadeia alimentar.

A concentração de mercúrio aumenta o quanto mais próximo do topo da cadeia alimentar.

O mercúrio gasoso, também como quase todos os compostos no ar, vai parar no grande reservatório químico que chamamos de oceano. Lá existem plânctons bem resistentes a esse metal pesado que logo o transformam em metilmercúrio. Pra se ter uma ideia de como a concentração de mercúrio vai aumentando, dentro desses pequenos animaizinhos a concentração de mercúrio chega a ficar 10 mil vezes maior que a do oceano [3]. Então imagine o quão concentrado esse elemento fica em instâncias superiores da cadeia alimentar!? E o peixe que come muitos plânctons!? E o peixe que come peixes-que-comem-plânctons!? O mercúrio só vai aumentando até chegar aos humanos, que recebem de volta aquilo que jogaram indiscriminadamente na natureza.

O metal pesado não é eficientemente excretado pelos peixes, ficando em uma forma estável dentro dos mesmos [1], o que o conserva ainda mais dentro daquilo que será a comida de muita gente.

Como Resolver o Problema

Longo Prazo

A preocupação com metais pesados em água é antiga. Uma das soluções mais interessante é aquela que usa recursos da própria natureza para resolver os problemas ambientais: a bioremediação. Basicamente é explorar o primeiro ponto da cadeia alimentar da transferência de mercúrio, os microrganismos!
Propriedades de resistência à concentrações de mercúrio foram descritas pela primeira vez em 1960, em estudos com o microrganismo Staphylococcus aureus[4]. O que os pesquisadores estavam tentando descobrir na época era como e quais patógenos sobriveviam à desinfetantes e antisépticos à base de mercúrio. Com o desenvolvimento das pesquisas durante o tempo, foram descobertos os “genes chave” para a detoxificação de mercúrio, os genes mer[4] (merA e mer B). Eles basicamente estão envolvidos na quebra das ligações entre carbono e Hg e na redução do átomo de mercúrio a uma espécie não reativa, o mercúrio molecular Hg0. Isso fecha o ciclo do mercúrio na natureza:

A concentração de mercúrio aumenta o quanto mais próximo do topo da cadeia alimentar.

Retirado da fonte [4].

Várias espécies resistentes a mercúrio, contendo os genes mer ou variações dele, foram reportadas. A exploração e demonstração do uso deses microrganismos como agentes de remediação já foi feita a cerca de 30 anos atrás [4]. Hoje em dia existem avançados bioreatores para bioremediação de efluentes de indústrias, principalmente nas indústrias cloro-alcáli, uma das vilãs da poluição com mercúrio nos estudos das organizações ambientais citadas anteriormente. Esses bioreatores, contendo principalmente bactérias do gênero Pseudomonas, chegam a remover o mercúrio com cerca de 99% de eficiência[4]! Que maravilha não é!? Além disso, visando baratear o processo, estudos vêm sendo feitos para gerar organismos modificados que façam esse trabalho [4].

Curto Prazo

Se já existe solução para o problema de contaminação de mercúrio, porque ela ainda ocorre!? A resposta pode ser resumida em uma palavra: regulamentação. A ausência de políticas efetivas que gerem legislações combativas e fiscalizações presentes e eficazes fazem o problema persistir. Isso fica bem evidente em outro gráfico de emissão de Hg, também em 2010, indicando como maior contribuidor a atividade de extração de ouro artesanal de pequena escala, o que também corrobora com o gráfico anteior – atividades assim não são triviais de serem fiscalizadas, uma vez que acontecem “quase que” clandestinamente.

Retirado da fonte [3].

Retirado da fonte [3].

Os países mais envolvidos com contaminação de mercúrio na natureza são principalmente os em desenvolvimento, como Índia, China, México e países do leste europeu. É preciso dar grande destaque à China, que provavelmente devido à sua economia constantemente aquecida, é o país com mais focos de poluição.

Retirado da fonte [2].

Retirado da fonte [2].

A UNEP vem desde 2003 alertando sobre as questões da contaminação de mercúrio. Em 2009 iniciara-se os esforços para criar instrumentos legais de regulamentação global sobre o mercúrio. Com reuniões de negociação que começaram em junho de 2010, foram concluídas a um pouco mais de uma semana (18 de Janeiro), na Suíça. A organização ligada à ONU planeja firmar um tratado ainda neste ano durante uma conferência diplomática no Japão. Esperamos que de uma vez por todas a pressão política (pelo menos!) para a regularização de atividades poluidoras envolvendo a liberação de mercúrio e seus compostos na natureza seja efetiva!

Vale prestar atenção no tempo que em tudo isso demorou: 10 anos, desde 2003 até hoje. Isso sem contar o tempo antes dos estudos iniciados pela UNEP, em que já se sabia dos problemas ambientais e de saúde envolvendo o mercúrio. O rastro ecológico que esse metal deixa é literalmente pesado. A reunião no Japão este ano vai ajudar a definir quais rastros de mercúrio nosso filhos irão se preocupar no futuro: o biológico ou o celeste. Prefiro o celeste!
***
[Este texto é parte da primeira rodada do InterCiência, o intercâmbio de divulgação científica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Referências

1. Bernhoft AB. “Mercury Toxicity and Treatment: A Review of the Literature”. Journal of Environmental and Public Health, volume 2012, doi:10.1155/2012/460508
2. “Global Mercury Hotspots – New Evidence Reveals Mercury Contamination Regularly Exceeds Health Advisory Levels in Humans and Fish Worldwide”. BRI e IPEN, jan de 2013. Disponível em: http://www.briloon.org/uploads/documents/hgcenter/gmh/gmhFullReport.pdf
3. “Global Mercury Assessment 2013 – Sources, Emissions, Releases and Environmental Transport”. UNEP, 2013. Disponível em: Link
4. Barkay T, Miller SM, Summers AO. “Bacterial mercury resistance from atoms to ecosystems”. FEMS Microbiology reviews, vol 27, 2003. Disponível em: Link

 

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Discussão - 4 comentários

  1. Karl disse:

    Popinhos… hehe

  2. Thanuci disse:

    Eu também acho que foi ele.
    Quem dá mais?

  3. Heringer is my vote.

    []s,

    Roberto Takata

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