Bebê à prova de câncer?
O título não é idéia minha, mas sim da BBC Brasil. Aliás, uma péssima idéia. Mas sensacionalismo vende jornal, fazer o quê… (por isso copio a idéia, mas fica aqui a crítica no melhor estilo “faça o que eu digo e não o que eu faço”).
O que os médicos britânicos fizeram foi usar uma técnica já muito utilizada, o Diagnóstico Genético Préimplantacional, do inglês “Pre-implantation genetic Diagnosis” – PGD, e não como foi erroneamente traduzido na reportagem da BBC Brasil: Diagnose com Pré-implantação Genética (alguém avise a eles que, em biologia, mudar a ordem dos fatores altera o produto sim, afinal, o que viria a ser uma preimplantação genética?).
A técnica consiste em retirar uma célula do embrião de oito células e identificar nela se um gene específico está presente. Sem prejuízo ao embrião, que será implantado na mãe posteriormente. Isto é uma seleção, afinal a fertilização é feita in vitro no laboratório e são gerados alguns embriões. O que se faz é verificar se há ou não o gene de interesse e implantar apenas o embrião com a característica desejada. Neste caso, de quatro embriões, selecionaram um que não tinha a cópia cancerígena do tal gene.
O bebê é mesmo à prova de câncer?
Não. Ele é à prova de alguns tipos de câncer de mama e de ovário que são os ligados a este gene, o BRCA-1. Este gene e um dos mais bem estudados por ter esta forte e clara tendência hereditária. Na família do pai deste bebê, o câncer de mama é muito importante, tendo afetado a avó, mãe, irmã e prima, todas em idade nova.
A chance de esta criança desenvolver este tipo de câncer seria de 80%. Muito maior que a média da população. Agora sua chance de adquirir um câncer qualquer continua a mesma da média das pessoas.
Deixo aqui minha crítica à reportagem da BBC Brasil, que foi copiada por muitos outros jornais como o Estadão e afins. Muito resumida e simplista, com aquele erro crasso de tradução do nome da técnica e o título sensacionalista. Coisas que não se pode perdoar já que a reportagem original, da BBC internacional, está muito bem escrita.
Um sapo com poderes do Wolverine
Antes de começar, um adendo: wolverine existe sim! Afinal o apelido do personagem Logan do X-Men foi inspirado num bichinho mal encarado chamado glutão ou carcaju (Gulo gulo), que é um pequeno parente dos ursos e em inglês se chama wolverine.
Mas o título se refere a um sapo que tem as tais garras retráteis do personagem dos quadrinhos. São pequenas protuberâncias ósseas afiadas que saltam das pontas dos dedos dos sapos da família Arthroleptidae.
Há 100 anos os zoólogos conhecem esta estrutura de animais preservados em museus, mas sem saber ao certo o que eram. Até que o biólogo David Blackburn resolver tirar a prova. Encontrou um destes sapos vivos em seu habitat e coletou. No que pôs a mão, CRÉU, levou uma arranhada que até tirou sangue. Mas rendeu a descoberta.
Quando ameaçado, o sapo libera a garra da cartilagem que a prende, fazendo com que ela salte pela pele do dedo. E sai rasgando o dedo mesmo. A vantagem é que anfíbios são famosos por terem um “fator de regeneração” bem forte para restaurar o machucado. Mais uma semelhança com o Wolverine dos quadrinhos.
A função da garra pode ser tanto para agredir como para dar mais aderência na fuga, ainda não se sabe ao certo.
E você achando que o Groxo era o personagem mais “sapo” da Marvel…
Vi na ScienceNOW
Atividade física pode NÃO ser um fator tão importante para a obesidade.
Não brigue comigo se você for personal trainer, mas é um fato. Pelo menos um trabalho que concluiu ao comparar duas populações: 172 afrodescendentes de Chicago, e outras 149 do interior da Nigéria.
As mulheres americanas pesaram em média 86,5 quilos, e as nigerianas 57,5. Imagina-se que as magrinhas nigerianas devam, entre outras coisas, ter um maior gasto energético por atividade física que as rechonchudas americanas.
Errado.
As nigerianas gastam 800 calorias por dia em esforço físico, enquanto que as americanas gastam 760. Um pouco menos, mas não chega a ser estatisticamente diferente.
Assim, a balança parece pender mais para a alimentação do que para o exercício. Afinal, a dieta das nigerianas é rica em fibras e carboidratos, com pouca gordura. A das americanas é constituída de 40 a 45% de gordura, e quase tudo comida industrializada.
E fico sabendo disso logo agora que já fiz minha promessa de ano novo para começar uma academia!
Mas vamos tentar ser fortes e manter a promessa. Afinal, se não é tão importante para manter o peso (ainda sim é um fator que conta), o exercício regular ainda é necessário para fortalecer ossos, manter a pressão sanguinea, melhorar níveis de colesterol, reduzir risco de doenças cardiovasculares, diabetes, câncer de mama, entre outros.
Bônus: Aqui vai um desenho fôfo pra quem está cansado das tradicionais “pirâmides”. Um arcoiris alimentar!








Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutor pela Biotecnologia da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na área de neurociência comportamental e molecular.

