Mapa gênico do cérebro.

A foto acima não é de um serial killer ou mesmo da série de TV Dexter. Talvez Hannibal Lector, do filme Silêncio dos Inocentes, preparando um jantarzinho? Também não. Isso, meu amigo, é cartografia genética cerebral (neologismo meu, mas ficou legal, não?).
Sequenciar o DNA humano foi a parte fácil, ficou agora o desafio de saber como a coisa toda funciona. E saber quais genes estão ligados e desligados nas diversas partes do corpo é um passo importante no entendimento do sistema.
O Allen Institute for Brain Science não pensou pequeno, começou logo pelo cérebro e por mapear a situação dos 20.000 genes de cada região dele. Gastarão 55 milhões de doletas até 2012. E nada de hipótese, teoria ou algo assim. Apenas coleta de dados. E é uma montanha de dados, bem maior que o seqüenciamento.
A idéia é coletar o máximo possível, sem tendências ou preconceitos. Analisar só depois de ter tudo na mão. Maneira interessante de trabalhar.
Oportunidades que o mapa abriria
Com este mapa na mão, pesquisadores poderiam unir áreas de pesquisa isoladas. Estudos de atividade de áreas cerebrais com ressonância magnética poderiam ser comparados com estudos de genética, ajudando por exemplo no estudo do autismo, que tem forte característica genética.
Outra frente legal do trabalho é no desenvolvimento do cérebro, usando camundongos em diferentes idades, esclarecendo assim como um órgão tão complexo se desenvolve.
O mapa do camundongo já está disponível, e é uma ferramenta que já vem sendo usada por pesquisadores no mundo inteiro, já que os dados são públicos.
O que é “normal”
Mas existem algumas preocupações. O projeto com humanos usará 15 indivíduos. Mas e se as diferenças entre os indivíduos for tão grande que seja impossível comparar e montar um consenso? Estes cérebros podem vir de fumantes, alcoólatras, pacientes psiquiátricos, ou seja, fatores que podem mudar a expressão dos genes. Assim, como considerar o que é um cérebro “normal”?
Além disto, analisar tão de perto pode ser como olhar uma pintura impressionista. Quando muito próximos não se identifica nada. Só com uns passos para trás que se entende o que está representado no quadro. E se o nível de zoom do mapa cerebral estiver exagerado? Entenderemos alguma coisa do quadro de funcionamento do cérebro? Bem, é esperar pra ver.
Link
Leia a reportagem fantástica da WIRED sobre o tema
Onde Está a Biologia? Na Nature é que Não Está.

Lendo, como toda a semana, o índice de artigos da Nature e Science, me espantei hoje. E depois me espantei do meu espanto. Explico.
Na Nature, as seções “Research Highlights” e “News and Views” classificam cada notícia pela área de especialidade, como astrofísica, imunologia, diagnóstico molecular, matéria condensada e por aí adiante. Dê uma olhada.
Me espantei ao ver uma notícia de “Biologia”. Há muito tempo eu não via uma matéria nesta área tão básica e genérica. Realmente as diversas áreas da biologia se especializaram e aprofundaram seus conceitos de tal forma que eu mesmo não sei que tipos de trabalho não teriam uma sub-área para chamar de sua, obrigando-o a ser classificado como pura e simplesmente Biologia.
E fazendo uma busca rápida e aleatória em outros números da revista, realmente a classe Biologia aparece muito esporadicamente.
O trabalho do post anterior, das vacas orientadas (e desorientadas) por campos magnéticos, foi que me chamou a atenção para este detalhe. Ele está classificado como Biologia, afinal ainda não há força suficiente neste tema para fundar uma área de “Eletromagnetismo Bovino”, concorda?
Amebas americanas
Mensagem msn do amigo Gabriel:
“EUA abrigam maior colônia mundial de amebas, diz estudo“
cara… pensei em TANTAS piadas quando li isso… é só comigo?!
Vacas Magnéticas

Se um dia você se perder por esse interior do meu Brasil, e não estiver com sua bússola (sei que as pessoas nunca saem de casa sem bússola, mas vamos tentar imaginar esta situação insólita), tire vantagem do nosso país ser o maior produtor de carne bovina do mundo e use o rebanho para se orientar!
Desde o ano passado já se sabe que rebanhos bovinos e de cervos pastam e descansam numa orientação Norte-Sul, dá pra acreditar?!
Ninguém sabe ainda como os animais fazem isso. Mas eu me perguntei como os pesquisadores descobriram esta tendência. Daí descobri mais esta nobre utilidade para os satélites. Afinal foi usando as imagens deles que pesquisadores perceberam esta orientação nos rebanhos.
Vários animais usam o campo magnético da Terra para orientação, como aves, crustáceos, insetos, répteis e mamíferos. Destes últimos, somente roedores e morcegos tem esta sensibilidade comprovada.
Agora a orientação de grandes mamíferos teve mais uma prova, pois os animais que estavam próximos a linhas de transmissão de alta energia perdem a orientação norte-sul. Estas linhas de transmissão emitem um campo eletromagnético de baixa freqüência, que provavelmente perturba a orientação com os pólos terrestres.
A pergunta de 1 milhão de dólares é: pra que eles precisam disto?
E a pergunta de 500mil é: humanos tem alguma sensibilidade que não percebem?
Link para o trabalho: Extremely low-frequency electromagnetic fields
disrupt magnetic alignment of ruminants
Abuso na infância altera o comportamento e o DNA

Há muito tempo psicólogos sabem que fatos ocorridos na infância podem determinar comportamentos e doenças psicológicas na vida adulta. Dentre os mais fortes determinantes está o abuso sexual, que parece correlacionar fortemente com maior taxa de suicídio, depressão, ansiedade, entre outros problemas.
Mas qual é a biologia do trauma? O que muda no cérebro que faz as pessoas mudarem de comportamento?
Mais uma dica aparece com um estudo feito com cérebros de suicidas. Sim, no Canadá existe um banco de cérebros de suicidas, com o objetivo de estudar os porquês das pessoas quererem tirar as próprias vidas. Parece coisa de maluco, mas veja como foi útil.
Com este banco de cérebros bem catalogados, com as informações médicas e entrevistas com parentes, os pesquisadores puderam achar 12 cérebros de pessoas que haviam sido abusadas na infância para comparar com outros 12 que não haviam sido molestados.
Os cérebros de molestados tinham menos receptores de cortisol. Estes receptores retiram o cortisol (substância que controla a resposta ao estresse) circulando no cérebro que é liberado depois de uma situação de estresse, e pode prejudicar o funcionamento cerebral se continua circulando por muito tempo.
Está também no DNA
Mas o principal do estudo é que ele foi mais fundo na parte molecular. Sabendo já o que procurar, baseados em estudos com animais, olharam o gene que controla a produção do receptor, e perceberam que ele estava 40% menos ativo nos molestados. Isso graças a mudanças epigenéticas.
Epigenética é o assunto quente da biologia molecular dos próximos anos, fique atento. São mudanças na leitura do DNA, mas não são mutações, porque não alteram a sequência dos ATCG, só interferem em como o gene vai ser lido pela célula.
Parece que de alguma forma o evento de abuso aumentou o silenciamento epigenético do gene do receptor de cortisol. Alterando daí em diante a resposta ao estresse do indivíduo.
É o ambiente alterando diretamente o DNA da pessoa! E estudos em animais mostram que esta alteração (que não é mutação) pode ser transmitida para os filhotes. Semelhanças com Lamarck não são meras coincidências: características adquiridas sendo transmitidas.
Por isso, psicólogos e psiquiatras não podem mais relegar as neurociências moleculares, como é feito com a genômica hoje em dia. Esta é criticada por ser pouco informativa, quando se descobre, por exemplo, que pessoas que tem uma cópia X de um gene têm 10% a mais de chance de desenvolver alguma doença psiquiátrica. Não há muito o que fazer com esta informação.
Mas a epigenética tem promessas muito interessantes. Se um evento ambiental alterou tão profundamente a fisiologia, isto abre uma oportunidade de terapias para reverter doenças, ou mesmo gerar remédios que ajam diretamente nas alterações epigenéticas.
Links:
The epigenetics of child abuse: Nature Reviews Neuroscience
New York Times
Agência Estado
Analisando a Polêmica “Palhaçada Científica” de Ruth
Um pequeno tufão varreu a blogosfera científica nacional. Ele foi gerado pelo texto da jornalista Ruth de Aquino, diretora da revista Época. Neste texto, Aquino diz que “Ler sobre pesquisas científicas de universidades respeitadas é uma receita certa para dar risada”, e cita algumas pesquisas que, por exemplo, constatam que crianças canhotas vão pior na escola, corpos femininos sem rosto vistos por homens são processados por eles nas áreas destinadas a objetos. Enfim, a crítica dela é que as pesquisas “descobriram” o óbvio.
Vários colegas de divulgação científica reagiram (links abaixo). Como não tenho o que acrescentar ao que já foi dito, preferi analisar a discussão em si.
Que mecanismos os cientistas e divulgadores têm para reagir nestes casos de discordância com a mídia? Neste caso, comentários na própria página da matéria são permitidos. Tentei resumir e classificar como foram conduzidas as discussões.
O que foi comentado
Muitos comentários mostrando na maioria indignação; pedidos de retratação; explicação de conceitos tidos como errôneos na reportagem; comentários apelativos de cunho pessoal; algumas críticas estendidas a outras matérias da revista Época.
Casos interessantes: um comentário conclama blogueiros para uma ação conjunta para “puxar a ficha” da autora, analisar a relevância da revista e do jornalismo em geral; um senhor se diz cientista e mostra apoio a crítica da autora da pesquisa do “óbvio”; uma resposta em favor do texto veio de um socialista crente (adjetivos meio paradoxais, não?).
A falta de experiência em escrever sobre ciência para não-cientistas gerou problemas clássicos, como por exemplo, o leitor invalidar a pesquisa dos canhotos irem mal na escola simplesmente por conhecerem um canhoto inteligente. Fato que não invalidaria um estudo com um número grande de sujeitos e com análise estatística robusta.
Leitor vulnerável
Não é raro ver deslizes de jornalistas não especializados em ciência quando têm que escrever sobre este tema. Mas até que ponto uma informação errada ou opinião distorcida pode afetar o cidadão-leitor comum?
Os comentários de concordância se acumulam mais próximos da data de publicação, mostrando que o leitor não-cientista, que provavelmente lê de rotina a revista, está muito vulnerável aos erros cometidos por ela. Dois dias depois da publicação só há críticas nos comentários, gerados por pessoas que provavelmente não lêem a revista mas se interessaram pelo texto.
Silêncio que incomoda
Nenhuma resposta, retratação ou comentário foi feito pela própria repórter ou pela revista. Fato comum para quem costuma criticar artigos nessa mídia “pseudo-interativa” que são os sites de notícias. Isso mostra uma inserção apenas parcial do jornalismo na internet. Afinal, a interação entre autor e leitor é plenamente possível, mas esta possibilidade está sendo desperdiçada, possivelmente fazendo com que leitores se frustrem e, no caso dos cientistas, realmente ignorem este tipo de mídia.
Este silêncio é provavelmente o causador, ou um catalisador, do sentimento de descaso e impunidade sentido por muitos divulgadores de ciência, leitores e cientistas neste debate.
(Por isso, continue lendo seus blogs científicos de confiança.)
Crítica aos críticos de Ruth
Minha crítica aos críticos de Ruth é no tom da discussão, muitas vezes excessivamente exaltado e passional. Parece mostrar um pouco de ingenuidade pelo espanto com a situação da divulgação de ciência no Brasil, que é sabidamente muito problemática, e é com este tipo de acontecimento que um divulgador de ciencia mais vai se deparar. (veja aqui uma outra crítica.)
Não sei até que ponto o artigo de Ruth de Aquino, por ser uma opinião, deveria ser respeitado por isso. Mas ao lidar com ciência, opinar de forma temerária e ingênua como foi feito, ainda mais numa área em que o cidadão-leitor é tão vulnerável, foi irresponsável, sem dúvida.
Pergunta:
É papel das sociedades científicas, como a Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC), opinar sobre ou até fiscalizar este tipo
de artigo?
P.S.:
Por falta de tempo não comentarei os artigos de blogs gerados pelo tema, mas citarei os mais relevantes. Sugiro fortemente a leitura:
“Mas isso eu já sabia!” – 100Nexos (Este é HiperRecomendado!!!)
Em prol dos cientístas, idiotas e dos “ridículos” – Ciência Brasil
Conselho de Darwin para Ruth – Ecce Medicus
É muito fácil ser um jornalista frívolo – Geófagos
Nunca é tarde para uma autocrítica – n-Dimensional
Candidato a santo- Boca do Inferno
Ciência e o óbvio – Rainha Vermelha
Ciência é besteira? – Discutindo Ecologia
Pesquisas científicas me fazem rir! – Rastro de Carbono
Cara Ruth de Aquino, – Brontossauros
Ruth de Aquino já é a segunda colocada em comentários na Revista Época – SemCiência
(copiei sua lista, 42. Me processe!)
Bactérias (quase) do espaço

Uma bactéria vivendo na estratosfera? Só pode ser alienígena!
Aliás não descobriram só uma, mas 3 espécies de bactérias vivendo no limite da Terra com o espaço.
A descoberta foi feita pela Organização de Pesquisa Espacial Indiana, usando um balão estratosférico para fazer a coleta.
No comunicado à imprensa, a organização diz que ” o presente estudo não determina conclusivamente uma origem extraterrestre destes microorganismos”.
Ah vá! Jura?!
Claro que vieram da Terra, peloamordedeus!
Tudo bem que elas devem ser mais duronas que o Chuck Norris, mas deixar a dúvida da origem extraterrestre no ar já é demais!
E eu fico imaginando: flutuando assim por aí na estratosfera, com toda aquela radiação ultravioleta, o que esses “bixos” comem?!
Fotossíntese, ok, mas e as proteínas? Elas poderiam fixar nitrogênio do ar (se houver ar por lá).
Nada que as bactérias terrestres não façam.
É, e tem gente que acha que os humanos são os seres mais “evoluídos” do planeta.
Vi na Wired
O mapa da Ciência
Está aí o mapa. Bonito não? Daria uma bela camiseta…
Legal ver quais áreas interagem mais e quais estão mais distantes. Bom para o pesquisador saber se sua pesquisa está na moda ou descobrir uma área de interação ainda inexplorada.
Como foi feito?
Este estudo mapeou as interações das diferentes áreas da ciência simplesmente catalogando as buscas de pesquisadores nas revistas online, representadas pelos círculos. Até jornais como o The New York Times entraram na análise.
Por exemplo, usuários que fizeram buscas em revistas de psicologia social e também em revistas de bioquímica reforçaram a ligação entre estas áreas.
“Veja o que eu leio, não só o que eu cito.”
Não é novidade o mapeamento das interações entre áreas. Mas antes só havia sido feito usando como base as citações feitas nos trabalhos publicados.
O problema é que muitas vezes o que você cita não é exatamente tudo que você usou ou leu. Há um certo vício de citar apenas trabalhos mais clássicos, por exemplo.
Esse novo método revela algo mais abaixo da superfície.
Exemplo disso é a grande participação das ciências humanas, que pelos mapas antigos foram subestimadas.
Vi no EcoTone, dica do Luiz BentoView image
Vídeo infame: A física do PETREFIOLISMO(???).
Essa nem o pessoal da física aqui do ScienceBlogs vai saber. Na parte de imunologia eu boiei.
Fantástico.
Isso é pra quem só tem visto vídeos de americanos falando absurdos (que também são ótimos, não fossem trágicos).
Pena que não tem nem como traduzir pro inglês uma coisa dessas. E mostrar para os brothers em que pé anda o conhecimento do povo no Brasil.
Mas a pergunta que fica é: o que impede a pessoa de falar “Não sei”?
Valeu a dica, Gus
Off topic: Morre Clodovil Hernandes
Morre o deputado Clodovil Hernandes. Pobre diabo…
Interessante notar que será enterrada a pessoa que, com sua votação recorde e sem ter proposta alguma, enterrou minhas últimas esperanças no sistema democrático no Brasil.



Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutor pela Biotecnologia da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na área de neurociência comportamental e molecular.

