Olhos: as “janelas da alma” ou uma das portas de entrada da nossa memória?

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Os movimentos dos olhos podem revelar algumas memórias de uma pessoa, mesmo que ela não consiga! O estudo, publicado na revista Neuron, demostra que a atividade do hipocampo pode predizer movimentos de nossos olhos que revelam memória de certos eventos mesmo quando os participantes do estudo erram as perguntas dos testes!
Em um teste de memória, os movimentos dos olhos dos participantes apontaram para as respostas corretas, mesmo quando o voluntário errou a pergunta. Esses movimentos corresponderam à atividade do hipocampo, um importante centro de aprendizado e memória do nosso cérebro, e sugerem que esses movimentos podem revelar memórias inconscientes ativadas via hipocampo.
Para alguns neurocientistas, o hipocampo está envolvido somente nas memórias conscientes ou memórias declarativas, que são as memórias relacionadas a pessoas, fatos ou eventos específicos. Pessoas que tiveram seu hipocampo danificado não são capazes de formar ou recordar essas memórias declarativas, mas pacientes amnésicos podem aprender novas habilidades que requerem memórias de procedimento (inconscientes), como andar de bicicleta, por exemplo.
_44354991_dplan-getty416.jpgO novo estudo sugere que o hipocampo está envolvido em memórias de relações que uma pessoa não recobra conscientemente. Os voluntários da pesquisa foram submetidos à fMRI (a ressonância magnética funcional, que acostumamos a ver quando assistimos Dr. House), enquanto observavam imagens de rostos numa paisagem. Após apresentarem aproximadamente 50 pares de imagens de faces/paisagens, os pesquisadores mostraram aos voluntários a imagem de uma das paisagens apresentadas, seguido de 3 faces diferentes, e questionaram qual era o rosto correspondente à paisagem apresentada.
Quando a imagem da paisagem foi mostrada, houve aumento da atividade no hipocampo dos voluntários, sendo que entre 500 e 750 milisegundos depois disso os movimentos oculares se direcionaram a uma das três faces apresentadas. Quando o hipocampo ficou mais ativo, os olhos se direcionaram mais à face correta, assim como uma menor atividade do hipocampo resultou nos olhos se direcionando a uma das faces erradas.
Mesmo quando os participantes escolheram uma resposta incorreta, a análise da atividade do hipocampo previu corretamente se os olhos se fixariam na face correta. No entanto, a comunicação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal – a região executora do cérebro – foi reduzida em comparação aos testes em que os voluntários fizeram a escolha correta. Esse resultado pode significar que o hipocampo e o córtex pré-frontal devem se comunicar de modo apropriado para que uma pessoa tenha sua memória funcionando corretamente.
EyeExperiment.JPG

Clique na imagem do experimento para aumentar o desenho!


Para os autores do estudo, esse achado é uma pista de que algo além do hipocampo é necessário para se fazer uma memória consciente. Mesmo que você não se lembre de ter aprendido determinada relação entre dois objetos, seu hipocampo e olhos podem ter alguns restos daquela informação, tempos depois.
HAN_094.jpgApesar de não se saber se essa análise revela memórias conscientes ou inconscientes, os movimentos oculares podem ser utilizados para se entender o quanto pacientes com esquizofrenia ou demência se lembram. Pessoas com tais desordens podem lembrar mais do que são capazes de comunicar às outras pessoas, segundo os próprios pesquisadores que publicaram esse estudo.
Outra coisa bastante interessante é uma possível aplicação desse tipo de análise para aprendermos mais a respeito da memória de animais, e também de crianças que ainda são muito novas para falar.
Ainda há uma expectativa de que a análise desses movimentos oculares seja utilizada para se determinar a precisão do depoimento de determinada testemunha, ou então revelar memórias de pessoas que não estão conscientes em relação fatos específicos, ou simplesmente preferem não adimitir que têm consciência sobre o fato.
Será que vem um novo tipo de polígrafo por aí?
Kumaran, D., & Wagner, A. (2009). It’s In My Eyes, but It Doesn’t Look that Way to Me Neuron, 63 (5), 561-563 DOI: 10.1016/j.neuron.2009.08.027
Imagens: Getty Images

RNAm no Prêmio ABC de Blogs Científicos!

Ontem, ao voltar de um churrasco em Rio Claro que provavelmente terá consequências desastrosas para o meu fígado (como sempre…), fui dar uma olhada no Twitter e descobri que tinha saído o resultado da votação do Prêmio ABC para Blogs Científicos, organizado pelo Laboratório de Divulgação Científica da USP de Ribeirão Preto.

Fui ver os ganhadores no Blog Sem Ciência do Prof. Osame Kinouchi e, para minha surpresa, descobri que o RNAm ficou em terceiro lugar na categoria Ciências da Vida!

O que é mais legal sobre esse prêmio: somente quem pertence ao Anel de Blogs Científicos pôde votar, ou seja: são os eleitores mais críticos que se pode arrumar numa votação. Praticamente um Oscar dos blogs científicos (OK, agora forcei) já que foi uma “votação por pares”, nos melhores moldes da Ciência atual ;)

Foi realmente muito bom saber que muitos dos nossos colegas de trabalho gostam do conteúdo que produzimos aqui no RNAm. Ainda mais quando vemos que o Anel de Blogs Científicos tem tantos blogs bons em várias categorias, que foi outra coisa que gostei muito em relação a essa iniciativa: descobri muita coisa legal prá acompanhar (adeus Google Reader zerado).

No próximo final de semana vai acontecer a premiação… lá em Arraial do Cabo, onde ocorrerá o II EWCLiPo (Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa). Essa viagem continua ficando cada vez mais interessante.

Nota do Rafael_RNAm:

Eu como fundador deste blog estou muito feliz. Primeiro a colocação entre os cem no TopBlogs, onde quem escolhia eram os leitores, e agora este terceirão do Anel de Blogs Científicos. É isso que chamam de sucesso de público e crítica?

Alguém pode dizer que nós estamos festejando demais estes prêmios. Mas escrever este blog é querer um mínimo de visibilidade para temas científicos urgentes a todos hoje em dia. Ele é a nossa pequena ação social. E os prêmios são atestados de que estamos no caminho certo.

Agradeço aos leitores, colegas e (antes que o Kanye me interrompa) ao Gabriel que deu um novo gás ao blog.

Que o RNAm continue se expressando!

Pneuzinhos revolucionando a Medicina?!

Como muito bem lembrado pelo Blog 80 Beats (Discover Magazine), o filme Clube da Luta foi bastante feliz em apontar que a gordura retirada na lipoaspiração era muito valiosa para virar lixo. Enquanto no filme os personagens (ou não) -> mini-spoiler 1 pegaram esse descarte biológico para fazer sabão (ou não) -> mini-spoiler 2, pesquisadores desenvolveram uma maneira de reprogramar essas células de gordura em células-tronco, num procedimento muito mais eficiente do que os métodos atuais de produção de células-tronco induzidas, chamadas iPS.

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Bob tinha “bitch tits” cheias de candidatas a iPS!

O que são as iPS?
Essas células são um tipo de célula-tronco de caráter pluripotente (ou seja, que têm capacidade de dar origem a praticamente qualquer tipo celular do nosso organismo). As iPS são produzidas de modo artificial a partir de células não-pluripotentes (geralmente adultas), pela indução da expressão de genes específicos.

Quando essa indução é bem-sucedida, a célula adulta “regride” a um estado de menor diferenciação (ou especialização) celular, o que dá à mesma características de células-tronco. Acredita-se que as iPS sejam idênticas em muitos aspectos às células-tronco pluripotentes naturais, como as células-tronco embrionárias, por exemplo. Quem quiser ler um pouco mais sobre essas células, pode clicar AQUI.

Por esse motivo, a revista Science escolheu a produção de iPS como o grande avanço científico do ano de 2008. Se realmente pudermos confiar no potencial e segurança das iPS, pode ser que toda a discussão que envolve a utilização das células-tronco embrionárias não seja mais necessária. Imaginem o que uma tecnologia dessas pode significar para os estudos de biologia molecular, e futuramente para a medicina…

Pneuzinhos são ruins? Prá nossa saúde sim, para conseguirmos células-tronco induzidas, não!
ResearchBlogging.orgA obtenção de células-tronco por reprogramação de células adultas mais famosa consiste na transformação de células da pele em iPS. Apesar de o procedimento ter sido de extrema importância por inaugurar essa nova técnica, continua bastante ineficiente, demorando aproximadamente 1 mês para que, de cada 10000 células induzidas, uma realmente se transforme em uma iPS. Por isso, muitos grupos de pesquisa encontram-se na busca por tecidos que possam ser transformados em iPS de modo mais rápido e fácil.

O trabalho utilizando células de gordura para a produção de células-tronco induzidas foi publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (em Inglês, o artigo está aberto para download). Os cientistas prepararam as células do tecido adiposo (gordura) provenientes de material de lipoaspiração doado por pacientes do Dr. Michael Longaker, cirurgião plástico da Universidade de Stanford, sendo que cada paciente doou um volume entre 1 e 3 litros de gordura.

As células do tecido adiposo foram preparadas e reprogramadas em apenas duas semanas, sendo que somente o processo de reprogramação de células da pele demora 4 semanas. Ainda, o procedimento utilizando as células do tecido adiposo demonstrou uma eficiência 20 vezes superior à conversão das células da pele!

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Crescimento das células transformadas em iPS (marcadas em verde)


Em entrevista à Nature News, Ron Evans, fisiologista molecular do Salk Institute em La Jolla, California, disse que as células do tecido adiposo são “até o momento o tipo celular com maior eficiência e eficácia descrito para a geração de iPS”.

Outro aspecto bastante importante do estudo publicado na PNAS é que os pesquisadores usaram um protocolo de preparo das células diferente do padrão, em que não foi utilizada a chamada “feeder layer”, que consiste em uma camada de células de camundongos responsável por fornecer algumas moléculas que a pouca quantidade de células extraídas dos tecidos para indução não é capaz de fabricar.

O fato de se conseguir iPS num ambiente livre dessas células “mantenedoras” é de grande valia, pois as “feeder layer” impossibilitam qualquer chance de se utilizar outras iPS em tratamentos clínicos, devido ao perigo de se obter uma contaminação com produtos das células de camundongos.

Engraçado nós vermos um estudo assim nos tempos de hoje. Ao mesmo tempo em que existe uma grande “cultura ao corpo” que extrapola os limites da saúde e promove a campanha de que “toda a gordura é ruim”, vemos um artigo publicado numa das revistas científicas mais importantes da atualidade mostrando justamente o valor que o material que muitos lutam todos os dias para se livrar (as temidas gordurinhas) pode ser um dos grandes materiais para as pesquisas de ponta em diversas doenças e em seus respectivos tratamentos.

Claro que não estou discutindo as recomendações de saúde em relação ao excesso de gordura na constituição corporal, ou ainda à importância de termos hábitos saudáveis,
mas é impossível não ver um paradoxo um pouco cômico. De repente vemos um grande aliado surgindo de um dos maiores problemas em termos de saúde no mundo contemporâneo.

Sun, N., Panetta, N., Gupta, D., Wilson, K., Lee, A., Jia, F., Hu, S., Cherry, A., Robbins, R., Longaker, M., & Wu, J. (2009). Feeder-free derivation of induced pluripotent stem cells from adult human adipose stem cells Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0908450106

Ratos flutuantes: não é feitiçaria, é tecnologia

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Ratos flutuantes: Uhúúú! Crédito: Da-Ming Zhu et al.


!Esto no ecziste! Os camunduengos flutuam. É um milagre!!!

Mas não é feitiçaria, é tecnologia! E como aqueles travesseiros, é tecnologia da NASA, meus caros.

Microgravidade não é nada novo. Este detalhe chamado gravidade que mantém as maçãs caindo de suas árvores já foi vencido há muito tempo, sempre usando supercondutores. A supercondução é uma propriedade física de alguns materiais que, em condições específicas, tornam-se condutores tão bons que a eletricidade que transmitem gera um campo magnético muito forte (para mais, pergunte a um físico, este é o máximo que o biólogo aqui vai chegar).

Claro que uma coisa tão maravilhosa assim não podia ser fácil de fazer. A supercondução só é atingida em materiais que sejam resfriados a temperaturas muito, muito baixas… normalmente inferiores aos 120 graus negativos (falei que eram MUITO baixas, não falei?). O trunfo agora foi que fizeram um supercondutor com um espaço no meio a temperatura ambiente. Grande o suficiente para caber um ratinho.

Já haviam sido feitos experimentos desse tipo usando supercondutores e outros animais, como gafanhotos e sapos, como vocês podem ver clicando nesse vídeo hilário que vi no Brontossauros no meu Jardim, complementando o texto do MeioBit.

supermouse.jpgE o bichinho no começo não entendeu muito o que estava acontecendo. Quando começou a levitar se debateu, o que só piorou sua situação, pois sem fricção ele rodou cada vez mais rápido. Mas depois de 4 horas os ratinhos se acostumaram e se comportaram normalmente.

Mas tudo isso por quê? Sadismo dos cientistas? Claro que para testar os efeitos dos organismos sob microgravidade. Por enquanto os animais que já ficaram por 10 semanas não apresentaram nenhum efeito adverso. A não ser uma sensação indescritível de leveza e transcendência. (Ok, não tem como medir se isso é verdade, mas o dia em que isto for possível a ciência estará realmente avançada!)

Prá terminar, alguém aí consegue imaginar o que se passou pela cabeça desses camundongos? Vejam a imagem abaixo e pensem nas legendas, queremos ver as melhores idéias nos comentários!

RATO_redimensionado.jpg

Faça as legendas!

Fonte LiveScience, via @carloshotta

Estatísticas inúteis do futebol. E na ciência?

galvão.jpg

Imagem: retidara da gafe do Galvão aqui e editada por Rafael_RNAm. O “p<0,05″ é um limite em estatística e significa 0,05% de chance do seu resultado ser fruto do acaso.

Bem amigos do RNAm!!! Estamos aqui para mais um show de transmissão científica. Um show de imagens, de comentários abalizados, e de dados completamente inúteis!

Sim, eu não me conformo com a quantidade de dados inúteis em uma transmissão de jogo de futebol. E isso não é novidade pra ninguém, afinal há muito tempo já se tira sarro de estatísticas do tipo “só em 1843 o Piraporense do Bom Jesus ganhou de 3 a 0 do Itaquaquecetubense em um ano bissexto”. Mas assistindo a Brasil e Chile vi um nível de sofisticação fantástico na coleta de dados.

A todo momento aparecia o quanto cada jogador havia percorrido na partida, ali, em tempo real. Também o quanto desse tempo ele havia andado, trotado e corrido. No fim do jogo um gráfico mostrou a média percorrida pelos times, posse de bola, arrancadas e até um gráfico mostrando a região mais percorrida do campo por cada equipe.

Coleta de dados perfeita. Provavelmente uma câmera fixa ligada a um computador com um programa de analise de imagem fez esse serviço.

Adendo – E não é nada muito novo. Essa mesma técnica é usada para analise de comportamento de camundongos. Deixa-se uma câmera filmando a movimentação do bicho, analisando assim o comportamento depois de tratado com determinada droga, por exemplo. O software faz tudo sozinho.


Mas a pergunta é PARA QUE?!
Afinal as estatísticas no fim do jogo eram praticamente as mesmas entre os dois times (posse, distância percorrida, etc). Mas o Brasil ganhou de 4 a 2, que é uma bruta diferença. Diferença esta que existe, mas que a coleta de dados não pegou.

Ou seja, se tivéssemos só os dados estatísticos da partida, a técnica de coleta de dados durante os jogos ainda não é sensível o suficiente para prever quem ganhou de goleada.

Esse é um paralelo interessante para muitas pesquisas científicas. Muitas áreas estão ainda ajustando sua coleta de dados. E muitas já têm uma quantidade imensa de dados, mas ainda falta aprender a interpretar essa quantidade de informação. Falta fazer isso tudo fazer sentido e ajudar a prever um resultado. É o caso de áreas como a genômica, proteômica e outras ômicas: muita informação gerada e pouco tempo para análise e integração com outros dados.

Uma das críticas ao Projeto Genoma Humano era essa: muito dinheiro pra coleta de dados e pouco para análise. Bom, agora que o esforço foi concluído, realmente os resultados prometidos não vieram tão rápido, mas lentamente virão.

Na Globo, o Galvão ainda está assim: dirigindo uma Ferrari de dados mas sem saber pra onde ir. Mas sigamos coletando (principalmente quando há dinheiro sobrando)! Quem sabe um dia alguém aprende a usar isso tudo.

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Como funciona o jornalismo científico

jornalismo_cientifico.jpg
Mas sem generalizações, ok?! Isso está mudando. Graças em parte aos bons jornalistas de ciência, aos blogs e aos cientístas preocupados com a divulgação.
Via Gus no Vida Ordinária

Genes sintéticos e Bioterrorismo: a certificação de segurança pode prevenir um novo 11 de Setembro?

J0287641.JPGEm 1970, o biólogo molecular Har Gobind Khorana, atualmente professor do MIT, fez a primeira demonstração da síntese de um gene de modo artificial.
Apesar de estarmos em tempos de Caminho das Índias e do hype indiano por causa dos BRIC (ou pelo menos da versão Global da Índia, que é photoshopada até a alma), o nome desse pesquisador pode não dizer nada mesmo para os biólogos. Para dar uma idéia de quem é esse senhor, vou deixar esse link com uma curta biografia (em Inglês), e me limitar a dizer que ele foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1968.
O que deu um Nobel à ele? Ah, nada muito importante… Ele SÓ interpretou a função do Código Genético na síntese de proteínas, o que faz dele, no mínimo, um dos “padrinhos” da Biologia Molecular como a conhecemos. Mas você está aqui prá aprender, então não se sinta culpado por não saber de antemão. E, claro, acredite que eu já sabia ;)
Bom, voltando à síntese de genes, atualmente existem inúmeras empresas de biotecnologia que oferecem esse serviço, muitas vezes com um custo inferior a 1 dólar por par de base solicitado na síntese (sem esforço encontrei “promoções” com preços menores ainda). Barato, e, sem dúvida, uma ferramenta de extrema importância para inúmeros estudos.
Apesar disso, há muito se debate o perigo por trás de um acesso tão fácil à fabricação artificial de genes. Existe um temor de que essa tecnologia seja utilizada para a criação de novas linhagens de organismos patogênicos (como vírus e/ou bactérias), ou então para que se possa “ressuscitar” organismos perigosos já extintos.
biohazard.jpgComo países como EUA e Inglaterra vivem em constante alerta sobre uma eventual ação terrorista de grandes proporções como visto em 11 de Setembro de 2001, os pedidos feitos às empresas que oferecem o serviço de síntese de genes artificiais possuem mecanismos de verificação sobre as encomendas, de modo a se evitar o problema descrito acima. No entanto, como uma das principais ações de toda e qualquer empresa para maximizar seus lucros é diminuir os gastos, existe hoje uma grande discussão em torno do procedimento de verificação utilizado, que foi aumentado pela atitude de duas empresas, a DNA2.0 (EUA) e a Geneart (Alemanha).
Há mais de um ano existe na Europa a International Association of Syntetic Biology (IASB – Associação Internacional de Biologia Sintética), que vem desenvolvendo um código de conduta que, claro, inclui procedimentos-padrão para a análise desses pedidos de genes sintéticos. O problema? As duas empresas citadas acima anunciaram a criação de um código próprio de análise que, segundo a matéria da Nature News que adaptei para escrever esse texto, se escolhido pode ser crucial para a biossegurança global.
Mas qual é a grande diferença proposta, e por que ela pode significar o aumento do perigo?
Atualmente, o processo de verificação dos genes sintéticos envolve, num primeiro momento, um passo automatizado, em que os genes de um determinado pedido são comparados com os dados de organismos presentes em listas contra bioterrorismo, como essa aqui mantida pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC – Centro para Controle e Prevenção de Doenças). Esse passo do processo de verificação é feito pelo uso de programas de computador como o BLAST (Basic Local Alignment Search Tool), velho conhecido d e qualquer um que tenha trabalhado ou trabalhe com Biologia Molecular. Esse programa busca similaridades entre sequências gênicas escolhidas pelo usuário, ou seja, ele fornece a porcentagem de “igualdade” entre as sequências que você queira comparar.
biohazard1.jpgNo entanto, apesar de o código elaborado pelo IASB especificar que um especialista analise os resultados obtidos pelo computador caso haja uma identificação positiva (entre um gene conhecido de um agente patogênico, por exemplo, e um pedido feito à empresa), o código elaborado pela DNA2.0 e pela Geneart determina que o processo de verificação de segurança dos pedidos termine na parte automatizada, sem verificação posterior. Isso fará com que a empresa ganhe agilidade na entrega dos pedidos, e, CLARO, fará com que as mesmas economizem uma boa grana em gastos com funcionários, visto que o especialista responsável pela verificação não será mais necessário.
Apesar disso, nenhum especialista acredita que uma lista contendo TODOS os genes “perigosos” possa ser criada. Por exemplo, sem a revisão de um especialista, pode acontecer de as listas utilizadas no processo automatizado não identifiquem organismos não-patogênicos que tenham sido modificados geneticamente para formarem algo novo, e potencialmente perigoso.
A defesa de um dos vice-presidentes da DNA2.0, Claes Gustafsson, é de que a revisão de especialistas também não é perfeita, podendo acontecer o mesmo fato, de modo que ele defende que não há uma padronização que possa ser feita para garantir 100% de segurança dos produtos sintetizados. Além disso, ele alega que as autoridades governamentais debatem isso há muito tempo sem chegar à um consenso, razão pela qual eles decidiram adotar esse novo código. Algumas empresas anunciaram a possibilidade de fazer o mesmo que a DNA2.0 e a Geneart, e uma reunião organizada pela IASB ocorrerá agora em Novembro nos EUA, para que as empresas adotem o código que a mesma desenvolveu.
A esperança de especialistas em “boas práticas de trabalho”, preocupados com a adoção do padrão exclusivamente automatizado pelas empresas que sintetizam esses genes artificiais, é de que o governo dos EUA, o país mais preocupado com biossegurança, manifeste sua preferência pelo código desenvolvido pela IASB, “forçando” a oficialização desse padrão.
Apesar de eu não ter certeza de que esses códigos de verificação possam realmente ter efeito na proteção contra a fabricação de armas biológicas, creio que há casos em que é melhor não se testar a sorte. Junto à isso, nunca vou preferir os resultados de um computador, se me derem a opção de ter os resultados de um computador revisados por um especialista.
É torcer para a reunião de Novembro ter sucesso em convencer que, em alguns casos, não se pode simplesmente usar o “mínimo denominador comum” na indústria, só porque o concorrente decidiu forçar a briga por maior faturamento por diminuição da qualidade de seus produtos.
* Esse texto foi adaptado de “Keeping genes out of terrorists’ hands”, escrito por Erika Check Hayden e publicado na Nature News em 31 de Agosto de 2009.

Obrigado a todos que votaram no RNAm para o Prêmio TopBlog 2009!!!

Nós, do RNAm, gostaríamos de agradecer a todos os leitores que acessam o blog sempre, e que votaram em nós para melhor blog de Variedades do Prêmio TopBlog de 2009!
Graças aos votos de vocês, nosso blog ficou entre os 100 mais votados do ano, e o selo que aparecerá em nossa barra lateral é esse aí abaixo! Além disso, fomos convidados para participar da cerimônia de entrega dos prêmios, que vai acontecer no próximo sábado, dia 12 de Setembro, em São Paulo.


Claro que não tínhamos pretensão de ganhar o prêmio, afinal, a categoria Variedades é muito ampla, e concorremos com mais de 65 mil outros blogs, e não há uma categoria que possa abrigar melhor blogs como o nosso (e já fica a dica prá organização desse evento!)!
Por isso mesmo achamos ótimo já estar entre os 100 primeiros, por se tratar de um blog que se preocupa em transmitir conteúdo científico aos seus leitores!
Obrigado novamente a todos que votaram e nos indicaram a outras pessoas! Não deixem de trazer mais leitores!

Segredo (ou sacanagem) dos bastidores da ciência: o auto-engano

Vou contar mais um segredo de como a ciência funciona nos bastidores.
Exemplo resumido de uma pesquisa:
Você quer descobrir como as células respondem a um tratamento. E para isso cultiva as células com a droga de teste. Para saber se está funcionando podemos fixar as células testadas (como a gente vê com orgãos no formol) e usar marcações que brilham se o tratamento funciona, e assim ver no microscópio.
Daí tiramos fotos. Quanto mais brilho, maior marcação, e melhor para confirmar a eficácia do tratamento. Então contamos as células positivas e comparamos com células que não foram tratadas (o que chamamos de “controle”). O controle não pode brilhar, entende? Ou se brilhar deve ser menor que as células tratadas. E se brilhar igual? Sinto muito mas isto significa que sua hipótese não funciona. Tem que dar diferente do controle!
Claro que no laboratório nada é preto no branco. Nunca TODAS as céluas estão lindas e brilhantes. Por mais que a técnica usada esteja corretíssima, nunca sai perfeito. E outra, umas aparecem muito brilhantes e outras pouco. Por isso usamos estatística. Sempre é preciso fazer um experimento várias vezes pra ter certeza de que aquele aumento na média é um aumento mesmo. Se só 5% das vezes as células brilham, na média, o tratamento não funciona, certo?
O viés maldito do maldito cientista
Se até quem não é cientista entende, como é que um baita pesquisador já conhecido no seu meio, com publicações científicas boas e alunos sobre sua orientação, pode querer pegar justo uma foto dos 5% que funcionam para ilustrar o tratamento?!
E ainda acha bonito: “Olha que foto bonita, vamos usar esta.” E o pobre aluno orientado, que fez o experimento, suou e sangrou para fazer todas as repetições, vendo a sacanagem se formar não tem nem o poder de gritar “MARMELADA”.
É vergonhoso mas acontece. E MUITO!
Muita gente põe a culpa na pressão em ter resultados, e resultados bons para publicar numa revista científica melhor; as publicações trazem mais alunos e mais dinheiro para o pesquisador continuar pesquisando mais.
Mas pra quê pesquisar se já mostrou que não está nem aí? Porque burlar o método científico desse jeito é mostrar que não está nem aí para ciência. Então pra que continuar? Ou parte do tesão é enganar o mundo e a si mesmo?
Eu fico imaginando o que se passa na cabeça de um pesquisador deste que, do alto de seu cabedal científico, ainda se regozija com um resultado que intimamente sabe ser exagerado ou falso mesmo.
Acho que esta é só mais uma amostra da maior e mais forte das capacidades humanas: O AUTO-ENGANO.

Dia do Biólogo, papel higiênico e Ana Maria Braga

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