Dizem que nada supera o amor de mãe... conhecemos histórias de mães que se sacrificam por seus filhos, ou lendas de mães que ergueram carros sozinhas para conseguir libertar um filho atropelado, ou qualquer coisa do gênero.
No mundo animal também temos exemplos notáveis de cuidado maternal, mas um em especial me chamou a atenção: as fêmeas do besouro Neochlamisus platani fazem de tudo para protegerem seus filhotes o máximo possível...
... mesmo que isso consista em construir um casulo que cobre os filhotes. De cocô.
(pausa para que todos possam dizer "Eeeeeeeca, que nojo!"... e estamos de volta com a nossa programação normal)
É, temos aqui mais um caso da nossa "Maravilhosa Enciclopédia Bizarra do Mundo Animal". Essas fêmeas de N. platani constroem uma espécie de carapaça-extra em suas costas que traz grande vantagem aos filhotes, que têm mais chances de, protegidos, chegarem à vida adulta.
E tem gente que acha que teve uma infância/adolescência de m*rda... (trocadilho infame incontrolável, desculpem, foi o último... eu acho). Esses besouros servem de exemplo prá qualquer adolescente do tipo "ninguém me entende", "meus pais não me entendem". Aliás, imagina se a mãe do Renato Russo fosse uma fêmea de N. platani? "Pais e Filhos" seria uma música completamente diferente ;)
Essas fêmeas encasulam (isso é uma palavra? Me ajudem!) sua cria em uma espécie de cápsula feita de suas próprias fezes. Após a postura dos ovos, selam cada um deles em um casulo com formato de sino. Quando as larvas eclodem, fazem algumas modificações na estrutura do casulo, como um furo no "teto", além de aumentarem o tamanho do casulo com seu próprio excremento (palavra bonita pro bom e velho "totô"). Prá finalizar, imagine agora esse besourinho esticando sua cabeça para fora do casulo, e fazendo o mesmo com suas pernas: temos aqui um casco semelhante ao das tartarugas, que confere grande proteção ao inseto, servindo de "moradia móvel" que ele carrega até a idade adulta.
Além de ter uma "moradia móvel", os besouros N. platani têm formas de "tunar" seus casulos protetores. Uma das adições à estrutura inicial são pêlos (ou tricomas) das plantas que eles usam como hospedeiras. Esses tricomas são adicionados tanto ao interior quanto ao exterior do casulo, e possibilitam uma proteção extra contra eventuais predadores, como foi demonstrado num artigo publicado no periódico Animal Behaviour.
Os autores do trabalho apontam que o material fecal (outro termo lindo prá falar "cocô") é excelente para construção, pois combina maleabilidade com baixos custos de "produção" (a não ser que você tenha hemorróidas ou intestino preso, certo?), e também há o reforço do material vegetal que não tenha sido digerido.
Enfim, o artigo publicado na Animal Behavior testou se o casulo fornecia proteção real contra predadores, colocando larvas de N. platani contra três predadores: um grilo, uma 'maria-fedida' (Pentatomideae) e a aranha Peucetia viridans (que tem como nome comum algo como aranha lince verde). Quando a larva do besouro estava dentro do casulo, era muito menos provável que fosse atacada do que quando estava em terreno aberto, desprotegida (quando foi vítima dos 3 predadores). A adição dos tricomas à estrutura fez com que os ataques dos grilos fossem resistidos, apesar de não ter funcionado contra as marias-fedidas. Apesar desses resultados, os pesquisadores argumentam que o efeito protetor desse casulo no meio ambiente é realmente grande, o que pode não ser constatado quando se coloca a pobre larva numa placa de Petri de cara com seus predadores.

Pensando no que aconteceria no meio ambiente, primeiro, o predador precisaria perfurar o casulo, o que não é tarefa fácil. Caso conseguisse, ainda encontraria vários tricomas armazenados no interior... e esses tricomas têm ação irritante, existe pelo menos mais um inseto (um crisopídeo da ordem Neuroptera) que também usa esses tricomas para afastar predadores.
Outro fato que depõe a favor da importância desses casulos são indivíduos preservados em âmbar (lembram do mosquitinho no filme Jurassic Park?) que mostram que esses besouros já construíam esses casulos de material fecal há pelo menos 45 milhões de anos. Nada que dá trabalho para o indivíduo permaneceria por tanto tempo em sua linha evolutiva, se não trouxesse alguns benefícios, correto?
Apesar de que, se eu pudesse fazer uma contribuição na construção desses casulos, usaria material vegetal de eucaliptos e talvez convidasse a aranha vegetariana-que-gosta-de-incenso e usa Macintosh que vi outro dia no Rainha Vermelha, para ajudar numa decoração "odor-free".
Brown, C., & Funk, D. (2009). Antipredatory properties of an animal architecture: how complex faecal cases thwart arthropod attack Animal Behaviour DOI: 10.1016/j.anbehav.2009.10.010
Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutorando pela Biotecnologia da USP. Realiza pesquisa na área de terapia gênica do câncer.


Comments (13)
Fascinante, como sempre.
Já tinha ouvido falar em uma tribo (de humanos!) que construía ocas com material fecal, achei engraçado o termo usado pelo antropólogo, não sei se foi o tradutor que brincou.
Eram as cococas.
O problema é que não me lembro onde li isso.
Posted by: Mori | novembro 22, 2009 12:08 AM