Um camundongo.
Claro que já entrei em contato com a morte antes. Desde animais de experimentos de colegas ou mesmo morte de parentes. Todas estas ocasiões acabam mostrando uma nova face da morte. Até mesmo já havia matado camundongos invasores de uma antiga república onde morava.
Mas sacrificar MEUS animais, para completar o MEU experimento, e aliás, fazer isto com as MINHAS próprias mãos, coloca a morte em uma nova perspectiva.
Irei ignorar comentários me chamando de sádico matador de animais. Eu gosto de animais. Até mesmo crio gerbils de estimação. Sinto empatia por eles, e este é o problema. Esta empatia que nos coloca no lugar deles, que insiste em colocar a nossa consciência humana nos seus corpinhos de roedores.
Mesmo sofrendo com esta empatia, não quero me livrar dela. Não quero perder esta sensibilidade pelo animal. Sei que seria muito mais fácil para o trabalho, mas a falta de sensibilidade acaba na banalização da coisa toda, e isto seria péssimo. Seria um passo a mais para se sair do trilho ético no lido com animais.
E infelizmente não podemos deixar de usar os animais nos experimentos. Tudo in vitro ou in silico (computador) é apenas uma dica, é mentira, ilusório como um vôo simulado. O experimento que se faz em animal é o primeiro vôo de um piloto. Os animais que tornam nossos experimentos elegantes, e é neles que as respostas se mostram realmente complexas e desafiadoras. Eles são a porta de entrada das hipóteses dos pesquisadores para a "natureza selvagem".
Aos que já estão acostumados a lidar e sacrificar animais, não riam da minha empatia talvez ingênua neste meio acadêmico da biologia. Continuarei os experimentos até o fim. Mas entendam que não é algo trivial e que devemos sempre ter os animais em um nível de consideração mais elevado que uma simples "cobaia", palavra que acaba ficando até mesmo pejorativa.
São animais, oras. Mamíferos muito próximos de nós, evolutivamente falando.
Por isso dedico este texto aos meus camundongos sacrificados. Em homenagem à sua importância para minha formação e para o conhecimento humano. Farei o máximo para aproveitar cada dado extraído, cada experiência profissional, e também pessoal, de meu contato com eles.
Obrigado.
Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutorando pela Biotecnologia da USP. Realiza pesquisa na área de terapia gênica do câncer.


Comments (29)
Parabéns pelo texto.
Vi muito de mim no que você escreveu. Também não consigo me 'desligar' dos meus animais de experimentação e, sinceramente, não é algo que eu busque.
Já pensei inclusive em 'largar' meus experimentos com animais no laboratório, mas, como a linha de pesquisa é fundamental, no máximo eu conseguiria não participar mais. Mas a pesquisa continuaria sendo feita.
Por que eu continuo, então? Porque eu, infelizmente, sou muito bom em manusear os animais (nunca fui mordido, derrubei, 'perdi', ou sacrifiquei animais por motivo algum, ou por erro humano, por incrível que pareça), e tenho receio - muito - de que a pessoa que venha a assumir o meu lugar não tenha tanta prática, ou, pior, a ligação que eu sempre tive com os animais.
E essas duas coisas são prejudiciais aos animais de experimentação: pouca prática e falta de ética, ou de empatia, levam a um maior sofrimento, sempre.
Mas, apesar de trabalhar com experimentação animal desde 2006, em nenhuma vez em que tive que trabalhar com animais (não é sempre), consegui me sentir de modo diferente: sempre chego ao laboratório introspectivo, e vou embora triste.
Mesmo quando os experimentos 'dão certo', e eu consigo os dados que estava buscando.
Parabéns pela iniciativa em colocar seus sentimentos sobre experimentação animal 'no papel'. Nós sempre argumentamos sobre a importância de se continuar realizando esses testes que, em muitos casos, são mesmo cruéis, mas é muito difícil um cientista se colocar numa posição 'subjetiva', ou sentimental.
De modo geral, faço minhas as suas palavras nesse texto.
Posted by: Gabriel Cunha | dezembro 22, 2009 3:59 PM