Quando a esmola é demais, até Darwin desconfia.
Juro que achei bacana achar uma menção a Darwin na página do GuiaSP, um site de dicas de programação na cidade de São Paulo. A dica é sobre uma série de vídeos que serão exibidos no Museu de História Natural da USP (fica no Ipiranga, quem não conhece, VÁ!).
Mas ao entrar na reportagem sobre o passeio, vi que a esmola era demais.
Convido você a ler o texto. Diga se não esta MUITO mal escrito.Fora que aparece a foto de Sir David Attenborough debaixo do nome de Darwin.
Só um trechinho:
A biodiversidade é estudada e reconhece espécies de plantas e animais de apenas algumas regiões do Brasil, e de onde tiram suas descrições e classificações.
A erudição de ecossistemas naturais é incluído nesse campo de pesquisas, e os profissionais que mantém o Museu, conservam o arquivo zoológico sempre atualizado.
Bom, deixa que Darwin seleciona, fazer o que…
Enchentes até na capa da Science
Gente, tá tudo alagando. Alagou São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, suas ruas, avenidas e casas. Alagou até a capa da revista Science desta semana!
Ok, não tem nada a ver com Brasil, ou excesso de chuvas, mas sim com furacões. Esta foto é de Pinar del Rio, em Cuba, após o furacão Ike.
Mas dá pra prever as consequencias do aquecimento? E as nossas enchentes?
Estudos usando modelagem matemática mostraram que a tendência com o aquecimento global é que os furacões diminuam mas fiquem mais fortes, causando mais estragos do que causam hoje
Mas muita calma nessa hora, porque os próprios pesquisadores afirmam que os modelos não são definitivos.
O que estes caras fizeram foi unir várias projeções de condições climáticas para o fim do século 21 (a projeção é que vai aquecer), e colocar esses dados num modelo de formação de furacões. Tudo isso calculado para o Atlântico Norte.
O resultado é: menos tufões só que mais fortes. Calcula-se um aumento dos prejuísos de 30% comparando com a média atual.
Agora mais um momento “Muita Calma Nessa Hora”: As enchentes destes meses no Brasil não podem ser ligadas diretamente a aquecimento global. Qualquer um que disser isso está se precipitando (sim, a televisão e os jornais se precipitam e erram, vcs não sabem o quanto). Não tem como dizer num curto período de tempo, em eventos isolados, o que causou o que.
Prever o clima deve ser a coisa mais difícil de se fazer. Afinal é muita variável! É como dizem: dependendo das condições, até o bater de asas de uma borboleta pode gerar uma enchente na marginal Tietê.
Modeled Impact of Anthropogenic Warming on the Frequency of Intense Atlantic Hurricanes
Bender, M., Knutson, T., Tuleya, R., Sirutis, J., Vecchi, G., Garner, S., & Held, I. (2010). Modeled Impact of Anthropogenic Warming on the Frequency of Intense Atlantic Hurricanes Science, 327 (5964), 454-458 DOI: 10.1126/science.1180568
“Publicar na Nature? Eu nem queria mesmo…”
O vídeo abaixo está ilustrando, de um jeitinho todo especial, como os pesquisadores decidem para qual revista científica vão mandar seu trabalho de pesquisa.
AVISO 1- Tentem ignorar o “show de interpretação” dos pobres posgraduandos que atuam neste filme.
AVISO 2- Nem todos os pesquisadores são idiotas maus-atores assim (só 75%). A intenção foi boa, vá!
Mesmo sem saber inglês dá pra entender né?
O pesquisador manda o artigo pra uma revista “sonho de consumo” naquela vã esperança. E se não der, vai descendo, até conseguir publicar numa revista online de conteúdo aberto mas que ele tem que pagar para publicar (mais de 2mil verdinhas). Aqui eles tiram sarro mostrando a Nature totalmente fechada, e a última revista aceitando sem nem revisar o artigo. Essa revisão é mais conhecida como peer-review
Nas portas aparece um número pra cada revista, que é o fator de impacto (Fi). É um número “cabalístico” que serve para quantificar a relevância da revista.
Esse número é calculado dividindo o número de artigos publicados pela revista pelo número de vezes que os artigos da revista foram citados. Assim, se uma revista publica 10 artigos e são citados, ou seja, usados como referência, em 200 outros artigos, temos: 200/10 = 20. Este é o fator de impacto da revista.
Só que existem várias fórmas de se medir a relevância das revistas. Esse é só um e muito criticado. Veja o exemplo: uma revista que publica quinzenalmente semanalmente como a Nature, teve 1748 arigos publicados em 2004, citados 56255 vezes. Isso dá um Fi de 32,2.
Agora uma revista como a Annual Review of Immunology, que publica apenas uma vez por ano 51 artigos e é citada 2674 vezes tem um impacto de 52,4. Bem maior que a Nature, mas também é um número de artigos bem menor e uma vez só por ano.
A Nature é o Arroz com feijão que mantém a coisa toda funcionando, enquanto a Annual Review of Immunology é o peru de natal esperado por todos no final do ano.
Nesse caso, qual a mais importante?
Depende do que você considera importante.
Com esta pergunta na cabeça, leia mais sobre o assunto no ScienceBlogs Brasil.
Contemplem o animal mais evoluído da terra, humanos inferiores!
Li antes de ontem sobre o animal mais evoluído que já habitou esse planetinha condenado ao fracasso por problemas de gerência. Ainda não o conhecia, mas foi fácil o artigo ganhar minha atenção…
Trata-se da Elysia chlorotica, uma grande e gosmenta lesma que habita a costa leste da América do Norte, desde a Flórida até o Canadá. E sim, eu disse lesma. Taí um soco no estômago prá quem vive falando que os seres humanos são o state-of-the-art da evolução animal.
Mas o que diabos essa lesma faz prá estar aqui, recebendo esse destaque?
Ela é verde, meus queridos… e não é verde só porque é bonito não. Ela tem CLO-RO-FI-LA.
Touché, mes amis!
O melhor: ela utiliza essa clorofila para fazer fotossíntese, o recurso mais “animal” (perdoem o trocadilho) que qualquer organismo pode querer… bom, talvez o segundo, depois da bioluminescência (ainda mais em tempos de ‘Avatar‘).
Agora a pergunta de ouro: como esse bichinho conseguiu tal façanha?
A Elysia chlorotica já possuía a reputação de “sequestrar” as organelas e alguns dos genes responsáveis pela realização de fotossíntese, o que caracteriza um processo de transferência horizontal gênica único nos animais. Aliás, parafraseando o Kentaro Mori, Lamarck ficaria deveras contente com essa descoberta…
O que descobriu-se agora é que a lesminha conseguiu se apoderar de genes suficientes para organizar a sua própria “via fotossintética”, mandando uma banana pros outros animais, tadinhos, que precisam ir atrás de seu próprio alimento (ou acionar o delivery da pizzaria).
As novidades foram apresentadas dia 7 de Janeiro, na Reunião Anual da Society for Integrative and Comparative Biology.
Depois que comecei a escrever “descobri” (aah, a internets) que a nossa querida Elysia não é assunto novo. O Carlos Hotta (do Brontossauros) e o Kentaro (100Nexos) já haviam escrito sobre ela em 2008 (cheguei bem atrasado dessa vez, mas ninguém acerta sempre, né?), então leiam mais sobre o assunto por lá!
Aliás, tem outro cara que é fã desse animalzinho, o Luís Felipe, do blog O Amigo de Wigner (ele até homenageia a querida em seu banner!), que também escreveu sobre o assunto, e comenta uma história engraçada envolvendo a mesma.
E agora eu tenho que ir, porque estou com fome e preciso buscar meu próprio alimento #invejinha
Universo numa casca de noz… ou “grandeza não é sinônimo de tamanho”.
Recebi do Kentaro Mori (autor do 100Nexos) uma indicação do mapa Biochemical Pathways (em Português, “vias bioquímicas”), e, como tenho um quadro igual pendurado na parede da sala da minha casa (junto a Einstein e Jimi Hendrix), resolvi compartilhar com vocês.

Esse mapa já é produzido faz bastante tempo, tanto que a versão que tenho aqui é de 1974, e dá dó vê-la toda amarelada. Ainda mais por ser herança de um dos maiores cientistas que esse país já viu, o Prof. Dr. Carl Peter Von Dietrich, um dos fundadores do programa de pós-graduação em Biologia Molecular, do qual faço parte desde 2006. Infelizmente o professor faleceu em 2005, antes que o pudesse conhecer pessoalmente, motivo que só me deixa mais fã do quadro.
Cada via metabólica que estudamos é uma série de reações químicas nas quais uma reação fornece o substrato para a reação seguinte, de modo que a reação seguinte quase sempre é dependente da anterior.
Essas reações normalmente são aceleradas por enzimas, e também podem ser necessários inúmeros minerais, vitaminas, e outras moléculas que agem como cofatores em cada uma dessas milhares de reações diferentes, e interligadas.
Agora pense que todas essas reações, compostas por enzimas, cofatores, substratos, e etc, são de fundamental importância para que o organismo mantenha sua homeostase, ou seja, o seu equilíbrio metabólico.
Com esse pensamento, olhem o mapa:
Aqui temos uma pequena amostra da complexidade que está em todo o organismo vivo. Lembrem disso da próxima vez em que estiverem pensando em algo como “por que as curas de doenças demoram tanto?” ou “esses cientistas só pensam no projetinho deles”.
Pensem que, para cada enzima que um pesquisador se dispõe a estudar, todo esse mapa pode ser afetado e, em muitos casos, ainda não conseguimos enxergar na totalidade o que está ocorrendo.
O motivo? NADA é simples como parece, mesmo em tempos como os nossos, em que tudo é banalizado, e poucas coisas são tratadas com a importância real que têm.
Para olhar o mapa em detalhes, com legendas, acessem o link abaixo do ExPASy e sintam um pouco do gostinho de se tentar entender esse emaranhado químico que é o nosso metabolismo.
Espiões, a CIA, e o aquecimento global.
“Temos uma tecnologia que faz imagens de satélites muito, mas muuuito precisas. Pra que você quer usar: pra monitorar o descongelamento de geleiras e outros usos científicos, ou para espionar seus inimigos subdesenvolvidos que nunca seriam páreo militar pra você?”
Adivinha o que qualquer governante responderia?
Fantástica a capacidade do ser humano de descontar o futuro, ou seja, apostar no curto prazo em detrimento do longo.
A CIA dos EUA está colaborando com cientistas do clima liberando imagens da região ártica tiradas por seus satelites-espiões. Mas não não foi fácil convencer, pois os agentes não acham estratégico mostrar estas imagens. Claro, elas mostram um pouco do como eles tiram as fotos, revelando alguns segredinhos de espionagem, como o nível de definição das fotos, posição dos satélites, etc.
Concordo que este perigo existe e tem sua importância. Existe para os EUA, mas o que o resto do mundo tem a ver com isto? Aquecimento global não é ainda uma prioridade maior que ataques terroristas? Agora pode não ser, mas aguardemos 50 anos que eles vão ver.
Não sou ingênuo, mas quero ainda acreditar que devemos sempre desejar o bem maior.
Esta iniciativa é bem vinda, mas é só uma fresta por onde a gente pode ver a diferença de força entre diferentes interesses nacionais/globais ou político/científico
Pra se ter uma idéia, a definição das imagens cedidas para estudo pela CIA tiveram a definição diminuida para não mostrar ao mundo a capacidade real dos satélites-espiões (provavelmente por serem capazes de ler a etiqueta da sua calça de lá do espaço).
O que me deixa fulo da vida é a militarização da tecnologia, sempre a frente de questões mais nobres. Agora tão lá, os mega-satelites (sem falar em outras pesquisas militares que são as mais fortemente financiadas), nas mãos não dos cientistas que os criaram, ou de comissões de ética responsáveis, mas nas mãos de políticos. Se você confia no seu, ótimo. Se não…
E é essa apropriação da ciência, ou tecnociência que é a regra. O cientista não tem controle sobre suas descobertas. Depois de adquirido pulveriza-se o conhecimento tecnocientífico, que acaba sendo controlado por poderes econômicos e políticos.
Já aconteceu antes, no caso da bomba nuclear, e vai continuar acontecendo
Os cientístas e os cidadãos têm que ficar mais espertos e engajados. Afinal temos que saber quem é que tem autorização para a pertar o grande botão vermelho.![]()




Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutor pela Biotecnologia da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na área de neurociência comportamental e molecular.

