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*** Esse texto é uma tradução autorizada de “3 qualities of successful Ph.D students: Perseverance, tenacity and cogency”, escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

Todo outono uma nova safra de doutorandos chega à universidade. Desde que tenho procurado por esses estudantes, ouço a mesma pergunta uma dúzia de vezes todo ano: “Quanto tempo demora para se conseguir um Ph.D?”.

Essa não é a pergunta correta.

“Um doutorado pode levar tanto tempo quanto você quiser”, respondo a eles. Não existe um limite para quão rápido você consegue satisfazer todos os critérios da instituição. Uma questão melhor para se fazer é “O que faz um doutorando ser bem sucedido nesse processo?”.

Tendo acompanhado esses alunos em trajetórias de sucesso e fracasso em quatro universidades, percebi que o sucesso nessa pós-graduação está ancorado em três qualidades: perseverança, tenacidade e poder de convencimento.

Se você está fazendo doutorado ou pensando em começar um, leia.

O QUE NÃO IMPORTA
Existe uma concepção errada de que um Ph.D precisa ser esperto. Isso não pode ser verdade.

Uma pessoa esperta saberia que fazer doutorado não é lá uma ideia muito inteligente.

Qualidades de alguém “esperto” como brilhantismo e raciocínio rápido são irrelevantes numa pós-graduação. Estudantes que chegaram até esse ponto confiando apenas em seu brilhantismo e capacidade de raciocínio abandonam os programas de pós com uma previsibilidade irritante. Não duvide: ser brilhante e raciocinar rapidamente são características valiosas em outras empreitadas. Mas nenhuma é suficiente ou necessária na ciência.

É claro que ser esperto ajuda. Mas não dará conta do trabalho.

Ainda, como qualquer pós-graduando pode lhe dizer: muitos idiotas conseguem cruzar a linha de chegada e se vão, diploma de doutor em mãos.

Como meu orientador costumava me dizer, “Sempre que me sentia deprimido na pós – quando me preocupava em não conseguir finalizar meu doutorado – eu olhava para pessoas mais burras que eu terminando os seus, e pensava ‘se aquele idiota consegue um doutorado, droga, eu também posso‘“.
(Desde que me tornei professor tenho me percebido repetindo esse pensamento, só que eu troco o ‘conseguir um doutorado’ por ‘ganhar aquele financiamento’.)

PERSEVERANÇA
Para escapar da universidade com um doutorado você precisa estender de modo significativo a fronteira do conhecimento humano. Mais precisamente, você precisa convencer um grupo de experts que guardam essa fronteira de que o fez.

Você pode cursar disciplinas e ler artigos científicos para descobrir onde está essa fronteira.

Essa é a parte fácil.

Mas quando chega o momento de realizar essa expansão, você precisa entrar em sua fortaleza e se preparar para a carnificina de derrotas.

Muitos doutorandos desanimam quando chegam a essa fronteira porque não há mais um teste para realizar ou um procedimento a ser seguido. É nesse momento (entre 2 e 3 anos de doutorado) que os atritos chegam ao ponto máximo.

Encontrar um problema a ser resolvido raramente é difícil. Todos os campos de pesquisa são ricos em problemas abertos. Se encontrar esse problema for complicado, você está no campo errado. A parte difícil de verdade, claro, é resolvê-lo. Afinal, se alguém pudesse lhe dizer como fazê-lo não seria uma questão aberta.

Para sobreviver a esse período você precisa estar disposto a falhar do momento em que acorda até a hora de dormir. Você precisa estar disposto a falhar por dias, meses, talvez anos a fio. A habilidade que você adquire durante esse trauma é estimar a probabilidade de uma nova abordagem funcionar.

Se você perseverar até o final dessa fase, sua mente intuirá soluções para problemas de maneiras que não era capaz no passado. Você não saberá como ela faz isso (eu não sei como a minha faz). Ela apenas fará.

Enquanto adquire essa habilidade, você estará lançando artigos para revisão por pares para descobrir se os outros acham que o que você está fazendo se qualifica como pesquisa. Como a taxa de aceitação em bons periódicos varia entre 8% e 25% a maioria dos seus artigos será rejeitada. Você só pode esperar que, eventualmente, descobrirá como publicá-lo. Se você se dedicar e trabalhar duro o suficiente, conseguirá.

Para estudantes que se destacaram na graduação, a repentina e constante barragem de rejeição e falha é irritante. Se você tem um problema de ego, essa pós-graduação irá resolvê-lo. De modo vingativo. (Alguns egos parecem se recuperar após um tempo.)

Essa fase do doutorado exige perseverança – face a incerteza, a rejeição e a frustração.

TENACIDADE
Para aspirar a uma posição como professor titular após conseguir seu doutorado, você precisa de uma qualidade adicional: tenacidade. Como existem poucos desses cargos disponíveis, há uma competição feroz (porém civilizada) para consegui-los.

Na ciência da computação, um candidato competitivo terá aproximadamente 10 publicações, sendo entre 3 e 5 em periódicos de primeira linha (índice de aceitação de trabalhos inferior a 33%). Somente um título de doutor não garante nem uma entrevista.

Existem algumas boas razões para se conseguir um doutorado. “Porque você quer ser professor” pode ser a única realmente boa. Ironicamente, existe uma boa chance de você não perceber que tem essa vontade até o final da pós. Então, se você vai para a pós faça-a direito para o seu próprio bem.

Para se tornar professor você não pode ter uma única descoberta ou ter resolvido um único problema. Você precisa resolver vários e publicar cada solução. Ao terminar a pós, um arco conectando seus resultados deve emergir, provando aos avaliadores que sua pesquisa possui um caminho produtivo para o futuro.

Você também precisa criar relacionamentos com os acadêmicos do seu campo de modo ativo, agressivo até. Eles precisam saber quem você é e o que está fazendo. Também precisam estar interessados no que você está fazendo.

PODER DE CONVENCIMENTO
Finalmente, um bom aluno de doutorado precisa ser capaz de articular suas ideias de modo claro – pessoalmente e ao escrever.

A ciência é tanto um ato de persuasão como de descoberta.

Uma vez que tenha feito uma descoberta, você precisa persuadir os experts de que você fez uma contribuição legítima e significativa. Isso é mais difícil do que parece. Apenas mostrar “os dados” não funcionará. (Sim, em um mundo perfeito isso seria o suficiente.)

Ao invés disso, você precisa “alimentá-los de colherinha”. Enquanto escreve, precisa conscientemente minimizar a quantidade de tempo e gasto cognitivo que eles precisarão para entender que você fez uma descoberta.

Você pode precisar “sair em turnê” e dar palestras inspiradas para deixar seus pares animados com a sua pesquisa. Quando participar de conferências, você os quer esperando o próximo episódio ansiosamente.

Você precisará escrever resumos atraentes e introduções que fisguem o leitor e façam ele sentir vontade de investir tempo na leitura do seu trabalho.

Você aprenderá a balancear clareza e precisão, para que suas ideias se componham sem ambiguidade ou formalidade em excesso.

Geralmente, os alunos de pós não chegam com boas habilidades comunicativas. Isso é uma capacidade que eles forjam na pós. Quanto mais cedo isso acontecer, melhor.

Infelizmente o único modo de melhorar a escrita é fazê-lo repetidamente. 10000 horas é o número mágico que dizem ser necessário para se tornar um expert em algo. Você nunca chegará nem perto desse número escrevendo somente seus artigos científicos.

Assumindo a pouca prática em escrever para um público antes de se chegar à pós-graduação, se você ficar na pós seis anos até obter seu doutorado, é possível alcançar essas 10000 horas escrevendo 5 horas por dia. (Próximo do final de um doutorado não é incomum ultrapassar 12 horas de escrita diária.)

É por esse motivo que eu recomendo que novos estudantes comecem um blog. Mesmo que ninguém o leia, faça isso. Você não precisa nem escrever sobre o que pesquisa/estuda.

A prática do ato de escrever é tudo o que importa.

*** Esse texto é uma tradução autorizada de “3 qualities of successful Ph.D students: Perseverance, tenacity and cogency”, escrito pelo Prof. Matt Might da University of Utah ***

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