Do que é realmente feito um Big Mac

le bigmac

Bom ou ruim, o Big Mac já é um ícone de nossa humanidade. E o fato de existir no mundo todo serve de parâmetro para estudos econômicos, como o BigMac Index da revista The Economist, que compara o preço do lanche por país, a saber, BigMac mais caro que o do brasil só na Suiça.

Mas há muito mais escondido naqueles dois hamburgueres, alface, queijo… vc sabe o resto.

Pesquisadores da USP fizeram um verdadeiro trabalho de CSI para rastrear a origem da carne do BigMac em diferentes países para entender as diferenças na cadeia de produção nesses locais.

E por mais padronizado que seja, o sabor do lanche varia, porque a fonte de carne é diferente em cada país. E dá pra saber de onde a carne vem com análises minuciosas, por exemplo no Japão a carne vem da Austrália,e dá pra dizer isto porque tem como saber que tipo de planta o boi no lanche comeu!

Só duas observações:

-Não desvendaram o maior mistério do BigMac: O MOLHO ESPECIAL!!!

- Você sabe como se chama um quarteirão com queijo na França?

#Divã da pós – Ritmos de trabalho.

Passadinha rápida para compartilhar mais uma verdade transformada em quadrinho por Jorge Cham!

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Eu alterno entre “Robô” e “OK, talvez você defenda sua tese”, e vocês?


Adaptação do sempre ótimo PhD Comics.

ps: favor desconsiderar minha inaptidão para com editores de imagem.

A ingenuidade de Bill Gates sobre a Biologia

Caro Bill Gates,

Sinto informar que células não são tão rápidas quanto elétrons. Mais que isso: burocracia para mexer com gente e com o ambiente não é tão simples quanto programar um software.

Digo isto em vista da reportagem do New York Times, repassado pela Época, sobre o balanço dos investimentos em pesquisa em saúde feitos pela fundação Gates.

 

“Cerca de 1.600 propostas chegaram, e as 43 principais eram tão promissoras que a Fundação Bill & Melinda Gates liberaram US$ 450 milhões em bolsas de cinco anos _ mais de duas vezes a estimativa inicial.
Recentemente, a fundação chamou todos os cientistas a Seattle para avaliar os resultados e decidir quem seguirá recebendo os financiamentos. Numa entrevista, Gates soou de certa forma moderado, dizendo diversas vezes: “Nós fomos ingênuos”.”

[Leia a história e os projetos selecionados aqui]

 

Mas na verdade não dá pra saber se ele foi ingênuo ou enganado pelo hype alardeado pelos projetos. Afinal o objetivo de escrever um projeto é justamente convencer a todo custo quem o lê. O famoso “puxar a sardinha pro seu lado”, coisa que as vezes (muitas vezes) os cientistas fazem exagerando nas expectativas e enviesando as perspectivas. Outra coisa é que tem vários ganhadores do Nobel participando, e convenhamos que receber um projeto de um cara desses e dizer “não” não deve ser fácil.

Fato é que ele parece não ter gostado do resultado. E muita gente, incluindo um comentarista da reportagem acima, os cientistas e o próprio Bill Gates acham que o dinheiro investido nessas pesquisas foi algo bem significativo! Quando na verdade o gasto é irrisório comparando com gastos militares por exemplo. Para entender meu ponto de vista você precisa ler este texto espetacular do 100 Nexos, onde se lê que antes do telescópio Hubble, o instrumento mais fantástico da astronomia por muito tempo, que ajudou a desvendar milhares de mistérios do espaço, do tempo passado e do futuro, é uma aplicação tardia de um projeto de satélites-espiões que somaram 9 em nossa órbita!

Ou seja, enquanto mendigamos por recursos para a astronomia e também para outras áreas como a saúde e o bem-estar humano, uma quantia gigantesca é gasta sem que nós sequer saibamos onde.

Obrigado Bill Gates, continue assim gastando parte da sua fortuna pelo bem do próximo (e olhem que eu não estou nem questionando o como essa fortuna foi adquirida), mas acho que mesmo este esforço é uma gota num oceano de descaso pela vida humana.

Só de ver carne os homens se acalmam

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Grazi Massafera mostra carne e acalma a homarada – by @elciorcarvalho


Hum, então ver carne deixa a homarada mais tranqüila. O pesquisador da Universidade McGill (não confundir com McGRill), juntou 82 homens e fez o seguinte teste, segundo visto no site da Revista Galileu (dica do @elciorcarvalho):

No experimento, 82 homens foram convidados a autorizar vários níveis de punição em atores quando estes erravam suas falas. Ao mesmo tempo, diversas imagens eram mostradas aos homens, algumas neutras e outras de pedaços carne. Os resultados mostraram que, ao ver imagens de carne, os homens ficavam menos agressivos nas punições.

Isso explica mas ainda não entendi direito como foi feito o estudo. Os caras ficavam vendo um teste de atores com projeções no palco de imagens neutras (e sabe-se lá o que eles consideram neutro, detergente de louça talvez), e pedaços de bife? WTF!!! Imagina o que se passa na cabeça dos 82 caras que não sabiam de que se tratava exatamente o teste. Que loucura…
Provavelmente esses pesquisadores são psicólogos evolucionistas e usaram carne pra testar hipóteses sobre o nosso passado de caçadores-coletores. Típico desse pessoal.
Então mulherada, por um mundo mais calmo e harmônico, vamos mostras essas carnes aí! ;)

Dioxina: alguns esclarecimentos.

ResearchBlogging.orgPara não ter dúvida: dioxinas são tóxicas? Sim.

Afetam o desenvolvimento embrionário? Sim.

São produzidas quando aquecemos plásticos em microondas ou quando congelamos água em garrafas plásticas? Depende.

A utilização de plásticos próprios para aquecimento em microondas evita a formação desses compostos químicos, enquanto o congelamento de água nada tem a ver com a liberação de quaisquer substâncias tóxicas de recipientes plásticos.

Do começo: o que são as dioxinas?

1,4-dioxin-2D-skeletal.pngA dioxina na verdade é um composto orgânico de fórmula C4H4O2 que possui dois isômeros: 1,2-dioxina (ou o-dioxina) e a 1,4-dioxina
(ou p-dioxina, na imagem à direita). No entanto, a literatura científica utiliza o termo “dioxina” para se referir de
forma simplificada às dibenzodioxinas policloradas (PCDDs, imagem abaixo) como a
2,3,7,8-tetraclorodibenzodioxina (TCDD), a substância mais estudada por
seus efeitos tóxicos.PCDD_general_structure.pngParte dos problemas causados pela TCDD vem da sua interação com um receptor chamado AhR. O receptor afetado é translocado para o núcleo, onde é reconhecido por elementos chamados AhREs (por serem responsivos ao AhR) em vários genes diferentes. Essa atividade inicia diversas alterações transcricionais, de modo que os resultados das pesquisas envolvendo o AhR expandiram sua importância em múltiplos aspectos como o desenvolvimento embrionário, reprodução, imunidade inata e supressão tumoral.

Quem sentir falta de informações sobre os mecanismos, as duas referências que citei no final deste texto trazem revisões excelentes e atualíssimas sobre o tema, apesar de a química ser um pouco pesada.

Um caso famoso e recente.
Victor Yushchenko, candidato a
presidência da Ucrânia em 2004 ficou seriamente doente durante a corrida
presidencial no começo de Setembro. No diagnóstico, pancreatite aguda e
edemas relacionados a uma infecção viral e compostos químicos que não
são normalmente encontrados nos alimentos levaram o presidenciável a
afirmar que havia sido envenedado.

yushchenko.jpg

Yushchenko então reapareceu com o rosto
completamente desfigurado (foto abaixo) devido a cloracne ocasionada por
envenenamento por dioxina. A concentração de dioxina no sangue do
candidato encontrava-se 6000 vezes acima do normal. Apesar de polêmico, esse diagnóstico foi o mais aceito até então, e a premissa de envenenamento foi mantida.

E o microondas?

Existem várias mensagens na internet contra congelar água em garrafas de plástico ou cozinhar com plásticos no microondas. O caso da famosa mensagem que usa o Johns Hopkins como fonte de credulidade já foi desmentido pela instituição mais de uma vez.

As pesquisas atuais apontam que o congelamento de água não ocasiona a liberação de compostos químicos tóxicos de garrafas de plástico. No entanto, ao utilizar plásticos para cozimento no microondas é melhor seguir as recomendações do fabricante e certificar-se de que o recipiente plástico é próprio para este uso.

De qualquer modo, abaixo estão os símbolos que designam recipientes próprios para microondas e congelamento.

symbolfortableware.jpg

O departamento americano responsável pela segurança alimentar (FSIS) possui diretrizes eficazes para o cozimento de alimentos em microondas, mas como não encontrei nada parecido no Brasil, volto a recomendar: ao aquecer alimentos no microondas, utilize recipientes de vidro ou cerâmica apropriados.

Wells PG, Lee CJ, McCallum GP, Perstin J, & Harper PA (2010). Receptor- and reactive intermediate-mediated mechanisms of teratogenesis. Handbook of experimental pharmacology (196), 131-62 PMID: 20020262

FUJII-KURIYAMA, Y., & KAWAJIRI, K. (2010). Molecular mechanisms of the physiological functions of the aryl hydrocarbon (dioxin) receptor, a multifunctional regulator that senses and responds to environmental stimuli Proceedings of the Japan Academy, Series B, 86 (1), 40-53 DOI: 10.2183/pjab.86.40

Cuidado com a prática ortomolecular e biomolecular

ORTOMOLecular.jpgO Conselho Federal de Medicina falou, tá falado. Algumas práticas ortomoleculares e biomoleculares não podem ser realizadas por não terem comprovações científicas. – Aliás, quem inventou esses nomes? Parece até essas coisas pseudocientíficas bioquânticas

Agora reposição de nutrientes que estejam faltando, como vitaminas, ou tirar outras substâncias nocivas, como metais pesados e pesticidas, só podem ser feitas nos parâmetros internacionais e se forem medidas e comprovadas a falta ou excesso de substância.

E para essa medição não vale o famoso teste do cabelo, que todo ortomolecular pede. Este só funciona em caso de intoxicação ou contaminação por metais tóxicos. Fora isso não funciona e está proibido de ser usado.

Alguns trechos interessantes da resolução (leia aqui na íntegra):

  • Art. 8º A remoção de minerais, quando em excesso, ou de minerais tóxicos, agrotóxicos, pesticidas ou aditivos alimentares se fará de acordo com os seguintes princípios:
  • I) O excesso de cada substância tóxica deverá ser considerado isoladamente;
  • II) Existência, na literatura médica, de fundamentação bioquímica e fisiológica sobre o efeito deletério do excesso da substância tóxica considerada, bem como de dados que comprovem a possibilidade de correção efetiva por meio da remoção proposta;
  • III) Além da melhoria dos parâmetros laboratoriais, deverá haver comprovação científica de utilidade clínica;
  • IV) O valor terapêutico da remoção de determinada substância tóxica deverá ser avaliado para cada tipo de distúrbio.
  • Art. 9º São destituídos de comprovação científica suficiente quanto ao benefício para o ser humano sadio ou doente, e por essa razão têm vedados o uso e divulgação no exercício da Medicina, os seguintes procedimentos da prática ortomolecular e biomolecular, diagnósticos ou terapêuticos, que empregam:
  • I) Para a prevenção primária e secundária, doses de vitaminas, proteínas, sais minerais e lipídios que não respeitem os limites de segurança (megadoses), de acordo com as normas nacionais e internacionais e os critérios adotados no art. 5º;
  • II) EDTA (ácido etilenodiaminotetracético) para remoção de metais tóxicos fora do contexto das intoxicações agudas e crônicas;
  • III) O EDTA e a procaína como terapia antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para patologias crônicas degenerativas;
  • IV) Análise do tecido capilar fora do contexto do diagnóstico de contaminação e/ou intoxicação por metais tóxicos;
  • V) Antioxidantes para melhorar o prognóstico de pacientes com doenças agudas, observadas as situações expressas no art. 5º;
  • VI) Antioxidantes que interfiram no mecanismo de ação da quimioterapia e da radioterapia no tratamento de pacientes com câncer;
  • VII) Quaisquer terapias antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para doenças crônicas degenerativas, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados.

GiovannaAntonelli.jpg

Chiques, famosas e “ortomoleculadas”

Várias destas práticas, agora proibidas, vem sendo feitas e divulgadas a muito tempo. Como acontece com Giovanna Antonelli, uma das estrelas da Novela das Oito “Viver a Vida” (por ser uma entidade, “Novela das Oito” deve ser escrita em maiúsculas, por respeito a sua divindade) . É o que diz sua terapeuta numa reportagem de dietas dos Famosos (também com F maiúsculo por se tratar de divindade): “Giovanna Antonelli chegou ao consultório querendo emagrecer. Uma das providências foi prescrever doses extras de minerais que baixassem sua vontade louca de comer doce na fase pré-menstrual”. Hum… mas sem medir nada pra ver se tava faltando mesmo? 

samara_felippo.jpgO fato é que resolve mesmo. Pelo menos pra emagrecer. Afinal a Global (G maiúsculo) chega no consultório querendo perder 8kg pra ser a próxima capa da Playboy e a terapia molecular, com todo seu conhecimento, receita o que? Ouça nas palavras de Samara Fellipo: “Não precisei passar fome e sequei 8 quilos em dois meses, reduzindo carboidrato e cortando doce e fritura”. Isso não é terapia ortomolecular Samara, é COMER DIREITO, DIETA, e todo mundo sabe como funciona!

Quem tiver dados REAIS de reposição de nutrientes usadas nessas terapias, pode me mandar.

Não apela, Folha

Agora, esta notícia da Folha resumindo a resolução está muito ruim e errada.

Diz que a resolução confirma a ausência de comprovação científica da prática, o que não é verdade. Ela regulamenta, ou seja, algumas práticas estão autorizadas e outras não. E afirmar “Entre os prejuízos estão o aumento do risco de câncer”, é senssacionalismo, já que não é exatamente isto que a resolução fala, como você pôde ler acima.

E outra, a Folha definiu as práticas ortomoleculares e biomoleculares com o que estava escrito na resolução. Custava dar um “google” pra aprofundar pelo menos um palmo?

Dieta da Proteína: rápida para emagrecer… e para te dar um ataque cardíaco.

As doenças cardiovasculares continuam sendo a causa dominante de mortalidade em todo o mundo, e complicações relacionadas à obesidade despertaram grande interesse em relação às dietas, incluindo dietas com baixas quantidades de carboidrato que, geralmente, são ricas em proteínas e gorduras.
Atkins diet.gifA Dieta de Atkins
Nesse cenário, o Dr. Robert Atkins, que faleceu em 2003, ainda é o rei das dietas de baixos carboidratos, num reinado que começou há quase 35 anos. Segundo Atkins, seguindo a dieta você remove toxinas das suas células, estabiliza o açúcar sangüíneo, livra-se da fadiga, irritabilidade, depressão, dores de cabeça e dores nas articulações.
Ele acreditava que se o consumo de carboidratos fosse reduzido drasticamente, o corpo seria forçado a usar o acúmulo de gordura extra para ter energia.
Eu sempre tive problemas em relação à essa dieta, mas nunca havia procurado maiores informação a respeito. Algumas coisas que eu já tinha como claras eram: apesar de parecer altamente eficiente, não há magia metabólica na dieta de Atkins, afinal, a perda de peso é inevitável quando se cortam categorias de alimentos importantes. Outro ponto importante é: como essa dieta não fornece o suficiente da fonte preferencial de energia pro corpo, os carboidratos, ele começa a decompor os próprios músculos para ter energia, ou seja, ele consome a SUA proteína.
Os efeitos colaterais dessa dieta podem incluir fadiga, náusea, dores de cabeça, constipação e mau hálito. Assim, muito do emagrecimento das primeiras semanas é o resultado de uma perda não saudável de tecido muscular e água, o que é péssimo em termos de saúde.
Além disso, prá quem quer perder peso rápido e ao mesmo tempo trocar massa (gordura por músculo) fazendo musculação, a dieta de Atkins é um tremendo tiro no pé, visto que você estará comprometendo massa magra (afinal, músculo é proteína) enquanto emagrece. Esse fator, e outras curiosidades relacionadas à dieta e treinamento físico serão abordados em alguns textos que publicarei num futuro próximo, então passemos adiante.
Não é porque é dieta, que é saudável!
ResearchBlogging.orgFiquei muito interessado quando vi um estudo tratando dos efeitos dessa dieta em modelos de arteroesclerose, o entupimento dos vasos sanguíneos que leva ao infarto. Os camundongos desse modelo são animais knockout, ou seja, não contém um gene específico. Nesse caso, o gene que codifica uma proteína chamada Apolipoproteína E, reconhecidamente importante no metabolismo de lipoproteínas. A ApoE também está intimamente relacionada a doenças cardiovasculares, e há novos indícios de relação com a doença de Alzheimer.
Os camundongos foram mantidos em dietas com baixo conteúdo de carboidratos e alto conteúdo de proteínas (LCHP), e comparados a animais mantidos ou na dieta padrão (SC), ou na dieta ocidental (WD, que contém quantidades semelhantes de gorduras e colesterol em relação à dieta LCHP). Os exames e dados foram coletados em 6 e 12 semanas.
Os camundongos da dieta LCHP desenvolveram mais focos de aterosclerose arterial, e tiveram menor habilidade de geração de novos vasos sanguíneos em resposta à isquemia (danos por falta de nutrientes/oxigênio, etc.) do tecido vascular. A imagem abaixo mostra os focos de ateroesclerose em vermelho, e fica fácil de perceber que a dieta LCHP foi realmente a mais prejucidial entre as três.
atkins1.JPG

Imagem mostrando os focos de ateroesclerose em vermelho


Ainda, a dieta LCHP reduziu de modo significativo o número de células endoteliais progenitoras (EPCs), que são marcadoras da capacidade de regeneração vascular, presentes na medula óssea e no sangue periféfico.
Em conjunto, esses dados demonstram que, em modelos animais, a dieta LCHP tem efeitos vasculares adversos que não são detectados por marcadores séricos e que macronutrientes não-lipídicos podem modular as células progenitoras endoteliais e a patofisiologia.
Eu já tinha restrições em relação a esse tipo de dieta, e agora, com esses dados, acho que é questão de tempo até os nutrólogos e nutricionistas abandonarem sua prescrição.
tofu-basil.jpgO que fazer? Há alternativa similar à Dieta de Atkins?
Existe uma alternativa à dieta de Atkins que chamam de Eco-Atkins, e consiste em usar proteína vegetal, que não teria os efeitos vistos na pesquisa que discuti no texto. O problema é: a fonte de proteína vegetal mais difundida é a soja, e, no caso dos homens, eu aconselharia bastante cuidado na quantidade que ingerem. O ideal é não abusar da soja para não correr o risco de desenvolver alguns “efeitos colaterais” indesejáveis.
Mas isso é assunto prá outro texto, fiquem curiosos até lá ;)
Para ler mais sobre a Dieta de Atkins, recomendo esse ótimo texto da HowStuffWorks, em português.
Para conhecer a Eco-Atkins, recomendo esse texto que saiu no UOL Ciência & Saúde.
Foo, S., Heller, E., Wykrzykowska, J., Sullivan, C., Manning-Tobin, J., Moore, K., Gerszten, R., & Rosenzweig, A. (2009). Vascular effects of a low-carbohydrate high-protein diet Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (36), 15418-15423 DOI: 10.1073/pnas.0907995106

Nós evoluímos na cozinha

macaco cozinha.jpgQual foi o truque inventado por nossos ancestrais a 1,8 milhões de anos que permitiu um dos maiores saltos na nossa evolução? Teria sido a faca ou a roda?

O primatólogo e antropólogo Richard Wranghan (talvez fosse melhor dizer um primatólogo especializado em antropologia, afinal humanos estão incluídos entre os primatas), acha que foi o ato de cozinhar alimentos que impulsionou tanto a nossa evolução neste momento.
“A forma de nossos corpos e o tamanho de nosso cérebro são produtos de uma dieta muito rica, que só pôde ser adquirida através do cozimento dos alimentos”, diz o primatólogo que lançou recentemente o livro “Catching Fire: How Cooking Made Us Human,” que trata justamente da importância do ato de cozinhar na nossa evolução.

O pesquisador baseia esta importância do cozimento ao observar chimpanzés selvagens na natureza, que segundo ele têm uma disponibilidade de alimentos parecida com a que nossos ancestrais tinham a 1,8 milhões, pouco antes do surgimento do Homo habilis, nosso primeiro ancestral Homo, ou seja, hominídeo (nenhuma relação com a opção sexual do espécime, por favor).

Menu bom pra macaco

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Os pobres dos chimpanzés ficariam em êxtase se vissem um varejão cheio de frutas e verduras como os nossos hoje em dia. Na maioria das vezes o que ele encontram são frutos secos e de péssimo gosto, que eles precisam mastigar por horas. Alias é assim que nossos primos gastam a maior parte do tempo, procurando e mascando comida extremamente fibrosa.

E esse primatólogo sabe o que um chimpanzé come, afinal ele passou 40 anos estudando os bichos e até mesmo tentou por um tempo comer o mesmo que eles, para avaliar se seria possível manter um humano moderno com uma dieta de chimpanzé. Resultado: fome, muita fome. Até chegou a comer restos crus de macacos caçados por chimpanzés.

O interessante é que de duas espécies de macacos comidos pelo pesquisador e pelos chimpanzés, o pesquisador preferiu a carne de um determinado macaco por ser mais doce. E esse também é o predileto dos chimpanzés. Percebemos assim que nossos paladares têm algo em comum.

Mas e as fogueiras?

macaco fogueira.jpg

Essa estória é muito interessante, mas tem um probleminha. Se o cozimento foi tão importante, onde estão as fogueiras? A mais velha data de apenas 800mil anos.
Quanto a isto Wranghan não desanima. Segundo ele, realmente não há registro de fogueiras com 1,8 milhões de anos, mas as evidências biológicas são claras. Nossos dentes e nosso trato digestivo ficaram menores nessa época, e a única coisa que pode explicar este fato é a melhora na dieta. E que outro jeito de melhorá-la senão pelo cozimento?

E tem mais, segundo Wranghan, o próprio ato de se reunir perto do fogo nos diferenciou dos outros primatas. Afinal isto estreitou os laços sociais, forçando-nos a viver próximos ao fogo, agüentando os vizinhos chatos sendo mais tolerantes, e tudo que esta convivência forçada pôde trazer. Somos seres muito mais sociais que chimpanzés, por exemplo, talvez graças ao fogo e seus benefícios.

Bem, esta é uma idéia plausível, mas ainda não há dados suficientes para dizer quem realmente veio primeiro (paradoxo Tostines), se o cozimento nos deu energia para manter um cérebro grande, ou se um cérebro grande permitiu inventar o cozimento.

Cozinheiros forjando nossa evolução

Mas o futuro de nossa espécie esta nas suas mãos, cozinheiros de mão cheia. Afinal temos um problema sério hoje em dia de excesso de peso, obesos subnutridos e outros problemas relacionados ao nosso apetite voraz por calorias, vestígio dos tempos préhistóricos em que não havia essa fartura de alimento que há hoje.

Aliás quando vemos a dieta do Homo sapiens préhistórico, não é por coincidência que ela bate exatamente com a dieta ideal recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Nosso corpo ainda está adaptado ao nosso ambiente ancestral.

Pensar na nossa alimentação levando em conta a nossa evolução, pode nos manter saudáveis ou nos forçar a mudar.

Ao leitor deixo uma informação final interessante. Para quem é requintado, de gosto apurado e que gosta de pratos finos, saiba que o maior salto evolutivo na história da cozinha foi o simples cozimento na fogueira, mais conhecido como churrasco. E pior, sem nenhum salzinho.


Leia entrevista com Richard Wranghan no The New York Times

Chá Verde FUNCIONA contra câncer

folha cha verde cancer.jpgResearchBlogging.orgO chá é a bebida mais consumida no mundo, depois da água claro. E os mais conhecidos deles são o chá verde e o preto, ambos feitos da Camellia sinensis. Os benefícios do chá já foram até citados neste blog anteriormente, mas agora vamos ver exatamente o que é que faz o chá ser eficiente na prevenção do câncer (segundo um artigo de revisão publicado na revista Nature Reviews Câncer).

Uma das coisas que torna o chá verde interessante para estudo é que já se conhece todas as substâncias presentes em sua constituição.

Por exemplo, catequinas (uma família de polifenóis) são as principais substâncias presentes no chá. Elas neutralizam os radicais livres, que são grandes responsáveis por provocar danos ao DNA que podem começar o desenvolvimento de câncer.

Estudos realizados em animais, utilizando o chá verde ou suas catequinas purificadas, mostraram inibição da formação e crescimento de tumores em diferentes modelos animais, como pulmão, trato digestivo (boca, cólon intestino) e próstata.
Esta inibição está associada à diminuição da proliferação celular, aumento da morte celular (apoptose), e inibição da formação de novos vasos sanguíneos utilizados pelo tumor em crescimento para obtenção de nutrientes (angiogênese).

Claro que todos os estudos já feitos em animais tiveram diferentes abordagens de tratamento e diferentes focos de observação, mas de 147 trabalhos científicos publicados até dezembro de 2008, 133 descrevem uma melhora na prevenção e mesmo na inibição de tumores.

Além de antioxidante, a catequina EGCG do chá verde é uma substância que comprovadamente se liga a vários receptores e moléculas de sinalização da célula, que também podem estar ligadas à geração de tumores.

Os famosos flavonóides também estão presentes no chá e possuem efeito antioxidante, mas parece que as catequinas têm um papel mais importante na prevenção tumoral justamente por este efeito adicional de se ligar a outras proteínas.

Mas e em humanos?

Em humanos, alguns estudos de prevenção já vêm sendo feitos, e com resultados promissores.

Apesar destes estudos em laboratório, não há um estudo que deixe claro que pessoas que já vêm tomando chá verde têm menos câncer. Estes estudos chamados epidemiológicos não são muito controlados e mesmo pessoas que tomam chá podem ter rotinas totalmente diferentes umas das outras, como variação na quantidade de chá ingerido, algumas podendo ser fumantes outras não, consumo de álcool, etnia, entre outros fatores difíceis de serem analisados.

Mas os estudos que levam tudo isto em conta mostram sim uma relação entre consumo de chá e menor aparecimento de tumores.

Por exemplo, em um dos estudos, homens e mulheres que não fumavam e nem bebiam álcool, mas bebiam chá, apresentaram menor risco de adquirir câncer. Já fumantes que tomam chá não apresentam este menor risco.

Interessante observar que a composição do chá varia de acordo com o clima, modo de cultivo, variedade e idade da folha. Os diferentes métodos de produção também alteram a composição química das folhas secas.
Por isso melhores estudos epidemiológicos neste sentido devem ser realizados.

Quanto a gente deve tomar de chá afinal de contas?

Em dois trabalhos epidemiológicos que mostraram resultados positivos, foi relatado que consumir o chá de mais de 250 gramas de folhas secas por ano já foi o suficiente para aumentar a proteção. Isto daria de 2 a 3 xícaras de chá por dia. Nada exorbitante.

chá verde monte fuji.jpgEfeitos colaterais e contra-indicações

Mas nem tudo são flores, afinal de contas o chá contém uma boa quantidade de cafeína, que pode ser um problema para hipertensos, gestantes e lactantes, já que a cafeína passa para o leite materno e pode ser prejudicial para o desenvolvimento do feto ou do bebê.
O consumo exagerado pode causar sintomas como taquicardia, náusea, dor de cabeça e problemas gastrointestinais.

Mas segundo profissionais de saúde, não ultrapassando 4 xícaras por dia não há problema. Mesmo porque uma xícara de café expresso deve conter bem mais cafeína q 4 xícaras de chá. E um pouco de cafeína também faz bem, tanto para evitar câncer quanto até mesmo para prevenir o Alzheimer.

Diferenças entre os chás verde, branco e preto

Todos vêm da mesma planta, o que muda é a forma de processamento das folhas após a colheita.

O chá verde tem as folhas aquecidas e secas, resultando na inativação de alguns componentes oxidativos e outras enzimas. Este processo permite a preservação da atividade dos polifenóis.

O chá preto tem as folhas maceradas e passam por um processo de fermentação, gerando substâncias como as teoflavinas que dão a cor vermelha ou alaranjada e o sabor característico do chá preto.

O chá branco é elaborado a partir do broto da Camellia sinensis e não passa por esse processo de aquecimento, assegurando uma concentração maior dos princípios ativos.

O chá Oolong também deriva da mesma planta, mas seus benefícios são menos evidentes. É feito apenas da parte tenra das folhas e passa por um processo rápido de fermentação. Este é o que mantém maiores concentrações das benéficas catequinas

Como preparar o chá

A receita para o chá não foi aprimorada em laboratório, mas é a receita tradicional que os asiáticos em geral usam e provavelmente a que foi usada pelas pessoas entrevistadas nos estudos que mostraram resultados.

  • Esquente a água até que quase ferva e sem as folhas (um chá é uma infusão, não um cozimento de folhas)
  • Coloque 2,5 gramas de folhas em 250 mL de água quente (uma colher de sopa rasa por xícara)
  • Deixe tampado por 5 min.

Cada 2,5g em 250 mL de água contém de 620 a 880 mg de substâncias dissolvidas, sendo 1/3 de catequinas e 3 a 6% de cafeína
Como já foi dito, o tipo de chá e variações na preparação das folhas podem variar as características do chá.

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Yang, C., Wang, X., Lu, G., & Picinich, S. (2009). Cancer prevention by tea: animal studies, molecular mechanisms and human relevance Nature Reviews Cancer, 9 (6), 429-439 DOI: 10.1038/nrc2641

Gripe suína: informação, globalização e prejuízos

gripe suina economica.jpg
Na década de 70, o governo militar no Brasil escondeu da população um surto de meningite que estava acontecendo. Tudo para evitar o pânico. Decisão acertada? Claro que agora que estamos na era da informação, isto soa absurdo. A população tem o direito de saber o que está acontecendo sob seus narizes. Saber sobre a epidemia pode ser importante para evitar viagens para locais de risco, saber se podemos comer a carne do animal afetado, etc. Diminuindo assim os riscos.

Mas até que ponto a população sabe o que fazer com a informação? Informar dados não resulta diretamente em boas práticas por parte de quem não tem conhecimento mínimo em determinados assuntos. Digo educação científica básica, não necessariamente conhecimentos em epidemiologia ou infectologia.

Afinal começam as brincadeiras. Qualquer um gripado e se ouve “é a gripe suína”, mas brincadeiras a parte, a epidemia já mostra reflexos em áreas que nem imaginamos. As ações de companhias aéreas e redes hoteleiras já despencaram, enquanto ações de farmacêuticas produtoras de remédios antivirais dispararam.

Por causa destas reações em cadeia, muitas vezes imprevisíveis, que se deve tomar muito cuidado ao informar a população, incluindo aqui lavadeiras, marceneiros, políticos e empresários, que raras exceções, não têm conhecimento científico nenhum, e podem interpretar muito mal a real situação de uma epidemia como esta.

cofrinho.jpgE aqui vem o maior paradoxo deste sistema maluco que é o nosso mundo globalizado. Afinal, o setor que terá o maior prejuízo provavelmente será o de suinocultura, mas é justamente onde o dinheiro vai ser mais urgente para manter a produção, que é necessária, mas em condições adequadas de higiene, para evitar avanço desta e surgimento de outras doenças.

Afinal a doença se originou do contato humano excessivo com os animais, devido à má condição dos criadouros.

Claro que o peso cairá nos governos, que terão que incentivar o setor com linhas de crédito e coisas deste tipo, o que leva à famosa “estatização dos prejuízos” das empresas de setores centrais na economia. Nada que a crise mundial não tenha nos ensinado. Mas a contrapartida deve ser exigida pelo governo, liberando crédito com condições, algumas delas sendo a observação dos padrões higiênicos e ambientais exigidos por convenções internacionais. Certificando-se, assim, que nada disso ocorra novamente.

Feliz ou infelizmente, o problema de um mexicano (e seu porquinho) acaba sendo um problema para todo o mundo.

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