Debate com o RNAm sobre uso de animais em experimentação.

Experimentação animal no podcast do Bule Voador

Saiu o podcast que eu gravei para o Bule Voador sobre uso de animais em pesquisas. Se você não conhece o Bule Voador veja do que se trata aqui. São amigos bem polêmicos do RNAm.

Foi um ótimo papo. Eu estou meio sério porque é um assunto delicado e eu não quis acabar fazendo uma brincadeirinha que podia ser mal interpretada.

De qualquer forma pude mostrar todo meu pessimismo com relação a uma solução definitiva para este problema, mas mostrei também meu otimismo com o diálogo entre as partes, que deverá ser constante e respeitosa como foi neste podcast.

Ouça o podcast: Bulecast nº 4: Pesquisas com animais na ciência

Leia o que mais já falamos aqui sobre o assunto, principalmente estes dois primeiros:

Evolução da consciência e direito animal – o debate

O que um cientista sente ao sacrificar seus animais

 

E ainda:

Terrorista que acredita em Exterminador do Futuro manda bomba a cientistas

Cientistas e governo em campanha pelo uso de animais em pesquisa

Direitos dos animais: permitindo o diálogo saudável

Criatura misteriosa encontrada na China (MEDO!)

Gente, notícia bombástica: encontraram uma espécie na China que ninguém sabe identificar. Vejam que esquisito:

Imagem da criatura encontrada (reprodução do blog Update or Die)

Isso chegou na lista de discussão do SBBr pela Claudia Chow, vizinha do Ecodesenvolvimento, mas a princípio fui cético. Aponto aqui alguns trechos do texto que me fizeram desconfiar:

“Ninguém sabe que criatura é essa.” – Ninguém? Onde estão esses zoólogos que não souberam dizer a espécie do bicho?

“O animal foi entregue por um homem anônimo…” – How convenient.

“… para um zoológico no leste da China.” – OK, qual?

“… mas acreditam ser um tipo estranho (bem estranho) de macaco ou algum cruzamento exótico entre Lemures (aquele do “eu me remexo muito” do Madagascar) e alguma outra coisa interplanetária.” – Eu nem perderei meu tempo comentando a “super expressão técnica” usada, “um tipo estranho de macaco” é prá rasgar o diploma de qualquer zoólogo. Meu problema foi a afirmação seguinte: quem foi o FDP que fez uma afirmação dessas? Trocando em miúdos, para o zoológico “é um macaco bizarro ou um híbrido extraterrestre”? WHAT?

Mas enfim, fiquei curioso e busquei mais informações no Google. Qual não foi minha surpresa quando descobri que esse tipo de descoberta tem acontecido muito ultimamente. Vejam algumas das imagens abaixo, são só uns poucos casos desse tipo que ainda estão em aberto e desafiam os maiores especialistas em identificação animal:

Será algum tipo de invasão alienígena? Estarão as espécies da Terra sendo lentamente misturadas a ETs invasores?!

E, o mais assustador de todos. No Brasil (acreditem!!!) foi registrada uma aparição DUPLA dessas estranhas criaturas:

É o fim do mundo! Ah não, esqueci que isso só acontecerá em 2019, ufa!

Preciso confessar: se no início eu estava cético, agora fiquei extremamente preocupado…

Terrorista que acredita em Exterminador do Futuro manda bomba a cientistas

O bomba do filme Exterminador do Futuro trazida à realidade?

Olhe o absurdo: um cientista da computação mexicano recebe uma caixa com o aviso “parabéns, aqui está o prêmio que você ganhou”. Ao abrir, o pacote explode. Era uma bomba. Armando Herrera Corral e seu colega Alejandro Aceves López estão hospitalizados, e só não estão em um necrotério porque a bomba não explodiu completamente, mas havia explosivo para derrubar um pedaço do prédio.

Em abril e maio outras bombas foram enviadas para um centro de nanotecnologia mexicano, que por sorte falharam.

Os terroristas são um grupo que odeia cientistas que trabalham com nanotecnologia e computação, por acharem que o mundo vai ser dominado por uma inteligência artificial. Os caras acham que Exterminador do Futuro era um documentário, fala sério.

Como tudo que eles querem é publicidade eu não coloquei o nome do grupo aqui. Se você quiser mesmo saber pode achar facilmente por aí.

Ataques a bomba a cientistas não são novidade, mas normalmente os terroristas são ativistas pelos direitos animais. Destroem casas, carros e laboratórios por todo o mundo e  aqui no Brasil também. Um laboratório já foi totalmente destruído e um amigo bem próximo, trabalhando no laboratório de uma das maiores universidades de São Paulo, atendeu o telefone para ser avisado que devia sair do prédio pois havia uma bomba no jardim. E era uma bomba mesmo! De terroristas pró-animais-não-humanos – afinal, lembre-se que nós somos animais também. E novamente não vou dar nomes para não dar publicidade ao grupo.

Esses caras estão num nível de loucura tão grande que um colega foi a um congresso de bem-estar animal, afinal quem trabalha com animais se preocupa sim com seu bem-estar, mas percebeu que o congresso só tinha pessoas anti-experimentação animal(-não-humano). E se deparou com um dos ícones desse movimento dizendo que as pessoas não sabem fazer ameaças direito, e passou a ensiná-las como fazer!  “Tem que descobrir onde o filho do pesquisador estuda, colocar um bilhete na mochila do moleque, pra saberem que você sabe da vida dele”!!!

Eu tenho medo desse pessoal anti-experimentação. Eles são sempre muito agressivos em discussões. Veja um desses meus encontros com eles aqui.

Eu entendo a motivação desse pessoal, mesmo não concordando com eles, mas partir pra violência não tem cabimento nenhum.

E, desculpem meu humor negro, mas eu queria dizer outra coisa com “precisamos fazer a ciência bombar no Brasil”.

[Leia aqui o que eu senti quando sacrifiquei meu primeiro animal]

 

Vi no NatureNews

Dica do Igor Z

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Veja o coração de uma aranha e o porquê de se estudar isso

aranha por dentro

Eu não sou zoólogo, mas dá pra não se apaixonar pelas aranhas?! Para isso é so olhar essas coisas sensacionais que outro não-zoólogo apaixonado juntou no Rainha Vermelha.

Aqui na BBC tem o vídeo de uma ressonância magnética em uma aranha! Coisa que eu nunca tinha visto antes. E dá pra ver o coração batendo! Sim, aranhas parecem cruéis mas elas tem coração, ou algo que se parece com um.

Não é tao bonito quanto elas por fora, mas ainda sim vale a pena.

Para que estudar o coração da aranha?

Bom, imagine como é dificil definir os batimentos delas: um estetoscópio bem pequenininho e impreciso ou enfiar uma agulha dentro da aranha. Melhor mesmo a ressonância.

Interessante que na reportagem o pesquisador diz que pode ajudar a pesquisa com venenos e “venenos tem aplicação na agricultura como pesticidas”. Isso parece o papo de pesquisador que precisa pôr no projeto algum objetivo intere$$ante economicamente para poder receber dinheiro para a pesquisa.

Mas o mais legal (e aposto que é a real intenção do pesquisador) é que pode-se usar a ressonância no cérebro do bicho, e talvez até estudar seu comportamento por dentro, como é feito em humanos no escaneamento funcional (fMRI), ajudando assim no estudo da evolução do comportamento e da inteligencia.

Girafas boiam na água?

will-it-float_1Uma pergunta muito digna esta se as girafas boiam (digna de uma criança de 4 anos, que têm sempre as melhores perguntas e são cientistas natas).

Eu não saberia nem chutar uma resposta. O que você acha? Com aquele pescoço comprido parece que ela ficaria sempre pendendo para frente sem conseguir deixar a cabeça pra fora. E aquelas pernas finas com certeza não seriam bons remos para nadar.

Um teste óbvio seria jogar uma girafa numa piscina bem grande. Mas apesar de parecer uma cena hilária para a gente, seria aterrador para a girafa. Então pela ética (e principalmente porque ninguém pagaria por isso) fica impossível fazer esse teste.

Para resolver isso, um cara curioso, Darren Naish que escreve para a revista Scientific American, tem um amigo muito interessante que pode ajudar.

Esse amigo é Donald Henderson do Royal Tyrrell Museum of Palaeontology que criou por computação modelos tridimensionais de dinossauros que ele usa para estimar quanto um dinossauro pesava e se era aquático ou terrestre. E nada mais parecido com um brontossauro (ou braquiossauro, sei lá) do que uma girafa, concorda? Pelo menos a silhueta é a mesma, certo?

Então foi só construir um modelo de girafa e jogar na água, respondendo a pergunta, que era: girafas boiam?

A resposta é SIM!

E podem nadar de forma bem precária, coitadas. Tomara que nunca precisem disso para sobreviver.

Assim pudemos ver que modelos computacionais são uma mão na roda quando você não pode fazer o teste real, por mais hilário que ele possa ser.

 

Vi na Scientific American

Rato que pia como um… golfinho!

By @elciorcarvalho

- by @elciorcarvalho

Lembrando que a grande notícia científica que fechou com chave de ouro o ano passado foi, não a bactéria “alienígena” de arsênio, mas o rato que pia como passarinho! Se bem que na minha opinião parece mais um golfinho.

 (Veja o vídeo)

 

Sim, ele acaba de mudar a letra da clássica música “Baile dos Passarinhos”do Balão Mágico (mas estranhamente eternizada na voz de Gugu Liberato) para “Baile dos Camundonguinhos”, confira:

Camundongo quer dançar
Quer ter canto pra cantar
Alegria de viver
Tchu tchu tchu…”

Agora, se ele dobrar o joelhinho, der dois saltinhos e VOAR a coisa fica séria.

 

Por enquanto ele só serviu para assustar os cientistas da Universidade de Osaka. Afinal eles estavam fazendo mutações aleatórias, e não estavam procurando mudar a voz do bicho intencionalmente, como andei lendo em alguns lugares.

 

O objetivo do projeto é gerar camundongos com mutações não-intencionais justamente para descobrir novas possibilidades de modelos para pesquisas. Este que pia poderá ser usado agora para estudar o desenvolvimento da linguagem.

Cientistas e governo em campanha pelo uso de animais em pesquisa

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“Graças à pesquisa com animais, eles terão 23.5 anos a mais para protestar” – Esta não é da campanha, mas tem que ter apelo

RICARDO MIOTO
Folha.com
Na briga contra organizações de direitos dos animais que querem acabar com pesquisas envolvendo cobaias, cientistas e governo criaram uma campanha publicitária tentando convencer a opinião pública da importância desses estudos.
A partir da próxima quarta-feira, serão feitas inserções na televisão, no rádio e em jornais e revistas.
Os anúncios têm dois motes. Um é que “quase todos os medicamentos e vacinas são resultado de pesquisas com animais de laboratório”, salvando muitas vidas. O outro é que, depois da Lei Arouca, aprovada em 2008 para regular o uso de cobaias, nenhum animal deixa de ser tratado com “ética e dignidade”.
A iniciativa já recebeu R$ 1 milhão, diz Marcelo Morales, biólogo da UFRJ e um dos responsáveis pela campanha. O dinheiro vem do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do Ministério da Ciência e Tecnologia. E o valor pode aumentar.

Entrem no site para ouvir uma das campanhas.
É importante este tipo de ação, claro. Mas o modo como ela vai ser feita acho que só vai servir para levantar a bola para os ativistas cortarem.
Porque a campanha não tem apelo (considerando que só este estilo de propaganda vai ser feita), é chata mesmo, e vai servir só para levantar a discussão e é aí que os ativistas radicais vão aproveitar para usar todo apelo emocional que está do lado deles.
Ou seja, o tiro pode sair pela culatra.
Para mais sobre direito animal, veja:

Direitos dos animais: permitindo o diálogo saudável

Transcrevo aqui o comentário do leitor José Gustavo Vieira Adler em nosso post sobre o debate de direito animal.

Achei interessante o seu ponto conciliador, mostrando a importância da pesquisa – inclusive para o embasamento dos ativistas pelos direitos animais -, mas também mostrando que não devemos nos acomodar com as práticas atuais, afinal temos o poder de continuar mudando técnicas e conceitos.

Mas antes… BÔNUS: Aqui está o link para o Conselho de Cuidado Animal do Canadá (CCAC), que são as diretrizes seguidas pelo conselho de ética animal do Instituto de Biociências da USP. Ou seja, é o que a USP segue no que se refere a bem-estar dos animais em experimentos, nos seus míííííííínimos detalhes. Vale a pena dar uma olhada (em inglês).

O comentário foi transcrito com mínima intervenção minha; o original está aqui.

(…)
Quanto aos experimentos, dizer que se tem que acabar com os

experimentos é realmente difícil uma vez que nossa crença, nossos
conhecimentos e nossa cultura é baseado no metodo de pensar ciência e
como tal é impossível no estagio que estamos abdicar por completo do
uso de animais em experimentos. Mas usar isto como travas, correntes e
poltronas cômodas do costume é um equívoco, uma aberração contra a
nossa própria natureza, que é o avanço cultural.
Muito já se mudou, sendo que
hoje a pesquisa não depende de experimentação animal como dependia
em anos atrás, devido em grande parte graças ao movimento
ativista (que engraçado ter surgido por conta da visão mecaniscista dos
animais que eram vistos quase como máquinas e portanto não os
consideravam seres dotados de sentimentos e conhecimentos). O
diálogo só surgiu porque surgiu a emergência dos valores
intrínsecos aos demais animais, graças a luta pelos “direitos
animais”, e se faz necessário a continua luta e diálogo para forçar
financiamento para que mais e mais sejam desenvolvidas novas técnicas,
métodos e pensamentos voltados para a contínua retirada dos animais
dos laboratórios.

Agora, essas brigas de ego (macaco-alfa) de muitos que defendem os
direitos dos animais com ciêntistas que tem plena consciência da
problemática, a demonização dos que praticam a, realmente, enfadonha
tarefa de utilizar os animais em experimentos é um erro de julgamento,
um disturbio da idealização. Fazendo um paralelo com um argumento
muito usado pelos que lutam a favor dos valores dos outros animais,
vemos a escravidão do periodo colonial como uma ação demoníaca
dos donos de escravo, mas na verdade em muitos casos os donos de
escravo julgavam-se tratar da melhor forma possível seus escravos,
criavam empatia e um certo estreitamento. Quando esses escravos atacavam
ou matavam alguns de seus donos e fugiam pros quilombos eram julgados
como animais sem alma, selvagens, assim como um elefante mata seu
treinador ou uma orca afoga sua treinadora. Os julgamos como animais
selvagens, indomáveis. Os julgamentos e crenças são frutos do
contexto de cada época e cultura – condenar a caricaturas malevólas os
escravocratas é um desvio da valoração idealista. Os escravocratas
em grande parte acreditava que os negros eram realmente animais, ou que
seus sentimentos não valiam por não terem a consciência que seus
donos tinham a respeito da moral e costumes. Foram precisos muitos anos
de luta e uma mudança de interesses comerciais e econômicos para que
houvesse uma mudança no modo de julgar os negros, de enxergar os
negros, para depois entender que os negros são tão brancos quanto
nós e nós somos tão negros quanto eles, que somos todos humanos, da
mesma espécie, da mesma raça.

Para mudar o contexto socio-cultural que estamos imersos é preciso de
tempo, de muito diálogo, confronto de idéias, aquisição de
conhecimentos novos, aberturas de perspectivas, e PRINCIPALMENTE uma
mudança e um avanço no enfoque, nas ferramentas que temos para obter
nossos conhecimentos, criando alternativas viáveis e interesses
morais, éticos e economicos diferentes quanto a utilização de
animais, da coisificação de outras espécies.

Tratar os cientístas como demônios, assim como muitos humanistas,
esquerdistas tratavam os escravocratas como demônios é um erro de
julgamento, quando o que tem que ser combatido é a ação. O que tem que se
fazer é forçar cada vez mais a necessidade de se utilizar de outras
ações que dispensem o uso de outras espécies. Mesmo porque, ironia
do destino, a valoração dos animais ganhou visibilidade cética
graças a muitos experimentos com animais em cativeiro,
experimentações que chegavam até a ser invasivo.

Ou seja, é verdade que os que lutaram pelos direitos animais
empurraram a necessidade por uma abordagem dos valores dos outros
animais, também é verdade que que as pesquisas crescentes na
cognição e na sua evolução deram conteúdo, embasamento, para
tornar a visão de valores animais encorporada no contexto da Cíencia
,
tornar o assunto tema de respaldo e de valor cientifico. Os dois lados
caminharam em convergência para alcançar o grau de entendimento e
questionamento que chegamos atualmente. Muitos dos ativistas usarão o
discurso de que a inteligência animal era óbvia e clara, e que não
precisava de experimentos para atestar o que se podia averiguar
bastando conviver com os animais em seus habitats. Mas sem o respaldo
da Ciência, dos seus métodos e critérios, a idéia de inteligência
nas demais espécies estaria fadada a um saber local, ilhado,
desconectado dos processos do saber do homem contemporâneo. Estaria
reclusa na crença popular, em valores de povos regionais, não teria o
alcance e nem o corpo investigativo e criterioso em que uma metodologia
experimental de uma investigação científica dá à crença.

Ainda somos dependentes dos animais para nosso avanço como ser
cultural, mas não podemos tornar essa dependência como uma
naturalidade, como uma situação imutável.

Um relato sobre o incêndio no Butantan

incêndio butantan.JPG

Pobres garotos e pobres de nós sem a coleção do Butantan!

Este é um post de luto. E não é porque a grande maioria dos animais perdidos já estava morto que diminui a dor da perda. Aliás ela só aumenta quando percebemos a sua importância e propósito.
Segue aqui o relato de um grande amigo que trabalha, ou trabalhava, no Instutúto Butantan, e teve o seu laboratório totalmente destruído pelo incêndio da manhã do dia 15 de maio. Aqui ele mostra a importância real desta perda, não só para a ciência, mas para a sociedade brasileira e mundial.

A essa altura do campeonato vocês já devem ter escutado sobre o incêndio no Butantan. Infelizmente ele foi no meu laboratório.
Era um sábado tranquilo… daqueles que a gente levanta sem pressa e, no meu caso, enrola pra começar a trabalhar (até porque estou nas vésperas de entregar a minha dissertação e sábados são dias de trabalho). Acordei com o celular tocando e a notícia de que tinha um incêndio no Butantan. No começo não dei muita bola, mas logo que vi no video os bombeiros jogando água no meu lab cai na real.
O meu trabalho talvez tenha sido o menos afetado, até porque estou escrevendo a dissertação e já tenho toda a parte mais importante no computador e a salvo, mas queria dividir algumas coisas com vocês…
Ontem, a maior coleção de aranhas da américa latina e a maior coleção de serpentes do mundo foram severamente danificadas . A nossa coleção tinha mais de 150.000 lotes de aranhas, considerando que cada lote pode conter de uma a mais de 10 aranhas da pra ter uma ideia do número real de animais que estavam ali preservados.
A coleção da herpetologia tinha por volta de 80 mil exemplares de serpentes, algumas espécies que podem estar em extinção e exemplares tombados pelo próprio Dr. Vital Brazil, que fundou o Instituto Butantan 109 anos atras.
Não só pelo valor histórico dessas coleções e pelo respeito que devemos ter por elas queria discutir algumas coisas para esse não virar mais um e-mail sensacionalista de desabafo de alguém que está muito triste.
Uma coleção como esta, no olhar de um leigo pode até parecer coisa de um naturalista que coleciona besouros, mas tirando o fato de que Darwin criou a teoria mais importante para a biologia fazendo isto, estas coleções, como as que existiam no butantan, tem um valor inestimável para os estudos de biologia, taxonomia e ecologia. E não só para estes estudo de ciência básica. Toda a produção de ciência aplicada do Instituto depende desses laboratórios. Não adianta nada você fazer os estudos mais avançados sobre as proteínas tais dos sítios de clivagem alfa dos canis iônicos glutamatérgicos se ninguém identificar os animais que você coletou para este trabalho ou ainda se você não tiver um lugar para depositar alguns exemplares de testemunho para futuros trabalhos.
Uma coisa que acontece com essas coleções, principalmente no nosso país, é que ninguém dá valor. A impressão que dá é que os poderosos realmente acreditam que isso é coisa de naturalista do século passado que fica colecionando besouros. Quando as pessoas pensam no Instituto Butantan só estão preocupadas com a produção… com as vacinas e com o soro, mas esquecem ou não sabem que essa produção toda começa lá naquele laboratório.
Tudo isso que vocês escutam falar sobre ecologia, meio ambiente e principalmente sobre BIODIVERSIDADE uma hora ou outra passa pelas mãos das pessoas que trabalham nessas coleções. Um trabalho de formiguinha… pra organizar, catalogar e preservar todos aqueles exemplares que representam a nossa fauna de aranhas. Cada aranha tem um número de referência, uma etiqueta com informações de onde foi coletada, por quem e quando. É lá que descobrimos novas espécies e principalmente… é lá que conhecemos nossa BIODIVERSIDADE… se a gente não conhece. Pode ter certeza que os gringos vão vir aqui e catalogar tudo, e guardar nas coleções deles.
Mesmo no meio daquele caos e da tristeza de ver uma parte da minha casa virando pó, ainda tenho que escutar a conclusão da reportagem dizer “O instituto Butantan é responsável por 80% da produção de vacinas e soros no país e essas atividades não foram atingidas”. Como se estivesse tudo bem… Só que a produção do soro depende do trabalho daqueles garotos, que não ganham nem de longe o que merecem, mas levam esse laboratório com o coração. Garotos que passam os seus dias cuidando das aranhas como vocês cuidam dos cachorros e gatos que tem como pet para conseguir extrair alguns mililitros de veneno para a produção do tal soro. Garotos que pulam de alegria quando descobrem uma nova espécie… garotos que ficam tristes e preocupados quando alguma coisa com o livro tombo está errado… E garotos que ontem eu vi chorar e que mesmo sabendo dos riscos daquele prédio vir abaixo entraram lá pra tentar salvar pelo menos os exemplares que chamamos de “tipos”, aqueles que foram utilizados para descrever as espécies e que sem eles… não podemos mais ter certeza se a aranha que vamos coletar amanhã pertence de fato àquela determinada espécie.
Desculpe pelo e-mail de desabafo… mas é complicado ver um laboratório que você passou momentos alegres e dificeis virar pó e ferro retorcido!
Anexei algumas fotos… de como era… e como estava quando entrei pela ultima vez lá… aquela pilha de caderno sujos na ultima foto é tudo que sobrou do meu lab.

Danilo Guarda
Aqui o Danilo e uma de suas amadas

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Aqui o que era o laboratório

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Aqui o que virou o lab

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Veja também a manchete comentada pelo Ciência à Bessa: Incêndio no Butantan Destroi Importante Coleção Zoológica
No blog do Luis Nassif um relato sobre a condição de outras coleções zoológicas, por Hugo Fernandes Ferreira

Evolução da consciência e direito animal – o debate

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Primata admirando seu reflexo

Aconteceu em São Paulo, na Livraria Cultura, dia 3 de maio de 2010, a palestra “Evolução da consciência e direito animal”. Consciência por si só já é o assunto mais espinhoso e difícil de debater, afinal sobram, e por isso mesmo faltam, definições só pra poder começar a conversa. E misturar a isto “direito animal”, é a mesma coisa que juntar nitroglicerina e um moleque do interior em época de festa junina. “Será que explode?!”
Organizada pelo escritório de advocacia do advogado Rubens Naves [adendo -difícil chamar advogado de doutor. Para mim doutor é quem tem doutorado, mas parece que D. Pedro Segundo estipulou o tal título para bacharéis em direito e eles adoram jogar isto na nossa cara], teve a presença ilustre de Cesar Ades, psicólogo que trabalha com etologia ou comportamento animal e o cientista mais gente boa dos trópicos; Sidarta Ribeiro, famoso neurocientista que foi o braço direito do mais famoso Nicolelis; eu (Zé ninguém) e mais uma porção de pessoas interessantes, alguns amigos e outros nem tanto; e um grupo organizado de um instituto de proteção dos animais.
(veja o prospecto com mais sobre os participantes aqui)
Tudo começou com uma explicação de porque raios um “adEvogado” tem que se meter em assuntos de animais. Naves já avisou que o escritório tem atuado em algumas causas relativas a direitos animais, e citou outros casos emblemáticos como a farra do boi no Paraná e problemas de saúde pública, as sempre presentes zoonoses. Ou seja, o direito tem q estar atento ao assunto sim.
Chegou a hora do bom velhinho falar, Cesar Ades. Como sempre cativou todo mundo com seu jeito moleque e deslumbrado perante a natureza e o comportamento animal. Lembrou que os animais sempre nos acompanharam durante nossa evolução, e que a própria definição do que é ser humano vem mudando conforme vai se entendendo mais o animal. E ele deu aqui vários exemplos de o quanto animais podem se sobressair em relação a nós, com chimpanzés mais rápidos que estudantes universitários [nenhuma novidade aqui], e até corvos resolvendo problemas que uma criança de 5 anos não resolveria [confesso que mesmo este blogueiro não teria resolvido a parada].
Veio então Sidarta tentar buscar as diferenças entre animais humanos e não-humanos. Tamanho de cérebro? Não, golfinhos e baleias tem cérebros maiores e passarinhos com cérebros minúsculos fazem coisas incríveis.
Comunicação? Não também. Animais conversam entre sim das mais diversas e sofisticadas formas.
Capacidade de entender símbolos? Hum…não. Macacos e pássaros podem entender símbolos se forem acostumados a tal.
Então por que “coisificamos”, ou utilizamos os animais como coisas? Bom, isso foi vantajoso pois foi o que nos trouxe até aqui: evoluimos puxados à charrete e comendo um bom bife. E além do mais fazemos a mesma coisificação com os próprios homens, como em Auschwitz. Sidarta conclui que não estaríamos aqui sem nos utilizar de animais (e homens), e que o problema do direito animal toca também o direito humano.
Começa o quebra-pau
Foi então que esquentou. As perguntas começaram inocentes, mas o grupo de proteção animal ficou com uma comichão na cadeira, se remexendo e falando alto. Deu pra perceber o nervosismo antes mesmo de eu entender que aquele grupo estava junto e sob a mesma causa.
Algumas coisas desse grupo me irritaram:
Acusaram o Sidarta de ter usado de ironia na apresentação para sacanear os defensores de animais que ele supostamente sabia que estariam lá. – Não procede. Não houve cinismo e acho que esse pessoal foi com pedras na mão. A atitude deixou isso mais claro.
Não argumentaram, só atacaram. Um dos adEvogados do grupo de defensores usou o brilhante e inédito argumento “e se fosse você sendo torturado para pesquisa em lugar do rato”, o que eu acho bem infantil para um doutor em direito.
Aí a coisa descambou. O Sidarta disse que fato é que mata animais profissionalmente, apesar de não gostar disso e compensar o fato dando um fim maior ao que faz, e enfatizando que a sociedade como um todo, democraticamente, lhe deu este direito.
Perguntou até quem mais matava animais profissionalmente e eu tive que levantar a mão, né (veja aqui o porquê).
[Se bem que se pensarmos bem, profissão é o que se faz por necessidade, se comemos por necessidade, todo mundo que come algum animal está matando profissionalmente, mas esse não foi o ponto levantado]
Na saída da palestra o grupo, que descobri ser do Instituto Nina Rosa, distribuiu CDs com um documentário sobre experimentação animal, que eu prometo assistir e contar pra você.
E é isso, meu amigo. Peço mais serenidade neste tipo de debate.
E para não pensarem que sou tendencioso, afinal eu uso animais no laboratório, veja aqui um relato do debate de uma advogada (o único comentários que achei sobre o debate até agora, inclusive olhando no site do Instituto Nina Rosa).

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