Quer acessar artigos científicos sem assinatura ou melhorar sua leitura no computador? O NCBI pode ajudar!
O National Center for Biotechnology Information (Centro Nacional para “Biotecnologia da Informação”), ou NCBI, tem duas ferramentas excelentes para ajudar quem gosta de ler artigos científicos e também para quem não aguenta mais ler esses arquivos em PDF no computador.
A primeira recomendação é para quem não tem acesso às assinaturas caríssimas de periódicos científicos. Chama-se PubMed Central http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ e é um braço da base dados PubMed que possui conteúdo 100% aberto, independentemente de qualquer tipo de assinatura, cadastro, afiliação etc.
É só acessar o link e fazer uma busca pelo assunto de interesse. Encontrou os artigos? Pode baixar quantos quiser!
A outra ferramenta do NCBI que quero indicar é uma novidade que me agradou muito: o PubReader http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/about/pubreader/ foi desenvolvido para oferecer uma leitura otimizada dos artigos disponíveis na PubMed Central. Direto do browser, sem PDF.
Cliquem na imagem abaixo para uma explicação rápida de como ele funciona e no link de exemplo para ver como um artigo é apresentado no PubReader:
Exemplo: Correlation analysis of the side-chains conformational distribution in bound and unbound proteins (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3479416/?report=reader).
Pessoalmente, adorei a nova apresentação e torço muito para que essa ferramente seja replicada para outras bases! Aposto que vai ser especialmente bom para leitura em tablets e smartphones.
E vocês, o que vocês acharam do novo visual?
P.S. 1: Tenho que mencionar que o Brasil também possui uma opção muito boa de acesso livre a periódicos chamada Portal Periódicos CAPES http://www.periodicos.capes.gov.br/, mas vou escrever um texto específico sobre ele que vale à pena.
P.S. 2: Sim, estou vivo e a maior novidade de todas é que estou morando nos EUA desde Setembro. Vim para cá pelo programa Ciência Sem Fronteiras fazer um ano de doutorado-sanduíche no MIT, em Cambridge. More on that later =)
Ato Público na SBPC sobre a distribuição dos royalties do pré-sal!
Sei que está muito em cima da hora, mas não posso deixar de divulgar o evento que acontecerá hoje na sede da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, em São Paulo.
Trata-se de um Ato Público que começará às 14h30 no Salão Nobre da entidade e tem como objetivo chamar a atenção e tentar reverter o quadro atual de distribuição dos royalties do petróleo que não inclui um percentual de destinação para as áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação (C,T&I).
O evento é aberto ao público e reunirá dirigentes de instituições de educação e C,T&I, docentes, pesquisadores, parlamentares e autoridades dos governos estadual e federal.
Eu estarei lá. Quem não puder comparecer saberá tudo o que aconteceu aqui pelo RNAm.
Mais informações sobre o evento em Entidades científicas fazem novo ato público em favor da Educação e C,T&I.
Já escrevi sobre a situação dos royalties do pré-sal no post Royalties do pré-sal: como transformar óleo em desenvolvimento nacional.
Aproveite a oportunidade para contribuir com a sua assinatura e ajudar essa importante causa!
Cientistas derrubam a Lei da Gravidade! NOT!
Uau, ficaram sabendo que existem religiosos questionando a Lei da Gravidade e buscando o ensino do princípio da “Queda Inteligente” nas escolas dos EUA! Pois é!
Calma, eu não enlouqueci. Explico: quem pensa que o costume de encaminhar “notícias”, “revelações” e “polêmicas” sem nem ao menos se dar ao trabalho de verificar a veracidade do conteúdo é exclusivo de gente com pouco estudo, desfavorecida e blablabla, engana-se. O causo abaixo chegou ao Rafael e a mim por um amigo em comum, com a mensagem:
“Biólogos: mensagem que está circulando na lista de e-mails da graduação em
CURSO Xda USP. Nem li, mas se interessar… Abraço”
O e-mail encaminhava uma mensagem indignada de um dos alunos. Uma descoberta que, sem dúvida, agitaria todos que ensinam Ciências. Leiam por si próprios:
“http://www.theonion.com/articles/evangelical-scientists-refute-gravity-with-new-int,1778/
Cara, só pode ser piada…. Não basta a disputa entre o ensino do evolucionismo X criacionismo, agora alguns religiosos norte-americanos (sempre eles) questionam também a lei da gravidade!!! Palhaçada….
Traduzo um trechinho para os preguiçosos que não quiserem ler tudo em inglês, ou simplesmente traduzir tudo com algum tradutor:
“Vamos dar uma olhada nas evidências,” disse pesquisador sênior do ECFR (Centro Evangélico para o Raciocínio baseado na Fé), Gregory Lunsden. “Em Mateus, 15:14, Jesus disse, ‘se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova.’ Ele não diz nada sobre a gravidade fazer eles caírem – apenas que eles cairão. Então, em Jó 5:7, nós lemos, ‘Mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar.’ Se a gravidade puxa tudo para baixo, por que as faíscas voam para cima com grande certeza? Isso claramente indica que uma inteligência consciente governa tudo que cai.”
Dá para acreditar nesses caras???”
Minha pronta resposta para a tal mensagem foi “Não, gente, não dá.” Desse modo, logo parti em busca da notícia original para tirar essa história bizarra a limpo.
Óbvio, me deparei com mais um belo exemplo de como muita gente perde tempo – e talvez cérebro – simplesmente confiando em qualquer coisa disponível na internet. Existe um passo a passo básico para filtrar bobagens como essa e não pagar mico, como vocês lerão a seguir. Além disso, sugiro que aproveitem essas dicas em qualquer leitura, conversa ou aula daqui em diante. Pensamento crítico, crianças, só não é melhor que canja de galinha =)
Primeiro: encontrar a fonte original. Nesse caso específico só essa ação que não vai tomar mais do que 5 minutos do seu precioso tempo já resolve qualquer dúvida. O artigo encaminhado como “polêmico”, “absurdo” e “inimaginável” foi publicado pelo The Onion. Case closed, next!
“Ué, peraí, e daí? Nunca ouvi falar!”
Não tem problema, o titio explica: o The Onion é famoso por criar sátiras de notícias reais ou simplesmente inventar conteúdo absurdo sobre assuntos importantes. No caso, uma sátira que aplicação semelhante à maluquice do Desing Inteligente para explicar a Lei da Gravidade. E pensar que alguém levou essa notícia a sério, tsc tsc.
Segundo: descobrir a data de publicação e encontrar a mesma notícia veiculada em outros portais, jornais, blogs etc. O artigo em questão é de 2005 e todas as notícias semelhantes são meras reproduções da nota original do The Onion. Preciso falar mais? Como algo que teria tanto impacto e geraria tanta discussão só foi destacado por UM veículo de comunicação? E porque ficou ao léu por tantos anos?
Geralmente, a resposta para as duas perguntas é: você está diante de uma mentira/bobagem/piada. Simples assim.
Para quem ainda duvida, outro link de 2005 que encontrei sobre o tema é da Ciência List e pode ser acessado em http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/49892. Lógico, menos de 1 dia depois da mensagem inicial a discussão entrou em uníssono: piada piada piada.
Resumão: normalmente descobrir se a “grande notícia polêmica” que chegou a você é real ou não dificilmente tomará mais do que 10 minutos do seu tempo.
Se você acha que é muito tempo para perder com isso, a solução é simples: não a encaminhe. Assim você poupa o seu tempo e de todos que a receberiam.
Ah, e o meu. Especialmente o meu.
Hepatite C, desinformação e conscientização!
O que são as hepatites? Quem sabe o que é a hepatite C, como essa doença é contraída, quais são os sintomas? Quem sabe responder como é feito o diagnóstico da hepatice C e se existe tratamento em caso de contaminação?
Mais: quem de vocês, leitores, já fez um exame para saber se possui essa doença ou outra hepatite?
Algumas das perguntas acima são parte de um panorama preocupante delimitado pelo Instituto Datafolha em uma pesquisa conduzida a pedido da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). Os dados referentes Às respostas de 1137 pessoas de 11 regiões metropolitanas brasileiras foram apresentados hoje no XXI Brasileiro de Hepatologia realizado em Salvador (Bahia) e resumem a falta de conhecimento sobre o tema.
Apesar de a Organização Mundial de Saúde considerar a hepatite causada pelo tipo C do vírus a principal pandemia mundial, com aproximadamente 170 milhões de pessoas infectadas, mais da metade dos entrevistados (51%) não soube definir “o que é hepatite C” e a grande maioria (84%) não fez um único teste para detectar a doença.
Considerando que a SBH estima que existam entre 3 e 4 milhões de brasileiros portadores do vírus da hepatite C, melhorar o conhecimento de todos é fundamental. Desse modo, aqui vai uma singela contribuição acompanhada de um “puxão de orelha”:
O que são hepatites?
As hepatites são inflamações do fígado causadas por diversos fatores, desde genéticos a uso de medicamentos ou, como é o caso do motivador desse post, infecções virais. No Brasil os vírus causadores de hepatites mais comuns são os tipos A, B e C, mas também existem os vírus D e E.
Como desconfio que posso estar infectado? Quais os principais sintomas e como é o exame para detecção?
Esse é o grande problema: em geral, as hepatites são doenças silenciosas e geralmente quando os sintomas aparecem a doença já está em um estágio avançado, sendo essa a importância de se fazer exames regulares e evitar situações de contágio. Alguns dos sintomas são febre, dor abdominal, vômitos, fezes esbranquiçadas e urina escura, sendo que os dois últimos são um forte indicativo de problemas no fígado.
A boa notícia: uma simples coleta de sangue já fornece material suficiente para realizar todos os exames de detecção!
Quais as causas de transmissão?
Apesar de se associar rapidamente a hepatite C às demais doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), fazer sexo sem proteção com alguém infectado é uma das formas mais raras de transmissão, bem como em transfusões de sangue (ao contrário do que ocorria a alguns anos). Claro que isso não diminui EM NADA a importância de se fazer sempre sexo seguro. Outro modo de contágio é a transmissão de uma mãe infectada durante a gravidez, mas o grande risco está no compartilhamento (consciente ou não) de material para uso de drogas (como seringas e agulhas) e de higiene pessoal.
O material de higiene pessoal merece atenção especial pois chegamos ao ponto em que não existe mais a desculpa de um “grupo de risco”. Todos usamos esses materiais e precisamos ter cuidado de nunca compartilhá-los. Alguns exemplos:
- Lâminas de barbear/depilar.
- Alicates de unha e outros objetos cortantes ou que entrem em contato com regiões que possam ter sido cortadas por outro instrumento, como aquele palitinho usado por manicures ou o potinho de água morna usado para “amaciar” as cutículas.
- Escovas de dentes.
- Material para confecção de tatuagem e colocação de piercings.
Os itens acima mostram uma verdade incontestável: todos estamos vulneráveis, por isso conhecer essa doença, suas formas de contágio e prevenção é essencial. Também é importante conscientizar crianças e adolescentes sobre o fato, uma vez que as meninas iniciam suas visitas aos salões de beleza cada vez mais cedo. Tatuagens e piercings também têm se tornado mais comuns em gente mais nova, o que é outro motivo de se conversar seriamente a respeito com que tenha vontade de fazer um dos dois.
Educar crianças e adolescentes sobre o risco de contrair essa doença é obrigação de todos os pais, mães, familiares e professores. Fazer o teste para saber se está saudável, também é!
Links interessantes:
Hepatice C no site do Ministério da Saúde - http://www.aids.gov.br/pagina/hepatite-c
Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) com teste rápido para hepatites virais - http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/page/2010/43925/cta_testerapido_hv_pdf_95624.pdf
Wikipédia: misturando cientistas com médiuns
Navegando pela Wikipédia para saber o que havia acontecido em outros dias 29 de janeiro do passado para fazer mais um dos “O que rolou na ciência HOJE“, a nova série de posts do RNAm, me deparo com um nascimento que me chamou a atenção. Era Emanuel Swedenborg, descrito como cientista, filósofo, engenheiro e MÉDIUM. Sempre acho esta junção de cientista e médium interessante, porque soam conflitantes para mim. E claro que esse tipo de coisa só podia acontecer em 1688. Nessa época, mentes inquietas como a de Swedenborg encontravam vastas áreas do conhecimento ainda a serem desvendadas, assim ele deu pitaco em todas, de física a espiritualidade.
O cara era bom, desceveu a pulsação do cérebro, percebeu que a cognição estava no cortex, construiu máquinas para mineração e como Leonardo daVinci imaginou máquinas voadoras e submarinos.
Mas o engraçado é que tudo isso de interessante aparece só no final do artigo da Wiki. E na parte entitulada “cientista” aparece o seguinte trecho:
Cientista:
Por exemplo, em astronomia, ele descreveu os habitantes do planeta Vênus:
- Eles são de dois tipos, uns gentis e benevolentes, e outros selvagens, cruéis e gigantes. Os últimos roubam, pilham e vivem disso; os primeiros tem um grau tão elevando de gentileza e caridade que são sempre amados pelos bons, e por causa disso sempre vêem o Senhor aparecer-lhes em sua forma real no seu planeta[3].
Os habitantes da Lua foram descritos assim:
- Os habitantes da Lua são pequenos, como crianças de seis ou sete anos; ao mesmo tempo, eles têm a força de homens como nós. A sua voz vibra como o trovão, e o som sai da barriga, porque a Lua tem uma atmosfera bem diferente da dos outros planetas[3].
Mercúrio é habitado por humanoides muito parecidos com os terrestres:
- Eu estava desejoso de descobrir que tipo de face os homens de Mercúrio tem, e se eles são iguais aos homens da Terra. Então eles (os espíritos de Mercúrio) me apresentaram uma mulher exatamente como as que vivem naquele planeta. Sua face era linda, mas menor que as mulheres da Terra, ela também era mais esbelta, mas de mesma altura (…)[4].
Habitantes do planeta Vênus?! Foi isso que ele realizou como cientista? Artigo zoado hein?
Mas a beleza da Wikipédia é que eu ou você podemos dar nosso pitaco e editar a coisa toda. Inclusive neste artigo há um aviso que diz o seguinte: “
Este artigo ou secção possui passagens que não respeitam o princípio da imparcialidade.
Tenha algum cuidado ao ler as informações contidas nele. Se puder, tente tornar o artigo mais imparcial.”
O artigo não é mesmo imparcial pois quem o escreveu só colocou referências espíritas e puxou a sardinha pra esse lado.
Outra coisa interessante é que o artigo da Wiki em inglês tá muito bom. Não que isso seja novidade, quase todos os artigos em inglês são melhores por n motivos, mas queria entender como funciona nos bastidores da Wiki esse lance de traduzir o artigo de outra língua em lugar de deixar passar um texto bem inferior e tendencioso.
Então vou fazer isso. Me cadastrei e vou tentar colocar as coisas em contexto e conto como foi a experiência de editar a Wiki pt. Já me alertaram para a fogueira das vaidades que arde por lá, mas mesmo assim acho que devo tentar por mim mesmo. Até mesmo para honrar a memória do cara que era um gênio da sua época, mesmo com sua maluquice que, aliás, sempre acompanha toda genialidade.
Protestar é legal, mas qual é o embasamento recente?
Recebi comentários criticando a campanha do Desafio 10:23 – Homeopatia: é feita de nada como um protesto fraco e que não provará nada. Também chegaram críticas de que ao menos nós do RNAm, como profissionais da área científica, deveríamos pensar em um modo mais confiável de refutar o funcionamento da homeopatia.
Agradeço todas as sugestões, mas vou esclarecer alguns pontos relacionados à homeopatia e ao Desafio 10:23:
“Vocês vão fazer um protesto só para tirar uma onda com a cara dos homeopatas?”: Não posso falar por todos os participantes, mas quem me conhece sabe que eu dificilmente sairia da cama num sábado de manhã sem um propósito maior. Além disso, a ideia do protesto não é ridicularizar a prática homeopática e sim chamar a atenção da população para algo que, apesar de carecer de confirmação científica rigorosa, em 2008 consumiu quase 3 milhões de reais em verbas do Ministério da Saúde. Para ser mais exato, de acordo com um comunicado do próprio ministério foram R$ 2.953.480,00 (a íntegra pode ser acessada em http://is.gd/OhdzmC).- “Não encontrei nenhum tipo de padronização: cada participante escolherá o que tomar, quanto tomar e a única recomendação que encontrei foi comprar diluições a partir de 30C, que não têm mais princípio ativo. Querem provar o que desse modo?”: Primeiro, o protesto não propõe um experimento científico e sim uma ação de conscientização. Segundo, a própria homeopatia postula que maiores diluições têm como resultado efeitos amplificados (a tal “memória da água” que já foi refutada inúmeras vezes, dessa vez em condições de boa metodologia científica). Considerando que qualquer “tratamento” médico pode ser prejudicial em excesso, demonstrar a falta de efeitos colaterais ou qualquer outro tipo de resposta sinaliza para o que já se sabe, isto é, os resultados homeopáticos são derivados de influências psicológicas nos pacientes – o famoso efeito placebo.
- “Ah, mas seria muito mais interessante e importante se vocês tentassem fazer uma manifestação na forma de um experimento controlado”: Novamente, a ideia do protesto é conscientizar. Além disso, em Ciência não é responsabilidade dos críticos provar se algo funciona ou não. Isso é chamado ônus da prova e na boa prática científica, a responsabilidade de provar qualquer proposta é sempre de quem a defende. A famosa frase de Carl Sagan “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias” é baseada nisso. Os homeopatas querem ser ciência? Então precisam mostrar seu valor dentro das boas práticas científicas, como todos os alopatas e pesquisadores biomédicos são obrigados a fazer.
- Ainda pensando em quem pede que os cientistas busquem provas que a homeopatia não funciona: muitos já fazem isso, meu post anterior possui algumas referências, mas se você considera artigos de 2005 um tipo de “pré-história acadêmica”, deixo dois exemplos mais recentes abaixo.
- Renckens, C. (2009). A Dutch View of the ”Science” of CAM 1986–2003 Evaluation & the Health Professions, 32 (4), 431-450 DOI: 10.1177/0163278709346815: Avaliação do governo holandês sobre o subsídio de medicinas alternativas no período entre 1986 e 2003. Os poucos resultados satisfatórios foram atribuídos a pobres metodologias de análise como a falta de grupos-controle tratados com placebo. Alguns estudos relataram resultados negativos. Esses dados culminaram na suspensão da verba governamental destinada a práticas complementares.
- Nuhn, T., Lüdtke, R., & Geraedts, M. (2010). Placebo effect sizes in homeopathic compared to conventional drugs – a systematic review of randomised controlled trials Homeopathy, 99 (1), 76-82 DOI: 10.1016/j.homp.2009.11.002: Esse estudo derrubou a hipótese de que os ensaios testando a validade clínica da homeopatia falhavam por apresentarem grupos-controle tratados com placebo que retornavam efeitos maiores dos observados em ensaios clínicos alopáticos. A conclusão foi de que os grupos-controle tratados com placebo dos ensaios homeopáticos não demonstraram efeitos maiores dos observados na medicina convencional.

“Overdose homeopática” Dia 5 de fevereiro tem Desafio 10:23!
No próximo sábado acontecerá o Desafio 10:23, um protesto que busca conscientizar o público sobre o que a homeopatia realmente é.
Às 10h23 da manhã do dia 5 de fevereiro, horário local, ativistas em mais de 10 países realizarão uma “overdose homeopática” coletiva para demonstrar que:
Homeopatia – É feita de nada
A “overdose” será registrada por fotos e filmes, sendo em seguida compartilhada em redes sociais como Twitter, Facebook, Orkut etc. pelos voluntários e apoiadores. Há alguns dias apoiadores, organizadores e voluntários estão divulgando material relacionado à campanha. Alguns deles são:
Homeopatia não é feita de nada (Rainha Vermelha)
Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades (Uôleo)
Para uma ideia diluída, o remédio é conhecimento concentrado. (RNAm)
Será que ele é? (RNAm)
Para saber como o protesto funciona, confira o vídeo abaixo!
A mídia também tem dado cobertura ao evento:
Céticos questionam a eficácia da homeopatia (Gazeta do Povo – PR)
Ativistas contra a homeopatia vão tomar “overdose” (Portal R7)
Ativistas contra a homeopatia vão tomar ‘overdose’ no próximo sábado, 5 (Estadão.com.br)
Para uma ideia diluída, o remédio é conhecimento concentrado.
Tudo que você sempre quis saber sobre homeopatia mas tinha vergonha de perguntar
A homeopatia se tornou uma grande indústria e é propagandeada como um tratamento seguro, natural e holístico para várias doenças como artrite, asma, depressão, diarréia, dores de cabeça, insônia etc.
Apesar disso, a evidência científica mostra que a homeopatia atua somente como um placebo (fármaco ou procedimento inerte que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente que está a ser tratado) e não há explicação dentro da ciência de como isso poderia ser diferente.
Princípios homeopáticos
A homeopatia é baseada em duas suposições: “semelhante cura semelhante” e “quanto menor a dose, mais potente é a cura”. Resumidamente, os homeopatas escolhem uma substância que causa os mesmos sintomas que a doença a ser tratada. Essa substância é então diluída e agitada repetidamente, o que supostamente reduz seu potencial prejudicial e a torna mais potente.
Os princípios analisados pela ciência
Cura pelo semelhante
Alguns homeopatas afirmam que é um processo semelhante à vacinação. Isso é errado pelo fato de as vacinas fazerem com que o sistema imune reconheça uma doença específica, enquanto na “cura por semelhante” só os sintomas da doença e do tratamento precisam ser correspondentes, uma hipótese não cabível com o funcionamento do nosso corpo. Uma dor de cabeça pode ser causada por estresse ou por um tumor no cérebro, mas o tratamento em cada caso é completamente diferente, não é? Se você buscar a homeopatia, não…
Dose mínima
Preparações homeopáticas são tão diluídas que muitas não contêm mais o princípio ativo. Uma diluição comum, a 30C, tem uma gota de princípio ativo diluída em 100 gotas de água, e assim por diante, até que tenham sido feitas 30 dessas diluições. A probabilidade de haver uma única molécula do princípio ativo na solução final é menor do que a chance de se ganhar na loteria britânica por cinco semanas seguidas. Os homeopatas acreditam que a água desenvolve uma “memória” do ingrediente ativo, mas pensem: se isso fosse possível, todo preparo homeopático teria várias memórias, pois qualquer grão de poeira que entrasse em contato com a água traria milhares de microrganismos e partículas diferentes.
As evidências científicas
Mais de 150 estudos falharam em demonstrar o funcionamento da homeopatia. Alguns estudos menores apresentaram resultados positivos devido a metodologias fracas ou efeitos aleatórios.

Conheçam a mais poderosa ferramenta estatística que existe: o gráfico de porcentagem em pizza gerado com dados qualitativos. (nota do tradutor: hihihi)
Quando os dados são analisados em conjunto, a homeopatia não é superior a nenhum placebo. Uma publicação de 2005 no periódico Lancet comparou 110 ensaios homeopáticos a 110 ensaios clínicos alopáticos. Os autores observaram que estudos mais rigorosos demonstraram fortes evidências de que, ao contrário dos resultados positivos nos estudos alopáticos, a homeopatia não teve eficácia. Em outras palavras: quanto melhor a pesquisa feita, menos a homeopatia funciona. De acordo com esse estudo estão mais de doze análises similares que chegaram à mesma conclusão: homeopatia não produz resultados melhores do que os placebos.
Então por que a homeopatia “funciona”?
As pessoas fazem uso da homeopatia por acreditarem em sua eficácia, o que faz com que a mesma, mesmo inerte em termos clínicos, possa induzir a mudanças psicológicas. O tratamento também pode coincidir com uma melhora da própria resposta imune do paciente.
O efeito placebo
A crença de estar recebendo tratamento frequentemente traz alívio a um paciente. Sabe-se que a redução do estresse fisiológico pode acelerar a recuperação de ferimentos e infecções virais por um aumento da função imune, ou seja, mesmo um “tratamento” inerte pode afetar o organismo. Respostas condicionadas também acontecem: experiências de tratamentos passados podem estimular o sistema imune a agir mais rapidamente quando outro tratamento (mesmo um placebo) é recebido.
Desconsiderando o alívio de estresse e o condicionamento, o efeito placebo é pequeno em relação à replicabilidade e à potência. Pacientes que fazem uso regular de morfina podem substituir uma dose por um placebo com sucesso, mas à medida que o uso do placebo se torna mais freqüente, o resultado piora (o organismo reconhece a diferença entre o tratamento real e a substituição). Esse mesmo efeito pode funcionar em doenças menos graves e ser eficiente para dor, fadiga, náusea e similares, mas não será eficaz contra fraturas, infecções ou tumores. Novamente, sua aplicação combate sintomas de determinada doença e não a doença em si.
Um placebo poderoso?
Quando a homeopatia cura condições médicas sérias fala-se de um “poderoso efeito placebo”, mas existem muitas outras explicações diferentes que devem ser descartadas. A administração de um comprimido pode coincidir com a recuperação do paciente sem estar relacionada a esse fato, como em recuperações espontâneas ou sintomas flutuantes. Por exemplo, como a dor da artrite é intermitente (ela “vem e vai”) e as pessoas tendem a buscar tratamento quando os sintomas estão em seu pior efeito, qualquer medicamento administrado pode dar a impressão de melhora.
E a homeopatia veterinária?
Os homeopatas argumentam que a homeopatia funciona em animais, o que descartaria o efeito placebo inclusive em bebês. No entanto, esses testes dependem de observações humanas que, sem normatização ou veterinários independentes, pode sofrer um grande viés (muitas vezes não intencional). Os estudos que corrigem esse tipo de viés demonstram que a homeopatia não funciona.
O fato de um placebo fazer a pessoa se sentir melhor não justifica sua prescrição por um médico?
A ética obriga que a relação médico-paciente seja baseada em honestidade, respeito, sinceridade e confiança. A prescrição de um placebo exige que o médico minta ao paciente (do contrário o placebo não surtirá seu efeito), o que fere esses princípios. Ainda, como placebos combatem os sintomas de uma doença, e não a doença propriamente dita, deixar a condição médica real sem tratamento pode ter implicações severas para o paciente.
Um caso de fadiga pode ser remediado por um placebo, mas e se essa fadiga for um sintoma de depressão, de uma infecção viral, ou de algo pior?
Referências bibliográficas
Shang, A. et al. 2005 ‘Are the clinical effects of homeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homeopathy and allopathy’ Lancet, 366: 726-732.
Glaser, R. 2005 ‘Stress-associated immune dysregulation and its importance for human health: a personal history of psychoneuroimmunology’ Brain, Behavior and Immunity, 19: 3-11.
Lovallo, W.R. & W. Gerin 2003 ‘Psychophysiological reactivity: mechanisms and pathways to cardiovascular disease’ Psychosomatic Medicine, 65: 36-45.
Kienle, G.S. & H. Kiene 1997 ‘The powerful placebo effect: fact or fiction?’ Journal of Clinical Epidemiology, 50: 1311-1318.
Não sei de vocês, mas eu prefiro apostar as minhas fichas na Medicina Baseada em Evidências…
O texto acima é uma adaptação de um informe sobre homeopatia elaborado em 2006 pela organização Sense About Science, criada em 2002 com o objetivo de promover respeito por evidências científicas e boas práticas de ciência, aumentando a compreensão da população sobre o tema.
A tradução adaptada do informe Sense About Homeopathy (o original pode ser acessado pelo link) é parte do material de apoio e divulgação da campanha:

Mais informações sobre a ação em http://1023.haaan.com/
Podcast Dispersando 5: Nobel, Ig Nobel e tudo que há no meio
Saiu mais um episódio do Dispersando, o podcast do Scienceblogs Brasil, com Fernanda Poletto (Bala Mágica), Igor Santos (42.) Karl (Ecce Medicus) e Rafael Soares (este que vos escreve).
Aprenda sobre sapos flutuantes, coletores de espirro de baleia, e um excitante acoplamento cruzado.
Dispersando 5
Dinossauro achado em igreja
Como é? o Papa arrumou um bichinho de estimação novo? Não, é só que acharam um dinossauro numa catedral. Isso mesmo.
Mas foi encontrado um fossil, claro. E acaba combinando com uma instituição tão antiga, não é mesmo?. Veja as fotos:
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(via Discovery News)








Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutor pela Biotecnologia da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na área de neurociência comportamental e molecular.

