Filosofia de laboratório.

Modelo tridimensional da estrutura do DNA.

Dia normal no laboratório. Vi que alguns alunos estavam preparando um gel para SDS-PAGE e perguntei se estava tudo OK. Responderam que “sim”, só estavam esperando o gel polimerizar por causa de uma receita que levava bem menos TEMED do que estamos habituados a fazer. Dito isso, comentei:

“Se vocês estiverem com pressa podem por um pouco mais. Só tomem cuidado para o gel não polimerizar antes de vocês o colocarem na forma. Outro dia mesmo fiquei pensando no sentido da vida ou sei lá o que e quando percebi, o gel tinha polimerizado e precisei refazer tudo…”

Eu mal terminei de falar isso e a resposta veio na lata:

“Ah, na dúvida é sempre 5´ -> 3´ !”

Isso que dá ficar muito tempo num laboratório de biologia molecular…

 

PS: não entendeu? Que tal lembrar da estrutura do DNA e de sua replicação na figura abaixo?

Sentido das fitas de DNA (esquerda) e um modelo de sua forquilha de replicação (direita).

PPS: “o sentido da vida” já foi descoberto faz muito tempo!

Imagens:

Getty Images (royalty-free) / WikiCiências / Wikipedia

Carnaval acadêmico 2012 e a Unidos da Pós-graduação!

Não resisti e fotografei o resultado de 5 pessoas – contanto este que vos fala, claro – trabalhando direto no laboratório durante o carnaval. As fotos foram tiradas no final da tarde da 4ª-feira de cinzas.

Bancada? Onde?

Alguém aí viu o NaCl? Não encontrei no armário!

Difícil deixar arrumado precisando correr vários SDS-PAGE em sequência...

Quando acabam as ponteiras começa o "momento zen": encher caixinhas!

"Ei, como é que tá a apuração das escolas de samba?" "Sei lá, meu, perdi minha calculadora, ajuda aqui!"

Esses são só alguns flashes que mostram o resultado final de ficar no laboratório tantos dias seguidos. Cansa, mas compensa pela rapidez em se conseguir resolver experimentos pendentes.

Claro que depois limpamos e arrumamos tudo, senão a chefe mata a gente. Ela é compreensiva com a zona, mas tudo tem limite… De qualquer modo, é muito bom quando o laboratório entra no modo “produção agressiva como se não houvesse amanhã”.

Ah, e prá constar, o clima não esfriou depois que acabaram os feriados. Preparei esse post rapidinho no sábado enquanto esterilizava a sala de cultura de células.

Acho que vou trocar a placa de “Biologia Molecular” do meu laboratório por um pôster de “Onde os fracos não têm vez”. Combina.

 

Burocracia eterna das trevas.

Todo mundo imagina – corretamente – que laboratórios de pesquisa sejam recheados de equipamentos caros, complexos e quase mágicos. Em quase 100% dos casos isso é verdade e implica outra característica: são importados.

Daí, além de toda a complicação para se conseguir o dinheiro da compra, a importação e o recebimento da dita cuja, temos a mãe de todo o Mal: a Burocracia (sim, maiúscula pois essa entidade já está no próximo Deuses Americanos do tio Gaiman). A Dona Burocra (apelido carinhoso dado por um grande amigo e adotado por muitos com quem trabalho) faz de tudo para te pegar. Seja falta de espaço no laboratório, briga entre departamentos para decidir quem vai “sediar” a novidade, entraves de patrimoniamento institucional etc. Podem escolher à vontade que o cardápio é extenso.

Assim, uma visão comum são caixas lacradas – às vezes bem grandes – que ficam meses – sim, MESES – encostadas em salas, no corredor, na garagem, no estoque. Uma beleza.

No corredor de entrada do laboratório em que trabalho existe uma dessas caixas. Francamente, acho até que alguém decidiu que ela funciona melhor como peça de decoração e que deixá-la como está é uma boa ideia. Vejam a dita cuja:

Caixa decorativa para corredores: encomende a sua! (Foto: arquivo pessoal)

A seta vermelha mostra um detalhe novo que me chamou a atenção faz alguns dias. Alguém muito espirituoso achou o formato da caixa sugestivo e resolveu “plantar” uma piada para quem gosta de cinema.  Vejam a criatividade do sujeito:

Um pouco mais perto... essa imagem lembra alguém, não lembra? (Foto: arquivo pessoal)

E, finalmente, a surpresa. Sério, eu morri de rir quando vi isso pela primeira vez e todo dia chegando ao laboratório eu dou um pelo menos um risinho:

Tem coisas que só instituições públicas de pesquisa podem fazer por você... Contemplem O SENHOR DAS TREVAS! (Foto: arquivo pessoal)

Piadas à parte, me peguei pensando… Imagina se durante aquele experimento maldito que me obriga a virar a noite no laboratório eu ouço:

Listen to them. Children of the night. What music they make…

Eu hein… credo =/

 

PS: não entendeu a referência? Clica aqui malandro -> http://www.imdb.com/title/tt0021814/quotes

Aprendendo por demonstração… ou não!

Mais uma fantástica série “motivacional” de tirinhas feitas por Jorge Cham, criador do PHD Comics. O diálogo, que vai relembrar episódios na vida acadêmica de muitos leitores, está traduzido abaixo. Divirtam-se!

Tradução

Orientador (O): Fiz alguns ajustes no rascunho do artigo que você me enviou.

Aluno (A): Você… reescreveu tudo.

O: Sim, acho mais fácil reescrever do que mostrar a você todas as coisas que fez errado. Chamo isso de “aprendizado por demostração”.

A: O que você está demonstrando?

O: Que você escreve mal.

A: O que está errado com a minha escrita?

O: Bom… para começar, você usa frases demais. Sua escolha de palavras é comumente incorreta. E sua pontuação é estranhamente posicionada. Na verdade, o problema começou quando você apertou a primeira tecla do teclado.

A: Mais alguma coisa?

O: Suas figuras são feias.

A: Não leve pelo lado pessoal. Quando eu era um estudante de Doutorado, meu orientador reescrevia todos os meus primeiros artigos. Prometo que quando vocês estiver escrevendo a versão final da sua tese não encontrará uma só edição ou comentário meu.

A: Eu estarei escrevendo bem assim?

O: Eu não ligarei mais.

Antes da tirinha eu escrevi “divirtam-se”. Mas “chupa essa manga” serve tão bem quanto =).

IgNobel 2011 – Não se divertir é altamente improvável!

Hoje à noite tem a entrega do Prêmio IgNobel 2011! Os interessados podem acompanhar a transmissão do evento ao vivo via internet às 20h30 do horário de Brasília (19h30 em Boston – EUA).

De acordo com a própria organização: “The Ig Nobel Prizes honor achievements that first make people laugh, and then make them think”. Uma tradução livre seria que esses prêmios honram conquistas que primeiro fazem as pessoas rirem, e depois as colocam para pensar.

Abaixo, a ótima chamada para a premiação:

Detalhes sobre o evento: http://improbable.com/ig/
Como acompanhar a transmissão via internet: http://improbable.com/ig/2011/#webcastinfo

Aproveitem para se divertir com as pesquisas altamente improváveis que caracterizam a festa!

O que rolou na ciência HOJE: 14 de Abril

Nobel_Laureates_von_Frisch_Lorenz_Tinbergen.jpgAgora pra não confundir Lorenz com Tinbergen..

1892 – A General Electric Company é criada com a fusão da Edison General Electric Company and the Thomson-Houston Company.[A GE é talvez a maior empresa de tudo-que-se-pode-usar-num-lab-e-fora-dele. Desde aparelhos megacomplexos até reagentes e kits]

1912 – O navio RMS Titanic naufraga por volta das 02h20min após chocar cerca de três horas antes com um iceberg no Atlântico Norte.["Nem deus afunda este navio" disse o engenheiro. E não afundou mesmo, afinal foi um iceberg]

1923 – A insulina se torna disponível para uso em larga escala por pacientes que sofrem de diabetes. [Era ainda purificada de vacas. Hoje em dia ela é produzida por células transgênicas - muito mais barata e segura por isso.]

Nascimentos:

1452Leonardo da Vinci, artista e cientista italiano [Provavelmente tinha transtorno em déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e mesmo assmi um gênio]

1896Nikolay Nikolayevich Semyonov, quimício russo laureado com o Prêmio Nobel de Química (m. 1986).

1907Nikolaas Tinbergen, ornitólogo holandês, laureado com o Prêmio Nobel de Medicina (m. 1988). [Pai da etologia. E a referência na wiki português é um desgosto.]

#Divã da pós – Ritmos de trabalho.

Passadinha rápida para compartilhar mais uma verdade transformada em quadrinho por Jorge Cham!

phd_rnam.jpg

Eu alterno entre “Robô” e “OK, talvez você defenda sua tese”, e vocês?


Adaptação do sempre ótimo PhD Comics.

ps: favor desconsiderar minha inaptidão para com editores de imagem.

Mais Lady Gaga: Bad Project.

Como era de se esperar, apareceu mais uma paródia da argh Lady Gaga!

Eu sei como quem fez o vídeo se sente, não tem nada como ganhar um projeto-mico de presente e ficar batendo cabeça por meses a fio… Prá não falar de quando trabalhei num laboratório em que o pós-doc que coordenava o projeto identificava suas amostras principais em árabe!

Ê vidinha mais ou menos…

Rafael_RNAm diz:

Esse é o maior viral científico desde a bactéria de arsênio!!!Eu recebi isso de DEZENAS de pessoas, via twitter, orkut, Facebook, email, fax, pager e sinais de fumaça. 

Parabéns por pessoal do lab da Hui Zheng que produziu o vídeo. Esse tipo de material é muito bom para mostrar para nós, cientistas brasileiros, que lá no EUA e aqui os problemas são os mesmos (maldito Western!!!). 

É bom também para fazer a sua mãe entender que fazer ciência não é sempre a coisa mais honrada e divertida do mundo. E no final o que todos os pós-graduandos gritam é isso mesmo: “EU NÃO QUERO SER POBRE!!!!”

Se você não viu o outro vídeo que postamos aqui, acesse Lady Gaga no laboratório: Lab Romance!

Doutoradices…

Eu e o Rafael, hoje, via GTalk:

eu: vou clonar 2 enzimas e fazer o possível para conseguir os cristais

Rafael: vixi, mas cristalizar demora anos, nao?

eu: depende, de qualquer modo, a clonagem e expressão já me garantem; se o cristal não sair, paciência

Rafael: ah tah, era isso q tinham me dito… ninguem baseia um doc em cristalização de prot, pq é meio loteria

eu: se eu der sorte…

Rafael: como sorte nao é o forte de cientistas, melhor ter um plano B

eu: eu tenho B e até C, se tudo der errado consigo 2 papers hahahahahahahahahhahaa
se der 2 papers prá eu pegar os diplomas de mestre e de doutor já fico feliz… VDM

Rafael: vdm? é, eu vou sair no máximo com 3

eu: (vida de m#r%a)

Rafael: falta interação aqui no laboratório, pelo menos artigo um ja saiu

eu: ainda tenho 3 anos e muita coisa pode acontecer, pode vir mais colaboração, por exemplo, ou algumas coisas podem dar mais certo, sei lá… é muito cedo
mas o plano mínimo é esse que te falei agora… eu não devia dizer isso, mas não é possível que dê TUDO errado né

Rafael: tudo nao, mas comigo deu quase tudo errado hehehe… mas isso sou eu

eu: mas vc tem uma publicação, tá valendo… eu não tô nem perto ainda (por mais que minha chefe diga que estou)

Rafael: hahahah, que f$da essas historinhas

eu: ela fica pedindo “e o teu paper, escreveu? fica o dia inteiro no computador, deve ter escrito uns 3 já, cadê ele?” e eu respondo “profa. ainda estou terminando os experimentos que a senhora pediu”

Rafael: hahahaha

eu: aí diz “quero mandar o artigo em fevereiro/março/abril/maio/junho/julho/agosto quando eu sair da correria”, “a gente tem que mandar seu trabalho, tem que mandar, mandar, mandar”
e eu respondo “não tá prontooooooo”
hahahahah
o dia a dia é mais ou menos esse
daí ela viaja e na volta fala “cadê teu paper?”, daí eu respondo “sabe aquele experimento que a senhora pediu? fiz e não deu em nada”
“vamos mandar com esses resultados mesmo então, cadê o paper?”
“professora, ainda faltam os resultados, disso, disso e disso aqui…” hahahaha, é f#da

Rafael: hahahahaha
publica esse diálogo, tá muito engraçado…

Pois é, e esse diálogo engraçado pode ser resumido em uma imagem:

DoubleFacePalm.jpg

Tem coisa que só o doutorado faz por você…

Como melhorar, na prática, a qualidade da pesquisa no Brasil

Como melhorar o nível da pesquisa brasileira?
Primeiro vamos comparar a nossa pesquisa com a de outros países para ver se realmente estamos tão mal assim. E estamos.
Usando o exemplo dos laboratórios de pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) que trabalham com câncer, apesar dos trabalhos publicados terem subido de 4 para 100 por ano nos últimos 20 anos, a qualidade ainda deixa a desejar. Qualidade para o pesquisador básico é a qualidade da revista onde foi publicado o trabalho, onde Nature e Science são os sonhos de consumo, mas há diversas outras com diferentes impactos.
Comparando com a Espanha, que investe o mesmo montante em pesquisa básica, estamos 20% abaixo em qualidade e 40% abaixo da média mundial. Como melhorar?
Uma idéia apresentada em uma palestra na FMUSP sobre o Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP) vem justamente tentar melhorar a qualidade da pesquisa em câncer, pelo menos na FMUSP.
Existem entre 30 e 35 grupos nos laboratórios de investigação médica (LIM), com linhas de pesquisas e objetivos diferentes dentro da FMUSP. Aumentar a interação destes labs para alguns objetivos comuns ou mesmo orientá-los para focos que a sociedade tenha urgência, pode gerar trabalhos mais amplos, completos e de maior qualidade (= maior impacto). Este é o objetivo do setor de pesquisa básica do ICESP, que ainda levará um tempo para estar funcionando, mas terá técnicos e aparelhos para servir à demanda destes labs, oferecendo serviços e colocando os diferentes grupos em maior contato.
icesp cancer.jpg
No esquema acima, a base da pirâmide mostra os diferentes grupos com suas diferentes orientações e objetivos.
Ao utilizarem o ICESP, podem reconhecer as características e se agruparem por semelhança de estilo. Facilitando assim o pedido de financiamento para projetos maiores e amplos, ou mesmo se tornando um foco para secretarias estaduais e ministérios (como os de Saúde ou Ciência e Tecnologia) poderem propor problemas de saúde pública e inovação de interesse do estado.
Parece legal, mas aumentar interação entre grupos é complicado. Cientista é um bicho tinhoso, cheio de manias, e só ter um setor multi-usuário não resolve tudo. O importante é que tenha simpósios, palestras e, minha teoria, FESTAS!!! Só assim pras pessoas interagirem e se conhecerem.
Esperemos que dê certo.

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