Quer multidisciplinaridade? Vá para áreas da saúde.
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A trans-inter-super-ultra-mega-blaster-multidisciplinaridade estána moda, certo? Todo mundo fala disso. Mas eu acho que a coisa ainda está muito mais no discurso do que na prática. O mundo ainda compensa mais as pessoas super-especializadas. Isso é o que eu acho, mas podemos discutir. Se não concorda ou me apóia, comente este post com sua idéia.
Apesar de não ver isso na prática da pesquisa, pelo menos tenho visto algo parecido surgir em aulas da pós-graduação. Ou pelo menos algumas. E vejo que a área de saúde é a que tem estado na frente nesta multidisciplinaridade.
Dou alguns exemplos:
Como eu estou entrando na área das neurociências eu tenho feito disciplinas de pós-graduação na psiquiatria da USP, e comecei por uma disciplina mais amistosa para mim, biólogo que sou – isto é, com um “molecular” ou “genética” no nome. Afinal, em estudos do câncer ou do cérebro, molecular é molecular e genética é genética. Elas são ferramentas que podem ser aplicadas a muita coisa, e os termos, técnicas e jargões são os mesmos. Começando assim eu pude me sentir menos patinho feio dentro da psiquiatria.
Assim comecei com a disciplina Genética e Transtornos Psiquiátricos. Pode parecer bem clínico, mas no programa dava pra ver que abordaria conceitos básicos, indo de interação gene x ambiente, passando por estudos epidemiológicos, moleculares e até bioinformática e modelos animais.
Mas a multidisciplinaridade mais interessante não estava no conteúdo das aulas, mas nos alunos que apareceram por lá.
Havia biólogo (eu e não sei se mais algum), psicóloga clínica, um psiquiatra beeeem clínico mas interessado por pesquisa e epigenética, psiquiatra epidemiologista, e até um neurocirurgião!!!
Sério, eu nunca tinha conversado com um neurocirurgião. Para mim eles carregam um estigma de serem os seres mais inteligentes do mundo. Não que eu ache isso, mas parece que quando as pessoas pensam em uma profissão absurdamente difícil, pensam em neurocirurgião.
Claro que o cara era normal, bem gente boa, muito inteligente, principalmente uma inteligência bem técnica, eu diria, mas nada fora do comum para um bom cirurgião. E deu contribuições fantásticas nas discussões da aula. Sério, agora eu quero ter sempre um neurocirurgião por perto pra conversar e tirar dúvidas.
Agora estou em outra disciplina, esta bem mais voltada para pesquisa, mas ainda sim temos certa diversidade com psiquiatras (na maioria), psicólogos e eu, o biólogo fora do nicho.
E foi muito legal contribuir para a discussão quando a conversa foi sobre o papel da evolução nas doenças psiquiátricas. Eu como biólogo pude ajudar com conceitos que para biólogos são banais, mas para médicos e psicólogo são mais distantes.
Estou gostando de estar nessa área médica ou de saúde. Afinal eu tenho essa tendência generalista, de gostar de tudo, e vejo que há muita multidisciplinaridade por aqui. Claro que ainda faltam áreas importantes entrarem na roda, como, no caso da psiquiatria, os psicólogos comportamentais, neurocientistas e pessoal do comportamento animal, entre outros.
Juro que isso tudo chegou a gerar uma certa inveja-boa da prática clínica. Mas ainda bem que passa rápido.
Por isso, se você é um generalista como eu, gosta de interagir com várias áreas, e ainda não sabe o que fazer da vida (vai prestar vestibular ou entrar em uma pós-graduação), as áreas da saúde são uma boa pedida.
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Hepatite C, desinformação e conscientização!
O que são as hepatites? Quem sabe o que é a hepatite C, como essa doença é contraída, quais são os sintomas? Quem sabe responder como é feito o diagnóstico da hepatice C e se existe tratamento em caso de contaminação?
Mais: quem de vocês, leitores, já fez um exame para saber se possui essa doença ou outra hepatite?
Algumas das perguntas acima são parte de um panorama preocupante delimitado pelo Instituto Datafolha em uma pesquisa conduzida a pedido da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). Os dados referentes Às respostas de 1137 pessoas de 11 regiões metropolitanas brasileiras foram apresentados hoje no XXI Brasileiro de Hepatologia realizado em Salvador (Bahia) e resumem a falta de conhecimento sobre o tema.
Apesar de a Organização Mundial de Saúde considerar a hepatite causada pelo tipo C do vírus a principal pandemia mundial, com aproximadamente 170 milhões de pessoas infectadas, mais da metade dos entrevistados (51%) não soube definir “o que é hepatite C” e a grande maioria (84%) não fez um único teste para detectar a doença.
Considerando que a SBH estima que existam entre 3 e 4 milhões de brasileiros portadores do vírus da hepatite C, melhorar o conhecimento de todos é fundamental. Desse modo, aqui vai uma singela contribuição acompanhada de um “puxão de orelha”:
O que são hepatites?
As hepatites são inflamações do fígado causadas por diversos fatores, desde genéticos a uso de medicamentos ou, como é o caso do motivador desse post, infecções virais. No Brasil os vírus causadores de hepatites mais comuns são os tipos A, B e C, mas também existem os vírus D e E.
Como desconfio que posso estar infectado? Quais os principais sintomas e como é o exame para detecção?
Esse é o grande problema: em geral, as hepatites são doenças silenciosas e geralmente quando os sintomas aparecem a doença já está em um estágio avançado, sendo essa a importância de se fazer exames regulares e evitar situações de contágio. Alguns dos sintomas são febre, dor abdominal, vômitos, fezes esbranquiçadas e urina escura, sendo que os dois últimos são um forte indicativo de problemas no fígado.
A boa notícia: uma simples coleta de sangue já fornece material suficiente para realizar todos os exames de detecção!
Quais as causas de transmissão?
Apesar de se associar rapidamente a hepatite C às demais doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), fazer sexo sem proteção com alguém infectado é uma das formas mais raras de transmissão, bem como em transfusões de sangue (ao contrário do que ocorria a alguns anos). Claro que isso não diminui EM NADA a importância de se fazer sempre sexo seguro. Outro modo de contágio é a transmissão de uma mãe infectada durante a gravidez, mas o grande risco está no compartilhamento (consciente ou não) de material para uso de drogas (como seringas e agulhas) e de higiene pessoal.
O material de higiene pessoal merece atenção especial pois chegamos ao ponto em que não existe mais a desculpa de um “grupo de risco”. Todos usamos esses materiais e precisamos ter cuidado de nunca compartilhá-los. Alguns exemplos:
- Lâminas de barbear/depilar.
- Alicates de unha e outros objetos cortantes ou que entrem em contato com regiões que possam ter sido cortadas por outro instrumento, como aquele palitinho usado por manicures ou o potinho de água morna usado para “amaciar” as cutículas.
- Escovas de dentes.
- Material para confecção de tatuagem e colocação de piercings.
Os itens acima mostram uma verdade incontestável: todos estamos vulneráveis, por isso conhecer essa doença, suas formas de contágio e prevenção é essencial. Também é importante conscientizar crianças e adolescentes sobre o fato, uma vez que as meninas iniciam suas visitas aos salões de beleza cada vez mais cedo. Tatuagens e piercings também têm se tornado mais comuns em gente mais nova, o que é outro motivo de se conversar seriamente a respeito com que tenha vontade de fazer um dos dois.
Educar crianças e adolescentes sobre o risco de contrair essa doença é obrigação de todos os pais, mães, familiares e professores. Fazer o teste para saber se está saudável, também é!
Links interessantes:
Hepatice C no site do Ministério da Saúde - http://www.aids.gov.br/pagina/hepatite-c
Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) com teste rápido para hepatites virais - http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/page/2010/43925/cta_testerapido_hv_pdf_95624.pdf
Tratamentos virtuais, resultados reais.
- Dores causadas por punções ou acessos venosos: em estudos de 2004 e 2005, adultos e crianças em quimioterapia mostraram redução significativa dos índices de dor quando jogavam Virtual Gorilla, em que o jogador é um gorila em seu habitat. No entanto, outras distrações (não necessariamente realidade virtual) tiveram desempenho semelhante, de modo que o assunto se encontra em discussão.
- Colocação de acesso intravenoso: um estudo de 2006 realizado com crianças utilizando o jogo Street Luge, de skate, trouxe resultados promissores, mas ainda inconclusivos.
O artigo comentado aborda utilizações bem sucedidas da tecnologia dos games, assunto recorrente no RNAm, e vai prá lista de argumentos contra os reclamões que só conseguem enxergar jogos como diversão, “perda de tempo” e coisa de moleque não quer crescer.
Se quiser ver os outros exemplos discutidos pelo Rafael e por mim, visite:
- World of Warcraft nada. Use seu tempo jogando pela ciência!
- Como criar seu próprio exército de cidadãos-cientistas.
- Como uma proteína chega à sua forma? Pergunte ao seu PS3!
Dica da @linagarrido ressucitada pela matéria “A cura pela realidade virtual”, publicada em Março de 2011 na Isto É Independente.
KM Malloya & LS Milling. The effectiveness of virtual reality distraction for pain reduction: A systematic review. Clinical Psychology Review. Vol. 30, Issue 8, Pag. 1011-1018 (2010).
doi:10.1016/j.cpr.2010.07.001
Protestar é legal, mas qual é o embasamento recente?
Recebi comentários criticando a campanha do Desafio 10:23 – Homeopatia: é feita de nada como um protesto fraco e que não provará nada. Também chegaram críticas de que ao menos nós do RNAm, como profissionais da área científica, deveríamos pensar em um modo mais confiável de refutar o funcionamento da homeopatia.
Agradeço todas as sugestões, mas vou esclarecer alguns pontos relacionados à homeopatia e ao Desafio 10:23:
“Vocês vão fazer um protesto só para tirar uma onda com a cara dos homeopatas?”: Não posso falar por todos os participantes, mas quem me conhece sabe que eu dificilmente sairia da cama num sábado de manhã sem um propósito maior. Além disso, a ideia do protesto não é ridicularizar a prática homeopática e sim chamar a atenção da população para algo que, apesar de carecer de confirmação científica rigorosa, em 2008 consumiu quase 3 milhões de reais em verbas do Ministério da Saúde. Para ser mais exato, de acordo com um comunicado do próprio ministério foram R$ 2.953.480,00 (a íntegra pode ser acessada em http://is.gd/OhdzmC).- “Não encontrei nenhum tipo de padronização: cada participante escolherá o que tomar, quanto tomar e a única recomendação que encontrei foi comprar diluições a partir de 30C, que não têm mais princípio ativo. Querem provar o que desse modo?”: Primeiro, o protesto não propõe um experimento científico e sim uma ação de conscientização. Segundo, a própria homeopatia postula que maiores diluições têm como resultado efeitos amplificados (a tal “memória da água” que já foi refutada inúmeras vezes, dessa vez em condições de boa metodologia científica). Considerando que qualquer “tratamento” médico pode ser prejudicial em excesso, demonstrar a falta de efeitos colaterais ou qualquer outro tipo de resposta sinaliza para o que já se sabe, isto é, os resultados homeopáticos são derivados de influências psicológicas nos pacientes – o famoso efeito placebo.
- “Ah, mas seria muito mais interessante e importante se vocês tentassem fazer uma manifestação na forma de um experimento controlado”: Novamente, a ideia do protesto é conscientizar. Além disso, em Ciência não é responsabilidade dos críticos provar se algo funciona ou não. Isso é chamado ônus da prova e na boa prática científica, a responsabilidade de provar qualquer proposta é sempre de quem a defende. A famosa frase de Carl Sagan “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias” é baseada nisso. Os homeopatas querem ser ciência? Então precisam mostrar seu valor dentro das boas práticas científicas, como todos os alopatas e pesquisadores biomédicos são obrigados a fazer.
- Ainda pensando em quem pede que os cientistas busquem provas que a homeopatia não funciona: muitos já fazem isso, meu post anterior possui algumas referências, mas se você considera artigos de 2005 um tipo de “pré-história acadêmica”, deixo dois exemplos mais recentes abaixo.
- Renckens, C. (2009). A Dutch View of the ”Science” of CAM 1986–2003 Evaluation & the Health Professions, 32 (4), 431-450 DOI: 10.1177/0163278709346815: Avaliação do governo holandês sobre o subsídio de medicinas alternativas no período entre 1986 e 2003. Os poucos resultados satisfatórios foram atribuídos a pobres metodologias de análise como a falta de grupos-controle tratados com placebo. Alguns estudos relataram resultados negativos. Esses dados culminaram na suspensão da verba governamental destinada a práticas complementares.
- Nuhn, T., Lüdtke, R., & Geraedts, M. (2010). Placebo effect sizes in homeopathic compared to conventional drugs – a systematic review of randomised controlled trials Homeopathy, 99 (1), 76-82 DOI: 10.1016/j.homp.2009.11.002: Esse estudo derrubou a hipótese de que os ensaios testando a validade clínica da homeopatia falhavam por apresentarem grupos-controle tratados com placebo que retornavam efeitos maiores dos observados em ensaios clínicos alopáticos. A conclusão foi de que os grupos-controle tratados com placebo dos ensaios homeopáticos não demonstraram efeitos maiores dos observados na medicina convencional.

“Overdose homeopática” Dia 5 de fevereiro tem Desafio 10:23!
No próximo sábado acontecerá o Desafio 10:23, um protesto que busca conscientizar o público sobre o que a homeopatia realmente é.
Às 10h23 da manhã do dia 5 de fevereiro, horário local, ativistas em mais de 10 países realizarão uma “overdose homeopática” coletiva para demonstrar que:
Homeopatia – É feita de nada
A “overdose” será registrada por fotos e filmes, sendo em seguida compartilhada em redes sociais como Twitter, Facebook, Orkut etc. pelos voluntários e apoiadores. Há alguns dias apoiadores, organizadores e voluntários estão divulgando material relacionado à campanha. Alguns deles são:
Homeopatia não é feita de nada (Rainha Vermelha)
Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades (Uôleo)
Para uma ideia diluída, o remédio é conhecimento concentrado. (RNAm)
Será que ele é? (RNAm)
Para saber como o protesto funciona, confira o vídeo abaixo!
A mídia também tem dado cobertura ao evento:
Céticos questionam a eficácia da homeopatia (Gazeta do Povo – PR)
Ativistas contra a homeopatia vão tomar “overdose” (Portal R7)
Ativistas contra a homeopatia vão tomar ‘overdose’ no próximo sábado, 5 (Estadão.com.br)
Para uma ideia diluída, o remédio é conhecimento concentrado.
Tudo que você sempre quis saber sobre homeopatia mas tinha vergonha de perguntar
A homeopatia se tornou uma grande indústria e é propagandeada como um tratamento seguro, natural e holístico para várias doenças como artrite, asma, depressão, diarréia, dores de cabeça, insônia etc.
Apesar disso, a evidência científica mostra que a homeopatia atua somente como um placebo (fármaco ou procedimento inerte que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente que está a ser tratado) e não há explicação dentro da ciência de como isso poderia ser diferente.
Princípios homeopáticos
A homeopatia é baseada em duas suposições: “semelhante cura semelhante” e “quanto menor a dose, mais potente é a cura”. Resumidamente, os homeopatas escolhem uma substância que causa os mesmos sintomas que a doença a ser tratada. Essa substância é então diluída e agitada repetidamente, o que supostamente reduz seu potencial prejudicial e a torna mais potente.
Os princípios analisados pela ciência
Cura pelo semelhante
Alguns homeopatas afirmam que é um processo semelhante à vacinação. Isso é errado pelo fato de as vacinas fazerem com que o sistema imune reconheça uma doença específica, enquanto na “cura por semelhante” só os sintomas da doença e do tratamento precisam ser correspondentes, uma hipótese não cabível com o funcionamento do nosso corpo. Uma dor de cabeça pode ser causada por estresse ou por um tumor no cérebro, mas o tratamento em cada caso é completamente diferente, não é? Se você buscar a homeopatia, não…
Dose mínima
Preparações homeopáticas são tão diluídas que muitas não contêm mais o princípio ativo. Uma diluição comum, a 30C, tem uma gota de princípio ativo diluída em 100 gotas de água, e assim por diante, até que tenham sido feitas 30 dessas diluições. A probabilidade de haver uma única molécula do princípio ativo na solução final é menor do que a chance de se ganhar na loteria britânica por cinco semanas seguidas. Os homeopatas acreditam que a água desenvolve uma “memória” do ingrediente ativo, mas pensem: se isso fosse possível, todo preparo homeopático teria várias memórias, pois qualquer grão de poeira que entrasse em contato com a água traria milhares de microrganismos e partículas diferentes.
As evidências científicas
Mais de 150 estudos falharam em demonstrar o funcionamento da homeopatia. Alguns estudos menores apresentaram resultados positivos devido a metodologias fracas ou efeitos aleatórios.

Conheçam a mais poderosa ferramenta estatística que existe: o gráfico de porcentagem em pizza gerado com dados qualitativos. (nota do tradutor: hihihi)
Quando os dados são analisados em conjunto, a homeopatia não é superior a nenhum placebo. Uma publicação de 2005 no periódico Lancet comparou 110 ensaios homeopáticos a 110 ensaios clínicos alopáticos. Os autores observaram que estudos mais rigorosos demonstraram fortes evidências de que, ao contrário dos resultados positivos nos estudos alopáticos, a homeopatia não teve eficácia. Em outras palavras: quanto melhor a pesquisa feita, menos a homeopatia funciona. De acordo com esse estudo estão mais de doze análises similares que chegaram à mesma conclusão: homeopatia não produz resultados melhores do que os placebos.
Então por que a homeopatia “funciona”?
As pessoas fazem uso da homeopatia por acreditarem em sua eficácia, o que faz com que a mesma, mesmo inerte em termos clínicos, possa induzir a mudanças psicológicas. O tratamento também pode coincidir com uma melhora da própria resposta imune do paciente.
O efeito placebo
A crença de estar recebendo tratamento frequentemente traz alívio a um paciente. Sabe-se que a redução do estresse fisiológico pode acelerar a recuperação de ferimentos e infecções virais por um aumento da função imune, ou seja, mesmo um “tratamento” inerte pode afetar o organismo. Respostas condicionadas também acontecem: experiências de tratamentos passados podem estimular o sistema imune a agir mais rapidamente quando outro tratamento (mesmo um placebo) é recebido.
Desconsiderando o alívio de estresse e o condicionamento, o efeito placebo é pequeno em relação à replicabilidade e à potência. Pacientes que fazem uso regular de morfina podem substituir uma dose por um placebo com sucesso, mas à medida que o uso do placebo se torna mais freqüente, o resultado piora (o organismo reconhece a diferença entre o tratamento real e a substituição). Esse mesmo efeito pode funcionar em doenças menos graves e ser eficiente para dor, fadiga, náusea e similares, mas não será eficaz contra fraturas, infecções ou tumores. Novamente, sua aplicação combate sintomas de determinada doença e não a doença em si.
Um placebo poderoso?
Quando a homeopatia cura condições médicas sérias fala-se de um “poderoso efeito placebo”, mas existem muitas outras explicações diferentes que devem ser descartadas. A administração de um comprimido pode coincidir com a recuperação do paciente sem estar relacionada a esse fato, como em recuperações espontâneas ou sintomas flutuantes. Por exemplo, como a dor da artrite é intermitente (ela “vem e vai”) e as pessoas tendem a buscar tratamento quando os sintomas estão em seu pior efeito, qualquer medicamento administrado pode dar a impressão de melhora.
E a homeopatia veterinária?
Os homeopatas argumentam que a homeopatia funciona em animais, o que descartaria o efeito placebo inclusive em bebês. No entanto, esses testes dependem de observações humanas que, sem normatização ou veterinários independentes, pode sofrer um grande viés (muitas vezes não intencional). Os estudos que corrigem esse tipo de viés demonstram que a homeopatia não funciona.
O fato de um placebo fazer a pessoa se sentir melhor não justifica sua prescrição por um médico?
A ética obriga que a relação médico-paciente seja baseada em honestidade, respeito, sinceridade e confiança. A prescrição de um placebo exige que o médico minta ao paciente (do contrário o placebo não surtirá seu efeito), o que fere esses princípios. Ainda, como placebos combatem os sintomas de uma doença, e não a doença propriamente dita, deixar a condição médica real sem tratamento pode ter implicações severas para o paciente.
Um caso de fadiga pode ser remediado por um placebo, mas e se essa fadiga for um sintoma de depressão, de uma infecção viral, ou de algo pior?
Referências bibliográficas
Shang, A. et al. 2005 ‘Are the clinical effects of homeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homeopathy and allopathy’ Lancet, 366: 726-732.
Glaser, R. 2005 ‘Stress-associated immune dysregulation and its importance for human health: a personal history of psychoneuroimmunology’ Brain, Behavior and Immunity, 19: 3-11.
Lovallo, W.R. & W. Gerin 2003 ‘Psychophysiological reactivity: mechanisms and pathways to cardiovascular disease’ Psychosomatic Medicine, 65: 36-45.
Kienle, G.S. & H. Kiene 1997 ‘The powerful placebo effect: fact or fiction?’ Journal of Clinical Epidemiology, 50: 1311-1318.
Não sei de vocês, mas eu prefiro apostar as minhas fichas na Medicina Baseada em Evidências…
O texto acima é uma adaptação de um informe sobre homeopatia elaborado em 2006 pela organização Sense About Science, criada em 2002 com o objetivo de promover respeito por evidências científicas e boas práticas de ciência, aumentando a compreensão da população sobre o tema.
A tradução adaptada do informe Sense About Homeopathy (o original pode ser acessado pelo link) é parte do material de apoio e divulgação da campanha:

Mais informações sobre a ação em http://1023.haaan.com/
A ingenuidade de Bill Gates sobre a Biologia

Caro Bill Gates,
Sinto informar que células não são tão rápidas quanto elétrons. Mais que isso: burocracia para mexer com gente e com o ambiente não é tão simples quanto programar um software.
Digo isto em vista da reportagem do New York Times, repassado pela Época, sobre o balanço dos investimentos em pesquisa em saúde feitos pela fundação Gates.
“Cerca de 1.600 propostas chegaram, e as 43 principais eram tão promissoras que a Fundação Bill & Melinda Gates liberaram US$ 450 milhões em bolsas de cinco anos _ mais de duas vezes a estimativa inicial.
Recentemente, a fundação chamou todos os cientistas a Seattle para avaliar os resultados e decidir quem seguirá recebendo os financiamentos. Numa entrevista, Gates soou de certa forma moderado, dizendo diversas vezes: “Nós fomos ingênuos”.”
Mas na verdade não dá pra saber se ele foi ingênuo ou enganado pelo hype alardeado pelos projetos. Afinal o objetivo de escrever um projeto é justamente convencer a todo custo quem o lê. O famoso “puxar a sardinha pro seu lado”, coisa que as vezes (muitas vezes) os cientistas fazem exagerando nas expectativas e enviesando as perspectivas. Outra coisa é que tem vários ganhadores do Nobel participando, e convenhamos que receber um projeto de um cara desses e dizer “não” não deve ser fácil.
Fato é que ele parece não ter gostado do resultado. E muita gente, incluindo um comentarista da reportagem acima, os cientistas e o próprio Bill Gates acham que o dinheiro investido nessas pesquisas foi algo bem significativo! Quando na verdade o gasto é irrisório comparando com gastos militares por exemplo. Para entender meu ponto de vista você precisa ler este texto espetacular do 100 Nexos, onde se lê que antes do telescópio Hubble, o instrumento mais fantástico da astronomia por muito tempo, que ajudou a desvendar milhares de mistérios do espaço, do tempo passado e do futuro, é uma aplicação tardia de um projeto de satélites-espiões que somaram 9 em nossa órbita!
Ou seja, enquanto mendigamos por recursos para a astronomia e também para outras áreas como a saúde e o bem-estar humano, uma quantia gigantesca é gasta sem que nós sequer saibamos onde.
Obrigado Bill Gates, continue assim gastando parte da sua fortuna pelo bem do próximo (e olhem que eu não estou nem questionando o como essa fortuna foi adquirida), mas acho que mesmo este esforço é uma gota num oceano de descaso pela vida humana.
Podcast Dispersando 5: Nobel, Ig Nobel e tudo que há no meio
Saiu mais um episódio do Dispersando, o podcast do Scienceblogs Brasil, com Fernanda Poletto (Bala Mágica), Igor Santos (42.) Karl (Ecce Medicus) e Rafael Soares (este que vos escreve).
Aprenda sobre sapos flutuantes, coletores de espirro de baleia, e um excitante acoplamento cruzado.
Dispersando 5
Como melhorar, na prática, a qualidade da pesquisa no Brasil
Como melhorar o nível da pesquisa brasileira?
Primeiro vamos comparar a nossa pesquisa com a de outros países para ver se realmente estamos tão mal assim. E estamos.
Usando o exemplo dos laboratórios de pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) que trabalham com câncer, apesar dos trabalhos publicados terem subido de 4 para 100 por ano nos últimos 20 anos, a qualidade ainda deixa a desejar. Qualidade para o pesquisador básico é a qualidade da revista onde foi publicado o trabalho, onde Nature e Science são os sonhos de consumo, mas há diversas outras com diferentes impactos.
Comparando com a Espanha, que investe o mesmo montante em pesquisa básica, estamos 20% abaixo em qualidade e 40% abaixo da média mundial. Como melhorar?
Uma idéia apresentada em uma palestra na FMUSP sobre o Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP) vem justamente tentar melhorar a qualidade da pesquisa em câncer, pelo menos na FMUSP.
Existem entre 30 e 35 grupos nos laboratórios de investigação médica (LIM), com linhas de pesquisas e objetivos diferentes dentro da FMUSP. Aumentar a interação destes labs para alguns objetivos comuns ou mesmo orientá-los para focos que a sociedade tenha urgência, pode gerar trabalhos mais amplos, completos e de maior qualidade (= maior impacto). Este é o objetivo do setor de pesquisa básica do ICESP, que ainda levará um tempo para estar funcionando, mas terá técnicos e aparelhos para servir à demanda destes labs, oferecendo serviços e colocando os diferentes grupos em maior contato.

No esquema acima, a base da pirâmide mostra os diferentes grupos com suas diferentes orientações e objetivos.
Ao utilizarem o ICESP, podem reconhecer as características e se agruparem por semelhança de estilo. Facilitando assim o pedido de financiamento para projetos maiores e amplos, ou mesmo se tornando um foco para secretarias estaduais e ministérios (como os de Saúde ou Ciência e Tecnologia) poderem propor problemas de saúde pública e inovação de interesse do estado.
Parece legal, mas aumentar interação entre grupos é complicado. Cientista é um bicho tinhoso, cheio de manias, e só ter um setor multi-usuário não resolve tudo. O importante é que tenha simpósios, palestras e, minha teoria, FESTAS!!! Só assim pras pessoas interagirem e se conhecerem.
Esperemos que dê certo.
Dioxina: alguns esclarecimentos.
Para não ter dúvida: dioxinas são tóxicas? Sim.
Afetam o desenvolvimento embrionário? Sim.
São produzidas quando aquecemos plásticos em microondas ou quando congelamos água em garrafas plásticas? Depende.
A utilização de plásticos próprios para aquecimento em microondas evita a formação desses compostos químicos, enquanto o congelamento de água nada tem a ver com a liberação de quaisquer substâncias tóxicas de recipientes plásticos.
Do começo: o que são as dioxinas?
A dioxina na verdade é um composto orgânico de fórmula C4H4O2 que possui dois isômeros: 1,2-dioxina (ou o-dioxina) e a 1,4-dioxina
(ou p-dioxina, na imagem à direita). No entanto, a literatura científica utiliza o termo “dioxina” para se referir de
forma simplificada às dibenzodioxinas policloradas (PCDDs, imagem abaixo) como a
2,3,7,8-tetraclorodibenzodioxina (TCDD), a substância mais estudada por
seus efeitos tóxicos.
Parte dos problemas causados pela TCDD vem da sua interação com um receptor chamado AhR. O receptor afetado é translocado para o núcleo, onde é reconhecido por elementos chamados AhREs (por serem responsivos ao AhR) em vários genes diferentes. Essa atividade inicia diversas alterações transcricionais, de modo que os resultados das pesquisas envolvendo o AhR expandiram sua importância em múltiplos aspectos como o desenvolvimento embrionário, reprodução, imunidade inata e supressão tumoral.
Quem sentir falta de informações sobre os mecanismos, as duas referências que citei no final deste texto trazem revisões excelentes e atualíssimas sobre o tema, apesar de a química ser um pouco pesada.
Um caso famoso e recente.
Victor Yushchenko, candidato a
presidência da Ucrânia em 2004 ficou seriamente doente durante a corrida
presidencial no começo de Setembro. No diagnóstico, pancreatite aguda e
edemas relacionados a uma infecção viral e compostos químicos que não
são normalmente encontrados nos alimentos levaram o presidenciável a
afirmar que havia sido envenedado.
Yushchenko então reapareceu com o rosto
completamente desfigurado (foto abaixo) devido a cloracne ocasionada por
envenenamento por dioxina. A concentração de dioxina no sangue do
candidato encontrava-se 6000 vezes acima do normal. Apesar de polêmico, esse diagnóstico foi o mais aceito até então, e a premissa de envenenamento foi mantida.
E o microondas?
Existem várias mensagens na internet contra congelar água em garrafas de plástico ou cozinhar com plásticos no microondas. O caso da famosa mensagem que usa o Johns Hopkins como fonte de credulidade já foi desmentido pela instituição mais de uma vez.
As pesquisas atuais apontam que o congelamento de água não ocasiona a liberação de compostos químicos tóxicos de garrafas de plástico. No entanto, ao utilizar plásticos para cozimento no microondas é melhor seguir as recomendações do fabricante e certificar-se de que o recipiente plástico é próprio para este uso.
De qualquer modo, abaixo estão os símbolos que designam recipientes próprios para microondas e congelamento.

O departamento americano responsável pela segurança alimentar (FSIS) possui diretrizes eficazes para o cozimento de alimentos em microondas, mas como não encontrei nada parecido no Brasil, volto a recomendar: ao aquecer alimentos no microondas, utilize recipientes de vidro ou cerâmica apropriados.
Wells PG, Lee CJ, McCallum GP, Perstin J, & Harper PA (2010). Receptor- and reactive intermediate-mediated mechanisms of teratogenesis. Handbook of experimental pharmacology (196), 131-62 PMID: 20020262
FUJII-KURIYAMA, Y., & KAWAJIRI, K. (2010). Molecular mechanisms of the physiological functions of the aryl hydrocarbon (dioxin) receptor, a multifunctional regulator that senses and responds to environmental stimuli Proceedings of the Japan Academy, Series B, 86 (1), 40-53 DOI: 10.2183/pjab.86.40





Rafael Soares - Biólogo formado pela UNESP - Rio Claro e doutor pela Biotecnologia da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na área de neurociência comportamental e molecular.

