A Ciência se Baseia na Fé?

Muitas críticas direcionadas à ciência costumam compará-la às religiões. Tais críticas giram em torno da idéia de que, assim como na religião, é necessário que os cientistas tenham fé na ciência para que ela funcione; que a ciência é muito mais parecida com as religiões do que os cientistas gostariam de admitir e que a ciência construiu seus próprios dogmas inabaláveis, inquestionáveis e rígidos. Será que estas críticas fazem sentido?

Se alguém está honestamente disposto a defender tal posição, é importante se atentar para o que cada um delas, ciência e religião, tem como fundamentos básicos: a dúvida e a , respectivamente.

A ciência só obtém suas respostas aos problemas que investiga, temporariamente adequadas a princípio, através da dúvida, do questionamento, do teste, das evidências e da discussão. A religião já possui as suas respostas, verdadeiras por princípio, desde que ela passou a existir, através de algum livro sagrado, de autoridades religiosas e da repressão de questionamentos das suas alegações.

Comparações são úteis e muitas vezes nos ajudam a entender melhor coisas complicadas, mas é comum que se façam comparações inadequadas, baseadas em aspectos superficiais das duas coisas que estão sendo comparadas e  desprezando os significados comuns dos conceitos em favor dos significados advindos da reflexão intuitiva e da construção particular e conveniente de significado das palavras. A palavra fé tem um significado ratificado na nossa língua que se relaciona diretamente ao seu contexto sócio-histórico, e isso tem uma série de implicações para qualquer argumentação que tente colocar fé nas ações de um cientista. De acordo com o dicionário online Michaelis, fé significa:


sf (lat fide) 1 Crença, crédito; convicção da existência de algum fato ou da veracidade de alguma asserção. 2 Crença nas doutrinas da religião cristã. 3 A primeira das três virtudes teologais. 4 Fidelidade a compromissos e promessas; confiança: Homem de fé. 5 Confirmação, prova.

Quanto ao primeiro significado, tanto cientistas quanto pessoas religiosas tem crenças, assim como qualquer pessoa no mundo, sendo que a palavra “crença” não é a mesma coisa que a palavra “fé”. Mas as duas outras definições seguintes de fé demonstram o caráter histórico que essa palavra tem com a religião em si, e elas não deviam ser ignoradas pois transmitem muito do contexto onde essa palavra deveria ser usada. Além do mais, não é por acaso que a palavra fé é tão usada no contexto de religiões cristãs – esse é o seu “lar original”, usando a expressão de Wittgenstein.

A palavra fé tem um longo histórico de relacionamento direto com as três grandes religiões monoteístas e isso já poderia ser usado para argumentar que o uso do termo “fé” é, no mínimo, inadequado, pois o contexto em que se usa esse termo é outro e as “crenças nas doutrinas da religião cristã” obviamente não subsidiam a produção de conhecimento científico.

A fé é entendida pela maioria das religiões como a virtude mais importante que uma pessoa pode ter e um dos pilares mais fundamentais de sustenção da própria religião. Não é a toa que o pecado mais abominável descrito nos livros sagrados das grandes religiões monoteístas é o de duvidar, sendo um dos poucos pecados imperdoáveis (exemplos na Bíblia – Mc 3.4, 28-30; Lc 12, 8-10; e no Alcorão – 73:17; 9:80; 4:114; 9:122).

A dúvida das palavras sagradas deve ser punida com a morte, a perseguição e com o sofrimento eterno de acordo com as doutrinas encontradas nesses livros. As várias pessoas que escreveram esses livros sagrados provavelmente entenderam que precisavam assustar ao máximo as pessoas e se prevenir do pensamento crítico, pois ele poderia ser muito prejudicial à fé das pessoas se elas começassem a se questionar sobre as injustiças que observavam no mundo.

A religião cristã enfatiza a sua admiração pela fé e o desprezo pela dúvida e pelo ceticismo na famosa passagem bíblica,  Jo 20, 25-29:

Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.

E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.

Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.

E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!

Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.

Quanto aos dogmas, temos mais um problema em comparar a ciência com a religião. Um dogma, entendido como uma asserção indiscutível e pressuposta por um grupo de pessoas, não deve ser confundido com um “fato científico”. Apesar da ciência não pressupor certezas inquestionáveis, é errado pensar que a ciência nunca vai chegar a um lugar para suas questões. A dúvida razoável existe para qualquer afirmação feita na comunidade científica, diferente do que ocorre nas religiões, mas em algum ponto as evidências nos deram a condição de falar em “fatos” ou modelos corroborados por tantas evidências que é pouco razoável desacreditar deles.

Nós hoje sabemos, por exemplo, que a terra não é plana, que a terra gravita ao redor do sol, que o sol é muito maior que a terra, que todas as formas de vida na terra resultaram de um processo evolutivo e que a terra está aquecendo em um ritmo não natural. Chamamos esses conhecimentos de fatos porque o mundo é muito parecido com como ele deveria ser se todas essas coisas fossem verdades, sendo o mais sensato valorizarmos essas idéias.

Esses porém se diferenciam de dogmas, porque não foram estabelecidos como verdades inquestionáveis antes dos testes e são questionáveis desde que sejam apresentadas evidências tão extraordinárias quanto às que apoiam esses fatos (o que dificilmente trazem os que criticam esses fatos).

Recentemente uma matéria foi publicada no jornal britânico The Guardian, comentando sobre as repostas dadas por cientistas e intelectuais a uma pergunta da revista eletrônica Edge: Qual conceito científico melhoraria o kit de ferramentas cognitivas das pessoas? A resposta de muitos deles é que precisamos aprender a amar a incerteza e o insucesso.

Como é possível afirmar que a ciência se baseia na dúvida e na fé ao mesmo tempo? A dúvida é uma ameaça à fé e uma das maiores aliadas da ciência; já a fé é uma ameaça à dúvida, e uma das maiores aliadas da religião. Ciência e religião são fundamentalmente diferentes pois se baseiam em dois conceitos opostos: a certeza da fé, no caso da religião, e a incerteza da dúvida, no caso da ciência.

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Discussão - 2 comentários

  1. Pedro disse:

    Bom texto e tema interessante. A diferença de princípios entre religião e ciência ficou bastante clara e bem argumentada.
    O problema, ao meu ver, é que algumas críticas que aproximam religião e ciência não questionam esta diferença de princípio, nem alegam que a ciência em si se baseie na fé; a crítica é antes voltada a uma suposta fé que a ciência atribui ao seu próprio método, o método científico. Não diz respeito, portanto, a uma fé da ciência nos “fatos científicos”, mas sim no próprio meio de se chegar a estes fatos. Convenhamos que esta crítica faz mais sentido, já que o princípio da dúvida não parece ser aplicado no método tal como ele o é nos resultados…
    Hugs

  2. André Rabelo disse:

    @Pedro
    Valeu pelo comentário mano!

    Estas são outras críticas que também já ouvi, diferentes das que eu enfoquei no texto. Mas acredito que o mesmo que eu disse sobre a suposta “fé nos fatos” se aplica para uma “fé no método”. Fé é uma convicção tão forte que dipensa evidências (“bem-aventurados os que não viram e creram”).

    Da forma como entendo, o crédito que os cientistas dão ao seu método está muito longe de ser uma convicção que dispensa evidências, por outro lado, o seu uso tem como principal justificativa as suas evidências. Nem sequer temos “um” método científico que tenha sido rigidamente definido com sucesso e usado por todos cientistas para que pudessemos pensar que ele seja exageradamente e acriticamente seguido. O que existem são noções gerais e básicas do que não pode faltar em um estudo científico, seja qual for o objeto.

    O princípio da dúvida precisa de um limite, o que chamamos vagamente de “dúvida razoável”. Se testamos o método científico repetidamente, com diferentes objetos de estudo, ao longo de vários séculos, de forma independente por várias pessoas que nem se conheciam e ele se provou de grande utilidade, porque devemos parar de usá-lo?

    Grande parte dos maiores cientistas do nosso tempo demonstraram uma plena consciência das limitações do método científico. O simples fato deles reconhecerem que o método tem muitas falhas torna o uso da palavra “fé” estranho para mim.

    Penso que o método seja usado hoje em dia porque funcionou bem para estudar as coisas, não porque foi estabelecido como verdade a priori e continuou sendo usado sem críticas, o que ai sim nos permitiria falar em uma certa “fé” no método.

    O que acha?

    um abraço,
    André

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